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Flor Da Pele / Mariana Marteleto

FLOR DA PELE

Mariana Marteleto

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do Projeto Conexões Teatro Jovem e fez parte do seu portfólio no ano de 2012. Qualquer montagem fora do Projeto deverá ser negociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos autorais. Mariana Marteleto: mariana.marteleto@yahoo.com.br

PEÇA

Menina pode ser feita por diversas atrizes, assim como menino por diversos atores. A sugestão é que existam diversas Vozes. As Vozes são a consciência da menina, que devem ser personificadas. Umas consciência não definida, em que as referências externas são bastante presentes.

Menina está em pé no parapeito de uma janela como se fosse pular.

Menina: Não tenho ideia de como eu cheguei aqui. Por que eu fiz isso? Eu preciso me resolver. Essa é a melhor maneira. Parece que as coisas vão acontecendo e eu nem percebo. Como eu pude fazer isso? Por que existe o certo e o errado? A minha vida não é controlada por mim. Precisa ser! Onde eu estava com a cabeça? Não era para ter sido feito! Perdi. O que eu vou fazer? Como eu vim parar aqui?

Vozes entram.

Falei que não era para você ter feito!

Menina: É bom.

Não interessa

Menina: É errado.

Não tinha que ter feito

Menina: Tinha sim.

Não tinha

Menina: Tinha.

Não tinha

Menina: Não tinha.

Não tinha

Menina: Tinha!

Parece que não aprende

Menina: Aprender o quê?

Você precisa se respeitar

Menina: Me respeito!

Se você não se respeita quem irá te respeitar?

Menina: Mas eu não fiz nada de mais!

Não esperava isso de você

Menina: Eu sei. Me desculpe.

Eu quero o seu melhor

Menina: Tenho dúvidas.

Como você pôde fazer isso?

Menina: Não sei...

Sempre foi uma pessoa tão centrada

Menina: Não é verdade!

É verdade

Menina: Não é.

É

Menina: Não é.

É

Menina: É.

É

Menina: Não é!

Extremamente responsável

Menina: Desde quando?!

Deveria ter esperado

.Menina: Era o momento.

Não era o momento

Menina: Como não? Eu senti que era.

Não era

Menina: Como não era?

Eu sei

Menina: Não sabe!

Sei sim

Menina: Não sabe.

Sei

Menina: Sabe

Sei

Menina: Não sabe! Eu sei!

Coitada

Menina: Coitada?!

Coitada

Menina (desafiando): Por quê?

Pensa que sabe...

Menina: Sei sim! Chega! Fim da questão.

Está bem. Fim da questão. Então diga, o que irá fazer agora?

Silêncio.

Menina: Não sei... Já foi, não tem volta.

Somente as vozes continuam agora.

Falei que não era para ter feito!

Eu não entendo

Não é possível!

Justamente você!

Não era para ser assim

Sempre foi uma pessoa tão centrada

Eu quero o seu melhor

Eu sei o que é bom para você

Não faça isso!

Não era o momento!

Eu te digo o que fazer

Você não sabe das coisas

Despreparada

Passou o limite

Sem moral

Falei para não fazer!

Parece que não aprende

Se você não se respeita quem irá te respeitar?

Como você pôde fazer isso?

Decepção. Não esperava isso de você!

Blackout

Menina no parapeito da janela.

Menina: Eu não tenho certeza de nada na minha vida, eu não sei se eu sou eu, ou se sou os outros. Eu tenho muito medo da minha juventude. O que eu vou fazer? Será essa a minha melhor opção? Será melhor matar a minha juventude de uma vez ou aos poucos? Finalizá-la agora ou deixá-la passar e eu não aproveitar, não perceber. Qual a minha opção? O meu desejo? O meu pensamento? Me parece que ele caminha em círculos. Não consigo sair desse ciclo vicioso. Será que isso importa? O que eu acredito? Era para ter sido assim? Como eu cheguei aqui? Eu tenho medo.

Outro espaço. Infância. Menina e menino.

Menina: Você viu a minha saia?

Menino: É mesmo, você está de saia. Por quê? Você sempre disse que odeia usar isso.

Menina: E odeio mesmo! Mas minha mãe disse que se eu não colocasse ela não ia me deixar sair de casa.

Menino: Você fica linda de saia.

Menina: (Pausa) Eu gosto muito de você.

