loading

_peças /

Os Músicos / Patrick Marber

Os Músicos

Patrick Marber

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do

Projeto Conexões Teatro Jovem

e fez parte do seu portfólio no ano de 2016.

Qualquer montagem fora do Projeto deverá  ser

negociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos autorais.

 

Contato Patrick Marber:licensing@judydaish.com

Personagens

Personagens:

ALEX

ROLAND

2ª FLAUTA

VIOLONCELO

2º TROMPETE

1º VIOLINO

VIOLA

CONTRABAIXO

2º TROMPA

1º TROMPA

TIMPANOS

OBOÉ

CLARINETE

1º TROMPETE

FAGOTE

1º FLAUTA

Exceto quando for óbvio, os músicos podem ser homens ou mulheres.

Uma companhia com muitos atores pode encenar a peça com um número maior de papéis com falas, por exemplo, judiciosamente atribuindo algumas das falas do Violino para um novo personagem chamado '2º violino', etc. etc.

Como alternativa, a companhia pode manter os papéis como escritos no original e montar uma orquestra maior com alguns músicos sem falas. Eles ainda terão muito a fazer em cena.

Cena 1

Cena 1

O palco de uma sala de concertos em algum lugar de Moscou.

Cadeiras organizadas para uma orquestra.

Um jovem de macacão, ALEX, anda sem rumo das coxias carregando uma vassoura e uma pá de lixo.

Caminha sem pressa até o centro do palco e olha para a plateia.

Repentinamente, ergue a vassoura como se fosse uma guitarra.

ALEX (em russo) Boa noite, Moscou!

Ele faz o som de duas mil pessoas aplaudindo – eles gritam e bradam. Ele agradece modestamente.

Canta sozinho enquanto trabalha. Ele é russo, mas canta em inglês com sotaque.

Está ouvindo Pinball Wizard, do The Who.

Ele conhece bem a música e começa e cantarolar o solo de guitarra da introdução. Quando os grandes acordes começam, imita os giros “moinho de vento” ao estilo Pete Townshend.

Quando entram os vocais, a vassoura se torna seu microfone.

ALEX (cantando trechos da música Pinball Wizard)

Solo de guitarra. Ele faz mímica com a vassoura. Quando volta o vocal, ele se transforma no Pinball Wizard (O Mago do Fliperama) sobre a sua máquina de Fliperama.

ALEX (cantando)

ROLAND (17) aparece nas coxias. Ele é intenso, dedicado, mas não desprovido de humor. Observa ALEX, um pouco constrangido de estar testemunhando esta curiosa exibição de insanidade.

ALEX (cantando)

ALEX está pirando. Um concerto de um homem só completo com lasers imaginários e gelo seco. ROLAND tosse, mas ALEX não ouve.

ALEX (cantando)

ROLAND anda até o palco para que ALEX o veja.

ALEX Ei! Foi mal. E aí? Tudo bom?

ALEX desliga o walkman. ROLAND acena com a cabeça e pousa cuidadosamente seu pequeno estojo de coro preto na mesa.

ALEX ‘Pinball Wizard”, the Who!

ROLAND faz o sinal de positivo com o polegar e supervisiona o palco e a plateia.

ALEX Você gosta do The Who?

ROLAND pensa qual seria a melhor forma de não esticar a conversa.

ROLAND Não tenho opinião a respeito.

ALEX Tudo bem. Captei. Calar boca.

ALEX continua varrendo, mas, curioso, observa ROLAND.

ALEX (cont.) Você está em algum grupo?

ROLAND está perdido em seus pensamentos.

ALEX Ei, inglês! Você faz música?

ROLAND Quê?

ALEX Fala inglês?

ROLAND Às vezes

ALEX Toca música? Lá lá lá.

ROLAND Toco sim.

ALEX Eu gosto de música. Alex.

ROLAND Roland.

Apertam as mãos.

ALEX Você em orquestra, não? Do Reino Unido.

ROLAND Correto.

ALEX Como vai a rainha?

ROLAND Estava bem na última vez que falei com ela.

ALEX É piada?

(ROLAND confirma com a cabeça)

Piada inglesa. Conheço bem humor inglês. É muito ho ho ho.

ALEX indica o pequeno estojo de couro de ROLAND.

ALEX Que instrumento tem na caixa? Não conta. Deixa adivinhar.

ALEX vai até o estojo e o inspeciona.

ALEX (cont.) Você tem contrabaixo.

(pausa)

Essa foi piada russa.

ROLAND E que piada excelente.

ALEX Eu toco guitarra.

Demonstra rapidamente com a vassoura.

ALEX (melancólico) Na verdade não tenho guitarra, mas dá para fazer de conta.

ROLAND olha para ele com solidariedade.

ALEX Gosto da música inglesa: mais o The Who, depois Os Beatles, Stones, Pistols, David Bowie, The Smiths, Oasis, Coldplay, Radiohead.

ROLAND Desculpe interromper, mas a lista é muito longa? Tenho o dia todo, sabe? Por que não puxo uma cadeira e você me canta todas as músicas que já ouviu na vida?

ALEX Tá zoando?

ROLAND Só um pouquinho.

ALEX Humor inglês. Zoando, certo?

ROLAND É nosso esporte nacional. Peço desculpas.

ALEX olha para o estojo mais uma vez.

ALEX Então você toca ...?

Faz o gesto de tocar flauta.

ROLAND Flauta?

(ALEX afirma com a cabeça)

Não.

ALEX O que você toca?

ROLAND Hoje não vou tocar nada.

ALEX Você cantor? Eu canto.

ROLAND vai até o estojo. Abre as presilhas e tira uma batuta de regente.

ALEX (cont.) Você tem vareta?

ROLAND Sou o regente!

ALEX Eu sei, claro! Quem você rege? Alguém famoso?

ROLAND A Orquestra da Escola Ridley Road.

ALEX esconde a decepção.

