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Dna / Dennis Kelly

DNA

Dennis Kelly

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do

Projeto Conexões Teatro Jovem

e fez parte do seu portfólio no ano de 2015.

Qualquer montagem fora do Projeto deverá  ser

negociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos autorais.

 

Contato Dennis Kelly: info@casarotto.co.uk

PERSONAGENS

tradução Soledad Yunge

PERSONAGENS:

Marcos e Joana

Lena e Felipe

Luís, João e Daniel,

Ricardo, Cátia e Bruno

Um menino.

** Os nomes e gênero das personagens são apenas sugestões e podem ser mudados para atender a montagem.

A ação se passa em uma rua, num parque e em uma mata.

Um

Um

Uma rua. Marcos e Joana

JOANA Morto?

MARCOS É.

JOANA O que? Morto?

MARCOS É

JOANA Tipo morto, morto.

MARCOS Sim.

JOANA morto pra valer, não morto vivo?

MARCOS Não morto vivo, é.

JOANA Você tem certeza?

MARCOS Sim.

JOANA Quer dizer, não tem nenhum

MARCOS Não

JOANA erro ou

MARCOS Nenhum erro

JOANA não é uma piada

MARCOS não é uma piada.

JOANA porque não é engraçado.

MARCOS não é engraçado porque não é uma piada. Se fosse uma piada seria engraçado.

JOANA Não tá escondido?

MARCOS Escondido não, morto.

JOANA não

MARCOS Morto.

JOANA Aiiii.

MARCOS É.

JOANA Meu deus

MARCOS É.

JOANA Meu deus

MARCOS É isso.

Pausa.

JOANA O que é que a gente vai fazer?

***

Um parque. Lena e Felipe, Felipe tomando sorvete.

LENA O que você tá pensando?

Sem resposta.

Não, não me fala, desculpa, é babaca, é tão babaca- Você pode me dizer, cê sabe. Você pode falar comigo. Eu não vou julgar, o que for. O que for que você, cê sabe, eu não vou, eu não vou...

Sou eu?

Não que eu-

Quer dizer, não tem importância se você não está ou esteve, mesmo, então-

Você tá pensando em mim?

Sem resposta

Que coisas boas? Felipe? Ou...

Quer dizer, é uma coisa negativa, você tá pensando uma coisa negativa sobre-

Não que eu ligue... Eu não ligo, Felipe, eu não, isso não, eu não tô nem aí. Cê sabe. Eu não...

O que, tipo eu falo demais? É isso? Que eu falo demais, você, sentado aí em total silêncio pensando “a Lena fala demais”, eu gostaria que ela cala-se a boca de vez em quando. É isso, é isso que você é porque você não, cê sabe, julgar, cê sabe, porque tudo bem, eu sei. Aí, eu admito, eu admito, eu falo demais, então me dá um tiro. Então me mata, Felipe, liga pra polícia, me prende, arranca meus dentes com um alicate enferrujado, eu falo muito, que crime, que pecado, que mega catástrofe, estúpido, mau, ridículo, porque você não é perfeito, sabia Felipe. Tá bom? Taí. Eu falei, você não é...

Você é meio...

Você é...

Pausa. Ela senta.

LENA Você tem nojo de mim? Eu tenho. Não, eu tenho. Não discute porque tá tudo bem, tá tudo bem, eu não vou, cê sabe, ou sei lá, não é o colapso da minha, porque eu tenho, eu poderia ir embora daqui, tem os amigos, eu tenho amigos, quero dizer, tudo bem, eu não tenho amigos, não exatamente, eu não tenho, mas eu poderia, se eu quisesse, se eu quisesse, se fossem perfeitas, se fossem as circunstâncias perfeitas, cê sabe. Então não começa, porque você também não tem, não é tipo como se você fosse, cê sabe, o tal, cê sabe, popular, você sabe, você não tem, você sabe, você não tem, você sabe, você não tem, mas isso é, isso é diferente, não é, eu acho que é, é sim, não diz que não é, poxa, não diz, você só iria deixar a gente envergonhado porque é diferente, é diferente porque você não tá nem aí. Não é. Sentado aí. Sentado aí, todo...

Você não tem medo. Nada te dá medo, taí, eu falei; com medo. Medo, Felipe. Eu tô com medo, eles me dão medo, esse lugar, todo mundo, o medo, o medo que todos daqui, e eu não sou a única, eu não sou a única, Felipe, eu sou apenas a única que assume, o medo de todo mundo que mora aqui, o terror animal, me dá medo, tá legal, eu falei e não tenho vergonha. Tá certo, tenho vergonha mas não tenho vergonha de ter vergonha, Felipe, me dá pelo menos crédito por isso, obrigada.

Todo mundo tá com medo.

Não só eu.

Pausa.

A gente tá junto.

A gente precisa um do outro.

Então não deixa tudo...

Você precisa de mim tanto quanto...

Não deixa isso tudo...

Pausa curta.

O que você tá pensando?

Entram Joana e Marcos.

Pausa.

MARCOS A gente precisa falar com vocês.

LENA Ihh. Merda.

***

Numa mata. Luís, João e Daniel.

LUÍS Fodeu.

JOÃO Não, não, não tá, Luis, não tá

LUÍS Tamo fodido.

JOÃO Não Luis, a gente não tá…não é…a gente não tá...nada tá

LUÍS Está sim.

JOÃO Não, não, não, olha, aí eu vou ter que, eu tenho mesmo que, você vai ter que me ouvir desta vez e você vai ter que acreditar em mim. Tá tudo bem, tá tudo bem.

LUÍS Bem?

JOÃO Não bem, não

DANIEL Bem?

JOÃO Não exatamente bem, tá legal, tem razão, quis dizer que as coisas estão mal, as coisas estão um pouco, tá legal, tá certo, eu não estou tentando esconder o, isso aqui é complicado, é uma

LUÍS Complicado?

JOÃO Situação complicada, mas não é, porque de fato o que você está dizendo é muito negativo, e isso é…

Olha só, eu não tomei conta das coisas antes?

LUÍS Isso aqui é diferente.

JOÃO Luis, você tem medo de alguém na escola?

LUÍS Você?

