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Ele Escreveu Um Texto Sobre Jovens / Alexandre Dal Farra

Ele escreveu um texto sobre jovens

Alexandre Dal Farra

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do

Projeto Conexões Teatro Jovem

e fez parte do seu portfólio no ano de 2016.

Qualquer montagem fora do Projeto deverá  ser

negociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos autorais.

 

Contato Alexandre Dal Farra: adalfarra@gmail.com

Nota do autor

As personagens desse texto não existem para além do que é dito por elas.

Também não existem "falas", no sentido realista da palavra – porque não existem subtextos ou quaisquer intenções por trás dessas falas; porque todas as intenções são texto. Assim, as palavras que são ditas não resultam de determinados desejos, questionamentos e reações daqueles que as emitem.

As palavras constituem os seus emissores, os textos devem ser utilizados pelos atores não para expressar intenções das personagens, mas sim, justamente para imaginar as personagens em ato: não por trás do texto, mas, através dele. Dessa forma, o tom e a intenção do que é dito também não pode nunca se pautar pelas intenções de quem fala, mas sim, pelo próprio ritmo sugerido pelos pensamentos, raciocínios, pelas imagens e sensações presentes no texto. Nada acontece fora do texto, que sirva de sustentação para ele, porque o que acontece já está incluído nele.

Se uma personagem diz, "você me beijou agora", isso não deve ser pensado como uma fala que sucede um beijo, mas sim, como a própria atualização do beijo. Dessa forma, sugere-se que nada do que acontece na peça seja feito de forma realista pelos atores. Seria mais interessante, talvez, que a encenação se ocupasse de criar uma camada própria de existência, que evidentemente não precisa ser separada do que o texto sugere, mas que não pode também se basear na concretização realista do que o texto traz, já que isso provavelmente recairia em uma simples redundância.

Cena 1

CENA 1

BRUNO – De repente estou nessa casa rica, eu vim aqui atrás de uma mulher que me deu um tipo de sinal ambíguo, uma espécie de permissão totalmente implícita para segui-la até aqui, e isso, essa permissão, essa frase, "se você quiser ir até a minha casa..." foi o bastante para que eu passasse a alimentar a esperança de que ela me permita uma aproximação mais intensa, muito mais intensa mesmo, uma aproximação física mesmo, porque isso seria para mim uma forma de solucionar uma questão que está realmente urgente para mim, na verdade absolutamente urgente, é um fardo que eu carrego no fundo, e ela pode simplesmente me salvar, com um tipo de gesto de caridade, me recebendo dentro dela, para que eu deposite lá no seu interior toda a minha ansiedade, a minha infância, e tudo o que eu não quero mais carregar por aí.

JUNIOR – Cara, você é tipo virgem?

BRUNO – É.

JUNIOR – E você veio até aqui achando que ia tipo comer a minha irmã, é isso?

BRUNO – Não sei se é bem isso. Você falando agora isso para mim em voz alta me dá uma sensação muito ruim de que só eu imaginei toda essa possibilidade absolutamente sozinho.

JUNIOR – Mas você estava no casamento né? Você tipo conheceu ela lá.

BRUNO – É.

JUNIOR –Eu lembro de você lá acho. Você estava bebendo bastante.

BRUNO – Era de graça. Eu estava aproveitando isso e bebendo muito mesmo. Depois vomitei também. Mas isso foi antes de ela dizer algumas coisas para mim e de repente tudo se modificar ali, simplesmente porque ela veio até mim e disse umas coisas, tipo, "oi", me cumprimentou, perguntou o que eu estava fazendo ali, tendo um tipo de interesse por mim, mesmo.

ANA – Eu nunca achei que o meu primo fosse fazer isso. Eu conheço muito bem o passado dele, brinquei muito com ele e tal, é meu primo irmão, e de repente ele casou com essa moça aí, essa jovem, que é tipo uma pessoa simples, que tem uma família simples e tal, tipo pobre mesmo, com muitos parentes de todos os tipos, muitas pessoas diferentes, que foram no casamento para comer e beber, para aproveitar o acesso a uma série de alimentos que eles normalmente não consomem. Ele é um tipo de exemplar desse gênero de pessoas, um tipo de primo dela acho. Ele está aqui totalmente fora do seu habitat.

BRUNO – Não sou primo dela.

ANA – Mas é alguma coisa parecida com isso. Vocês têm uns parentescos diferentes também, é uma outra estrutura social, mesmo.

BRUNO – Eu moro na rua dela. Na antiga rua dela na verdade. Enfim, morava na rua dela quando ela era pequena. A gente brincava juntos. Mas eu até morei na casa dela uma época também, quando a minha mãe estava com uns problemas lá de saúde e tal, antes dela morrer. Elas me deram muito apoio nessa época.

ANA – É isso que eu estou dizendo. Vocês têm tipo uns vínculos muito diferentes, mesmo, é toda uma vida diferente da nossa!...

DAVI – Totalmente! Esse tipo de apoio que você mencionou é uma coisa que a gente perdeu. Uma coisa da origem do ser humano, mais primitiva. A gente tem uma vida que é totalmente automatizada, essa coisa de viver em casas separadas, cada um com a sua casa, e tal. É uma coisa muito boa, de que eu não abriria mão por nada, ter o meu quarto, o meu banheiro próprio, mas eles têm uma coisa do convívio que a gente não tem. Talvez isso seja bom de alguma forma, morar entulhado com um montão de gente em uma casa só e tudo o mais.

JUNIOR – E aí você estava no casamento do Julio, viu o cara e já trouxe ele pra cá, é isso??

ANA – Qual o problema?! Eu trouxe ele aqui para que pudesse entrar em contato com umas coisas a que ele não tem acesso.

DAVI – Nossa, totalmente. Eles se encontraram ali, foi um contato entre classes totalmente inesperado, uma coisa que estava sendo proporcionada naquele casamento.

BRUNO – Eu queria muito entrar em contato com umas coisas a que eu ainda não tive acesso.

JUNIOR – Se o meu pai estivesse vivo você já teria tomado um soco no meio da tua cara.

ANA – Papai nunca encostou em mim. Ele era coronel, mas era humano e dentro da família ele era um doce. Você é que é um machinho escroto e agora quer mandar aqui.

JUNIOR – Vai se fuder!

ANA – Vai se fuder você!

BRUNO – Acho que alguém pulou na piscina.

ANA – Escroto.

JUNIOR – Vai tomar no cu!

BRUNO – Pulou mesmo. Deve estar frio.

DAVI – Quem?

BRUNO – Aquele cara ali...

DAVI – É o Fran!

ANA – O quê? Fran? FRAN!!!

DAVI – Caralho!

BRUNO – Qual o problema? Deixa o cara nadar!!

ANA – Ele não sabe nadar. Ele vai morrer!

BRUNO – Vou pegar uma cerveja.

ANA – Isso, entra aí Junior!! Puxa ele! Isso!!!

(tempo)

ANA – Não, Junior! Calma!

DAVI – Fran!

(tempo)

ANA – O que é isso Fran!

DAVI – O que você está fazendo??

ANA – Para, Junior!

DAVI – Você está louco???

ANA – Para! Para, caralho!!!

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ANA – O que você fez Júnior?

(tempo)

ANA – Eu não acredito no que você fez! VOCÊ ESTÁ LOUCO??? OLHA O NARIZ DELE!!

JUNIOR – O que foi?

DAVI – O que foi? Você acabou de descer a porrada no seu irmão retardado, cara!!! Você não tem vergonha??

JUNIOR –Meu irmão não é retardado porra nenhuma!!

ANA – Ele tem problemas psicofísicos, sim! Você deu porrada nele! Você tinha entrado na água pra salvar ele, porra!! Como assim de repente você bate no cara!

JUNIOR – Ele não estava querendo sair.