Menino: Eu também gosto muito de você.

Menina: Então a gente está namorando agora, né?

Menino: Sim. (silêncio) Dá para ver a sua calcinha.

Menina: Tudo bem, estamos namorando.

Menino: Então podemos beijar.

Menina: Podemos.

Quando vão beijar ouvem: “Podem parar com isso”. Os dois saem de cena antes de beijar.

Outro momento. Menina e menino.

Menino: O que tem debaixo da sua saia?

Menina: A minha calcinha.

Menino: E da calcinha?

Menina: A minha perereca. E da sua calcinha?

Menino: Eu não uso calcinha! Eu uso cueca.

Menina: Tá bom. O que tem embaixo? Uma perereca também?

Menino: Não, meu pipi.

Menina: Deixa eu ver seu pipi.

Menino: Só se você deixar eu ver a sua perereca.

Menina: No três. Um, dois... (Mostram e ficam espantados. Saem)

Outro espaço. Vozes

Essa sim foi uma fase boa!

Não deveria ter acabado

Se soubesse o que vem depois...

Jamais sairia da infância!

Curtir tudo sem preocupação

Sem julgamentos

Sem julgamentos

Talvez pular a fase do sofrimento depois da infância...

Conhecida como adolescência

E ir direto para...

Sei lá, uma fase da vida tão boa quanto a infância

Isso não existe

Existe sim

Não existe

Existe

Enfim, uma fase menos cruel que a adolescência

Não que a infância ou qualquer outra fase da vida não tenha sofrimento, mas a adolescência...

É cruel

Momento em que se começa a ter consciência da vida

Consciência das consequências irremediáveis

Momento da discordância

Da contradição

Da efervescência

Perfeito para a insatisfação

Meu peito cresceu muito cedo

Muito velha

Não cresceu

Cresceu demais

Sou gorda

Feia

Magra

Não bonita o suficiente

Cabelo crespo

Liso

Sou diferente

Sou igual

Choro

Sorriu

Sofro

Sofro muito

Depressão

Felicidade

Dúvida

O que fazer da vida?

Não fazer nada

Querer fazer tudo

Não dar conta de nada

Achar que dá conta de tudo

Deixar que façam as escolhas por você

Querer fazer suas escolhas

Não saber fazer escolhas

Escolher

Escolher errado

Levar bronca

Escolher certo

Levar bronca

Não escolher

Levar bronca

Mágoa

Arrependimento

Medo

Desespero

Pânico

Esperança

Ansiedade

Angústia

Aflição

Percepção

Sentimento

Emoção

Corpo

Encantamento

Corpo

Descoberta

Corpo

Mudança

Corpo

Pressão

Corpo

Pressão

Corpo

Pressão

Corpo

Pressão

Corpo

Pressão

Corpo

Pressão

Explosão (tal palavra pode ser dita ou expressa cenicamente ou ambos, sugestão: explosão de sutiãs.

Outro espaço. Passagem da menina para a moça.

Menina(s) entra(m) com as mãos na região dos peitos como se estivesse(m) descobrindo-os. Usa(m) uma camisola branca. Música. Diversos sutiãs espalhados pelo espaço. Pisa neles. Sua perna e sua camisola estão ensanguentadas, mestruação. Sugestão de imagem: trasformação menina-mulher.

Talvez um poema, uma canção.

Começa um novo caminho

A cada passo uma nova percepção

Percepção da vida

Da possibilidade da vida

Das possibilidades

Da amplitude do mundo

O mundo

O momento

Um novo momento

Um caminho sendo traçado

Irreversível, irremediável

Sem volta

Sem volta

Sem volta

Outro espaço ou talvez o mesmo. Menina e menino.

Menino: Sai sangue de você? Assim, do nada? Sem nem ter machucado?

Menina: Aham.

Menino: E dói?

Menina (rindo): Claro que não, seu bobo! Senão nenhuma mulher iria aguentar isso todo mês!

Menino: Todo mês?! (Menina continua rindo) Então quer dizer que você já é mulher agora? Menina para de rir. Menino sai.

Vozes entram.

Menina: Não!

Nunca!

Menina: Jamais deixarei de ser criança.

Acontece

A vida é assim

Menina: Não quero!

Quer sim

Menina: Não quero!

Quer

Menina: Quero.

Quer

Menina: Não!

Quer

Menina: Quando vai acontecer?

