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Como Eles São? / Lucinda Coxon

Como Eles São?

Lucinda Coxon

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do

Projeto Conexões Teatro Jovem

e fez parte do seu portfólio no ano de 2016.

Qualquer montagem fora do Projeto deverá  ser

negociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos autorais.

contato Lucinda: jk-office@theagency.co.uk

jk-office@theagency.co.uk

Observações sobre a peça

As marcações de cena no texto a seguir às vezes são bem especificas, às vezes bem livres. Elas devem, de modo geral, ser encaradas como sugestões. São uma forma de ilustrar a peça. A proposta mais útil nos ensaios é descobrir a intenção da marcação, em vez de se ater muito a ela. Não é o modo como eu trabalho normalmente, mas muito do prazer desta peça estará em explorar a “vida física” dela.

A peça é feita para 12 atores que interpretam 12 personagens. A transição do ator para o personagem ocorre no palco. Pode ser válido encenar um breve aquecimento em frente à plateia antes que a peça comece pra valer. Uma noção de interação entre os membros da companhia pode informar de forma útil as várias formas de isolamento e comunhão encontradas nas experiências dos personagens.

Os personagens podem se aproximar da caixa de brinquedos a qualquer momento, dentro do período especificado no texto. Os personagens podem se aproximar dela mais de uma vez, mudando de ideia quanto a pegar ou não um brinquedo. Cada um deles tem um brinquedo especifico, mas o que é o brinquedo (bicho de pelúcia, bola, corda de pular, instrumento musical, helicóptero com controle remoto, boneca, fantoche etc.) é algo a ser descoberto durante os ensaios. Um afeiçoamento demasiado a um brinquedo ou permanecer muito tempo absorto por ele pode parar ou interromper a ação da peça. Os brinquedos podem ser compartilhados, deliberadamente ou sem querer. Pode-se ou não fazer referência ao brinquedo quando o personagem estiver falando.

Texto

As luzes se acendem. Um círculo de sapatos está no chão, todos bem espaçados, organizados em pares e apontados para o centro do palco – 5 pares masculinos, 7 pares femininos. Eles podem ser sociais, esportivos, não importa, mas tem que ser sapatos que pessoas maiores de 30 usariam.

No centro do círculo de sapatos há uma caixa grande de papelão. Não dá pra ver o que tem dentro dela.

12 atores entram, caminham em um ritmo insistente ao redor dos sapatos, e cada um para em frente a um dos pares. No momento certo, eles calçam os sapatos. Os sapatos (e, da mesma forma, os personagens) não precisam corresponder ao sexo dos atores. Os sapatos também não precisam servir.

Uma vez que todos os sapatos estejam calçados, o círculo se torna energizado de uma forma um tanto ameaçadora.

Algo está para começar:

ROBERT: Tique

FRANCES: Taque

STEPH: Tique

GRACE: Taque

NICK: Tique

GARY: Taque

JOHNNY: Tique

INDIRA: Taque

ALISON: Tique

PATRICK: Taque

SARAH: Tique

MEERA: Taque

ROBERT: Levanta! Anda, você vai perder a hora!

FRANCES: Pela última vez, dá pra você ir pra cama?

STEPH: Anda, vai dar uma volta, tomar um pouco de ar fresco /

GRACE: Eu quero você em casa às /

NICK: Você não vai parar com isso?

GARY: Você ainda nem começou …?

JOHNNY: Você precisa comer alguma coisa /

INDIRA: Quem comeu tudo?

ALISON: Você precisa se esforçar mais /

PATRICK: Você vai ficar exausto /

SARAH: Você tem que levar isso mais a sério /

MEERA: Ei, calma, também não é o fim do mundo …

Nick confessa:

NICK: A gente mente pra eles – claro – não é? Desde o início! Não tem outro jeito. Não é de propósito, mas no fim das contas…

Desde o momento em que eles nascem, a gente já começa a mentir. Por exemplo, quando eles são pequenos a gente diz… - ‘você não precisa ter medo de nada’. Mas é claro que precisa. Tá cheio de coisa que eles tem que temer.

Eu me lembro quando o Alex tinha – deixa eu ver.... – três anos, talvez? Ele ficou obcecado – não sei nem de onde surgiu isso – mas ele ficou obcecado com a ideia da morte. A ideia de que eu ia morrer. Ele acordava gritando, ele tinha pesadelos horríveis: ‘Ei, ei, calma! ’, eu dizia pra ele: ‘Eu não vou morrer! Eu não vou morrer! ’

Nunca!

Eu prometo.

Nick se afasta.