ANA – E aí você aproveita pra descer o cacete nele?!

JUNIOR – Ele não queria ajuda, Ana! Estava me empurrando! O único jeito foi descer a porrada nele até apagar. Vamos levar lá para dentro.

DAVI – Como assim?? Isso não faz o mínimo sentido!

JUNIOR – Ele estava tipo tentando se afogar, sei lá o que ele estava fazendo!! Quer perguntar para ele? Ele com certeza vai ter muito o que dizer em relação a isso. Ele gosta muito de falar sobre isso, e sobre muitas coisas!!! Ele é muito falante!

(tempo)

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BRUNO – Nossa. Quem é ele?

ANA – O quê?...

BRUNO – Esse cara aí que se tacou na água e tal. Quem é?

ANA – O meu outro irmão.

BRUNO – Mas ele não estava no casamento. Essa cerveja é muito diferente do normal.

ANA – Ele não sai de casa.

BRUNO – Não sai? Tipo não sai nunca? Que cerveja é essa?

ANA – Na verdade ele nunca fala nada também, ele praticamente não faz nada. Ele ficou mudo, mesmo. Eu não sei o que aconteceu com ele. Ele não gostava do meu pai acho. É o que eu sempre digo. O cara é coronel na vida, ele é coronel em casa, não dá pra querer só a parte boa das coisas. Mas enfim, agora o meu pai morreu faz um tempo, a minha mãe está indo para a casa de campo direto, quase não volta, a gente ficou aqui, e sobrou ele, fica aí pelos cantos o tempo inteiro, uma coisa muito triste mesmo de se ver. Se bem que ele é muito tranquilo. A gente que fica triste por ele na verdade.

BRUNO – A minha vizinha também tinha isso. Um dos filhos dela era mongoloide. Eles deixavam o menino lá o dia inteiro, amarrado no pé da mesa e tal.

ANA – Eu aprendo muito com ele. Não sei o que eu aprendo direito. Mas no fundo ele é bom, sábio e tal, sabe? Eu gosto de falar isso para me sentir melhor em relação a isso tudo, ele não tem algumas coisas, mas têm outras, tudo no mundo tem as suas vantagens e as suas desvantagens, até mesmo esse tipo de problema mental. Sabe?

BRUNO – Nossa, senti agora que você é uma ricazinha frágil que precisa de um senso de realidade, essa cerveja está gerando esse tipo de confiança estranha em mim mesmo, e eu estou sentindo agora de repente que eu sou capaz de te dar algo de meu, de te pegar, te beijar e manusear o seu corpo com a minha pegada e tudo o mais, só depende de mim, na verdade depende de você também, mas eu não posso ficar agora pensando nisso, se eu não tiver certeza você também não vai ter, eu me aproximo tentando te passar essa minha certeza, essa minha segurança, abro a boca um pouco e encosto na sua boca, sinto como você fica com os lábios meio parados, não move muito a boca, mas ao mesmo tempo não me repele, então eu abraço a sua cabeça e movo os meus lábios em volta dos seus, e eu nunca beijei alguém de uma forma tão estranha como essa.

ANA – Nossa, você me beijou agora, sem pedir antes. Ficou enfiando a língua no meio dos meus lábios, passando ela pelos meus dentes. Isso é um tipo de abuso. Eu não estou aqui dizendo que você pode fazer o que quiser com o meu corpo. Ele é meu! Eu tenho muita dificuldade com essa coisa de ser submetida, eu acho que o direito de propriedade sobre o meu corpo é muito importante, é uma coisa que para mim é uma questão de honra, eu fui criada de um jeito muito tradicional, sou filha de coronel, o meu pai me reprimiu muito, então eu gosto muito hoje em dia de fazer uso da minha liberdade com o meu corpo e me incomoda quando alguém se coloca de forma opressiva como você acabou de fazer, quando você me beijou agora há pouco sem o meu consentimento, em um impulso exclusivamente seu, com o qual eu fiz questão de não contribuir em nada, para poder me transformar em uma vítima e assim ao mesmo tempo ter direito de afirmar o que eu bem entender aqui e tal. Eu acho que existem certas coisas que gente precisa realmente acabar com elas, isso de você achar que pode dispor do meu corpo, por exemplo, é uma herança indesejada. Muita coisa pode mudar, e outras coisas podem não mudar também, outros tipos de herança é melhor manter, eu por exemplo comecei no passado a receber um soldo mensal de quatorze mil, setecentos e noventa e dois reais, por ser filha do meu pai, eu fiquei com esse direito para a minha vida inteira, até eu morrer mesmo, foi uma coisa muito boa que ele fez para mim, eu tenho muito orgulho disso, ao mesmo tempo que eu sei muito bem que o meu pai viveu uma vida de opressão, bateu em muita gente, matou muita gente, torturou e tudo o mais, isso na verdade são acusações que fazem, que eu acho injustas, porque era uma época diferente de hoje, então, não dá pra julgar assim. Ele torturou pessoas, matou e tal, mas isso não era a mesma coisa que é hoje, o que ele fez era diferente, era tudo diferente, as coisas precisariam ter outros nomes na verdade.

BRUNO – Escutei tudo isso que você falou e não sei mais o que sentir aqui. Eu também conheço essa coisa militar, só que de um outro ponto de vista, sabe? Tipo do ponto de vista de quem toma geral direto, já foi preso e tal, sabe?

ANA – Espera, você foi preso??

BRUNO – É, fui. Não tinha feito nada. Normal. É sempre assim. Eu não culpo os policiais. Eles são todos uns filhos da puta escrotos de merda, e eles gostam muito de ser assim, porque é o que se espera deles.

ANA – Eu sou do tipo que acha que nada é à toa. Gosto muito de dizer isso para uma pessoa que sente que foi injustiçada. Eu gosto muito de me igualar com essa pessoa e esfregar na cara dela essa mentira que a gente repete todo o dia. No fundo a gente é igual. A vida não é fácil para ninguém. Aguenta essa.

BRUNO – Na verdade eu não estava fazendo merda nenhuma que eu não devesse mesmo fazer. Estava só gritando umas coisas, xingando os policiais também, pulando em cima das viaturas daqueles filhas da puta do caralho, na verdade eu não estava fazendo nada disso.

ANA – Todo o mundo fala isso.

BRUNO – Eu estou falando isso porque eu estava lá, eu sei muito bem o que aconteceu, eu estava só olhando, eles viram que eu estava por ali, e que era o mais fraco, e me pegaram para bater e prender, e tal, eu não sei por que você está fazendo isso, eu queria que estivesse acontecendo uma outra coisa aqui, que a gente estivesse em uma situação bem diferente dessa, sabe?

ANA – É por isso que eu não gosto de falar dessas coisas, as pessoas não sabem conversar, você só sabe estar certo, não sabe escutar o outro lado, mas eu sempre acabo falando de qualquer modo, eu gosto de poder dar as minhas opiniões de forma muito destrutiva e de poder trucidar tudo o que você diz e sente, e depois obrigar você a aceitar que eu tenho esse ponto de vista, que eu vejo as coisas desse modo, e eu tenho mesmo muito prazer em negar qualquer tipo de diálogo quanto a isso, de negar qualquer revisão sobre o meu ponto de vista, e reivindicar que ele seja aceito pacificamente, simplesmente porque eu também tenho direito de ter opiniões sobre isso aí que você está falando, seja lá qual for o assunto, eu tenho opiniões sobre tudo porque inclusive a minha educação de qualidade me ensina a ter esse tipo de opinião sobre tudo, sobre absolutamente tudo.

BRUNO – Nossa, agora você está me acossando aqui como se eu fosse um pequeno animal indefeso. Vou atacar de volta, porque eu também sei fazer isso. Vai. Vai. VAI!!

ANA – Ai!! Sai daqui!