Agora

Menina: Agora?!

Menina: Já?!

Acabou de acontecer

Menina: Não!

Larga de medo e veste o sutiã

Menina: Não posso.

Pode sim

Menina: Não posso.

Pode sim

Menina: Posso. (pega o sutiã)

Pode

Menina: O que eu faço agora?

Aceita o que a vida te oferece

Já menstruou mesmo

Sutiã fica fácil

Menina: Não.

Veste logo o sutiã!

Pega o sutiã, coloca, analisa, percebe, sente-se bem. Sente-se tão bem que começa a pular de alegria. Começa a dançar uma dança desengonçada. Enquanto dança entra um menino. Ela congela. Os dois se olham. Ele sorri e sai.

Vozes entram.

Menina: O que foi isso?

Como ele está bonito?!

Menina: Que é isso que estou sentindo?

Eu não acredito que ele viu isso!

Menina: É bom.

Você viu como ele olhou?

Menina: Mas eu conheço ele desde sempre, e nunca...

Parecia uma maluca dançando

Menina: Nunca...

Ele viu, não viu?

Ai, ele viu!

Menina: Nunca senti isso!

Será que ele sorriu para mim ou estava rindo de mim?

Ah não! Não estava feia, estava?

Menina: Não, conheço ele, estava sorrindo para mim. Será que ele também sentiu isso?

Zuada!

Menina: Não consigo acreditar!

Ele é tudo de bom!

Menina: Será que eu quero que ele seja meu primeiro beijo?

Quer

Quer

Quer

Menina: Será que vai ser ele?

Depois dessa dancinha ridícula? Duvido

Menina: Eu quero! Mas eu nunca beijei, como eu vou fazer?

Aiiii!

Acho melhor treinar antes

Nesse momento menina treina beijar com o braço ou em um gelo no copo.

Menina: Que coisa ridícula!

Tem que treinar!

Menina: Como será que é? Será que é muito babado?

Não seja estúpida, você nem sabe se ele gosta de você

Menina e vozes juntas: Gosta!

Menina: Será?

Como saber?

Menina: O que eu vou fazer da próxima vez?

Chama para sair!

Menina: Não tem como simplesmente chamar para sair. Nos conhecemos faz tempo! Está no campo da amizade.

Dá em cima dele!

Menina: Mulher não pode fazer isso. Eu não posso fazer isso!

Pode sim!

Menina: Não posso.

Pode sim!

Menina: Não posso.

Não deveria, mas pode

Começa com um oi

Menina: Próxima vez vou falar alguma coisa!

Entra menino. Tudo congela. Caminha em direção à menina. Sorri. Sai.

Falei que era para você falar um oi!

Fica ai com essa cara!

Por que de novo ele não disse nada?

Dessa vez pelo menos não teve dancinha!

Menina: Ele sorriu sem dancinha? Então não estava rindo de mim!

Era para ter falado alguma coisa pelo menos!

Como se fosse fácil

Da próxima vez então!

Entra menino. Tudo congela. Caminha em direção à menina. Sorri. Sai. (Mesmas ações anteriores).

Está vendo porque mulher não deve dar em cima, não consegue!

Fica ai com essa cara!

Ah, não. De novo não!

Era para ter sido dessa vez

Mas não foi

Desse jeito nunca vai ter primeiro beijo

Poderia ser no pôr-do-sol

Dessa maneira nem em pôster ou foto...

Próxima vez sem falta!

Entra menino. Tudo congela. Caminha em direção à menina. Sorri. Dessa vez a menina fala, alguém pode dar um empurrão para ela falar.

Vozes juntas: Fala alguma coisa! Fala. Fala. Fala. Fala. Fala. Fala. Fala. Fala. FALA!

Menina: Oi.

Vozes (comemorando)

Isso!

Finalmente!

Demorou!

E agora?

Silêncio.

Menino: Oi.

Vozes: Aê! Não acredito!

Será que vai rolar um “tudo bem?” ou ele vai embora?

Silêncio.

Menino: Você quer sair algum dia comigo?

Vozes empolgadas.

Claro que sim!

Melhor que um “tudo bem?”!

Já pegou!

Que “pegou” o quê?!

Qual o problema com “pegar”?

É muito feio esse termo

Nossa, que fresca

Não é frescura nada! É postura

Está bem então. Já conquistou. Está melhor?