INDIRA: Ela pega emprestado as minhas coisas. Eu não ligo. Quer dizer, ligo sim. Um pouco. Não muito, sabe como é, mas …

Conforme Indira começa a falar, Nick olha dentro da caixa de papelão. Durante a peça, em intervalos, cada personagem irá se aproximar da caixa e retirar de dentro dela um brinquedo de criança. O ritmo e o momento desse processo é algo a ser descoberto.

INDIRA: Ela sempre quis vestir as minhas roupas. Mas até aí, o irmão dela era igualzinho!

Os sapatos de salto alto – eles chamavam os sapatos de “sapatinhos barulhentos”… Sapatos, bolsas, pulseiras … o que você imaginar. Acho que é meio normal, não é? Crianças querendo se fantasiar. Não é?

Mas agora é diferente. Pelo menos… parece diferente. Quer dizer, ainda tem um aspecto de fantasia, mas…

Ela experimenta alguma coisa minha, se olha no espelho, e …

O jeito como ela olha …

Indira parece um pouco receosa.

INDIRA: É frio.

É tão… crítico.

E uma parte de mim pensa: que bom pra você – não ficar se enganando. Não cometer esse erro.

E uma outra parte de mim pensa:

Por favor… Não seja tão dura consigo mesma.

Não seja tão dura comigo.

Indira sai. Gary começa – tímido, quase que se desculpando.

GARY: Parece que tem um, um relógio, batendo apressado assim que eles nascem. A gente se conscientiza o tempo todo de todas as coisas que só vão acontecer uma vez, que a gente não vai poder fazer de novo. Todas as primeiras coisas, sabe? Os primeiros passinhos, as primeiras palavras … sabe? Tudo parece tão... precioso

Robert se mete no assunto …

ROBERT: E a gente tem que correr pra dar conta de tudo.

GARY: Acho que é por isso que a gente tira tanta foto – tudo parece tão… passageiro.

E aí, sei lá, chega uma hora que as coisas se acalmam…

ROBERT: Verdade. A gente dá uma relaxada. As coisas ficam mais tranquilas.

GARY: …e aí de uma hora pra outra …

ROBERT: Nem me fale!

Gary hesita um pouco, até que:

GARY: Ele agora deu pra falar às vezes de quantos anos faltam pra ele sair de casa. E eu me sinto tão …

Eu me sinto meio perdido, pra ser sincero.

A gente sai sem as crianças, de vez em quando, a Lena e eu, e eu sempre penso: graças a Deus que a gente ainda tem assunto. Que ainda tem uma conexão entre nós, sabe?

Porque não dá pra garantir, né? Não dá pra simplesmente presumir que aquilo vai sempre existir.

Robert está prestes a falar alguma coisa, mas Sarah é mais rápida e está furiosa.

SARAH: A minha paciência chegou ao fim. Na verdade, outro dia eu entrei no quarto dele e falei: ok, eu fiz tudo que eu poderia fazer. De agora em diante, é com você. É isso. É com você. Quando as suas notas saírem e você não tiver tirado o suficiente pra passar de ano, vai ser

Tudo

Culpa

Não é possível. O Mike, meu marido, praticamente largou a escola quando tinha 14, então ele acha que vai ficar tudo bem, e isso me irrita tanto. Porque ele não tem como saber isso.

VOCÊ NÃO TEM COMO SABER ISSO, MIKE!

E aí eu penso, por que eu tenho que ser sempre a vilã da história, o tempo todo? Por que sempre eu?

Sarah sai, enfurecida.

Robert aproveita a chance:

ROBERT: O mais importante é deixar que eles saibam que você também erra. Admitir os próprios erros, não tentar esconder as coisas. Porque eles vão saber de um jeito ou de outro.

Nossos pais não faziam isso. Eles eram de uma geração que achava que você tinha que ser, sei lá, totalmente infalível. Tinha que parecer infalível de qualquer forma. Mas nem a pau os meus filhos acham isso de mim. Eles já me viram fazer besteiras suficientes.

Robert sai lentamente.

JOHNNY: Eu costumava andar de trem o tempo todo. Eu dizia pros meus pais:

Vou pegar o trem, não sei que horas volto!

As pessoas acham que os trens não são confiáveis hoje em dia – mas eles eram bem piores antigamente. Eu ia pra todo lugar – o mais longe que eu conseguisse pagar. Às vezes eu ia até o fim da linha! Meus pais não sabiam nem em que cidade eu estava!

Se os celulares existissem naquela época, provavelmente eles ficariam me ligando o tempo todo pra saber onde eu estava. O que teria estragado tudo. Completamente!

A Kira costuma demorar pra responder mensagens. Até uma hora pra responder eu considero aceitável. Ela quase sempre deixa o celular no silencioso, mas ela recebe tanta mensagem que no fim eu em geral acho isso bom.