JOÃO Além de mim.

LUÍS Não.

JOÃO É isso aí.

LUÍS Do Ricardo, talvez

JOÃO É isso, exatamente, é isso que eu estou dizendo – Ricardo, você tem medo do, não tem…? – quis dizer que você pode andar por qualquer corredor da – acho que o Ricardo não – qualquer corredor da escola e você sabe ninguém vai te te encher o saco e se você quiser algo é seu e ninguém te enche o saco e todo mundo te respeita e todo mundo tem medo de você e de quem fez isso, quero dizer eu não tô me achando, mas quem fez isso acontecer?

LUÍS Você.

JOÃO Obrigado, então as coisas tão feias?

LUÍS É.

JOÃO Ricardo? Quer dizer você realmente?

DANIEL Eu não posso me envolver nisto. Eu vou ser um dentista.

LUÍS Isso aqui é diferente, João. Isso aqui

JOÃO Tá legal, é um pouco

LUÍS Isso aqui é realmente sério.

DANIEL Os dentistas não se envolvem com essascoisas. Eu tenho um plano. Eu tenho um plano João, eu fiz planos e isto não...

JOÃO É um pouco sério, mas não vamos, eu quero dizer vamos lá, não vamos dramatizar a, a, a

LUÍS Ele está morto.

JOÃO A gravidade das… Tá bem, sim, tudo bem, tem razão, mas

DANIEL Isso não é parte do plano. Faculdade de odonto é parte do plano, média 9 é parte do plano, gente morta não é parte do plano, isso não é faculdade de odonto.

LUÍS Ela tá morto, João.

JOÃO Tá legal, eu não estou negando, eu tô negando? não, eu

LUÍS Ele está morto.

JOÃO Tá, para de ficar repetindo.

DANIEL Isto é o oposto da faculdade de odonto.

LUÍS Mas ele está morto.

JOÃO Bem você acabou de, você tá dizendo de novo, eu não acabei de –

LUÍS Porque ele está morto, João, está morto, morto é o que ele está, então a gente tem que usar essa palavra para –

JOÃO Tudo bem. Regra nova; essa palavra foi proibida.

Tempo.

LUÍS Qual, morto?

JOÃO É.

DANIEL Proibida?

JOÃO É. Proibida. Desculpa aí.

LUÍS Você não pode proibir uma palavra.

JOÃO E se alguém disser ela eu vou ter que, cê sabe, morder sua cara. Ou algo assim.

DANIEL Como é que pode proibir uma palavra?

JOÃO Então diz a palavra.

Pausa.

Diz e vamos ver o que acontece.

Não dizem nada.

Escuta, a gente tem que ficar junto. Tem que confiar um no outro e acreditar um no outro. Eu tô tentando ajudar. Eu tô tentando manter todo mundo junto.

Entram Ricardo com Cátia e Bruno. Cátia sorrindo, Bruno chorando.

Pausa.

RICARDO Ele tá morto.

JOÃO Tá bom, isso é....olha só agora eu tô realmente ficando meio puto, não usa essa palavra.

RICARDO O quê?

JOÃO Nin- guém diz essa palavra, tá certo, nin-guém.

RICARDO Que palavra?

CÁTIA Isso aqui é loucura, hum?

JOÃO Você sabe.

CÁTIA Falando em loucura. Quero dizer, é meio que legal também, não é não?

RICARDO Quê, “morto”?

JOÃO Não fala de novo, Ricardo, ou eu vou

CÁTIA Melhor do que a vidinha de todo dia.

RICARDO O que?

JOÃO Eu vou

RICARDO O que?

JOÃO Eu vou

Eu vou te machucar, pra ser bem claro.

Beat.

RICARDO Você vai me machucar?

JOÃO Vou.

RICARDO Ah, é?

JOÃO É, se você usar essa palavra.

CÁTIA Quer dizer, eu não tô dizendo que é uma coisa boa, mas de certa maneira é.

DANIEL Cala a boca, Cátia.

CÁTIA Cala a boca você.

JOÃO Eu tô tentando manter todo mundo unido. Desde que eu vim pra esta escola eu não tô tentando manter todo mundo unido? As coisas não melhoraram? Pra nós? Quero dizer, não pra eles, não lá fora, mas pra gente? Todo mundo não quer ser como a gente, vir aqui pro parque? Não vale a pena manter isso?

Ninguém diz nada. Ricardo dá um passo adiante, um pouco hesitante.

RICARDO Você não devia me ameaçar, João.

JOÃO Desculpa, acho que eu não ouvi direito.

RICARDO Eu só estou dizendo. Eu só estou dizendo, eu acabei de vir a pé até aqui. Eu estava com esses dois. Eu vim a pé da escola até aqui com esses dois, com ele chorando e com ela agindo esquisito e eu acabei de chegar aqui e você fica me ameaçando, você não devia me ameaçar, você não devia me ameaçar, João.

Pausa.

JOÃO Senão o quê?

RICARDO O quê?

JOÃO Não, quero dizer, você sabe, ou o quê?

RICARDO Bem...

JOÃO Porque eu tenho interesse em saber.

DANIEL Ele só está dizendo, João.

JOÃO Você tá do lado dele, Daniel?

DANIEL Não, eu só tô dizendo que ele tá dizendo.

CÁTIA Cala a boca, Daniel.

DANIEL Cala a boca você.

JOÃO Não manda a Cátia calar a boca, Daniel, isso é bem, não...

DANIEL Eu não tô falando pra ela-

CÁTIA Ele está do lado do Ricardo.

DANIEL Eu não!

JOÃO Você tá Daniel? Você tá do lado do Ricardo?

DANIEL Não-

CÁTIA Ele tá.

RICARDO O que você quer dizer do meu lado, não tem-

JOÃO Agora você tem um lado, Ricardo?

RICARDO Não, não, não tem-

JOÃO Porque isso é um pouco, é isso que você tem?

DANIEL João, eu não estou-

JOÃO Porque se você tem um lado isso quer dizer que você não está do meu lado e se você não está do meu lado isso quer dizer que você está se colocando contra mim e eu achei que a gente tinha superado essa besteira.