ALEX Você é chefe?

ROLAND Mais ou menos.

ALEX Mais ou menos o quê?

ROLAND Geralmente toco violoncelo, mas nos últimos tempos tenho regido alguns ensaios. Sempre quis ser regente. O professor de música me deu esta oportunidade incrível. Se der tudo certo, quem sabe...

ALEX Esta é sua grande chance?

ROLAND É.

ALEX Grande chance, mas dá medo. Acorda no meio da noite suando e gritando de medo?

ROLAND Algo assim.

ALEX A escola é onde?

ROLAND Croydon (trocar pelo nome do bairro de onde for a companhia encenando a peça)

ALEX Conheço Wolverhampton. Conhece? Morei em Wolverhampton seis semanas. Intercâmbio. Fiquei com família Henderson.

ROLAND Não vai me perguntar se conheço os caras.

ALEX Você conhece os Hendersons?

ROLAND Não.

ALEX Ken e Valéria Henderson. Eles têm uma filha. Donna. Ela adora o Rio Ferdinand. O jogador de futebol, tá ligado? Ela diz que ele tem corpaço. Alto e magro.

ROLAND Você já acabou de limpar? Já varreu tudo? Não quero ser grosso, mas preciso me preparar.

ALEX Tá legal. Vou vazar.

ROLAND O palco está perfeito.

ALEX Varri o dia todo para você.

ROLAND Obrigado.

ALEX começa a sair.

ROLAND A propósito, onde estão todos? Os técnicos, o pessoal do som, as luzes?

ALEX Todos hora do intervalo.

ROLAND Intervalo do café?

ALEX Vodca. Demora mais.

ROLAND (preocupado) Eles voltam para o concerto de hoje?

Pausa

ALEX Concerto? Achei que era só ensaio.

ROLAND começa a entrar em pânico.

ROLAND Vamos dar um concerto hoje à noite, bem aqui!

ALEX Aqui? Ninguém disse nada.

ROLAND É para convidados. Altos dignitários e luminares da cultura.

ALEX Hã?

ROLAND ‘O Festival Europeu da Juventude’ – tem pôster na cidade inteira.

ALEX Não olho pôster.

ROLAND Estamos representando nosso país. É muito importante.

ALEX Ninguém fala de concerto nenhum. Você fez erro?

ROLAND limpa a testa, suando de ansiedade.

ROLAND Não! Olha aqui. Olha o folheto. É hoje!

ALEX (lendo) Meu Deus! Hoje?!

ROLAND Sim! Hoje!

ALEX Mas hoje é impossível!

ROLAND É uma catástrofe!

ALEX começa a rir.

ALEX Tô bagunçando! Zoando. Brincadeira. Eles volta meia hora.

ROLAND (aliviado, mas bravo) Conhece a palavra ‘escroto’?

ALEX E você, conhece a palavra ‘cú de palha’?

ROLAND São três palavras.

ALEX É, mas só tem um ‘cú de palha’ aqui.

ROLAND dá de ombros, reconhecendo que é verdade.

ALEX E aí, vocês praticam música agora?

ROLAND Quando os músicos chegarem, vamos ensaiar sim.

ALEX Eu fico assistir? Por favor?

ROLAND olha cauteloso.

ALEX Por favor. Eu calado. Nunca viu orquestra antes.

ROLAND Nunca?

ALEX Só na TV. Nunca vivo.

ROLAND Ao vivo.

ALEX Vivo, ao vivo, mesma coisa?

ROLAND Não é bem a mesma coisa. Agora, por favor, chega de conversa.

ALEX Posso ver orquestra?

ROLAND Se você quiser muito, sim – mas você precisa ficar em silêncio. Precisamos desesperadamente deste tempo de prática.

ALEX (confidencialmente) Orquestra porcaria? Precisa de prática?

ROLAND Todas as orquestras precisam de prática - ensaio. Agora, por favor!

ALEX Zipe!

Faz o gesto de fechar a boca com um zíper.

ALEX (cont.) Também zipo outro buraco de falar.

Faz o gesto de fechar o traseiro com zíper. Pega uma cadeira e vai se sentar perto das coxias com sua vassoura e pá.

ROLAND se posiciona no centro do palco e ensaia com a batuta. Em silêncio, ele repassa a introdução da música.

ALEX assiste, fascinado, vendo ROLAND entrar em comunhão com a música. Finalmente:

ALEX O que significa Pinball Wizard?

ROLAND Não sei.

ALEX Ele é um mago que gosta de jogar Fliperama? Ou ele é tão bom de Fliperama que as pessoas chamam ele de mago?

ROLAND A última – a segunda opção. Agora, por favor.

Começa a reger novamente. Quando está entrando no espírito da coisa:

ALEX Onde Brighton?

ROLAND (furioso) No litoral sul da Inglaterra!

Começa a reger de novo, mas ALEX não consegue se segurar.

ALEX Última pergunta: como por favor é Brighton?

ROLAND Tem praia! Executivos de meia idade deprimentes e com a cabeça cheia de caspas levam suas secretárias igualmente deprimentes e menopáusicas para um sórdido fim de semana lá.

ALEX Hã?

ROLAND Vão lá para trepar!

ALEX Mas não o Pinball Wizard. Ele vai lá só pra jogar Fliperama?

ROLAND É o que dizem.

ALEX E tem um Amusement Hall em Brighton, como fala na música?

ROLAND Acredito que haja muitos parques de diversões em Brighton.

ALEX Eu quero ir pra Brighton. Trepar, jogar Fliperama, conhecer o mago. Trepar com mago, quem sabe?

ROLAND Que seu desejo se torne realidade. Agora preciso mesmo trabalhar.

ALEX Mas qual sentido da música?

ROLAND SEI LÁ! É só uma porcaria de uma música. Não SIGNIFICA NADA! Não tem nenhum Pinball Wizard, ele não existe. É como a Fada do Dente ou o Papai Noel.