Eu normalmente não encho tanto o saco dela, então ela me responde. Já a mãe dela, bem …

Desvairada não é a palavra certa, mas …

Quando sou eu, ela atende, sem problemas. Eu não preciso saber onde ela tá, nem com quem ela tá. Eu só preciso saber se ela tá bem.

Johnny dá de ombros, ergue as sobrancelhas e dá uma saidinha.

PATRICK: Tá, eu acho o lance da altura um pouco complicado. Se alguém tivesse me dito que um dia eu seria...

Bom, eu teria dado risada.

Mas o lance é que importa. Importa sim.

Eu sempre fui um cara alto. Não tô acostumado a ter que olhar pra cima pra falar com alguém.

Muito menos com meu próprio filho.

ROBERT: Levanta! Anda, você vai perder a hora!

FRANCES: Pela última vez, dá pra você ir pra cama?

STEPH: Anda, vai dar uma volta, tomar um pouco de ar fresco /

GRACE: Eu quero você em casa às /

NICK: Você não vai parar com isso?

GARY: Você ainda nem começou …?

JOHNNY: Você precisa comer alguma coisa /

INDIRA: Quem comeu tudo?

ALISON: Você precisa se esforçar mais /

PATRICK: Você vai ficar exausto /

SARAH: Você tem que levar isso mais a sério /

MEERA: Ei, calma, também não é o fim do mundo …

FRANCES: Blá blá blá blá.

Grace está ao telefone. Pode ser um telefone de brinquedo. Ou um brinquedo qualquer sendo usado como se fosse um telefone. Ou pode até não ter telefone algum.

GRACE: Oi, Arun, sou eu. Você pode me ligar por favor?

FRANCES: Às vezes eu me sinto como um disco riscado.

GRACE: Oi, Arun, sou eu de novo. Você pode por favor ligar pra casa?

FRANCES: Às vezes eu rio no meio de uma frase, quando é alguma coisa que eu repito toda hora!

Grace está perdendo a paciência:

GRACE: É, sou eu de novo. Por favor, Arun, liga aqui.

FRANCES: Ou porque eu pareço a minha mãe falando.

Grace desiste.

FRANCES: A diferença é que de jeito nenhum a minha mãe aguentaria o que eu aguento!

Eu digo pras minhas filhas: sabe essa palavra aí, que acabou de sair da sua boca? Ela jamais sequer entraria na minha cabeça se eu estivesse falando com a minha mãe!

É porque elas nunca apanharam. Elas nunca tiveram que ter medo de uma reação imediata. Eu tive que encontrar outras formas de punição!

Sério, como a gente não bate nelas – eu sei que tem pais que batem nos filhos, mas isso é problema deles – mas como a gente não bate, a questão é: você faz o que?

Eu falei pra Jasmine (e é sempre a Jasmine) depois desse último incidente:

Tá, o lance é o seguinte: … você sabe que eu tenho horário flexível no trabalho, certo, o que significa que eu posso escolher os meus horários …? Eu te prometo uma coisa: se você continuar se comportando desse jeito, ainda que você já tenha quinze anos, eu vou começar a te levar e buscar na escola todo santo dia... E eu to falando sério.

GRACE: Ele tem uma namorada. Ele vai todo dia pra casa dela. Todo santo dia, direto da escola.

Ela parece legal, e de certo modo a gente tá adorando isso – quer dizer, com os antecedentes dele, sabe como é, né? – só o fato de ele se relacionar com alguém já é ótimo. Mas…

Esse é o problema:

GRACE: Bom, a gente nunca sabe que horas ele vai voltar!

Eu falo pra ele: a gente só precisa de um mínimo de comunicação. Só responda as nossas mensagens. Mas ele nem liga o celular quando fica na casa dela.

No fim, eu liguei pro pai da menina e disse: “Olha, a gente agradece muito por você aceitar que o Arun passe tanto tempo aí, mas você poderia por favor pedir a ele que deixe o celular ligado? E seria ótimo também se quando chegasse umas 9h30 da noite você dissesse a ele pra voltar pra casa”.

Quando o Arun descobriu, ele ficou maluco: ‘Que vergonha, vocês me fizeram passar tanta vergonha! Eu não acredito que vocês fizeram isso!” Daí pra pior.

Ele ficou completamente descontrolado.

STEPH: A gente lembra de coisas que fazia na mesma idade, e acho que é isso que torna as coisas difíceis, eu acho.

A gente não lembra do primeiro dente, de quando aprendeu a ler, claro que não desse tipo de coisa. Mas da adolescência – disso a gente lembra. O vestibular... as festas... os beijos!