Estou mais satisfeita

Menina: Para! Existem agora coisas mais importantes. Será que ele vai gostar de mim?

Outro espaço. Menina e menino. Como se já estivessem conversando há algum tempo.

Menina: Sabe que eu tenho gostado muito dessa coisa de me encontrar com você.

Menino (rindo): Eu também... Eu nunca tive...

Menina: Sim.

Menino (sorrindo): Deixa para lá.

Menina: Posso fazer uma pergunta?

Menino: Claro.

Menina: Por que... eu?

Menino ri sem graça.

Menina: Desculpa. Não quero colocar você contra a parede. Eu só queria saber se você...

Menino: O quê?

Menina: Se você... (pausa) Não consigo explicar...

Menino (abraçando a menina): Tem certeza?

Silêncio.

Menina: Eu sinto você.

Os dois se beijam.

Vozes vão entrando enquanto os dois se beijam...

Nossa

Que delícia

Então é assim?

É bom

Acho que estou fazendo certo

Relaxa

Pronto

Não dá nem para perceber que é a primeira vez

Eu acho

Não quero mais parar

Isso

Assim é bom

Acho que ele beija bem

Opa!

Não

A mão ai não!

Ainda não!

Lembrete: Tenho que casar virgem

Isso mesmo

É bom ir tirando

Mas é bom...

Casar virgem

É bom segurar a onda

Mas eu tenho idade para...

Não tem nada!

Quem sabe algum dia...

Casar virgem!

O que isso tem a ver com casar virgem?

Casar virgem!

Está bem

Vozes param. Beijo continua. Luz vai apagando aos poucos.

Outro espaço. Menina(s)

Menina(s) entram. “Rasgando rosas”. Música. Pétalas de rosas espalhadas pelo chão. Sugestão de imagem: coração partido.

Talvez um poema, uma canção.

Ele foi para longe

Foi

Não voltará

Não porque não quer

Não pode

Não pode voltar

Nossos corações caminham juntos

Não sei por quanto tempo

Desejo

Sofrimento

Caminham

Não é para sempre

Sempre

Poderia ter sido

Teve que ir embora

Não pode

Não pode voltar

Não pode

Não pode me deixar

Outro espaço. Vozes entram animando. Menina está triste.

Chega!

A vida não deve ser assim não!

Vamos sacudir este corpinho!

Vai ficar se lamuriando por quanto tempo?

A fila anda!

Menina: Ah, não. Vocês agora não.

Está ficando folgada hein?!

Bora dar uma chacoalhada nessa tristreza!

Menina: Não sei se quero...

Já faz muito tempo que você está assim!

Isso não faz bem!

Uma hora vai ter que sair da toca

Menina: Faz muito tempo?

Perdeu o rumo mesmo...

Menina: Muito tempo?

Faz

Menina: Não vai ter outro jeito mesmo, né? Ele não volta.

Não

Eu estou ouvindo direito?

Depois de tanto tempo insistindo?

Ela se cansou de acreditar na mentira!

Ufa!

Finalmente!

Eu também fiquei cansada

Existem tantos outros peixes no mar

E eu aqui perdendo

Você é muito nova para tanto sofrimento

Menina: Não vou mesmo conseguir ficar com ele...

Isso

Menina: Sem chance nenhuma.

Perfeitamente

Menina: Bom, então já que não tem nenhum jeito de ficar com ele, a não ser que eu mude ou aprenda a me teletransportar todos os dias... devo aprender a estar sem ele, certo?

Essa é a minha menina

Menina: Ótimo. Mas se eu não vou estar com ele, também não estarei com ninguém.

Como assim?

Ficar sozinha também não é solução

Não se exclua do mundo

Menina: Não, não... Vocês entenderam errado. Não vou ficar literalmente sozinha. Passei muito tempo namorando. Agora eu quero aproveitar, não serei de ninguém mas não serei só nossa.

Eu entendi direito?

Ai

Agora danou-se

Vai querer perder a virgindade

Menina: Não fala bobagem. Também não é para tanto.

Não pode!

Vai esculhambar geral

Não era isso!

Não tem mais jeito

Talvez

Acho que...

Pode ser interessante

É uma experiência

Piriguetagem?

Não...

Não tem como

Estamos falando dela..

De mim...

Não...

Não tem como

Pausa

Talvez tenha

Outro espaço. Casais.