ALEX (muito sério) Tem Pinball Wizard sim! Ele existe!

ROLAND NÃO TEM NÃO. ELE NÃO EXISTE!

ALEX EXISTE SIM!

ROLAND EXISTE NADA!

ALEX EXISTE SIM. PARA MIM TEM SIM UM PINBALL WIZARD!

ROLAND ELE NÃO EXISTE!

ALEX EU ACREDITO NELE!

ROLAND QUE BOM PARA VOCÊ – SEU MOSCOVITA BURRO DE MERDA!

ALEX OK, OK. Não precisa ficar brabo brabo. O mundo todo odeia os ingleses. Já entendi por quê.

ROLAND suspira, franze o cenho.

ROLAND Deus me ajude! Mil desculpas, hã... Alex. Você me perdoa? Se você quer mesmo saber o significado de Pinball Wizard, na minha opinião, é assim: a música é metafórica – simbólica, entende?

(ALEX afirma com a cabeça)

O Pinball Wizard é cego, surdo e mudo. Por isso, é completamente inadequado para o ofício que escolheu para si, ou seja, o Fliperama. E ainda assim, (contra todas as expectativas e apesar dos obstáculos mais intransponíveis) ele tem tanto sucesso, que é nomeado o ‘Mago do Fliperama’. A música é um testamento do clichê enfadonho, mas sedutor: ‘o triunfo do espírito humano na adversidade’. Agora dá para você por favor CALAR A BOCA?!

ALEX absorve a informação satisfeito.

ALEX Valeu.

ROLAND continua a passar a música enquanto ALEX varre as coxias vagamente.

Passa um tempo e TRINTA MÚSICOS (mais é preferível; menos é aceitável) aproximam-se das coxias. Barulho de vozes e ruídos de todos os lados.

ROLAND parece tomado de pânico à media que o som se intensifica. Ele corre para a segurança do seu atril (estante para as partituras).

De repente, os MÚSICOS entram, mas ficam imediatamente em silêncio por cinco segundos enquanto se acostumam ao seu novo ambiente.

Em seguida começam a falar e gritar, de bom humor. Alguns cumprimentam ROLAND, mas a maioria está preocupada demais para percebê-lo.

Estão usando casacos de inverno e batem os pés para tirar a neve dos sapatos. Lá fora está muito frio.

(Diálogos de entrada a serem improvisados. Leva no máximo vinte segundos.)

ROLAND grita por cima da balbúrdia.

ROLAND Membros da orquestra, bem-vindos!

Bem-vindos! Rapidamente, por favor! Por favor, tomem seus lugares.

Os MÚSICOS se sentam. Cada um deles sabe exatamente qual é o seu lugar.

Enquanto isso, a 2ª FLAUTA – uma jovem dedicada – entra tropeçando trazendo a partitura de ROLAND – um livro grande e pesado. Ela o coloca sobre a estante à sua frente.

Em seguida, ela paira em volta dele pronta.

2ª FLAUTA Mais alguma coisa, maestro?

ROLAND lhe dá sua batuta, que ela limpa com um pano especial. O violoncelista a observa:

VIOLONCELO Que pessoa bizarra!

2ª FLAUTA (ao violoncelo) Que cara idiota!

Vai se sentar com os outros flautistas.

Os MÚSICOS estão todos sentados de frente para ROLAND. Ele bate a batuta e após alguns instantes eles param de conversar.

ROLAND Tudo bem, pessoal?

Murmúrios de consentimento até o 2º TROMPETE se levantar:

2º TROMPETE ‘Tamos todos maravilhosos. Só falta uma coisinha: onde estão os instrumentos?!

ROLAND Ah sim, parece que houve uma pequena confusão no aeroporto. O Sr. Carmichael está pegando os instrumentos com uma van neste exato momento.

1º VIOLINO Que confusão?

ROLAND Algum problema com os carregadores. Não precisam entrar em pânico.

VIOLONCELO Quem está em pânico?

ROLAND Não entendi.

VIOLONCELO Você disse ‘Não precisam entrar em pânico’, querendo dizer que estávamos em pânico. Quem está em pânico? Não estou vendo ninguém em pânico.

ROLAND Peço desculpas. Foi uma forma de expressão.

VIOLA (ao violoncelo) Para de encher o saco, imbecil.

Murmúrios de afirmação vêm dos outros violistas.

VIOLA Foi puro mimimi o voo inteiro, de Gatwick até Moscou.

VIOLONCELO Só estou esclarecendo um ponto.

VIOLA Seu ponto não faz nenhum sentido.

ROLAND Tudo bem. Não foi nada. Então, estão felizes com seus quartos?

CONTRABAIXO Meu chuveiro não funciona.

2º TROMPA E daí? O cara nunca tomou um banho na vida.

1º TROMPETE Sabonete ele só vê na televisão.

CONTRABAIXO Vai à merda!

1ª TROMPA Vamos te dar um banho de perfume da cabeça aos pés.

TIMPANOS E aqui em baixo também. Fede feito um chiqueiro.

ROLAND Membros da orquestra! Será que podemos nos comportar como o grupo de artistas que somos?

Bem, enquanto esperamos, achei que poderíamos usar este tempo para discutir a Quarta Sinfonia de Tchaikovsky.

Murmúrios de desacordo e bocejos de mentira emergem da seção dos metais.

ROLAND (cont.) Imaginem a cena. É fevereiro de 1878, a primeira apresentação da quarta sinfonia bem aqui em Moscou – não aqui literalmente, embora seja perfeitamente possível que Tchaikovsky tenha pisado neste palco. Ele pode até mesmo ter regido aqui onde estou agora.

ROLAND não consegue falar. Ele olha fixamente para o chão, impressionado pela enormidade da ideia. Após uma pausa, começa a conversa:

OBOÉ Minha televisão não tá funcionando.

VIOLONCELO E qual o problema? Não tem nada para ver mesmo. É tudo em russo.