A lembrança deixa Steph excitada…

STEPH: Eu me lembro do gosto dos meninos que fumavam! Eu nunca vou querer que os meus filhos fumem, óbvio que não, nem os amigos deles, mas …

Ter quinze anos e beijar um menino que tem gosto de cigarro...

É de arrepiar!

GRACE: ‘Você me deixaram com cara de otário, eu fiz papel de trouxa! Um idiota completo! ’ E eu falei – não senhor – o que eu fiz foi totalmente aceitável, e se você não quiser que essas coisas aconteçam é só atender o celular quando a gente te ligar...

‘Que humilhação vocês me fizeram passar!’

E eu disse –

Não!

O que é uma humilhação é isso aqui que você tá fazendo.

Você.

Você que tá se humilhando!

Ele disse que era diferente, que não tinha ninguém ali pra ver. E eu falei bom, eu to aqui, não to?

Ele pareceu espantado. Como se ele não tivesse se dado conta. Aí ele disse, bom, se eu não puder me humilhar na frente da minha própria mãe, então qual o sentido?

Grace vacila.

‘Minha própria mãe”. Foi o que ele disse.

O tom dela muda.

E eu fiquei tão aliviada. Porque... porque eu sempre espero o dia em que a ficha vai cair.

‘Você não é minha mãe de verdade’.

Eu sempre espero pelo dia em que isso vai acontecer.

ALISON: Quando eu saí de casa, meus pais nem esperaram a minha cama esfriar e já redecoraram tudo. Meu quarto. A casa toda.

E eles começaram a fazer várias viagens... todo feriado era um lugar diferente.

Eu fiquei tão... magoada. Sério. Eu não conseguia acreditar naquilo.

GARY: Ele foi assaltado.

MEERA: Isso acontece com todos. Pelo menos com os meninos.

GARY: É como se tivesse essa pequena brecha pros meninos maiores aproveitarem. É como quando os caranguejos saem da casca no verão, então os pássaros ficam só esperando que isso aconteça pra darem o bote.

MEERA: ‘Um cara apareceu na minha frente e disse: me dá essa bicicleta.’ Então ele deu.

GARY: Uns meninos maiores se aproximaram dele e de uns amigos, no meio do shopping lotado, de dia ainda, acredita? Chegaram, deram uma encarada nos meninos e simplesmente arrancaram o que tinha nos bolsos deles. E ele deixou. Em vez de falar alguma coisa, gritar, chamar o segurança… Não quis fazer uma cena.

INDIRA: Ela não é gorda. Isso eu tenho que dizer. Mas também não é ... magra. Não como essas meninas magrelas que tem por aí. Eu falo pra ela que não importa. Nessa idade o corpo muda o tempo todo, mesmo. E a aparência de uma pessoa é o que menos importa pra definir quem ela é!

Eu vejo que ela não acredita em mim. Mas é o que uma mãe tem que dizer.

Meu marido costumava dizer que eu era linda, e eu pensava, caramba, você é o que?

Mentiroso?

Ou simplesmente idiota?

No fim, aquilo me fazia ter raiva dele.

MEERA: A gente é bem unido. Na verdade, não tivemos muita escolha, depois que o pai deles foi embora.

Quando saiu o meu diagnóstico, eu disse pra eles que eu tinha feito um exame e que o tumor precisava ser operado, e que a operação seria em 10 dias.

Eu disse a eles que não iria morrer.

Eu tava bem confiante quanto a isso – o tumor tinha sido diagnosticado cedo, e o meu médico parecia bem positivo. Então eu contei tudo pra eles. Pareceu importante contar.

Eu perguntei se eles tinham alguma pergunta, se queriam que eu perguntasse algo pro médico – porque eu também tinha um monte de perguntas – e se a gente juntasse as nossas perguntas, talvez desse pra entender melhor a doença.

O Zack não perguntou nada.

A Nadia queria saber duas coisas: qual era a cor do tumor, e se ela poderia ficar com ele depois da cirurgia.

SARAH: Ele me odeia nesse exato momento – me odeia de verdade.

Eu fucei o computador dele.

Teve um período em que isso se tornou um problema, as coisas que ele andava assistindo. Eu tive que conversar com ele.

Você tem uma irmã, ela é menor, ela tem que ser protegida desse tipo de coisa. E isso não tem nada a ver com a vida real. As mulheres de verdade não são assim. E aquelas mulheres que você vê não estão gostando de verdade do que estão fazendo. Elas só fazem aquilo pra sustentar um vício em drogas ou então pra poder comprar comida pros filhos.

Eu checo o histórico do computador dele.