BRUNO – Cala a boca!

ANA – Para, caralho! PARA!

BRUNO – Cala a boca! Cala a boca filha da puta!!! VAI CARALHO! FILHA DA PUTA! FILHA DA PUTA!!!

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BRUNO – Nossa, acabei de atacar essa fêmea de uma forma que nem eu mesmo sei exatamente qual foi, ela está caída ali no chão, tossindo, engasgada e tal, essa filha da puta me fez chegar até o ponto de não suportar mais e pular no pescoço dela, e agora me arrependi um pouco porque estou achando que as minhas chances aqui com ela diminuíram muito, quase acabaram mesmo!...

JUNIOR – Que porra é essa?

DAVI – É. Que porra é essa? Ele te bateu? Você tem problema? Você bate em mulher??

BRUNO – Cara, eu não acho que bater em mulher seja necessariamente ruim.

JUNIOR – Filha da puta!! Muitas mulheres estão morrendo nesse momento por conta desse tipo de coisa!

BRUNO – Eu só ataquei ela aqui de maneira passageira, peguei o pescoço dela e comecei a enforcar e tal!...

JUNIOR – Enforcar? Tipo você vem na minha casa e começa a enforcar a minha irmã, cara!!! Eu vou chamar a polícia e você está fudido!

DAVI – Polícia o caralho! Vem cá. Segura ele aí. SEGURA!! Você enforcou ela, não foi isso? HEIN?? ASSIM, NÉ? Foi assim que você fez nela? Hein? FILHO DA PUTA! Responde!!! Agora está difícil para você responder, né?? Ele não está reagindo! Cara, você está com algum problema??? TEM PROBLEMA MENTAL? O CARA TIPO BATE EM MULHER, DEPOIS A GENTE PEGA ELE PARA DAR PORRADA E O CARA NEM TENTA FUGIR, NÃO TENTA SE DEFENDER NEM NADA!!! QUE PORRA É ESSA?? POSSO TE SOCAR MAIS, CARA? HEIN, BABACA? NÃO VAI DEFENDER MESMO? ESTÁ DUVIDANDO DA MINHA FORÇA SEU MERDA? EU TE ENFORCO ATÉ VOCÊ DESMAIAR FILHA DA PUTA!!! VAI! VAI!!!

ANA – O que é isso? Fran? FRAN!

DAVI – Que foi??

JUNIOR – Ele saiu correndo!

ANA – Francisco!

JUNIOR – Caralho, volta aqui Fran! Onde ele foi?

DAVI – Fran!!! Caralho! Você espera aí, seu bosta. Que eu vou voltar ainda.

JUNIOR – É. Espera aí! A gente ainda não terminou com você, cara!

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BRUNO – Onde ele foi?

ANA – Não sei.

BRUNO – Por que eles foram atrás?

ANA – Não sei.

BRUNO – Oi?

ANA – Não sei direito. Acho que eles têm medo que ele se mate de vez.

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BRUNO – Nossa. De repente agora eu estou em uma situação realmente muito desfavorável aqui! Não sei direito como eu cheguei a esse ponto. Estou aqui tacado em um canto dessa casa rica, todo esfolado, sentindo o meu rosto latejar, além de várias outras partes do corpo, acho que quebrei uma costela, essa fêmea rica está agora de pé na minha frente olhando para a minha cara. Não era nada disso que eu estava imaginando ao sair daquele casamento para vir para a casa dela. Naquele momento eu só estava pensando em me dar bem, porque essa mulher, essa moça mais velha, rica e tal, me olhou no meio da festa e disse, "se você quiser você pode ir lá pra casa", e isso para mim soou como, "se você quiser você pode ir comigo para o meu quarto, introduzir o pênis em mim, e tudo o mais", mas isso simplesmente não aconteceu e tudo se encaminhou para uma situação extremamente diversa daquela que eu tinha imaginado, e eu até que estou me sentindo relativamente bem, eu posso até ter levado porrada e o caralho, e isso pode parecer muito ruim, mas tudo isso é melhor do que não fazer nada, do que ter uma vida constante e sem variações, sem nenhum tipo de particularidade, como se você nem existisse, porque não existe nada que te diferencia de qualquer outra pessoa!!

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ANA – Agora eu entendi. Eu te entendi totalmente. Você é um pobre falso. Você não é pobre! Eu achei que estava aqui lidando com um pobre real, achei que eu tinha trazido para a minha casa um desses pobres, uma dessas pessoas simples, que poderia estar vendendo drogas, mas resolveu ser um lutador, ficar trabalhando até se acabar, e tal. Mas agora eu acabei de perceber, pela maneira como você ficou aqui valorizando as suas pequenas atitudes idiotas: você não é pobre coisa nenhuma. Você não é uma pessoa que não tem nada. Porque uma pessoa que não tem nada, tem tudo. E você não é uma pessoa dessas. Você tem coisas. Mas você tem bem pouco. Não é um verdadeiro pobre. É só um tipo de rico ruim, um rico com bem pouca riqueza. Você se coloca nesse lugar de pobre, você gosta de ocupar esse lugar, de quem é desfavorecido, você assume esse ponto de vista, mas você não é realmente desfavorecido. Você se incomoda muito com os privilégios que você não tem, mas não se incomoda absolutamente nada com os privilégios que você tem.

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BRUNO – Vou me retirar daqui agora. Pelo jeito eu não tenho mais nenhuma chance mesmo com você. Não é?

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BRUNO – Não é? Me confirma isso, porque está muito difícil para mim acabar de enterrar de vez essa esperança de que no fundo algo ainda vá rolar entre nós.

ANA – O quê?

BRUNO – É melhor eu ir embora né? Ou eu ainda tenho alguma chance?

ANA – Não vai não. Espera mais um pouco. Eles já estão voltando. Eu não sei o que aconteceu lá. Mas eles já estão voltando. Eu estou escutando alguns gritos. Deles. Escuta. Eles devem estar virando a esquina. Não adianta levantar rápido e tentar correr. Eles já estão nessa rua a essa altura. Espera mais um pouco. As vozes deles estão próximas já, mas ainda não dá pra saber o que estão dizendo. Mas eles estão gritando, estão correndo, estão cheios de ódio, de nojo, e de força. Estão vindo para você.

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Cena 2

CENA 2

FÁBIO – Nossa. Você está exibindo o seu torso aqui na piscina, nessa chácara da família. Nós estamos aqui nos encontrando, é um encontro da família, onde as pessoas ficam se revendo depois de décadas, etc. Eu sou o seu primo, observo o seu corpo e sinto um certo nível de prazer nisso. Esse seu corpo não é um corpo qualquer. É um verdadeiro torso de esportista vitorioso. Esse torso ainda vai conquistar muita coisa, cara!! É no fundo uma relíquia, algo que eu admiro com submissão, algo que eu queria destruir de alguma maneira. Olho para a minha barriga e percebo as ondulações, os movimentos dela, e como as dobras moles se apoiam sobre a região do pênis. Quando eu olho para o meu próprio pênis, quando ele está duro, eu sempre vejo ao mesmo tempo todo o seu entorno, que é mole e rechonchudo como se fosse cheio de pequenas almofadas de gordura embaixo da pele. Isso tudo diminui muito a minha sensação de potência, e eu imagino como seria se o meu pênis brotasse de uma superfície plana e musculosa como ele próprio, como se o meu corpo todo fosse um outro pênis também, de onde brota esse segundo pênis. É assim o seu corpo, um grande pênis, musculoso e cheio de veias, de onde eu imagino que deva brotar um outro pênis, largo e rijo. Eu não tenho nada para me orgulhar aqui, nem da minha barriga mole, nem da minha cara, nem da maneira como eu fico por aqui, nessa cidade de interior, vivendo na casa da minha mãe, jogando videogame e outras coisas do gênero, brincando com carrinhos de controle remoto especiais, que usam combustível e tudo o mais, antigamente você gostava muito de vir aqui jogar videogame porque você não tinha na sua casa, você quer jogar um pouco agora?