RICARDO A gente superou, a gente-

JOÃO Eu pensei que a gente era brother agora.

RICARDO A gente é, a gente é brother, a gente-

JOÃO Então se eu e o Ricardo somos amigos agora, e a gente é e toda aquela besteira acabou, o que é verdade, e você está do lado de alguém, Daniel, então você está do seu próprio lado, o que é muito, bem, para ser honesto, é muito imbecil e perigoso.

DANIEL Não, você entendeu tudo errado, isso não é -

JOÃO Você tá do meu lado?

DANIEL Sim, eu estou do seu lado!

JOÃO E isso quer dizer que você quer...?

DANIEL Eu quero ficar calmo. Eu não quero falar nada, exatamente como você, você está certo, você está certo, João.

JOÃO Então de que porra você tá falando, Cátia?

CÁTIA Eu-

JOÃO Você tá do meu lado? Com o Ricardo e o Daniel? Você tá do meu lado, Cátia?

CÁTIA Estou.

JOÃO Bom. Luís?

LUÍS Fala.

JOÃO Você tá do nosso lado Luís?

LUÍS Sim, João.

JOÃO Você tem certeza?

LUÍS Sim, eu-

JOÃO Só faltou você Bruno. Seu merdinha chorão.

Pausa curta. Bruno para de chorar. Levanta os olhos.

BRUNO Eu acho que a gente devia contar pra alguém.

João começa a andar na direção de Bruno. Marcos e Joana entram com Lena e Felipe. Felipe está tomando uma Coca-Cola. João para. Volta para onde estava.

JOÃO Eu estou achando tudo isto bem estressante. Sabe o quê?

Tem muito stress encima de mim. Vocês não deviam colocar tanto stress em cima de mim.

Lena caminha para frente.

LENA Posso só dizer João, que a gente não fez nada. Primeiro eu quero dizer isso, mas se a gente fez, João, se fez uma coisa que seja, e a gente não fez, mas se fez então a gente fez junto. Qualquer coisa que a gente tenha feito, a gente fez, eu e o Felipe, não foi só o Felipe, se é isso que você tá pensando, se você tiver pensando que pode ter sido ele sozinho, sem mim, não foi assim, nós somos totalmente, eu sou tão responsável quanto ele, tanto quanto o Felipe, mas a gente não fez porque–

João coloca um dedo nos lábios dela. Ela fica em silêncio.

JOÃO Você contou pra eles?

MARCOS Não.

JOÃO Maravilha... Tem uma coisa que eu não preciso fazer?

Pausa curta.

JOANA Então você quer que a gente conte pra eles?

JOÃO Quero! Por favor.

Ele tira seu dedo dos lábios de Lena.

MARCOS É o Arthur. Ele tá...

Quer dizer a gente estava só se divertindo, não tava, a gente tava, cê sabe...Você conhece o Arthur, você sabe como ele é, então a gente tava tipo, bem, tá legal, zoando, tipo zoando. Você sabe como ele é, ela tava tipo chegando junto

JOANA Tentando participar

MARCOS É, tentando participar do, é, é, então a gente tava se divertindo

JOANA com ele

MARCOS É, com ele, quer dizer, ela também tava rindo, ver até onde ele ia...a gente fez ele comer umas folhas.

JOANA Umas enormes, folhas sujas do chão, ele comeu, simplesmente comeu

MARCOS Simplesmente comeu, todo mundo tava

JOANA chorando

MARCOS A gente tava chorando de rir, não tava

JOANA O Arthur também, ele tava

MARCOS Ah foi, o Arthur tava, ele tava rindo mais do que qualquer um de nós.

JOANA Maluco.

MARCOS Maluco.

JOANA completamente

MARCOS completamente maluco

JOANA um monte de folhas, tá ligado João

MARCOS se matando de rir, tá ligado João

JOANA Ele botou fogo nas próprias meias!

MARCOS Foi, foi, ele fez, é isso mesmo, ele botou fogo nelas

JOANA Qualquer coisa, ele faria, uma comédia

MARCOS A gente fez ele dar uns goles de vodca

JOANA Dava pra ver que ele tava assustado

MARCOS Ah, ele tava aterrorizado, ela tava completamente, mas cê sabe, fingindo, cê sabe, fingindo que já tinha feito antes, tipo homenzão, fingindo que ele

JOANA Você sabe como ele é, ele é

MARCOS Faz qualquer coisa. E você pensa “será que ele faz qualquer coisa”? O que ele não faria?”

JOANA Deixar que a gente batesse nele.

MARCOS ele tava rindo

JOANA Na cara

MARCOS Ele tava rindo.

JOANA no começo

MARCOS É, no começo ele tava, quero dizer que a gente exagerou um pouco, tá certo, meia hora, quarenta minutos

JOANA Quero dizer ele ainda tava brincando o tempo todo, mas

MARCOS Dava pra ver

JOANA Ele não tava pra valer

MARCOS medo

JOANA bem

MARCOS Você não quer admitir, você sabe como ele é, Felipe...

JOANA Apagou uns cigarros nele.

MARCOS Brincando, a gente tava

JOANA Braços, mãos, na cara

MARCOS Se divertindo, de verdade, ele tava rindo

JOANA E chorando, as solas dos pés

MARCOS Ou chorando, tipo isso, um pouco de cada

JOANA Fez ele atravessar a estrada correndo

MARCOS Você tá pensando o que esse maluco, e com a vodca fazendo você se sentir meio, você sabe, você tá se divertindo, todos juntos, o que mais esse maluco vai fazer, a gente pode fazer ele, a gente pode fazer ele-

JOANA Foi nessa hora que eu fui pra casa

MARCOS Fazer qualquer coisa, é isso, só porque você tinha que ir.

JOANA Eu não tava lá quando-

MARCOS Só porque você tinha que ir, você estaria lá se não fosse isso, você fez todo o....

Tempo.