VIOLA Tá vendo? O cara só sabe reclamar, sempre de mimimi.

CLARINETE Uma coisa que eu não consigo entender é Tchecov. Na peça ‘As Três Irmãs’ elas ficam o tempo todo, ‘ai se a gente conseguisse ir para Moscou...’ Fazer o que em Moscou, mano?

Murmúrios de afirmação.

1º TROMPETE No café da manhã, eles serviram um pão preto. Não é que eles queimaram a torrada. Era pão preto mesmo. Que merda é essa?

Sons barulhentos de concordância.

OBOÉ Você sai na rua, faz tanto frio que a sua respiração vira neve. É tipo assim, mal ela saiu da boca e já fica sólida.

FAGOTE A neve não é sólida.

OBOÉ É o que então? É líquida? Gasosa? Não, meu irmão. Só pode ser sólida. Não existe outro estado da matéria, a menos que você tenha inventado um, Einstein.

FAGOTE Para a sua informação, a neve é líquida.

TIMPANOS Só se for quando você mija nela.

ROLAND Como eu ia dizendo, é 1878. Tchaikovsky está desesperado: seu casamento é um desastre, ele tentou o suicídio... E tem mais uma coisa: ele nem vai à própria estreia. Compôs esta obra prima magnífica e está amargurado demais para ouvi-la...

Mais uma vez ROLAND não consegue continuar. Está emocionado demais para falar.

2ª TROMPA Alguém viu as gurias no hotel ontem à noite? Aposto que eram putas.

VIOLA Elas falaram com você?

2ª TROMPA (com orgulho) Claro que sim!

VIOLA Deviam ser mesmo.

2º TROMPETE Quanto será que elas cobram?

1ª FLAUTA Para você – no mínimo um bilhão de rublos.

TIMPANOS O que dá isso? 10 centavos?

ROLAND Membros da orquestra! Preciso insistir...

1ª FLAUTA Vocês viram os caras com aqueles bigodões?

VIOLA Eu vi. E os carros com assento de couro. Aposto que são da Máfia!

1ª FLAUTA Eu que não recusava um milésimo da grana desses caras.

VIOLA Fala sério! Você podia acabar dono de um time de futebol.

1ª FLAUTA Nada disso. Eu faria os caras me comprarem um castelo como o do Doutor Jivago.

FAGOTE Do que você tá falando? O cara morava em uma cabana no meio do nada.

FLAUTA Só no fim do filme. No começo não, antes da revolução.

ROLAND Será que poderíamos...

TROMPETE Alguém viu aquele mendigo?

1ª TROMPA Qual? Aquele apagado na calçada?

1º TROMPETE Viram que a meleca e a baba dele tinham congelado? Era só dar um peteleco e a cabeça dele iria explodir em mil pedaços. Trágico.

2º TROMPETE Quando que as merdas dos instrumentos vão chegar?

CLARINETE Cadê o meu clarinete?

1º VIOLINO Onde está o meu violino?

VIOLONCELO Quero o meu violoncelo!

FAGOTE Cadê meu fagote?

2º TROMPETE Quem pegou o meu trompete?

1ª TROMPA Quero a minha trompa!

De repente toda a orquestra fica de pé e exige seus instrumentos. Como uma fera de muitas cabeças. Pandemônio.

ROLAND LOGO!LOGO!LOGO! Os instrumentos vão chegar logo, por favor tenham paciência!

(pausa)

Agora, por favor, podemos discutir a peça que vamos tocar hoje à noite.

1º VIOLINO Pra quê? De qualquer jeito, a gente vai assassinar a música.

ROLAND O que você disse?

1º VIOLINO Você ouviu.

ROLAND Bem, se vocês estão pensando em adotar esse tipo de atitude, provavelmente vamos acabar assassinando a música mesmo. Que tal sermos um pouco mais positivos?

1º VIOLINO Positivos? A gente passa tanto tempo brigando e reclamando e, sinceramente, ouvindo as porcarias mais absurdas de ‘certas pessoas’, que nunca temos tempo suficiente para ensaiar. Precisamos praticar praticar praticar.

Algumas vaias sarcásticas das ‘certas pessoas’.

ROLAND Na verdade, ele tem toda razão. Posso pedir a todos – apenas por hoje – que coloquem de lado seus melindres e questões pessoais e que se concentrem exclusivamente na música? Só desta vez?

CLARINETE Pelo amor de Deus, como foi que a gente conseguiu este contrato? Somos uma verdadeira zona.

OBOÉ É óbvio. Alguém deve ter cancelado.

2ª TROMPA E o Carmichael nos encaixou.

1º TROMPETE Aposto que ele tá levando propina.

2º TROMPETE E que afanou os instrumentos.

1ª TROMPA Deve estar penhorando tudo lá em Vladivostock!

A seção de metais começa a cantar, primeiro baixinho e depois vai ficando mais alto à medida que os outros começam a entrar.

SEÇÃO DE METAIS

Somos uma merda e ninguém pode negar.

Somos uma merda e ninguém pode negar.

SEÇÃO DE MADEIRAS

Somos uma merda e ninguém pode negar.

CORDAS

Somos uma merda e ninguém pode negar.

Agora a orquestra toda está cantando a todo volume, todos apontando em uníssono ao acossado, acuado ROLAND.

TODOS

Somos uma merda e ninguém pode negar.

Somos uma merda e ninguém pode negar.

2ª FLAUTA dá um pulo e grita com frustração:

2ª FLAUTA PAREM COM ISSO! PAREM COM ISSO AGORA!

A cantoria vai diminuindo. 2ª FLAUTA fala apaixonadamente:

2ª FLAUTA Vocês são insuportáveis mesmo! Como podem ser assim tão grosseiros, maldosos e injustos? Vocês podem estar aqui só para encher a cara com o dinheiro dos impostos, mas Roland está aqui porque ele vive para a música! Esta pode ser a maior noite da vida dele! Por que não lhe dão uma chance? Por que não se comportam como seres humanos em vez de – animais mimados! Tem gente na Rússia que morreria pelos privilégios que temos, eles sonham em tocar em uma orquestra com instrumentos bons. Vocês não merecem o Roland; ele é bom demais para um bando de encardidos como vocês!