SANDRO – Acho que não. Faz muito tempo que eu não jogo mais esse tipo de coisa.

FÁBIO – Acho que escutei o barulho do microondas. O meu hot pocket deve estar pronto. Eu estou com fome, então vou comer um hot pocket desses, mesmo sabendo que vai ter as comidas de natal e tudo o mais, cordeiro, coisas assim que a minha mãe faz, mas mesmo assim eu vou comer esse hot pocket, que é um tipo de congelado que você coloca no microondas e ele fica pronto. É muito ruim, horrível mesmo, mas eu gosto de comer, para mim é como se eu estivesse comendo um pouco de fezes. Das minhas próprias fezes. Sabe?

SANDRO – Não sei muito bem.

FÁBIO – É. Não sei porque eu disse isso. Na verdade não tem nada a ver com fezes. Nem mesmo com as minhas próprias fezes. Eu não lembro direito do gosto das minhas próprias fezes na verdade. Deixa eu ir lá pegar o meu hot pocket, senão ele vai esfriar, e eu não gosto muito de começar a comer o hot pocket quando ele já está frio, eu prefiro começar a comer quando ele ainda está quentinho, depois ele vai esfriando, vai ficando ainda pior, e eu vou sentindo essa piora, sabe? Aí eu trago a minha guitarra também. Você ainda toca guitarra né? Violão?

SANDRO – Não. Eu tocava muito mal, então desisti.

FÁBIO – Você tocava bem, cara! Não fala assim. Você tocava bem pra caralho. Muito melhor do que eu. Outro dia eu bati o carro e dei perda total. Um filha da puta me fechou. Eu estava voltando da balada, estava muito louco, às quatro da manhã, tinha brigado com uma mina na balada, aí, bati o carro com uma puta força porque esse filha da puta me fechou totalmente, e eu derrubei um poste de luz com o carro, liguei para a minha mãe e ela foi correndo pra lá, senão eu estava preso. Na delegacia quando a gente fez o B.O., eu ainda xinguei o delegado e eles me expulsaram de lá, mas ninguém teve a manha de me pegar. Como a minha mãe é advogada, os caras sabem.

SANDRO – Que merda, hein?

FÁBIO – É. Foi meio foda. Mas não deu nada.

SANDRO – E o carro?

FÁBIO – Tinha seguro. Era o carro da minha mãe. Já estava meio velho, mesmo. Foi até bom. Ela mesma disse isso.

SANDRO – E no outro dia você brigou com a vó?

FÁBIO – Não fiz nada. Você acredita neles? Eles querem que eu seja o que? A vó também é gente, eu trato ela como gente: ela falou umas merdas, eu mandei tomar no cu.

SANDRO – O que ela falou?

FÁBIO – Falou umas merdas de igreja e tal. Não curto essas merdas de igreja.

SANDRO – Cara, a vó fala essas coisas só por costume.

FÁBIO – Foda-se. Mandei ela tomar no meio do cu dela. Foi legal pra caralho, cara! Eu virei para ela, para aquela velha filha da puta, e falei bem assim, olhando bem pra cara dela, "vai tomar no meio do seu cu, sua velha escrota!!"

SANDRO – Sério?

FÁBIO – Ela fez uma cara toda torta de velha assustada, aquela vaca.

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FÁBIO – Mas que bom que você veio dessa vez, Bruninho. Você nunca mais vem aqui. É uma forma de você me dizer que a nossa vida aqui não tem importância, você que tem projeção nacional e o caralho, e fica querendo esfregar isso na minha cara, com esse corpo aí, bem definido, corpo de academia do caralho, mesmo sem academia, vai tomar no cu, entendeu??... Vou lá buscar o meu Hot Pocket que eu ganho mais.

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FÁBIO – Pronto. Fui lá, peguei o meu pequeno hot pocket que ainda está bem quente e também trouxe a guitarra para te mostrar umas coisas, mas você nem se moveu aqui, você continua aí nessa mesma pose, como se fossem te filmar, como se você fosse uma celebridade. Mas o que você está achando daqui? Está tudo igual né? A minha vida não muda, mesmo. Eu gosto disso sabia?

SANDRO – Cara, eu acho que você com certeza mudou muito nesse meio tempo. Mas você mesmo talvez não perceba. A gente precisa aprender a se conscientizar disso, dessa transformação constante que estamos sempre vivendo, uma transformação que nunca para, que é uma coisa celular, mesmo, das moléculas e tal.

FÁBIO – Quer um pouco de hot pocket?

SANDRO – Acho que não. A natureza é uma coisa que está mudando o tempo inteiro, eu falo isso para tentar formular as coisas de tal forma que você possa se convencer de que a sua vida também tem movimento, se modifica tanto quanto a minha, para me livrar desse tipo de culpa por não ser como você.

FÁBIO – Não sei do que você está falando. Eu não participo desse tipo de consumo de ideias que você menciona, não sou um cara que curte física quântica e utiliza esses conhecimentos para aprofundar a sua auto-exploração. Eu não me auto-exploro. Não me exploro. Respeito o meu corpo, os meus limites, e os mantenho sempre exatamente iguais. Você não aceitou nem mesmo um pequeno pedaço de Hot Pocket. Você renega as minhas ofertas, não quer se misturar, não é isso??

SANDRO – Não sei se eu quero Hot Pocket agora, Fábio.

FÁBIO – Aceita. É o que eu tenho para te dar. Uma mordida de hot pocket, ou duas, alguns minutos de videogame, as músicas que eu mesmo compus na minha guitarra, que eu fico tocando às vezes no quartinho dos fundos, sozinho. Você precisa receber tudo isso e me oferecer algo em troca. Vou te mostrar uma música. Ela é muito importante para mim. É uma composição minha. Eu gosto muito dela.

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FÁBIO – E aí?

SANDRO – O que tem?

FÁBIO – Eu que compus.

SANDRO – Era uma música?

FÁBIO – Era. Não gostou?

SANDRO – Desculpa. Pensei que você estivesse afinando a guitarra.

FÁBIO – Eu estava mesmo. Mas depois veio a música.

SANDRO – A partir de que momento começou a música?

FÁBIO – Depois de eu afinar. Aí eu bati esse aqui. Depois veio essa nota. E aí, foi, foi, foi. Sabe?

SANDRO – Mais ou menos.

FÁBIO – Cara, você achou uma merda.

SANDRO – Eu não entendi direito.

FÁBIO – Vou te mostrar de novo.

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FÁBIO – E aí.

SANDRO – Nossa, foi totalmente diferente do que você tocou antes.

FÁBIO – É, eu mudei mesmo.

SANDRO – Mas não era a mesma música? Não deu para reconhecer nada!

FÁBIO – É que essa música é assim mesmo.

SANDRO – Achei legal. Estou dizendo isso mais para você não ficar tocando mais vezes, sabe? (tempo) Tem também umas passagens pequenas que parece um pouco alguma coisa, uma banda dessas.

FÁBIO – É isso mesmo! É baseada no Iron. Isso aqui.

SANDRO – É. Isso aí.

FÁBIO – Às vezes eu toco esse pedaço dessa música. É para isso mesmo. Para você escutar esses pedaços da música do Iron.

SANDRO – É. Deu para escutar mesmo. Mas o resto todo não tinha nada a ver.

FÁBIO – Nossa, você entendeu totalmente a minha ideia, cara!

SANDRO – Legal, Fábio. Agora percebi que eu realmente estou começando a não suportar mais essa conversa entre nós. Eu achei que ia passar incólume por isso, por esse contato, mas pelo jeito não vai dar para não me infectar aqui.