A gente subiu a grade. Você sabe, aquele poço lá em cima na colina. Só um buraco na verdade, um buraco com uma grade em cima, cobrindo ele, só para ver se ele pularia o portão, é isso e ele pulou, e nós pensamos, cê sabe, ele escalou a cerca que nós não pensamos que escalaria então andou, você sabe, andou em cima da grade, Arthur, anda em cima da, e ele andou, ele andou em cima, cê sabe, um pouco agitado e tal mas ele está andando em cima da grade e todos nós estamos rindo e ele está com medo porque se você escorrega, quer dizer só tem uma escuridão embaixo de você, só tem tipo 5 metros de largura então, mas podem ser centenas de metros de escuridão, sei lá, e ele tá fazendo, ele andou na grade. Ele tá em cima da grade. Ele está. E alguém joga uma pedra nele. Não pra machucar. Só para dar risada.

E vocês tinham que ver a cara dele, quero dizer o medo, o, era tão, tinha que rir, a expressão, o medo...então todos jogamos nele. Rindo. E a sua cara, está só nos fazendo rir mais e mais, e elas estão cada vez mais perto. E uma bateu na sua cabeça. E o choque na sua cara é tão...engraçado. E nós só...

Só...jogando pedras nele, com muita força e rindo e ele escorrega...

E ele cai.

Na...

Na ah...

Então ele...

Então ele...

Então ele-

JOÃO Morto. Ele está morto.

A Cátia falou que você é inteligente

Então? O que a gente faz?

Lena vai dizer algo, mas não sai nada.

Silêncio.

Mais silêncio.

Felipe coloca a lata de Coca-Cola cuidadosamente no chão.

FELIPE Cátia, Daniel, Marcos, vocês vão na casa do Arthur, esperam a mãe dele sair, entram na casa

DANIEL O quê?

FELIPE Por uma janela do andar de cima assim, pra ninguém ver. Entram, vão até o quarto dele, acham um par de sapatos e uma peça de roupa, tipo uma malha, não encostem na malha, isso é muito importante, não encostem na malha, mas vocês têm que colocar no saco plástico sem tocar nela

CÁTIA Que saco plástico?

FELIPE Os sacos de plástico que vocês vão comprar no caminho, não é para usar o primeiro do rolo, usem o terceiro ou quarto, nem pensem em usar um saco de lixo largado em casa porque vai ser um pesadelo de DNA. Ricardo, você leva o Bruno até o Diretor, diz pra ele que achou o Bruno chorando no banheiro, perguntou o que tinha acontecido e quando ele te contou, você trouxe ele aqui.

RICARDO Eu? Mas eu odeio ele!

FELIPE Bruno, você chora

RICARDO Eu com o Bruno?

FELIPE E você conta pra eles que um homem mostrou o pau pra você no parque

BRUNO Qu...Que?

FELIPE Perto da ponte, na semana passada, homem branco e gordo, tipo 1m80, pouco cabelo e uniforme de carteiro, olhos tristes, fala suave

DANIEL Quem é esse?

FELIPE O homem que mostrou o pau pro Bruno no parque, por favor presta atenção, eu tô inventando isso aqui enquanto vou falando

DANIEL Como eram os dentes dele?

FELIPE Feios, muito feios.

DANIEL Foi o que eu pensei.

FELIPE Cátia, Marcos e Joana vocês pegam os sapatos, Cátia você coloca os sapatos, e você entrar no parque pela entrada do Portão 2

CÁTIA Qual é o portão 2?

MARCOS Perto do Carrefour.

FELIPE Marcos você entra pelo portão 1 com a Joana nas tuas costas

MARCOS Ele tá zoando?

FELIPE Vocês dois juntos devem somar o peso do carteiro gordo com os dentes ruins, vocês entram no parque, não coloca ela no chão a não ser no asfalto ou num tronco de árvore, nunca andando na terra. Você encontra com a Cátia perto da ponte, caminha um pouco, vão embora pela saída do portão 2

MARCOS Perto do Carrefour.

FELIPE Marcos e Daniel vocês encontram com eles lá, mas no caminho encontrem uma rua sem movimento, vocês esperam até que estejam apenas vocês e um homem, caminham na frente dele e quando ultrapassarem bem ele vocês deixam a malha cair no chão. O homem pega do chão, corre atrás de vocês cobrindo ela com DNA e devolve, tem que garantir que ele coloca a malha dentro do saco plástico, digam que estão levando o saco com roupas para doar. Levem para o portão 2, rasguem um pouco,enfiem perto de uma cerca, vão todos pra casa e esperem um ou dois dias até que o Arthur seja declarado oficialmente desaparecido e aí João vai e diz que acha que viu o Arthur com um homem gordo de uniforme perto do Carrefour mas não tem certeza absoluta, eles vão pensar que ele foi sequestrado, vão ter investigações, polícia, velório e se todos ficarem de bico fechado, a gente vai ficar bem.

Alguma pergunta?

Todos encaram Felipe boquiabertos. Ele se abaixa. Pega sua Coca-Cola. Começa a beber.

***

Um parque. Lena e Felipe sentados. Pausa.

LENA Aparentemente bonobos são o nosso parente mais próximo. Por anos as pessoas acharam que eram os chimpanzés, mas não são, eles são completamente diferentes. Os chimpas são malvados. Eles se matam entre eles, você sabia disso? Eles matam e às vezes torturam o outro pra subir na estrutura social do grupo. Um chimpanzé fica de repente fora do grupo e antes que posa perceber o que está acontecendo ele é perseguido ate a morte pelo grupo, as vezes por meses. Por anos acreditamos que os chimpas eram os nossos parentes mais próximos, mas agora dizem que são os bonobos. Os bonobos são exatamente o oposto dos chimpanzés. Quando um bonobo desconhecido se aproxima do grupo, todos os outros bonobos do grupo se aproximam e dizem; E aê cara? Tudo beleza? o que você tá fazendo por estas bandas? Vem aqui conhecer minha família, a gente pode comer umas formigas.”

E se um bonobo machuca as mãos, ao contrário dos chimpanzés que provavelmente cortariam a mão fora com os próprios dentes, os bonobos cuidam do machucado e ficam tristes porque tem um bonobo que está sentindo dor. Eu vi no programa. Uma tristeza em olhos tão inteligentes. Empatia. Isso é o que os bonobos tem. É impressionante mesmo, quer dizer, eles são exatamente como os chimpanzés, mas um a mínima diferença no DNA deles...