Eu falei pra ele que se o histórico estiver limpo, eu simplesmente vou presumir que ele voltou a ver aquelas coisas, e a gente vai ter que ter essa conversa outra vez.

Eu sei que tô sendo dura com ele, mas eu penso o seguinte: se não tem um muro, onde eles vão poder se apoiar?

Eu só não tenho certeza se o muro tá no lugar certo.

FRANCES: Então no verão passado ela chegou em casa num estado de nervos que eu já conhecia. To falando da Jasmine de novo – como se eu precisasse dizer isso. Ela mal conseguia respirar, mal conseguia falar o que tinha acontecido –

‘Elas foram pegas roubando uma loja – a Darcy e a Jenny-Rose! Eu sabia que elas iam fazer isso, então eu fui pra loja do lado. ’

Foi uma saga digna de filme… os pais foram pra delegacia, as meninas foram banidas de entrar na loja. Mas no fim não passou disso.

Só que eu tive que ter uma conversa séria com a minha filha.

Eu tive que dizer:

Tudo bem, mas você sabe que se fosse você no lugar delas, se você tivesse sido pega roubando, o tratamento não teria sido o mesmo, né? Tudo teria sido completamente diferente, e você sabe o porquê.

Porque você é negra. E essa é uma lição que você precisa aprender. Você teria sido tratada de uma forma totalmente diferente.

E sempre vai ser.

Eu marquei um encontro com as mães das meninas. Eu disse a eles que sentia muito, que gostava muito das meninas, mas que quando elas se juntavam, quando elas estavam todas juntas, algo de errado acontecia. Então a minha filha não iria mais frequentar as casas delas e elas não eram mais benvindas na minha casa.

Eu jamais me arrependi do que fiz.

A gente quer que os nossos filhos aprendam as lições deles, aprendam que ações tem consequências. E essas lições podem ser bem duras.

ROBERT: As nossas vidas antes dos meninos nascerem... se eles soubessem, acho que eles morreriam.

Drogas, por exemplo. Acho que a gente experimentou de tudo, eu e a mãe deles. Eu nunca contei isso pros meninos. Não quero apoiar esse tipo de comportamento – quer dizer, a gente não usa mais drogas e eu acho que elas não nos causaram nenhum dano, mas nem todo mundo sai ileso de experiências assim.

Então eles têm que entender que isso não é um comportamento que nós aprovamos.

É um comportamento que achamos perigoso.

JOHNNY: Eu deliberadamente nem pergunto, pra ser sincero. Prefiro não saber. Quem é esse, quem é aquela, há quanto tempo vocês se conhecem...

Não sei o que é. Tem uma certa distância entre nós, e eu meio que gosto disso. A gente respeita os limites um do outro.

A Kira passou anos reclamando que a mãe fumava. Enchia o saco dela. A Lucy teve que passar a fumar escondido.

Então quando eu encontrei um isqueiro nas coisas dela, eu estranhei.

Porque a Lucy não deixaria um isqueiro dando sopa em casa.

Mas eu deixei quieto e depois o isqueiro sumiu.

Acho que dá pra dizer que essa é a minha política. Se possível, não faça nada. As coisas tendem a se resolver sozinhas

Johnny olha pra baixo por algum tempo, até que:

JOHNNY: Eu nunca descobri de quem era aquele isqueiro.

PATRICK: Sendo bem sincero, eu notei que ando competindo mais com ele.

A gente sempre costumava correr no parque, mas …

Eu comecei a diminuir a distância do percurso pra conseguir ganhar dele.

GARY: Eu gosto de pensar que ele ainda precisa de mim. Não sei se isso é verdade. Ele me liga de vez em quando pra eu buscá-lo, mas na verdade acho que é mais por preguiça de andar do que necessidade. Mas eu vou mesmo assim.

E vou feliz. Quantas chances mais eu vou ter de fazer isso? “Valeu, pai”, ele diz. Mas eu faço mais por mim do que por ele.

Eu penso mais no meu pai, agora. A gente pensa mais nos próprios pais conforme vai ficando mais velho. Quando eles não estão mais por perto.

ROBERT: Levanta! Anda, você vai perder a hora!

FRANCES: Pela última vez, dá pra você ir pra cama?

STEPH: Anda, vai dar uma volta, tomar um pouco de ar fresco /

GRACE: Eu quero você em casa às /

NICK: Você não vai parar com isso?

GARY: Você ainda nem começou …?

JOHNNY: Você precisa comer alguma coisa /

INDIRA: Quem comeu tudo?

ALISON: Você precisa se esforçar mais /

PATRICK: Você vai ficar exausto /

SARAH: Você tem que levar isso mais a sério /

MEERA: Ei, calma, também não é o fim do mundo …

ALISON: Durante anos eu tive inveja das pessoas cujos pais tinham mantido os quartos deles intactos, só esperando que eles voltassem.