FÁBIO – É porque você também é como eu.

SANDRO – Como assim?

FÁBIO – No fundo você é como eu. A gente não gosta de ninguém. Né? O Felipe é diferente. Você agora quer imaginar que você é mais parecido com o Felipe. Mas você não é. O Felipe é simpático. Naturalmente simpático. As tias adoram ele. Você até está agora tentando parecer simpático, contido, mais quieto, razoável e tal, mas está o tempo todo, ao mesmo tempo, sentindo o ódio. Eu sei porque eu também sou assim. Eu só desisti de fingir. A gente detesta essas tias todas. O meu pai. A vó. A gente detesta todo o mundo, Sandro.

SANDRO – Cara, não sei se eu detesto todo o mundo.

FÁBIO – Detesta sim. Você detesta. A gente sempre foi assim. A gente é igual.

SANDRO – Você está viajando! Agora eu estou aqui meio enfiado nessa lama da sua vida e você de repente está com umas conversas estranhas que estão realmente me incomodando, e fica falando de perto, tanto que dá para sentir o cheiro desse sanduíche nojento que sai da sua boca.

FÁBIO – Começando por mim.

SANDRO – O quê?

FÁBIO – Você me detesta.

SANDRO – Eu não. Eu tenho várias memórias boas com você. Eu não te detesto. Não detesto ninguém. Eu só fico na minha, e tal! Sou do tipo mais quieto.

FÁBIO – Bruninho, você me odeia. Você odeia tudo isso. Você veio aqui, chegou mais cedo na minha casa só para ficar me olhando e me detestando, e se sentindo superior a mim e a tudo isso, mas agora você está olhando para mim e está de repente se vendo um pouco também, como se eu fosse um espelho velho e ruim, que te lembra de uma parte sua que você também odeia em você mesmo, porque você também é exatamente como eu.

SANDRO – Nossa, que bosta isso, ter que ficar sentindo essas coisas, esses incômodos, e imaginando como seria se eu tivesse ficado assim como você, e ter que ficar agora fazendo um esforço mental enorme para me lembrar de que eu não sou nada disso, eu sou um cara foda, estou totalmente encaminhado para isso, ganhei o campeonato brasileiro, cara!, não sou pouca bosta, não preciso dessas coisas!, logo mais estou aí no mundo e tudo o mais, vou embora daqui e vou ter todas essas coisas na minha vida, tudo isso para administrar, dinheiro para ganhar, comprar roupas, lidar com as mulheres que querem me dar o tempo inteiro, e tudo o mais, e você não vai ter nada a mais para lidar, só isso aqui mesmo, os seus pequenos carrinhos, jogos, e todas essas coisas de débil mental que você faz.

FÁBIO – Agora você começou a falar a verdade.

SANDRO – Cara, você fica me estimulando a ser escroto. Você quer tirar de mim o meu pior. Então toma aí. Você era um cara que era meio alegre até. Era um cara que dava uma sensação boa de estar perto. Mas agora passou a dar uma sensação horrível ficar perto de você. Eu estou falando essas coisas e vejo a sua cara me olhando e percebo que eu realmente te odeio, e percebo também o seu sorriso estranho e tenso, vendo que eu disse isso, como se fosse uma vitória para você, uma confirmação da porra da tese que você fica gastando tempo para desenvolver sobre mim, porque você realmente tem bastante tempo de sobra para ficar pensando em mim.

(tempo)

FÁBIO – Era disso que eu estava falando, Bruninho.

BRUNO – Vai se fuder.

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FÁBIO – As tias estão chegando. Elas estão vindo para cá. Mas a gente tem uns segredos em comum, que a gente vai guardar. Você odeia todo o mundo aqui nessa merda. Esse é o seu segredo. O seu tesouro. Você me deu isso agora. Eu vou te dar algo em troca.

SANDRO – Cara, isso nem é totalmente verdade.

FÁBIO – Esse é o seu tesouro, que você guardou aqui comigo. E eu te agradeço por isso. Eu também vou te mostrar o meu tesouro.

(tempo)

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FÁBIO – Olha.

SANDRO – Que é isso?

FÁBIO – Benzodiazepam.

SANDRO – Oi?

FÁBIO – É.

SANDRO – É tipo um remédio?

FÁBIO – É.

SANDRO – Você está tomando? Por que você está fazendo essa cara? Por que você está tipo sorrindo com a boca toda torta e falando de perto na minha cara?

FÁBIO – Eu vou tomar.

SANDRO – Como assim, Fábio.

FÁBIO – Cara, não finge que você não entendeu. Não finge também que você se importa. Isso aqui é um tesouro entendeu? Que eu estou te dando. Assim como você me deu o seu. Quando der meio dia eu vou tomar esses aqui. Depois eu vou entrar na piscina. Vou ficar ali. Dentro da piscina. Dentro da minha cabeça, dentro da piscina. Dez minutos depois o meu coração vai parar. E eu vou ficar ali, boiando, olhando para os ladrilhos azuis, escutando o silêncio da água. Você não gosta de afundar a cabeça na água? Eu gosto muito. Gosto muito de enfiar a cabeça na água e ficar ali dentro, no silêncio, apenas com aqueles ruídos baixos, distantes, abafados pela água, como se você estivesse muito longe, como se você estivesse mesmo escutando as coisas de um outro lugar, de uma outra dimensão. Então, é isso. Eu vou para essa outra dimensão. E vou ficar lá. É uma coisa que eu decidi faz tempo. Mas eu resolvi esperar para fazer hoje.

SANDRO – Cara, Fábio, você está louco, cara??

FÁBIO – Eu deixei para fazer hoje, porque eu sou como você, Sandro. Eu odeio isso tudo. Eu odeio demais para suportar. Antes de ir eu vou deixar um presente aqui para eles. Sacou?

SANDRO – Nossa, cara, você continua me olhando desse jeito, sorrindo e tal, como se você tivesse tido uma ideia incrível, como se você fosse mesmo fazer essa merda. Mas você não vai fazer essa merda. Você está tipo só enchendo o meu saco, é só mais uma brincadeira idiota sua.

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FÁBIO – A tia está vindo. Finge que você não ouviu o que eu disse. Talvez você até se esqueça disso com o tempo passando. Vai se distrair comendo carne, talvez bebendo um pouco, e tal. E de repente você vai me ver pular na água, ou escutar alguém gritando, em algum momento você vai tipo se lembrar disso aqui que eu te disse e isso vai parecer um tipo de sonho estranho, você vai sentir por um instante a sensação de estar dentro de um pesadelo, mas depois, com o tempo, você vai ver que fez a coisa certa em não reagir absolutamente a isso que eu te contei. Você deixou que eu decidisse as coisas do meu jeito. Oi, tia. Ela já está sorrindo como quem vai falar com você sobre o tempo que ela ficou sem te ver. Eu vou até o meu quarto para dormir um pouco. Para esperar a hora certa.

SANDRO – O quê? Não, espera... Fábio?...

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SANDRO – Oi, Tia.

Cena 3

CENA 3

SILVIA – Estamos aqui há muito tempo deitados pelos cantos. Essa música está repetindo há muito tempo e já não temos mais forças para lidar com isso. Não é fácil se levantar de um sofá como esses, ou do chão, com uma música assim. Era a música preferida da Lila, e nós vamos escutar isso sem parar, até os nossos ouvidos caírem das nossas cabeças.