A mulher tava falando que se tivéssemos descoberto os bonobos antes dos chimpanzés a compreensão que teríamos de nós mesmos seria bem diferente.

Você não tá nem aí, não é? Eu poderia estar falando chinês e você nem teria percebido. Como é que você consegue? Você é incrível. Você é de outro mundo. As vezes eu acho que você não é humano. Eu as vezes fico imaginando o que você faria se eu me matasse bem aqui na sua frente. O que você faria? O que você faria, Felipe?

Nenhuma resposta.

Felipe? O que você faria? Felipe?

Ainda sem resposta.

De repente ela pega seu próprio pescoço.

Eu vou fazer!

Ela aperta.

Tô falando serio! Eu vou fazer isso...

.

Nenhuma resposta. Ela se estrangula, seu rosto vai ficando vermelho.

Ela cai de joelhos com o esforço.

Felipe assiste.

Ela parece estar sentindo muita dor. Range e aperta os dentes.

Ela estrangula até ficar deitada e prostrada no chão.

(sem fôlego) Felipe! Isso é tudo...

Ela para, ofegante.

Felipe abre o saco de batatas e começa a comer. Lena se levanta, senta ao lado do Felipe.

Felipe continua comendo.

Claro, eles fodem pra cacete. Bonobos. O tempo todo.

Sexo maluco. Sexo, sexo, sexo. Sexo, sexo, sexo. Sexo, sexo, sexo, sexo constante, alienatório, no mundo dos bonobos transar é tipo como dizer “gostei dos seus sapatos”. Troca de casais, homem com mulher, mulher com homem, mulher com mulher, homem com homem, pais, mães, crianças, sexo oral, masturbação grupal, entre raças, bestialidade, de tudo mesmo, tipo uma orgia, quando os bonobos pegam fogo, na verdade é meio nojento.

Pausa.

Mas isso pra você é bonobos.

Pausa.

Agora a coisa tá feia, Felipe. Não sei como isso vai dar certo.

Agora tá feio.

Dois

Dois

Uma rua. Joana e Marcos.

Pausa.

JOANA O quê?

MARCOS Ele não vai.

JOANA Como assim ele não vai?

MARCOS Ele não vai.

JOANA Ele não vai?

MARCOS Isso.

JOANA Foi isso que ele disse?

MARCOS Foi.

JOANA Ele disse que não vai?

MARCOS É, ele disse que não, ele não...

JOANA O que?

MARCOS Vai.

Pausa curta.

JOANA Ele pirou?

MARCOS eu sei.

JOANA Ele tá maluco?

MARCOS eu sei.

JOANA Ele tá zoando?

MARCOS Eu sei.

JOANA Não, isso foi uma pergunta.

MARCOS Ele não tá brincando, ele não vai, ele disse que não vai, eu disse pra ele que tinha que ir, ele disse que não vai, “Eu não vou”, ele disse.

JOANA Foi isso que ele disse?

MARCOS Foi isso que ele disse tô dizendo que foi isso que ele disse.

JOANA Fodeu.

MARCOS É isso.

Pausa curta.

JOANA O que é que a gente vai fazer?

***

Na mata. Felipe e Lena, Felipe come aos poucos um tubo de Mentos. Lena tem um tupperware no colo.

LENA Você é feliz?

Não, não precisa responder isso, cara, desculpa, o que tem de errado comigo, desculpa-

Você é?

Não, eu tô só pensando. Quer dizer, o que é feliz, o que essa tal felicidade, quem disse que a gente tem que ser feliz, feliz é o nosso estado natural e qualquer desvio desse estado é visto como um fracasso, o que faz com que você fique mais infeliz então você tem que fazer de conta que é ainda mais feliz, o que não funciona porque as pessoas percebem que você está fingindo o que faz elas estranharem e você pode ver que elas veem que você está fingindo que é feliz e o estranhamento delas faz com que fique ainda mais infeliz e você tem que fingir que é ainda mais feliz, é um pesadelo. É tipo lixo nuclear ou o aquecimento global.

Tempo.

Não é Felipe? Felipe? não é, tipo lixo...

Felipe não responde

É, você sabe, você sabe que é assim, você sabe mais que eu. Nem adianta dizer mais, você sabe. As pessoas ficam todas chateadas de estarem poluindo a ordem da natureza? Isso quando este planeta está cozinhando lava fundida com uma fina massa no topo e tem uns poucos quilômetros de atmosfera se segurando para não cair? Quer dizer, por favor, não me fala de toda essa historia, monóxido de carbono? Monóxido de carbono, Felipe? e olha pro resto do universo, Vênus, Felipe. Tem um, olha pra Vênus, o que diz de Vênus, quente o suficiente para derreter chumbo ou Saturno com oceanos de nitrogênio liquido, quero dizer estrelas, Felipe, um bilhão de reações nucleares por segundo, para ser honesta é tudo quente ou gelado, então, então, então...não. A vida é que estraga a ordem natural das coisas. Nós é que somos a anomalia.

Mas essa é a beleza, não é Felipe? Eu não poderia dizer isto a mais ninguém que me responderiam “essa é uma visão bem sinistra do mundo, Lena, mas você consegue ver a beleza, e é por isso que eu posso falar com você, porque você consegue ver a incrível preciosa beleza e fragilidade da realidade e o mesmo cabe pra felicidade, você pode aplicar a mesma teoria para felicidade, então nem começa Felipe, não vem aqui dando toda a, cê sabe, toda a, toda a ...

Pausa curta.

Você consegue lembra do momento mais feliz de sua vida?

Pausa curta. Felipe come uma bala.

Eu sei qual é o meu. Eu sei qual é o meu momento mais feliz. Terça-feira da semana passada. Aquele pôr do sol. Você lembra daquele pôr do sol? Lembra? Você não lembra, não é? Meu deus, você não lembra.

Ele não diz nada.

Ela abre o tupperware.

Mostra para o Felipe.

É o Joca. Eu matei ele. Tirei ele da gaiola. Coloquei a ponta de uma chave de fenda na sua cabeça e bati com um martelo. Por que você acha que eu fiz isso. Por que você acha que eu fiz isso?

Felipe dá de ombros.

Nem eu. Também não sei.