Porque sinceramente, os meus... bom, eles mal conseguiram disfarçar a alegria deles... o quão empolgados eles estavam... perdendo uma filha, mas ganhando uma suíte nova.

Então agora eu me sinto extremamente culpada. Porque, pra ser bem sincera …

Eu quero muito que eles saiam de casa.

Todos eles. Mal posso esperar.

GRACE: Ele nem quer falar da mãe biológica. Ela até já tentou entrar em contato – ligaram pra gente da agência avisando – mas não tem a menor chance disso acontecer, não depois do que ela fez os filhos passar.

Ela não sabe o nosso sobrenome, então não tem como pesquisar no Facebook ou algo do tipo.

Mas eu não posso impedi-lo de procurar por ela.

Eu não acho que ele faria isso. Ele se lembra bem de como era a vida dele antes – acho que jamais vai esquecer. Nem de antes, e nem de como era quando estava com o serviço social.

Tudo que aconteceu faz com que hoje ele lide muito mal com mudanças. É muito difícil pra ele. Ele tem que saber as coisas com antecedência o tempo todo – até mesmo coisas bestas, tipo ‘o que vai ter pra jantar na quinta… que horas a gente vai sair no sábado …? ’

Quando a gente viaja, ele sempre fica doente nos primeiros dias. De tão assustado que ele fica com um lugar novo.

Às vezes eu acho que se a gente fizesse com ele o que ele faz com a gente... deixa-lo esperando, sem saber o que vai acontecer... o mundo dele desabaria.

NICK: Uma vez ou duas eu admiti ter feito alguma coisa errada quando tinha a idade deles.

Eles ficaram chocados – não conseguem lidar com uma coisa dessas. Eles acham que sabem tudo sobre nós. Nós somos a única coisa no mundo de que eles sabem tudo, e isso não pode mudar.

Quando a gente introduz algo que não combina com a imagem que eles fazem de nós, é como se aparecesse aquela mensagem “não computa”.

Acho que eles querem que a gente minta. Eles também mentem, claro. É uma forma de nos protegermos, uns aos outros

ROBERT: Uma vez, quando eu era mais novo... tinha uns dezessete, eu acho. Eu tomei ácido em uma balada. Eu fiquei completamente apavorado. Aquilo tava muito além do que eu tava preparado pra encarar – mas nem a pau eu iria ligar pros meus pais.

Então o que eu falo pros meus filhos é o seguinte:

Se algum dia, em qualquer lugar que seja, vocês estiverem com pessoas com quem vocês não se sentem à vontade, ou em algum lugar em que se sentirem desconfortáveis, ou se não estiverem curtindo o que estiver acontecendo – não importa o que seja – meninas, drogas, policia – não importa.

Vocês podem me ligar. Eu jamais irei julgar vocês.

A qualquer hora, dia ou noite. Me liguem e eu dou um jeito.

PATRICK: Eu pedi pra ele me mostrar como faz pra conectar o ipod com as caixas de som.

Ele riu de mim. E depois ele fez tão rápido que eu não consegui aprender como faz.

Agora vou ter que pedir pra ele me ajudar de novo.

GARY: Eu me lembro de como a mãozinha dele ficava junto com a minha, do toque da mãozinha dele. Do cheiro da cabecinha dele. De conseguir pegá-lo no colo!

Quando ele era bebezinho, eu fui a uma loja de bebês que tinha perto de casa. Eles tinham uns macacõezinhos com uma estampa com o sol, a lua e as estrelas. Eu fiquei maluco com aquele macacão.

Então eu comprei todos os tamanhos. 0 a 3 meses, 3 a 6, 6 a 9... todos os tamanhos até três anos de idade.

Acho que eu passei um pouco do limite aquele dia.

ALISON: Meu maior medo com relação ao futuro é que, se eu não tomar cuidado, na hora que o mais novo se mudar daqui, o mais velho já vai estar querendo voltar. Só a ideia de acontecer uma coisa dessas... já me faz perder o sono à noite.

GARY: Ele usou aqueles macacões durante anos... Dá pra imaginar, né? Eu ainda vejo ele naquele macacão, até hoje …

INDIRA: Eu não sei o que fazer pra ajudá-la. Como fazer com que ela entenda como ela é linda. Porque ela é mesmo, de verdade.

Essa é a parte mais difícil, eu acho.

Eu olho pra ela e percebo que eu era bonita quando tinha a idade dela. Mas na época eu não acreditava. E agora é tarde demais pra começar a acreditar.