IGOR – Sim. É exatamente isso o que estamos fazendo. Estamos morrendo aqui. Eu digo isso de maneira metafórica. É uma metáfora. Morrer. É uma metáfora de alguma coisa. É muito bom dizer isso. Estamos todos morrendo. Agora mesmo. Eu estou morrendo. Acho que não é metáfora nenhuma, é tipo uma realidade, uma coisa que está acontecendo aos poucos... Sabe?... Nossa, é como se de repente tudo tivesse ficado absolutamente claro e tranquilo para mim agora, essa coisa de estar meio morto, meio vivo, isso fez um sentido maravilhoso por alguns instantes, eu senti um lapso de potência, eu poderia ter me levantado daqui e saído correndo por aí de felicidade, mas de repente esqueci totalmente de onde vinha essa tranquilidade toda, e agora não consigo mais lembrar do que eu estava pensando, era isso, uma coisa de estar meio morta já, isso era muito bom para mim porque de repente era algo que me aproximava de novo da Lila, mas agora não consigo reatar aquele lapso de tranquilidade e calma mais e estou fadada a me petrificar de novo na minha própria ansiedade.

CLARA – É porque são só umas reações químicas. Não importa tanto o que você pensa, nem o que você diz. Você só tem que respirar direito.

IGOR – Cara, não viaja.

CLARA – Vai tomar no teu cu!

IGOR – Nossa, o que eu fiz?

CLARA – Jogou no lixo o que eu disse. Estou falando aqui uma coisa que eu estudei, eu estudo essa merda! Você pode achar um lixo, uma bosta, mas eu estudo, eu vivo dessa porra, de terapia holística e o caralho, ganho dinheiro com isso! Bem pouco dinheiro! Um pouquinho de dinheiro que dá para pagar metade dos meus gastos. A outra metade a minha mãe paga. Eu não estou afim de ser desrespeitada no meu trabalho. Mesmo que não seja um trabalho muito rentável nem nada. Na verdade eu não estou mais trabalhando com isso agora, desde o mês passado. Mas isso não muda nada!

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SILVIA – O que a gente vai fazer agora?

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SILVIA – Hein? Vamos decidir os nossos próximos passos. Vamos colocar isso em discussão aqui. Vamos pedir uma pizza.

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SILVIA – Cara, vocês não dizem nada! Para vocês tanto faz! É muito foda isso! A gente está sem perspectivas aqui!

JONAS – Tá.

SILVIA – De quê?

JONAS – Meia calabresa, meia alguma coisa aí.

CLARA – Meia o quê?

IGOR – Sei lá, queijo?

JONAS – Queijo? Tipo, "me vê uma pizza de queijo"?

IGOR – Sei lá.

JONAS – Cara, tem pizza de todo o tipo de queijo. Não rola ligar na pizzaria e pedir uma pizza de queijo, caralho!

IGOR – Pede de aliche então.

CLARA – Não gosto muito de aliche.

JONAS – Então vamos pedir baiana, sabe? Ou caipira. Que tem milho e tal? Ou sei lá, de banana. De camarão. Foda-se!

CLARA – Não gosto muito de camarão. Ainda mais na pizza.

JONAS – Nunca vi uma pizza dessas.

SILVIA – Pede inteira de calabresa então!

CLARA – Tá, pode ser.

IGOR – Beleza. Liga lá.

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JONAS – Alô?

DANIEL – Espera. Inteira de calabresa não dá.

SILVIA – Então de quê, Daniel?

DANIEL – Inteira de calabresa não.

JONAS – Só um instante. Que porra. Então fala a merda do sabor.

DANIEL – Tanto faz.

SILVIA – Tá. Portuguesa.

DANIEL – Não. Portuguesa também não.

CLARA – Que saco, pede qualquer coisa! Meia aliche então!

DANIEL – Também não pode.

IGOR – Vai tomar no cu, Daniel! Que porra de "não pode"!!!

DANIEL – A Lila não comia, cara.

IGOR – Ah.

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JONAS – Cara, desculpa. Mas a Lila não vai comer a pizza.

DANIEL – Oi? Repete o que você disse, Jonas.

JONAS – A Lila não vai comer a pizza.

DANIEL – ELE REPETIU! ELE REPETIU MESMO!!

CLARA – Jonas, para com isso.

JONAS – ...mas não é verdade?

DANIEL – CARA, JONAS, EU ESTOU MESMO COM MUITA VONTADE DE ENFIAR A MÃO NA TUA CARA, ENTENDEU?, DE VERDADE, ACHO QUE EU NUNCA TIVE TANTA VONTADE DE FAZER ISSO, EU QUERO MUITO MESMO, FECHAR ESSA MINHA MÃO AQUI, E SOCAR ELA BEM NO MEIO DA TUA CARA, SEU FILHA DA PUTA, VOCÊ NÃO TEM NOÇÃO DE COMO EU QUERO ISSO!!!

SILVIA – Para, Jonas.

JONAS – Tá, desculpa. É que eu não entendi direito... A Lila não vai comer mesmo essa merda! Ela não vai comer mais porra nenhuma inclusive, cara!

DANIEL – FILHO DA PUTA!!! FILHO DA PUTA DO CARALHO!

IGOR – Calma Daniel!!! Para cara!

SILVIA – O QUE É ISSO!

CLARA – PARA PORRA! PARA CARALHO!!!

DANIEL – VAI TOMAR NO CU! VAI TOMAR NO CU!!!

IGOR – Para Dani. Deixa ele.

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IGOR – Deixa ele.

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JONAS – Nossa. Você me bateu mesmo, cara. Meteu a mão na minha cara. Doeu, cara! Doeu mesmo. E aí, funcionou para você?? PORQUE PRA MIM NÃO FEZ NENHUMA PORRA DE UMA DIFERENÇA!!! PRA MIM A LILA VAI CONTINUAR NÃO COMENDO A MERDA DA PIZZA, CARA!!! ELA TAMBÉM VAI CONTINUAR NÃO DIZENDO NADA, VAI CONTINUAR SEM OPINAR SOBRE ESSA DISCUSSÃO TAMBÉM!

IGOR – Para de provocar ele.

DANIEL –Vamos pedir a porra da pizza. Pede do que vocês quiserem. Eu vou lá fora um pouco.

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CAROL – Nossa. Tudo o que vocês falam é merda. Absolutamente tudo.

SILVIA – Você não está dormindo? Você está tipo deitada aí, de olho fechado e tal. Está dormindo. Se você está dormindo, você fica quieta.

CAROL – Não estava dormindo. Estava com os olhos fechados e estava escutando todas as merdas que vocês estavam falando, e não abri os olhos ainda porque até agora não teve nada que valesse a pena.

IGOR – Você estava tipo fingindo que estava dormindo?

CAROL – Na verdade eu estava o tempo todo tentando dormir aqui. Mas não estava conseguindo. Estou com frio. Clara, você tem um cobertor aí?

CLARA – Tenho.

CAROL – Obrigada. Você é muito gentil. Eu gosto muito de você. Você é a única pessoa de que eu gosto aqui. Estou aqui por conta dessa outra pessoa que nós tínhamos em comum, mas de alguma forma agora, na ausência dela, eu vejo que nós não temos muito mais nada em comum, e no fundo mesmo ela não era algo que nós tínhamos em comum, porque ela não era ela.

SILVIA – Nossa, como você é chata. Você vai ficar até quando aí deitada falando merda?

CAROL – Não sei. Não decidi ainda.

DANIEL – Por que você disse isso sobre ela? Não gostei do que você disse. Eu estou mesmo fazendo esse papel de namorado dela, embora eu fosse um namorado recente, no fundo eu nem sei se ela me chamaria de namorado se você pudesse perguntar agora, mas eu aproveito que ela morreu e que ela não pode mais evitar isso, para me colocar assim, como um tipo de defensor da memória dela, coisas do tipo; eu não gostei disso aí que você falou sobre ela, ela não gostaria disso, eu sei disso porque eu tinha uma relação íntima com ela e tudo o mais.

CAROL – Do quê?

DANIEL – De tudo o que você falou. Isso é muito violento. Vocês todos ficam agora falando dela, mas ela não está mais aqui para se defender.