Ela fecha a tampa.

Mas, tudo está bem melhor. De verdade, eu acho que está. Todo mundo está junto. Tá todo mundo mais feliz. Lembra do mês passado, o Dani ameaçando de matar a Cátia? Bom, ontem eu vi que ele tava mostrando o celular pra ela, como se fossem mega amigos. Semana passada o Ricardo convidou o Marcos pra sua festa e disse que ele podia convidar um amigo, qualquer amigo que quisesse. Você acredita nisso? Ricardo e Marcos? É. Tá todo mundo mais feliz. Está transbordando na escola, transbordando, a tristeza, a tristeza está fazendo todo mundo feliz.

Falaram que parece que o João ficou maluco, não sai mais do seu quarto. Meio estranho. Talvez seja isso que faça as pessoas felizes. Talvez seja isso de ter algo para resolver e superar. Juntos. Você acha que é isso que está acontecendo. A gente é assim tão simples?

Onde vai parar? Só passaram 4 dias mas tudo mudou tanto.

Pausa

Os pais do Arthur estavam de novo na televisão ontem a noite.

Felipe olha pra frente.

É. Outro apelo.

Pro homem gordo com dente ruim.

O que é que a gente fez, Felipe?

Marcos e Joana entram.

JOANA A gente precisa conversar.

***

Na mata. Felipe e Lena, Luís e Daniel. Felipe com um muffin.

LENA O quê?

DANIEL Eles acharam...

Eles...

Bem, eles acharam-

LUÍS O homem.

DANIEL É, eles acharam o homem.

LENA Eles acharam o homem?

DANIEL É.

LENA Eles acharam o homem?

DANIEL Sim.

LENA Ai, meu Deus.

LUÍS Isso mesmo.

LENA Ai, meu deus.

LUÍS Foi isso que a gente pensou, a gente pensou isso, não foi Daniel.

DANIEL Foi, foi isso.

LENA Vocês têm certeza? Quero dizer vocês têm...

DANIEL Certeza. Ele está sob custódia agora. Está sendo interrogado.

LENA Mas como, quer dizer quem, como, quem, quem é, quem é, como?

LUÍS Sei lá.

LENA Quem é ele?

LUÍS Ele é o homem que sequestrou o Arthur.

LENA Certo. Não

LUÍS É.

LENA Não.

DANIEL Sim.

LENA Não, não, é, não, na verdade, porque esse homem, o homem que, na verdade ele não, quer dizer eu não tô sendo pentelha ou algo assim, mas o homem que sequestrou o Arthur na verdade não existe, não é. Bem, ele existe?

LUÍS Não. Mas pegaram ele.

LENA Você sabe, quer dizer ele não existe, ele não...Felipe? Algum...algum pensamento? Alguma palavra, algum comentário, alguma...ideia, qualquer, qualquer, qualquer...coisa? Qualquer uma? Quer dizer isso aqui, isso aqui, não é, isso aqui, é isso? Merda. Ai, merda.

DANIEL Ele confere com a descrição. Carteiro gordo, pouco cabelo, parece que seus dentes são horríveis.

LENA Mas isso é tão

LUÍS É. Foi isso que a gente pensou.

LENA a gente só, não foi isso, Felipe, a gente só, a gente só, quer dizer, você só...

DANIEL O que é que a gente vai fazer?

LUÍS A gente tá fodido.

LENA Não estamos...

LUÍS A gente-

LENA Não, não, desculpa, não estamos, estamos Felipe, quero dizer estamos, não, estamos bem.

DANIEL Eles estão procurando o Bruno.

LENA Por que?

DANIEL Porque ele pode identificar o cara.

LENA Não, não pode.

LUÍS Porque ele viu o cara no mato.

LENA Ele não

LUÍS Ele viu, ele-

LENA Não ele não viu porque aquele não era o homem no mato porque não tinha um homem no mato. Cadê o Bruno?

DANIEL Escondido. A Joana e o Marcos foram procurar ele.

LUÍS Ele tá se cagando.

LENA Quer dizer...o quê, eles simplesmente pegaram esse sujeito, viram ele e disseram “você parece suspeito, você é um assassino porque está usando um uniforme de carteiro’?”

DANIEL Bem, também tem o lance dos dentes.

LENA Você não vai pra cadeia porque os seus dentes são feios.

LUÍS E se ele for pra cadeia?

LENA Ele não vai para cadeia.

LUÍS Você acabou de dizer-

LENA Ele não vai ser acusado por isso porque ele não...

DANIEL Esse tipo de coisa pega, tá sabendo.

LENA Olha só, todo mundo, todo mundo calmo, ok. É assim, não é Felipe. Felipe, é assim não é, quero dizer as coisas estão, tudo está, bem, melhor e não tá todo mundo mais, vocês sabem, feliz e tal, então vamos, por favor, vamos-

DANIEL Como é que eu vou pegar referências?

LUÍS A gente tá fodido.

LENA Não estamos-

DANIEL Precisa ter três referências pro curso de odonto, como é que eu vou pegar referências?

Ricardo entra com Cátia.

RICARDO A gente tá voltando da delegacia. Tá cheio de repórteres.

CÁTIA Foi o máximo.

RICARDO Foi uma merda. Felipe, você ficou sabendo?

LENA A gente ficou.

CÁTIA Eles quiseram me entrevistar.

RICARDO Você ficou sabendo? Você sabe?

CÁTIA Não deu tempo, mas eu vou voltar

RICARDO Então você sabe que eles pegaram o cara?

CÁTIA apareceu na televisão

LENA Como é que eles podem pegar alguém que não existe?

RICARDO Sei lá, Lena.

LENA Porque isso é impossível.

RICARDO por que não vai você e diz isso pra eles? Por que não aparece lá na delegacia e diz “dá licença, mas aquele carteiro gordo com os dentes fodidos na verdade não existe, então por que vocês não soltam ele?”

LENA sarcasmo, isso é tão baixo

CÁTIA Talvez eles até me deem grana pra isso, vocês acham que eu deveria pedir uma grana?

LUÍS Ele vai pra cadeia.