GARY: É como areia escorrendo em uma ampulheta... quando tá chegando ao final, parece que ela escorre muito mais rápido. Não tá – eu sei que não – mas ainda assim …

STEPH: Faz com que você perca totalmente o controle

GARY: Eu to fazendo tudo parecer triste. Não é. Não sei porque tá parecendo assim.

STEPH: Acho que isso é tudo que dá pra dizer sobre sexo e afins: alertá-las de que o corpo… os sentidos, por assim dizer…tem uma mente própria.

E eles nem sempre fazem o que é melhor pra você a longo prazo.

Nem sempre você vai se sentir no controle de si mesma. E nem das outras pessoas.

Eu disse: ‘Vou comprar umas camisinhas. Deixa-las no banheiro, junto com o absorvente e o resto’. Elas ficaram indignadas!

O David só faltou pular no meu pescoço. Ele ainda só as vê como menininhas. Eu disse, eu não to tentando encorajá-las a fazer! Mas eu também não quero que elas tenham vergonha de ir à farmácia comprar camisinha e aí acabem …

Você sabe.

Elas disseram –

‘A gente não quer “conversar” sobre sexo, drogas e essas coisas! A gente só quer alguma regra. Por que você não pode ser mais como a vovó? Apenas diga pra gente:

‘Não – Vocês não podem fazer nada!’

Eu disse: bom, vocês duas são prova concreta de como esse tipo de atitude funcionou.

JOHNNY: Ela nunca se deu muito bem com a mãe. Uma vez ou outra aparece uma faísca de conexão entre elas, mas na maior parte do tempo elas ficam se bicando. E eu fico no meio, como mediador.

Eu tento não perder a paciência. Antes da Kira eu me achava o cara mais calmo do mundo!

Ela tem um temperamento bem enérgico. Quando ela tinha dois anos, eu usava técnicas de negociação com reféns pra lidar com ela. Ainda assim ela fazia gato e sapato de mim. Ela sempre conseguia virar o jogo pro lado dela.

  1. Não tem nada que a mãe dela faça que ela ache certo – nem quando o assunto é roupa, maquiagem...

Se ela estivesse aqui, agora, com vocês, ela seria um amor. É como se ela guardasse toda a raiva que ela tem pra mãe.

NICK: Além dos nossos antecedentes, acho que dinheiro e comida são as outras coisas principais.

Quer dizer, eles perguntam ‘o que tem de sobremesa? ’, e a gente diz que tem fruta. Aí, assim que eles saem, a gente pega o chocolate ou o sorvete. É, a gente mente sobre esse tipo de coisa.

E sobre o quanto a Margaret ganha. A gente diz pra eles que é menos. Eles não conseguem entender o valor do dinheiro, mesmo. E eu não quero que eles se sintam confortáveis demais, achem que temos grana sobrando.

A gente não é rico. Mas pra uma criança parece muito dinheiro.

Eles vão ter que se esforçar na vida. Vendo como o mundo tá agora... eles vão ter que se esforçar mesmo.

SARAH: Esse ano, quando o aniversário dele tava chegando, eu tava com tanto ódio dele... Eu nem podia pensar na ideia de fazer um bolo pra ele. Não que ele admitisse que queria um bolo. Sério, era ódio mesmo.

Eu pensei, eu preciso superar isso – pro meu bem e pro bem dele.

Eu preciso achar uma forma de lembrar como ele era antes. Então eu tive a ideia de fazer um álbum de fotos. Da vida dele, até aquele momento.

Aí eu comecei a ficar preocupada – eu pensei, será que eu to sendo muito cruel? Será que vai parecer: ah, olha, você me odeia, mas olha só o quanto eu te amo, olha o trabalho que eu tive pra fazer esse presente pra você, procurando fotos, colando, recortando …?

E aí eu pensei, ah, faz de uma vez. Ele não vai pensar isso. Ele nem vai dar bola pro álbum. Então eu fiz.

A gente fez com que ele abrisse os presentes sentado na nossa começa, com a Kelly junto.

No fim, ele não conseguia tirar os olhos do álbum. Ele deve ter ficado uma hora, pelo menos, só vendo o álbum.

Eu falei: tem um monte de páginas em branco no final … pro futuro. A gente pode continuar o álbum quando você fizer 18.

E 21.

PATRICK: Eu comprei umas roupas iguais às dele. Eu nem acredito que eu fiz isso.

Frances começa a rir, só pensando no que ela vai dizer:

FRANCES: Se o Ron e eu brigamos -

PATRICK: Só Deus sabe como eu vou ficar naquelas roupas

FRANCES: - tipo, uma briga bem feia mesmo –

PATRICK: Mas ele levou numa boa.