CAROL – Tudo bem. É assim mesmo. Nós estamos todos aqui como se fôssemos uma família reunida, brigando pelas migalhas de uma herança estranha que não sabemos direito qual é.

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SILVIA – Nenhum de vocês está querendo olhar para o real disso tudo. Ela não queria estar aqui. A gente está se reunindo aqui por conta dela, e tudo, ela é um tipo de amiga em comum, a gente está lembrando dela, e tal, e isso é uma tristeza para nós. Mas essa tristeza é nossa. Não é dela. Ela simplesmente não queria mais estar aqui. Ela não estava mesmo com a menor vontade de estar aqui, então, a gente realmente deveria parar de ficar aqui sentindo pena, querendo imaginar o que ela faria se ela ainda estivesse aqui e o caralho, porque a realidade é que ela não está aqui simplesmente porque ela claramente achava isso tudo uma merda completa, isso tudo mesmo, em geral, tudo isso que vocês falaram, ela REALMENTE ACHAVA QUE NADA DISSO VALIA A PENA E QUE ERA MELHOR SE RETIRAR, NÃO DESSA FORMA CÍNICA E MIMADA QUE VOCÊ DIZ, MAS REALMENTE, PROFUNDAMENTE, CHEIA DE ÓDIO, DE NOJO E DE DOR, ELA NEGOU TUDO ISSO AQUI, ELA NÃO QUERIA NADA DISSO, VAMOS PARAR DE FICAR AQUI NOS PORTANDO COMO SE ELA PUDESSE ESTAR AQUI, COMO SE ELA TIVESSE SIDO IMPEDIDA DISSO POR ALGUM TIPO DE ACASO, OU POR ALGUM ACONTECIMENTO NATURAL!!!

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DANIEL – Eles disseram que não dá para ter certeza absoluta...

SILVIA – AH, NÃO. NÃO!

DANIEL – ...mas foi o que eles disseram...

SILVIA – NÃO, CARA. NÃO.

IGOR – É. Não sei se dá pra falar isso de uma forma tão definitiva.

SILVIA – É, NÃO DÁ!!! REALMENTE NÃO TEM NADA DE DEFINITIVO AQUI. NADA É DEFINITIVO, NÃO É ISSO!? A PORRA DA VIDA É FEITA DE MOMENTOS! TUDO É PASSAGEIRO, NÃO É ISSO??? É TIPO UMA PASSAGEM PELO MUNDO E O CARALHO!!! TUDO SE TRANSFORMA! VAI TOMAR NO MEIO DO SEU CU!!!

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JONAS – Alguém quer?

IGOR – Você tinha dito que não ia beber.

JONAS – Mudei de ideia. Vou beber. Vou beber até cair de bêbado. Vou vomitar por aqui também, dormir tacado por aqui, sei lá. Quando os seus pais voltam mesmo?

CLARA – Depois de amanhã.

JONAS – Vou tentar ir embora antes disso. Eu limpo o que eu sujar, também.

CLARA – Tudo bem. Segunda tem empregada acho. Não sei direito. Detesto essa coisa de ter empregada, de saber o dia que ela vem, de saber que dia é hoje, que dia é amanhã, de saber que a porra da empregada vem e limpa as coisas!!! Não preciso de empregada nenhuma, eu só quero o meu quartinho sujo, fechado, onde eu não preciso ficar sabendo que amanhã é o dia que vem a empregada e o caralho!!! Mas ela vem mesmo assim. Ela entra por aquela porta e limpa as coisas, e fica andando por aí, cuidando das coisas da casa! A minha mãe também vem, entra na casa, atrapalha totalmente a minha vida. Ela chega domingo à noite. Como dói dizer isso. Domingo à noite. Depois de amanhã. Como dói contar os dias e as horas, saber que elas vão passar, vão passar por cima da gente, esmagar as nossas vidas sem nenhuma compaixão.

JONAS – A gente tem bastante tempo antes disso.

CLARA – É, né? A gente tem muito tempo. Temos tempo o bastante para sentirmos que é infinito.

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CAROL – Por que vocês ficaram quietos de repente?

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CLARA – Nada. De repente a gente ficou quieto. A gente ficou aqui quieto. Olhando em volta. Aconteceu isso.

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JONAS – Eu ia fazer uma coisa. Eu ia tomar uma atitude aqui. Ia ser uma coisa que ia realmente modificar o meu lugar aqui, ia modificar a minha sensação em torno disso tudo!

CAROL – Você tinha dito que ia beber.

JONAS – Ah, é. Era isso.

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DANIEL – Nossa, acho que eu estou passando meio mal. Eu não tenho ideia do que eu estou fazendo aqui!! Eu não conheço vocês. Eu nunca vi vocês na minha vida direito! Eu tinha uma coisa com a Lila. Era só ela que me entendia aqui! Essa sensação que eu estou tendo agora, na verdade eu já tinha isso até mesmo quando ela estava por perto, quando a gente estava naquelas casas lá, no meio do mato, tendo que buscar água no rio e o caralho!!! E eu percebia que vocês estavam acostumados com aquilo, vocês cresceram ali, os seus pais criaram aquele lugar, aquela fazenda coletiva onde vocês têm as casas de vocês, e tudo o mais, e vocês estavam todos tranquilos e sabendo viver ali, sabendo se divertir em harmonia e tudo isso, e eu confiei em vocês, confiei que essa vida de vocês era maravilhosa e tudo o mais, uma coisa mesmo que não existe em nenhum lugar, e tal, e de repente a Lila se suicidou no meio dessa porra, no meio da porra da fazendo comunitária dos seus pais, é isso?? E aí agora vocês estão aí tipo, "nossa, que pena", e tal??? Caralho! Estava tudo errado, TUDO ERRADO PRA CARALHO!!! PUTA MERDA!!!

IGOR – Nossa. Ele está pirando.

SILVIA – É. Você está pirando. Vai tomar um banho.

JONAS – É, vem cá. Espera. Espera!

DANIEL – SAI, CARA!!! VOU METER A MÃO DE NOVO NA TUA CARA!!

IGOR – CALMA DANI! SEGURA AÍ!

DANIEL – O que é isso caralho?? Que banho?? Estou falando de outra coisa aqui!!! Vocês não dão valor para a Lila!!! Não do jeito que ela merece!!!

CLARA – É sério. Vem cá. A gente vai te ajudar a se acalmar.

DANIEL – Como assim?? ME LARGA CARALHO!

CLARA – Calma cara! A gente sabe bem como é isso! Você está pirando entendeu? A gente mete você no banho e já era!!! É o melhor jeito de lidar com isso.

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IGOR – Lá na casa da Lila. Foi foda para mim.

SILVIA – O quê?

IGOR – Na verdade desde antes. Eu fui para lá de ônibus e tudo, tive que brigar com a minha mãe para sair de casa, peguei um dinheiro escondido, peguei o ônibus e fui. O ônibus estava lotado, então eu tive que ir sentado no chão, no meio das cadeiras, fui lá para te encontrar, mesmo sabendo que você nem estava me esperando direito, foram os momentos mais tristes da minha vida até agora, enquanto eu escutava umas músicas e olhava as montanhas, sentado no chão do ônibus, sem saber se você estava mesmo querendo que eu fosse. E aí eu cheguei lá e você não estava mesmo nem aí para a minha presença.

(tempo)

Bom, pelo menos você me deixou dormir na sua barraca, mas depois eu fiquei sabendo que você também tinha beijado o Jonathan. Aquele cara lá.

SILVIA – Jonathas.

IGOR – Esse cara.

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CAROL – Nossa, fiquei com pena de você.

IGOR – Não estava falando com você.

CAROL – Você foi tipo atrás dela, de ônibus, passou frio e se fudeu, gastou dinheiro, chegou lá e ela ficou com outro cara, e tal. Caralho!