LENA Marcos, eles não vão mandar o cara pra cadeia apenas porque ele atende uma descrição eles precisam de mais que isso, precisam de fibras, precisam de amostras, precisam de provas.

RICARDO Provas de DNA.

LENA Exatamente, eles precisam de DNA-

RICARDO Não, eles têm a prova de DNA.

Tempo.

LENA O quê?

RICARDO Ele atende à descrição, mas eles têm prova de DNA que liga ele ao crime.

LENA DN...Do que é que você tá falando?

RICARDO A gente conversou com um repórter. Eles compararam a prova de DNA que acharam no moletom com os registros da polícia e acharam esse cara, esse cara que responde perfeitamente a descrição.

LENA Isso é impossível.

RICARDO Bem, é isso que aconteceu.

LENA Não, porque, a gente inventou essa descrição e o DNA que eles acharam é aleatório-

Pausa curta. Ele se vira para a Cátia.

Cátia? Cátia?

Pausa. Todos encaram Cátia.

CÁTIA Você mandou pegar uma prova de DNA. A gente pegou uma prova de DNA. A gente fez o que você mandou.

LENA Certo.

Ok.

Só um minuto.

Onde vocês pegaram essa prova de DNA?

CÁTIA De um homem, como vocês disseram.

Pausa curta.

Um homem lá da triagem dos correios.

Eles a encaram.

LENA O quê?

CÁTIA Bem, a gente pensou, você sabe, quer dizer vocês nos deram uma descrição então a gente pensou, bem, eu pensei, você sabe, em mostrar iniciativa, vamos procurar um gordo careca com dentes feios.

Eles a encaram.

Tinha vários assim.

DANIEL Ai meu deus.

CÁTIA O quê?

LUÍS Ai meu deus.

CÁTIA A gente mostrou...iniciativa, nós-

LENA E quem mandou vocês fazerem isso?

CÁTIA Ricardo, a gente mostrou iniciativa.

RICARDO Essa é a coisa mais idiota-

DANIEL Ai, Jesus.

CÁTIA Por quê?

LENA Por quê? Porque agora tem um homem na cadeia que está ligado a um crime inexistente, e que bate com a descrição que o Bruno deu.

LUÍS Ai, Jesus Cristo

CÁTIA Mas isso não é o que...

LENA Não, Cátia, isso não é o que a gente queria.

RICARDO O que a gente queria era encobrir o que tinha acontecido, não botar a culpa em outra pessoa.

LUÍS A gente tá fodido.

LENA É. Estamos todos provavelmente...isso aqui é um pesadelo.

DANIEL Não podemos deixar que eles achem que ele é o cara. Quero dizer, eu não posso estar ligado com um troço como este, não seria certo.

LUÍS E se ele for pra cadeia?

RICARDO E se gente for pra cadeia?

LENA É, agora eu acho, estamos todos provavelmente um pouco, bem, fodidos.

Joana e Marcos entram com Bruno. Bruno está chorando.

BRUNO Eu não vou entrar.

RICARDO Seu bosta, Marcos.

MARCOS Foi ideia dela!

LUÍS Marcos, seu bosta.

BRUNO Eu não vou na delegacia.

JOANA Ele tem que ir. Estão procurando ele.

BRUNO Eu não posso ir. Já foi ruim falar com eles antes, dizer o que eu disse, mas eu não posso fazer de novo.

JOANA Eles tão procurando ele por toda parte. Eles querem que ele identifique o cara.

BRUNO Eu não posso identificar ele, eu não posso entrar lá, não me faz entra lá, eu não vou entrar lá.

DANIEL Isto aqui é terrível

BRUNO Eu não posso encarar isso. Eles olham pra mim. Eles olham pra mim como se eu estivesse mentindo e isso me faz chorar. Eu não suporto o jeito que eles olham pra mim. E aí, porque eu choro, eles pensam que eu tô falando a verdade, mas eu tô chorando porque eu tô mentindo e eu me sinto péssimo por dentro.

LUÍS A gente vai ter que contar pra eles.

LENA Talvez a gente possa não fazer nada?

DANIEL A gente não pode não fazer nada, eles querem o Bruno.

BRUNO Eu não vou entrar lá.

LENA Felipe?

Não responde.

Felipe?

Pausa. Felipe anda até o Bruno e coloca sua mão no ombro dele.

FELIPE Esta é uma péssima situação. A gente não queria está situação. Mas está é a nossa situação. Não era pra ser assim. Mas é assim que é.

Pausa curta.

Você vai entrar lá.

BRUNO Não.

FELIPE Sim.

BRUNO Não, Felipe-

FELIPE Vai, sim. Desculpa. Você tem que entrar lá. Ou a gente vai te levar até o poço.

Pausa.

A gente vai te jogar lá dentro.

RICARDO Hum, Felipe.

DANIEL Ele tá falando sério?

LENA Ele sempre fala sério.

FELIPE A gente vai te levar até o poço agora. Vamos te pegar pelos braços. Pelas pernas. E a gente vai te balançar por cima da grade. A gente vai atirar pedra em você até você cair lá dentro. Você vai cair. Você vai cair no frio. Na escuridão. Você vai cair encima do corpo do Arthur e os dois vão apodrecer juntos.

Pausa curta.

Agora a gente tá ferrado. Precisamos da tua ajuda. Se você não ajudar a gente vai te matar. Você vai nos ajudar?

Pausa.

Bruno balança a cabeça afirmativamente.

Ok. Você vai entrar lá. O Ricardo vai te levar.

RICARDO Eu de novo não.

FELIPE O Ricardo vai te levar. Você dá uma olhada no cara e diz que é ele. Você diz que é o cara no mato. É isso que você faz. Ok?

Devagar, Bruno consente com a cabeça.

E vai cuidar da sua vida.

Todos os outros ficam calmos. Ficam de bico calado. Não falam pra ninguém ou vamos todos pra cadeia. Vamos cada um cuidar da sua vida.

Ele começa a comer um salgado. Todos o encaram.

***

No mato. Felipe e Lena. Felipe cutucando os dentes. Silêncio. De repente Lena pula, chocada.

LENA Uau! Uau, uau, uau…!

Felipe. Nenhuma reação de Felipe.