Entra primeiramente um casal e começa a beijar, depois outro e outro e outro... Os meninos tentam colocar a mão na bunda das meninas mas não conseguem porque elas sempre tiram.

Uma voz entra

Cheguei atrasada?

Espero que não tenha feito nada errado. (Olha)

Ufa!

Só está beijando

Tenta falar com a menina. A ideia é a Voz parecer ínfima diante de tudo.

Pára com isso!

Essa não é você!

As pessoas vão julgar!

Menina: Julgar? Não é uma coisa com a qual eu deveria me preocupar. Qual é o problema se é bom?

É...

Tem razão

Não deveria ter problema nenhum

Mas tem...

Acho que não tem problema nenhum

Você não deveria fazer isso só por causa do...

Menina: O quê? Eu não faço isso porque ainda estou triste por causa dele! Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Não sei não...

Não deveria estar fazendo isso

Uma mulher tem que ter certos cuidados...

Menina: Ah! Então o problema é só porque eu sou mulher?! Se eu fosse homem e saísse pegando geral, então tudo bem? Olha, não quero julgar se esta é uma atitude certa ou errada, mas se é errada para um é errada para ambos!

É...

Você tem razão

Menina: Finalmente! Cansei de nunca ter razão! Quero fazer as coisas para mim, não para os outros.

Está bem

Não está mais aqui quem falou

Mas não se esqueça da virgindade

É muito importante que você se preserve

Menina: Eu não vou perder a virgindade antes de casar, eu sei disso, não é algo que me preocupe. E não tem nada a ver com preservação, tem a ver com... confio em mim. Mas e beijar por beijar? Mesmo sendo bom, será que eu deveria estar fazendo isso? Eu gosto, mas será que essa sou eu? Será que é por causa dos outros? Agora não adianta chorar o leite derramado. Não me arrependo do que foi feito, só não sei se devo continuar.

Menina está saindo quando vê menino, seu primeiro amor. Os dois se olham

Menina: Que estranho, parece que eu...

Menino: Conheço...

Menina: Você.

Os dois lembram.

Menina e menino juntos: Você! (Riem)

Menina: Não acredito. O que você está fazendo aqui, você se mudou.

Menino: Pois é, mudei de volta.

Menina: Olha como as coisas são, você some de repende e reaparece de repente.

Menino: É mesmo. Muito bom te encontrar. Vamos marcar alguma coisa.

Menina: Claro. Por que não?

Todos saem.

Outro espaço. Menina e menino. Tentativa

Menino: Você tem certeza disso?

Menina: Tenho. Nós namoramos bastante antes de você ir embora e já estamos namorando há algum tempo depois que você voltou. E o mais importante de tudo: eu te amo.

Menino: Eu também te amo.

Começam a se beijar, o clima esquenta. Vozes entram.

Pode parar!

E aquela coisa de casar virgem?

Hã?

Você fala uma coisa e faz outra?

Não é assim que as coisas funcionam

Tudo deve ser feito no seu tempo

Não coloque a carroça na frente dos bois

Menina (para o menino): Amor, acho melhor nós irmos mais devagar.

Menino: Por quê?

Menina (envergonhada) : Acho que ainda não é a hora.

Menino: Tem certeza?

Menina: Tenho.

Menino (sorri carinhosamente) : Não tem problema, temos tempo. Dessa vez eu não vou ir para lugar nenhum.

Eles param e dormem abraçados.

Outro espaço. Menina e menino. Primeira noite.

Menino: Você tem certeza mesmo?

Menina: Tenho. Eu pensei bastante e não tem porque esperar mais. Essa coisa que eu tinha de casar virgem nem sei se era uma ideia minha ou de tanto ouvir eu acreditei que era. Mas o mais importante é que eu te amo.

Silêncio. Olham-se.

Menino: Olha. Você está de saia.

Menina: Sim.

Menino: Mas você está de saia.

Menina (rindo): Por que tanta novidade? Você já me viu de saia antes.

Menino: Não só te vi como fui o primeiro a ver você usando saia. Lembra? (Lembrar primeira cena entre menino e menina)

Menina (sorrindo): É verdade.

Menino: Você fica linda de saia.

Menina: Eu gosto muito de você.

Menino: Eu também gosto muito de você.

Menino: Dá para ver a sua calcinha.