IGOR – Totalmente! É o que eu estou falando.

SILVIA –Eu só deixei você ir. Você queria muito ir e tal, eu não fiz nada, só deixei você ir, e gostei muito de ter você por lá atrás de mim, querendo muito me comer, aí eu fui e beijei o Jonathas, e na verdade até peguei no pau dele. Eu sabia que você estava no banheiro, puxei ele pra fora, dei a volta no bar e me encostei na parede, puxei ele pra cima de mim, ele começou a roçar o corpo em mim e enfiar a língua na minha boca, e eu peguei o pau dele e puxei para fora da calça, e fiquei segurando assim, eu estava fazendo isso, sabendo que você estava do outro lado da parede, dentro do bar, me procurando e tal, enquanto eu estava ali enrolando a língua na língua do Jonathas, segurando o pau dele e sentindo o seu corpo me pressionar contra a parede.

CAROL – Cara, você é tipo histérica.

SILVIA – Do que você está falando? Você acha que pode tachar uma pessoa assim?

IGOR – Espera!... Silvia?...

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CAROL – Nossa. Ela é totalmente histérica.

IGOR – Quando ela fala essas coisas é como se ela enfiasse uma faca na minha barriga e começasse a me cortar, sabe? Do tipo, "eu estava do outro lado da parede com o pau do cara na mão", e tal.

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...e é como se eu pudesse ficar olhando ela fazer isso, e fosse bom ficar olhando ela fazer isso. Como se eu observasse mesmo, assim, "olha, ela acabou de perfurar o fígado", visse a lâmina me cortando, e fosse meio bom também, como se essa dor também fizesse um pouquinho de cócegas e me desse um tipo de curiosidade estranha. Sabe?

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CAROL – Nossa. Da próxima vez você pode tentar seguir ela e olhar ela agarrando o outro cara mais de perto. Talvez seja ainda melhor para você. Para mim isso é bem nojento na verdade. Vocês dois estão nessa piração juntos. Eu acho isso totalmente doente.

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IGOR – ...você tipo disse que tem alguma espécie de interesse em mim, é isso?

CAROL – Disse exatamente o contrário disso.

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IGOR – Nossa, você disse isso agora mas a sua cara está me dizendo que você tem interesse em mim. De repente eu estou sentindo isso com uma clareza muito estranha que eu não sei de onde vem, não sei se vem da sua cara para mim, ou se parte de mim para ela, e volta de novo...

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SILVIA – Vocês estavam se agarrando? Não precisa fazer essa cara estranha, como se fosse uma coisa totalmente inesperada que vocês se agarrassem e tudo o mais, e de qualquer forma eu também já estava cansada dessa história toda, eu até tive muita vontade de fazer um esforço para gostar de você, mas isso não acontecia, e agora eu vou me sentir como se no fundo eu estivesse aqui perdendo uma oportunidade imensa de me aproximar de um cara que realmente me entende, ou algo do tipo, o que é uma mentira completa, mas eu vou ficar agora me sentindo mal, e tudo o mais, e isso para mim é meio bom, como se essa dor que eu estou tentando sentir agora me servisse de medida, de base mesmo, sabe? Obrigado por me entregar isso, essa perda, esse simulacro de sensação de perda, eu estou aqui procurando sentir como se eu tivesse te perdido, eu te perdi antes mesmo de te ter, essa é uma experiência de sofrimento que também é muito importante para uma pessoa se formar de maneira sólida, saber perder um amor, assim como perder uma amiga, isso também é foda e é importante para uma pessoa, saber perder uma amiga e tal, principalmente quando essas coisas são só histórias que eu conto para mim mesma ou coisas que alguém faz por mim, como a minha melhor amiga que se suicidou, e dessa forma eu vou fingindo que estou vivendo um monte de experiências na vida sem que eu tenha que viver realmente nenhuma delas e continue preservada, conservada, pensando sempre ao mesmo tempo na minha carreira, na organização da minha vida, porque eu quero ter filhos e quero conseguir me manter financeiramente com algum conforto, e vocês todos vão perceber um dia que a minha atitude aparentemente covarde sempre foi a única que realmente lidou com algo de verdadeiro aqui, porque tudo o que vocês estão fazendo é o tempo inteiro levar as suas fantasias a sério demais, e principalmente a Lila foi quem fez isso de maneira mais clara e evidente, e por isso ela foi ao mesmo tempo a mais covarde e a mais corajosa de todos nós.

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CAROL – Cadê ele?

JONAS – Depois de muito choro e tal conseguimos enfiar ele no chuveiro, ele está lá dentro agora, de roupa, chorando e tudo o mais

IGOR – De roupa?

JONAS – Não quis tirar.

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DANIEL – Filhas da puta!!! Vocês são todos uns filhas da puta! Vocês que mataram ela.

SILVIA – Nossa. Ele está tipo pirando mesmo.

JONAS – Vou beber mais. Uma pessoa se matou. Acabou para ela. Mas para mim continua.

CLARA – Que coisa mais triste. Tudo isso.

IGOR – Vou tocar uma música.

CAROL – Mas você toca muito mal.

IGOR – Tudo bem.

JONAS – Cara, você está tipo animado, querendo tocar uma música e o caralho. É isso?

IGOR – É. Eu realmente fiquei de repente animado aqui.

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CAROL – Nossa. Não dá nem para entender que música é. Você toca mal, mesmo.

IGOR – É, eu toco mal. Na verdade eu não faço nada muito bem.

CAROL – É. Dá pra ver mesmo. Eu digo isso e observo a maneira como você bate nas cordas do violão, sem nenhuma habilidade, e alguma coisa nisso me chama atenção, porque você continua batendo da mesma forma, mesmo sabendo que o som que provém disso é muito desagradável, você continua sentindo que a sua simples intenção de tocar algo aqui é o bastante, e como você acha isso passa a ser mesmo o bastante, e passa a ser reconfortante estar ao seu lado em um momento como esse, por conta dessa confiança que não tem base real nenhuma.

CLARA – Caralho, você vai molhar o chão inteiro!

DANIEL – Essa música! Cara, essa música é muito foda. Essa era a verdadeira música da Lila!!

JONAS – Você nem conhecia ela direito, cara.

DANIEL – Ela foi tipo o amor da minha vida. Cala a boca!

CLARA – Nossa, você está totalmente encharcado, no meio da sala, chorando, molhando o chão, e o caralho! Faz isso mesmo! Ferra com a porra do piso, foda-se, vamos todos fazer isso, chorar, cantar e depois dormir!!!

DANIEL – Vamos todos cantar essa porra o mais alto que a gente conseguir, e aí pode ser que alguma coisa aconteça aqui, pode ser mesmo que alguma coisa nos una em torno disso que simplesmente desapareceu definitivamente, vocês são todos pequenos e mesquinhos, só pensam em vocês próprios, mas ela não era isso!!! Ela precisa do que nós temos de melhor, ela precisa do que nós temos de pior, ela quer que a gente continue vivendo e olhe para isso tudo e sinta nojo, e tenha raiva dela também, e continue vivendo, morra aos poucos e lentamente, de velhice, sem que nada de importante tenha se modificado até lá, mas ela quer, ela está pedindo, continuem vivendo, ainda que seja assim, e talvez não exista mesmo uma outra forma de fazer isso!!!

SILVIA – Isso. Vamos cantar aqui. Vamos unir as nossas vozes em um só coro ainda uma última vez, para depois pararmos de cantar e voltarmos para as nossas vidas, para as nossas dificuldades, para as nossas pequenas conquistas pessoais e profissionais, que é o que realmente nos aguarda, ainda que não queiramos aceitar isso de jeito nenhum – mas eu quero muito aceitar isso tudo o quanto antes.

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DANIEL – Vai, começa de novo. Dá o primeiro acorde. Vai. Todo o mundo.

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