Silêncio mortal. A 2ª FLAUTA se senta. ROLAND coloca a cabeça entre as mãos. Ele provavelmente está mais constrangido que todos os outros.

ROLAND (suavemente para a 2ª FLAUTA) Obrigado.

Ela acena com a cabeça, sem nenhuma vergonha.

TIMPANOS (sussurra)Ainda assim somos uma merda.

Os outros o calam. O CONTRABAIXO levanta a mão.

ROLAND Sim?

CONTRABAIXO Desculpa aí, mas... hã... (sussurra) E aquele ali, quem é?

ROLAND É o Alex.

ALEX acena timidamente, ergue a vassoura vagamente.

ROLAND Ele estava varrendo quando eu cheguei. Nunca viu uma orquestra antes e me pediu se podia assistir ao nosso ensaio. Espero que não se importem.

Silêncio. Todos estão envergonhados.

ALEX (amigavelmente) Olá, Orquestra Britânica!

Murmúrios encabulados de ‘oi’ e ‘tudo bom?’ e ‘olá’, etc.

MÚSICOS Oi, Alex

CLARINETE fica de pé, mortificado.

CLARINETE Peço que aceite nossas mais sinceras e oficiais desculpas pelas críticas absolutamente ridículas que fizemos da sua linda cidade.

Os outros murmuram pedidos de desculpas semelhantes. A 2ª FLAUTA está triunfante.

2ª FLAUTA Um pouco tarde, não acha?

OBOÉ Antes tarde do que nunca.

2ª FLAUTA Não acho. O melhor seria nunca terem sido tão mal educados.

VIOLONCELO Por que você não fecha a matraca uma vez na vida?

VIOLA (ao violoncelo) Deixa ela em paz, seu zé tretinha de merda!

2ª FLAUTA (para viola) Obrigada, mas sou perfeitamente capaz de me defender da ralé.

Uma briga começa entre as madeiras e as cordas.

O celular de ROLAND toca. Ele pede silêncio com sons e gestos para atender a chamada.

ROLAND (ao telefone) Sr. Carmichael!

ROLAND se agacha na frente do palco, com os dedos tapando o ouvido.

A orquestra se esforça para ouvir a conversa.

ROLAND Sim, claro. Tudo ótimo. Estamos no meio de um fascinante debate sobre... perdão...?

(ouve)

Entendo... quando?

(ouve)

Entendo... certo... sim. Pode deixar.

ROLAND desliga. Está pálido, quase acinzentado. Todos olham para ele.

Sem aviso, ele deixa sair um enorme gemido – um grito primitivo de volume incrível e surpreendente.

ROLAND AAAAAAGGGGGGGGHHHHHHHH!!!!!!

A orquestra inteira se encolhe para trás como se fossem um só – apavorados e chocados.

ROLAND Seus imbecis! Seus imbecis de merda da puta que os pariu. A alfândega russa apreendeu todos os instrumentos. Vocês vão dar o concerto mais importante das suas vidas em duas horas e estão sem instrumentos, suas antas idiotas.

Pânico e aflição tomam conta da orquestra.

ROLAND (cont.) Querem saber por quê?

TODOS Queremos!

ROLAND Bem, um de vocês sabe, não é?

TODOS Não??!!

A orquestra inteira se vira para ele:

ROLAND Um cão farejador russo achou um baseado escondido em um dos instrumentos!

Arfadas e choque geral. Todos se entreolham acusadoramente, ouvem-se altos protestos de inocência e negações improvisadas.

VIOLONCELO Olha, eu é que não fui!

VIOLA ‘tô ligado! Você não tem a menor noção da cara que tem um baseado.

VIOLONCELO Ah tá, então você acha que é da hora usar drogas?

VIOLA Com moderação, acho sim.

OBOÉ Quem foi, Roland?

2º TROMPETE É! Vamos matar o cara.

CLARINETE Pode ser uma cara.

Clarinete encara Viola.

VIOLA Eu é que não fui, droga!

CONTRABAIXO É. Ela só usa crack!

2ª FLAUTA começa a emitir um gemido agudo. Um grito estranho e triste pelo nariz. Todos os olhos pouco a pouco se viram para ela…

2º TROMPA Não!

2º TROMPETE De jeito nenhum!

OBOÉ É impossível!

FAGOTE As águas paradas são as mais profundas...

1º FLAUTA Deixa ela em paz. Não foi ela!

2ª FLAUTA Fui eu sim! Fui eu!

Ela corre para a saída.

2ª FLAUTA (cont.) Vou me matar!

Vários MÚSICOS a impedem de sair.

ROLAND Por quê? Por quê?

2ª FLAUTA Foi por você. Fiz por você!

ROLAND Eu??? Eu nem fumo!

2ª FLAUTA É, mas você fica muito ansioso antes de um concerto. Já te vi andando em círculos nos bastidores, deixando uma marca infeliz no tapete. E isso quando você só vai tocar. Agora você vai reger e eu fiquei com medo que você fosse ter um ataque de nervos. Achei que algumas tragadinhas pudessem te relaxar. Roubei da minha irmã.

(soluçando)

Nunca pensei que fossem olhar dentro de uma flauta.

Roland despenca em uma cadeira. Todos os outros estão em estado de choque.

2ª FLAUTA (cont.) Será que o Sr. Carmichael vai me expulsar da orquestra? Ele vai saber. Eu sei que ele vai saber que fui eu. Minha vida acabou!

ROLAND Você é uma das melhores flautistas de Croydon (ou o bairro que for). Ninguém vai te expulsar.

CONTRABAIXO O que vamos fazer?