FRANCES: - ela diz: ‘Eu sei que eu só tenho 16 anos, mas eu não consigo entender porque você não se separa dele. Você deveria fazer isso enquanto não tá velha demais pra encontrar outra pessoa. Sério, o que você vê nele? ’

Isso é quando elas estão na fase de odiar o pai. Claro que às vezes as coisas se invertem, e a vilã sou eu.

ROBERT: O lance é que eles têm que ter experiências de vida. Eu sei disso. E eles tem que sentir que estão fazendo algo que a gente desaprovaria – porque metade das vezes a diversão é justamente essa. Então a gente tem meio que adotar algumas posições. Sobre coisas com que a gente não se importe tanto.

Eles têm que achar que a gente é um velho careta. Faz parte.

Robert dá de ombros e se afasta.

GRACE: Ele anunciou que está indo viajar com a namorada. A avó dela mora na Croácia, no litoral. Eu disse –

Espera aí, a gente tem que conversar com os pais dela sobre isso. E ainda tem o dinheiro.

No fim, a gente chegou a um acordo.

Arrumamos alguns trabalhos pra ele fazer – passear com o cachorro, cuidar do bebê, ajudar o Mike com as obras, uma vez ou outra.

Ele não pareceu muito interessado em trabalhar. Eu fiquei bem irritada com isso. Fiquei mesmo. Comecei a encher o saco dele. E aí eu me dei conta…

Conversei com ele no carro. Carro é o melhor lugar pra esse tipo de conversa.

Eu falei:

Se você não quer fazer essas coisas, tudo bem. Eu vou ser a vilã da história. Vou dizer que você não pode ir.

Silêncio. Quilômetros de silêncio. Então eu falei:

Tudo bem. Eu falo pra eles. Não tem problema, acabou a conversa.

O que você quer comer com o chá?

Neste momento da peça, todos os personagens devem estar com seus brinquedos.

STEPH: Eu comprei um vestido novo outro dia. A mais nova me disse: você não pode vestir isso! Não na sua idade! Eu falei: não pense que eu tenho 36 anos. Pense que eu tenho a mesma idade que você, mas com 22 anos a mais de experiência!

JOHNNY: Ela muda tão rápido. Ela parece mesmo uma outra pessoa. Você se acostuma com uma Kira, e aí 6 semanas depois, tem uma Kira completamente diferente. Amigos novos, músicas novas, tudo mudou. E você se preocupa, mas …

Bom, a gente vai se preocupar pelo resto da vida, né?

MEERA: Quando eu era adolescente, tudo que eu queria era ir embora.

Não é que eu não amasse os meus pais... mas é que eu... eu odiava aquele lance de família agregada que é comum em comunidades de imigrantes. Eu precisava sair dali, seguir a minha vida.

Eu sei que uma hora eles vão se separar da gente, mas…

Eu não consigo suportar a ideia de um afastamento lento, sabe?

Quando eu contei pra eles que teria que fazer quimio, o Zack me perguntou se o meu cabelo iria cair. Eu disse que sim. Disse que no início pareceria estranho, mas que ele não precisava ficar assustado. Não seria pra sempre. E ele me disse:

Eu nunca quero que me vejam em público com você sem cabelo.

Eu falei: eu não te culpo por isso. Pode deixar que eu sempre estarei com um chapéu ou um cachecol.

ALISON: Imagino que a única coisa pior será se todos eles se mudarem e eu estiver acabada demais pra aproveitar.

Que merda.

FRANCES: O principal é que elas me fazem rir. Elas me fazem dar muita risada, muita mesmo, vocês não fazem ideia.

E pra ser sincera, eu acho que elas são meninas incríveis. No fim das contas, é isso.

Eu acho as duas sensacionais.

Acho mesmo.

JOHNNY: Ela parece mais velha do que é. A gente foi a um pub um dia desses. Ela pediu uma cerveja e eu comprei pra ela.

Foi a primeira vez que a gente bebeu juntos.

Johnny não consegue disfarçar um sorriso.

Ela não aguentou beber tudo.

Johnny olha pros outros. Uma sensação de algo inescapável, ao mesmo tempo em que:

ROBERT: Tique

FRANCES: Taque

STEPH: Tique

GRACE: Taque

NICK: Tique

GARY: Taque

JOHNNY: Tique

INDIRA: Taque

ALISON: Tique

PATRICK: Taque

SARAH: Tique

MEERA: Taque

Os personagens mantem-se firmes no lugar onde estão, agarrando-se aos brinquedos, enquanto um estrondo sonoro ecoa, anunciando simultaneamente um fim e um começo.

Sapatos devem ser removidos e jogados longe para o agradecimento.

FIM

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