Menina: Tudo bem, estamos namorando.

Menino: Então podemos beijar.

Menina: Podemos.

Beijam-se. Indicações de que vão transar. Enquanto se beijam Vozes vão entrando lentamente, como uma assombração.

Casar virgem

Virgem

Casar virgem

Virgem

Casar antes

Sexo depois

Pecado

Proibido

Não deveria estar fazendo isso

Casar virgem

Virgem

Proibido

Passando dos limites

Virgem

Menina: Para.

A vozes param assim como ela e o menino.

Menino: Está tudo bem?

Menina: Eu preciso de um segundo. Banheiro. Já volto.

Menino: Está bem. Eu espero. (Menina vai para longe)

Menina (para vozes): Por que voltar de novo? Eu tenho certeza do que quero!

Ninguém mandou se sentir culpada

Menina: Não me sinto.

Aé?! Não mesmo?

Menina: Não.

Culpada

Menina: Não

Culpada

Menina: Não

Culpada

Menina: Sim! (Pausa) E agora? O que eu faço?

Decidir se vale a pena

Menina: Vale.

Não vale

Menina: Vale

Não Vale

Menina: Vale

Não vale

Menina: Chega! Assim não está ajudando.

Está bem. Você quer fazer isso para quem?

Menina: Para mim.

Para o seu namorado?

Menina: Para mim.

Por rebeldia?

Menina: Para mim.

Para lutar contra imposições!

Contra o mundo machista!

Contra a hipocrisia!

Contra a materialização do corpo feminino!

Menina olha feio.

Ok

Entendi

Para você ter certeza...

Menina: Sinceramente, eu fico melhor sem isso tudo. Por favor, saia.

Certeza?

Porque basta você pedir mais uma vez e...

Menina (gritando): Vai embora!

Vozes saem.

Menina: Eu tenho certeza do que eu quero. Coragem. É isso.

Menina volta e começam a se beijar novamente. A luz vai baixando. De repente tudo branco. Os dois aparecem na branquidão livres, soltos. Talvez em pé rodando. Vestimenta vermelha. Sugestão: Imagem de liberdade, prazer.

Talvez um poema, uma canção.

Vivo

Aqui, agora

Nos seus braços

Vivo

Sem tempo

Sem espaço

Plenamente

Vivo

Aqui, agora

Imagem termina. Luz vai aumentando e aparecem os dois deitados dormindo.

Vozes voltam mais intensas do que antes. Menina acorda assustada.

Perdeu

Não era para ter feito

Perdeu

Eu não entendo

Perdeu

Não é possível

Perdeu

Justamente você!?

Perdeu

Não era para ser assim

Perdeu

Sempre foi uma pessoa tão centrada

Perdeu

Não era o momento

Perdeu

Contra o seus princípios

Perdeu

Não aprende

Perdeu

Decepção

Perdeu

Eu não acredito!

Perdeu

Passou o limite

Perdeu

Perdeu o rumo

Perdeu

Sem moral

Perdeu

Falta de respeito próprio

Perdeu

Vai ter que viver com isso

Perdeu

Errado

Perdeu

Não esperava isso de você!

Durante este tempo a menina foi caminhando para a janela como na primeira cena. Está no parapeito da janela.

Menina: Perdi.

Perdeu

Menina: É bom

Perdeu

Menina: É errado

Perdeu

Menina: O que eu vou fazer? O que vai ser de mim?

Perdeu

Menina: Já foi, não tem mais volta.

Perdeu

Menina: Não tenho ideia de como eu cheguei aqui. Por que eu fiz isso? Eu preciso me resolver.

Perdeu

Menina: Essa é a melhor maneira.

Perdeu

Menina: Parece que as coisas vão acontecendo e eu nem percebo.

Perdeu

Menina: Como eu pude fazer isso? Era para ter sido feito? (Fica mais próxima do abismo)

Perdeu

Menina: Por que eu tenho que ter perdido algo? Por que não consigo simplesmente enxergar como uma transição? Menina-mulher, ponto. Eu não tenho certeza de nada na minha vida, eu não sei se eu sou eu, ou se sou os outros. Eu tenho muito medo da minha juventude. Será essa a minha única opção? Eu não sei. Meu pensamento caminha em círculo. O que eu acredito? Era para acontecer assim? Como eu cheguei aqui? Eu tenho medo, dúvida, indecisão.

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