Todos se voltam para Roland esperando que ele tenha a resposta.

ROLAND (destruído) Não temos opção. Precisamos cancelar.

Todos ficam devastados.

1º VIOLINO Não dá para emprestar instrumentos de outra orquestra?

FAGOTE Ninguém vai tocar aqui hoje.

OBOÉ E quem emprestaria qualquer coisa para nós?

2ª FLAUTA Nunca vou me perdoar!

1º VIOLINO E se a gente tocasse amanhã?

1º TROMPETE Amanhã a gente volta para casa. Já está tudo reservado.

2ª FLAUTA Alguém me mata agora, por favor?

SEÇÃO DAS CORDAS Matamos se você não calar a boca.

De repente, ALEX ergue a mão.

ALEX Erm… olá? Pode falar?

Roland acena com a cabeça

ALEX (cont.) Meu pai trabalha em aeroporto.

Toda a orquestra se volta para ele como uma única entidade – cheia de esperança. Congelam.

ALEX (cont.) Talvez ele pode falar com... como chama...?

ROLAND ... a alfândega?

ALEX Sim.

ROLAND O que ele faz no aeroporto?

Alex levanta a vassoura.

ALEX Faxina.

Toda a orquestra suspira – como uma só entidade - decepcionada.

ALEX (cont.) Ele conhece muita gente. Ele pode talvez explicar... a hã?

ROLAND ... a situação?

ALEX É... quem sabe?

1º VIOLINO (para Roland) Vale tentar, não acha?

Roland afirma com a cabeça e passa seu celular para Alex.

ROLAND Valeu, meu amigo.

Alex disca, alguém atende e ele fala baixo em russo. A orquestra se esforça para ouvir.

ALEX Encontraram ele.

Ele espera, ouve e depois fala em russo. Uma conversa razoavelmente curta e animada, em russo com o pai.

Todos o observam intensamente, tentando descobrir o que está acontecendo.

Finalmente ALEX desliga e passa o telefone para ROLAND.

ALEX (cont.) Ele diz que tem medo de fazer confusão. Pode perder emprego. Foi mal.

ROLAND (para Alex) Obrigado por tentar.

(para a Orquestra)

É melhor eu esperar aqui pelo Sr. Carmichael. Acho melhor vocês voltarem para o hotel.

Ele acena com a cabeça para os flautistas consolando a 2ª FLAUTA

1º FLAUTA Vamos! A gente vai com você.

Eles a ajudam a se levantar.

2ª FLAUTA (fungando) Sinto tanto, pessoal!

Eles a levam embora. Os outros MÚSICOS lentamente saem em formação quase militar.

1º TROMPETE Sentimos muito, Roles.

OBOÉ Que azar, mano.

VIOLA Talvez a sua chance ainda chegue.

VIOLONCELO (silenciosamente sarcástico) Até parece.

1º VIOLINO Não foi isso que ele quis dizer. Quer dizer, foi, mas todos admiramos muito o seu trabalho.

CONTRABAIXO (para Alex) Tchau, véio.

Outros apertam a mão de ROLAND enquanto vão saindo desanimados.

Finalmente o palco fica vazio.

ALEX começa a arrumar tudo.

ROLAND pega sua batuta e a coloca de volta no estojo.

ALEX Em situação assim, precisa perguntar pergunta muito importante: o que Pinball Wizard faria?

ROLAND consegue dar um pequeno sorriso. Olha fixamente para sua partitura por alguns momentos e depois a fecha.

ROLAND Queria muito que você ouvisse esta música.

ALEX Tchaikovsky?

ROLAND Mmm. Posso te mandar o CD?

ALEX Ou quem sabe encontramos em Brighton e você me dá o CD?

ROLAND Combinado.

ROLAND anda até o lugar onde Tchaikovsky pode ter ficado para reger.

Ergue seu rosto para o céu.

ROLAND (cont.) Pyotr Il’yich… eu só queria fazer uma homenagem a você. Perdão.

(para Alex)

A ironia é que ele foi condenado à morte pelos próprios colegas.

ALEX Mataram ele?

ROLAND Fizeram um tipo de comitê e meio que o forçaram a se matar.

ALEX Por quê?

ROLAND Ah, ele estava tendo um caso com o filho de algum figurão.

ALEX Tchaikovsky é viado?

ROLAND Er… era…

ALEX Hmm. Meu irmão é viado.

ROLAND Tá…

ALEX Você é viado?

ROLAND (constrangido) Erm… talvez eu seja um pouco viado. Ainda não me decidi. E você?

ALEX Acho que talvez todo mundo seja um pouco viado.

Pausa. ROLAND se senta sentindo-se completamente miserável.

ROLAND Você tinha razão. Não sou regente. Nunca serei. Sou só um estudante balançando uma vareta.

ALEX Qual é a palavra? Descreve para mim a música que você ia tocar?

ROLAND Olha, você está me pedindo para descrever o indescritível.

ALEX Por favor. Tenta.

ROLAND pensa um pouco. Fala suavemente, lentamente formulando seus pensamentos:

ROLAND Bem, é bonita. Linda mesmo…

(pequena pausa)

É alegria. É paixão. É esperança e desespero... é vida. É como seda e veludo. Pedra e fogo.

(Pausa)

Quando tocamos – e somos péssimos mesmo – mas só de vez em quando, quase por acaso, acertamos e daí todos tocam juntos. Só por um compasso. E é incrível.

E todos sabem que fizeram alguma coisa maravilhosa. É nosso segredo só por um instante.

E daí desaparece.

(pequena pausa)

Você se esquece de quem é. E se lembra de que está vivo.

Silêncio. Eles ouvem.

ALEX Tô ouvindo.

ROLAND (baixinho) Eu também...

Ouvem mais um pouco, os dois perdidos em pensamentos.

ALEX E acho que talvez eu tenho boa ideia...

ROLAND se volta para ele, curioso. Os dois se entreolham.

Cena 2

Cena 2

A manhã seguinte.

Palco vazio. Apenas as cadeiras.

ALEX entra usando seu macacão de faxineiro, com vassoura e pá de lixo.

Anda até o centro do palco e olha para o auditório.

Levanta a vassoura incoerentemente. Ele parece bastante desanimado.

ALEX (em russo) Bom dia, Moscou.

Faz um som vago da própria voz ecoando no auditório vazio:

ALEX (cont.) Moscou – Moscou – Moscou…

Encolhe os ombros e lentamente começa a varrer o palco, sussurrando sem entusiasmo para si mesmo:

ALEX (cont.)

Ever since I was a young boy, I've played the silver ball. From Soho down to Brighton I must have played them all. But I ain't seen nothing like him In any amusement hall...

ROLAND (cantando alto)

That deaf, dumb and blind kid Sure plays a mean pinball!

ROLAND entra no palco cheio de energia. É outro homem. Ele pula no ar e faz alguns giros moinho de vento ao estilo Townshend enquanto manda ver nos acordes.

ROLAND (cantando) Duh, duh, duh, duh, duh!

ALEX acena para ele

ALEX E aí?

ROLAND Ei! Tudo bem?! Que festa ontem, heim?

ALEX Perdão. Precisa limpar palco e empulhar cadeiras.

ROLAND Empilhar as cadeiras.

ALEX Empulhar, empilhar, quem se importa?

ROLAND Tá. Deixa que eu ajudo…?

ALEX encolhe os ombros, ROLAND começa a empilhar as cadeiras com ele.

ROLAND Caramba, estou um caco! Pelo menos, acho que estou. Não sei bem o que é um ‘caco’, mas minha cabeça está explodindo.

ALEX não responde.

ROLAND (cont.) Ei, qual o problema? Foi um triunfo!

ALEX Para você, sim. Eu feliz por você. Mas eu limpa, varre, escravo. Você vem, você vai. Eu fica.

Nunca muda.

ROLAND Ah, o famoso temperamento russo.

ALEX Hã?

ROLAND Mas pode mudar. E a sua viagem para Brighton?

ALEX Sem grana. E não pode partir. Família aqui. Aqui, casa.

ROLAND Tá, mas e a sua música?

ALEX É. Eu faz música na vassoura. Idiota. Tudo de mentirinha.

ROLAND Mas você é o Pinball Wizard de Moscou!

ALEX (aflito) Não! Eu faxineiro! Meu pai limpa, minha mãe limpa, eu limpa. Meus filhos vai limpa.

ROLAND olha para os bastidores e acena. A orquestra entra rápido em cena e ficam juntos em um grupo coeso.

2º FLAUTA está carregando um ESTOJO DE INSTRUMENTOS PRETO.

O formato é inconfundível – UM CASE DE GUITARRA.

Ela dá a ROLAND que se abaixa em um joelho e a presenteia a ALEX.

ROLAND Alex, em reconhecimento pela sua contribuição ao nosso concerto e por nos ajudar a sermos menos ‘cú de palha’ e por ajudar a transformar um bando de músicos barulhentos em uma orquestra...

VIOLONCELO Nunca vai rolar de novo, mano. Nem a pau.

VIOLA Shh!

ROLAND Queremos te dar isso. Te desejamos tudo de bom com a sua música. E não se esqueça de nos visitar quando for um incrível astro do rock em turnê pelo mundo.

A orquestra aplaude. ALEX está fora de si de alegria e animação.

ALEX Valeu, gente. Muito obrigado. Adoro gente inglesa.

Ele abre as presilhas e animadamente abre o estojo…

Sua alegria se transforma em tristeza profunda quando tira ... uma VASSOURA.

Os rapazes da SEÇÃO DE METAIS riem juntos. ALEX fica péssimo.

ALEX Zoação inglesa! Muito engraçado, seus idiotas. Idiotas ingleses!

ROLAND fica com cara de culpado – e está furioso. Ele se vira para a orquestra:

ROLAND Como vocês tiveram coragem?!

Uma enorme briga improvisada estoura entre os metais, as madeiras e as cordas – a recém-encontrada unidade rapidamente se desintegra…

ROLAND (implorando) Orquestra! Orquestra! Por favor!

O argumento está chegando ao clímax quando a 2a FLAUTA grita:

2ª FLAUTA SILÊNCIO! TODO MUNDO QUIETO! OLHEM!

Ela aponta para as coxias. CONTRABAIXO corre com o presente de verdade:

UMA GUITARRA ELÉTRICA NOVINHA EM FOLHA.

A orquestra aplaude. ALEX fica fora de si. Segura a guitarra no ar e logo prende a correia para ter certeza de que não é um sonho.

ROLAND pega sua batuta e, com um gesto grandioso – como um mago – aponta para os céus. Imediatamente, as luzes se fecham em um único foco em ALEX.

ROLAND rege, preparando a orquestra para começar. Sob sua deixa, eles começam a cantarolar o refrão de abertura de ‘Pinball Wizard’ do The Who, alto e em bom tom – em perfeito uníssono acappella. As diferentes seções da orquestra fazem o som de cada instrumento.

E no primeiro grande acorde de guitarra, ALEX toca junto, fazendo o moinho de vento completo de Pete Townshend.

As luzes do palco começam a subir de novo para que vejamos a orquestra claramente.

E mais uma vez estão em uníssono. Os vocais começam e as vozes dos músicos se unem a ALEX:

ORQUESTRA (cantando)

Intervalo da guitarra. ALEX faz o seu lance. Quando voltam os vocais, ele imita com mímica o Pinball Wizard na máquina de Fliperama.

ALEX continua a pirar enquanto ROLAND rege com grande alegria.

Última rodada dos vocais:

De repente – a companhia inteira congela como se fossem um só.

Tableau: Todos. Parados. Em silêncio. Juntos.

BLACKOUT

Cena 3

Cena 3

A manhã seguinte.

Palco vazio. Apenas as cadeiras.

ALEX entra usando seu macacão de faxineiro, com vassoura e pá de lixo.

Anda até o centro do palco e olha para o auditório.

Levanta a vassoura incoerentemente. Ele parece bastante desanimado.

ALEX (em russo) Bom dia, Moscou.

Faz um som vago da própria voz ecoando no auditório vazio:

ALEX (cont.) Moscou – Moscou – Moscou…

Encolhe os ombros e lentamente começa a varrer o palco, sussurrando sem entusiasmo para si mesmo:

ALEX (cont.)

Ever since I was a young boy, I've played the silver ball. From Soho down to Brighton I must have played them all. But I ain't seen nothing like him In any amusement hall...

ROLAND (cantando alto)

That deaf, dumb and blind kid Sure plays a mean pinball!

ROLAND entra no palco cheio de energia. É outro homem. Ele pula no ar e faz alguns giros moinho de vento ao estilo Townshend enquanto manda ver nos acordes.

ROLAND (cantando) Duh, duh, duh, duh, duh!

ALEX acena para ele

ALEX E aí?

ROLAND Ei! Tudo bem?! Que festa ontem, heim?

ALEX Perdão. Precisa limpar palco e empulhar cadeiras.

ROLAND Empilhar as cadeiras.

ALEX Empulhar, empilhar, quem se importa?

ROLAND Tá. Deixa que eu ajudo…?

ALEX encolhe os ombros, ROLAND começa a empilhar as cadeiras com ele.

ROLAND Caramba, estou um caco! Pelo menos, acho que estou. Não sei bem o que é um ‘caco’, mas minha cabeça está explodindo.

ALEX não responde.

ROLAND (cont.) Ei, qual o problema? Foi um triunfo!

ALEX Para você, sim. Eu feliz por você. Mas eu limpa, varre, escravo. Você vem, você vai. Eu fica.

Nunca muda.

ROLAND Ah, o famoso temperamento russo.

ALEX Hã?

ROLAND Mas pode mudar. E a sua viagem para Brighton?

ALEX Sem grana. E não pode partir. Família aqui. Aqui, casa.

ROLAND Tá, mas e a sua música?

ALEX É. Eu faz música na vassoura. Idiota. Tudo de mentirinha.

ROLAND Mas você é o Pinball Wizard de Moscou!

ALEX (aflito) Não! Eu faxineiro! Meu pai limpa, minha mãe limpa, eu limpa. Meus filhos vai limpa.

ROLAND olha para os bastidores e acena. A orquestra entra rápido em cena e ficam juntos em um grupo coeso.

2º FLAUTA está carregando um ESTOJO DE INSTRUMENTOS PRETO.

O formato é inconfundível – UM CASE DE GUITARRA.

Ela dá a ROLAND que se abaixa em um joelho e a presenteia a ALEX.

ROLAND Alex, em reconhecimento pela sua contribuição ao nosso concerto e por nos ajudar a sermos menos ‘cú de palha’ e por ajudar a transformar um bando de músicos barulhentos em uma orquestra...

VIOLONCELO Nunca vai rolar de novo, mano. Nem a pau.

VIOLA Shh!

ROLAND Queremos te dar isso. Te desejamos tudo de bom com a sua música. E não se esqueça de nos visitar quando for um incrível astro do rock em turnê pelo mundo.

A orquestra aplaude. ALEX está fora de si de alegria e animação.

ALEX Valeu, gente. Muito obrigado. Adoro gente inglesa.

Ele abre as presilhas e animadamente abre o estojo…

Sua alegria se transforma em tristeza profunda quando tira ... uma VASSOURA.

Os rapazes da SEÇÃO DE METAIS riem juntos. ALEX fica péssimo.

ALEX Zoação inglesa! Muito engraçado, seus idiotas. Idiotas ingleses!

ROLAND fica com cara de culpado – e está furioso. Ele se vira para a orquestra:

ROLAND Como vocês tiveram coragem?!

Uma enorme briga improvisada estoura entre os metais, as madeiras e as cordas – a recém-encontrada unidade rapidamente se desintegra…

ROLAND (implorando) Orquestra! Orquestra! Por favor!

O argumento está chegando ao clímax quando a 2a FLAUTA grita:

2ª FLAUTA SILÊNCIO! TODO MUNDO QUIETO! OLHEM!

Ela aponta para as coxias. CONTRABAIXO corre com o presente de verdade:

UMA GUITARRA ELÉTRICA NOVINHA EM FOLHA.

A orquestra aplaude. ALEX fica fora de si. Segura a guitarra no ar e logo prende a correia para ter certeza de que não é um sonho.

ROLAND pega sua batuta e, com um gesto grandioso – como um mago – aponta para os céus. Imediatamente, as luzes se fecham em um único foco em ALEX.

ROLAND rege, preparando a orquestra para começar. Sob sua deixa, eles começam a cantarolar o refrão de abertura de ‘Pinball Wizard’ do The Who, alto e em bom tom – em perfeito uníssono acappella. As diferentes seções da orquestra fazem o som de cada instrumento.

E no primeiro grande acorde de guitarra, ALEX toca junto, fazendo o moinho de vento completo de Pete Townshend.

As luzes do palco começam a subir de novo para que vejamos a orquestra claramente.

E mais uma vez estão em uníssono. Os vocais começam e as vozes dos músicos se unem a ALEX:

ORQUESTRA (cantando)

Intervalo da guitarra. ALEX faz o seu lance. Quando voltam os vocais, ele imita com mímica o Pinball Wizard na máquina de Fliperama.

ALEX continua a pirar enquanto ROLAND rege com grande alegria.

Última rodada dos vocais:

De repente – a companhia inteira congela como se fossem um só.

Tableau: Todos. Parados. Em silêncio. Juntos.

BLACKOUT

Table of Contents