Eu acabei de ter um déjà vu, mas desses bem fortes, eu só...

e você estava...

eu estava...

quer dizer a gente só estava aqui e, e...

eu estava sentada assim e ...

Uau. Eu já estive aqui antes, Felipe. Felipe?

Felipe continua cutucando os dentes. Lena observa, depois explode.

É exatamente isso que você fez quando eu disse Felipe! Eu sabia que você a fazer isso, eu disse Felipe e você cutucou o dente, Felipe, você apenas continuou cutucando os dentes! Meu deus. Essa aqui deve ser a real. Talvez eu já tive aqui antes. Talvez tudo isto aqui já aconteceu. Felipe? Você acha que tudo isto já aconteceu antes? Eu sei o que você vai fazer na depois. Eu posso ver, eu sei, eu sei, você vai...você vai...você vai...fazer nada!

Felipe não faz nada.

Yes! Yes, yes, yes, yes, yes! Viu? Isso é incrível, isso é, o mundo acabou de mudar, a realidade não é o que pensamos, Felipe talvez, isto não seja real, talvez estejamos presos numa espécie de ...pera ai, péra ai, um pássaro vai...um bem-te-vi, um bem-te-vi vai pousar naquela pedra...agora!

Nada acontece.

Agora!

Ainda nada acontece.

A qualquer minuto...agora!

Novamente, nada acontece. Lena desanima. Senta-se com Felipe.

Olha pro céu. Você já viu um céu como esse? Eu nunca vi um céu parecido com esse. A gente nasceu numa época estranha. Nenhuma foi parecida com está.

Pausa.

Você acha que é possível mudar as coisas? eu sei, eu sei, mas eu sinto que desta vez...sei lá, desta vez...sinto que é um momento importante. Você acha que sempre em qualquer época sempre as pessoas se sentem assim? Você acha que a gente está condenado a viver como os que vierem antes de nós?

Felipe?

Não responde.

Felipe?

Felipe?

Felipe?

Felipe?

Felipe?

Felipe?

Felipe?

Felipe?

Felipe?

Pausa.

FELIPE!

Felipe se vira devagar para Lena.

Se você mudar uma coisa pode mudar o mundo.

Você acredita nisso?

FELIPE Não.

LENA Tá certo.

Bem eu acredito.

Acredito, Felipe.

Pausa curta.

Felipe?

Três

Três

Uma rua. Joana e Marcos.

JOANA Okay. Okay. Okay.

Pausa curta.

Okay.

Não.

MARCOS Sim.

JOANA não, não

MARCOS sim

JOANA Não. De jeito nenhum, isso

MARCOS eu sei

JOANA isso é

MARCOS eu sei, eu sei

JOANA e você tem...isto é....quero dizer você tem...não viu errado ou...

MARCOS não.

JOANA porque isto é

MARCOS é isso que eu estou dizendo

JOANA isso é muito

MARCOS Sei, é, sei

JOANA realmente muito

MARCOS Exatamente

JOANA Você tem certeza?

MARCOS Sim.

JOANA Onde?

MARCOS No parque...

JOANA No parque?

MARCOS Cátia encontrou ele num parque

JOANA Cátia?

MARCOS É

JOANA A Cátia achou ele...?

MARCOS Foi, ela

JOANA No parque?

MARCOS Sim.

Tempo.

JOANA Cátia achou ele no parque?

MARCOS Sim.

JOANA Ai.

MARCOS Eu sei.

JOANA Eu não...

MARCOS Eu sei, eu sei.

JOANA Isto é....

MARCOS É.

JOANA Alguém mais sabe?

MARCOS Você e eu. E a Cátia. Por enquanto.

JOANA Certo.

Certo.

Pausa.

Certo.

***

Na mata. Felipe sentado com um saco. Tira um prato. Coloca um pão em cima. Tira um pote de requeijão e presunto. Pega uma faca. Lena aparece. Está carregando uma mala. Ele a encara.

LENA Eu vou indo. Tô fora daqui, eu vou, é isso ai. Eu vou fugir, Felipe.

Felipe não diz nada.

Pra onde eu vou? Não sei. Pra onde o universo decidir que eu deva estar. É um mundo grande, Felipe, bem maior que você, bem maior que você e eu, bem maior que tudo isto aqui, estas pessoas, sentadas aqui, muito maior, muito maior.

Pausa. Felipe começa a passar requeijão no pão.

Para. Nenhuma palavra. Não tem sentido, então... Qual é o sentido? “por que você vai, sou eu, somos nós, é o que nós fizemos, é o que estamos nos tornando, por que Lena, sou eu, é a incapacidade de nunca dizer exatamente o que você quer dizer?” Não tem sentido, Felipe. Então nem tente. Tô fora daqui. Eu fui. Sou parte da história, tô num avião, tô me mudando, tô descobrindo, tô, sayonara baby, sayonara Felipe e hello descoberta e, é não tente me impedir, porque, saída de cena pela esquerda Lena, agora mesmo. Agora mesmo.

Felipe para de passar requeijão no pão.

Pega o presunto.

Começa a colocar o presunto no pão.

Agora mesmo. Agora mesmo, Felipe, agora, porra...Eu tô falando sério! Eu vou mesmo, mesmo...

Pausa. Felipe continua com o pão.

Você não vai me impedir, não é. Você não está nem pensando em me impedir. Você não está nem pensando em pensar em me impedir. A única coisa que existe no seu cérebro neste instante é o pão. Seu cérebro é completamente pão, obsessão pão e talvez um pouco de requeijão, não sei como você consegue. Eu te admiro tanto.

Felipe decide que o pão precisa de mais presunto. Lena desanima. Ela deixa cair a mala e se senta com Felipe.

Você viu a Joana no velório do Arthur? Rios de lágrimas. Foi maravilhoso, todos se sentiram maravilhosos, eu me senti péssima claro, mas todo mundo se sentiu maravilhosamente bem. É incrível. A mudança. Este lugar. Você é um produtor de milagres. Tá todo mundo feliz. Você sabia disso? Você percebeu isso? A Cátia apareceu na televisão. O clip passou em todos os canais. Ela é tipo uma celebridade, tem um pessoal do segundo ano pedindo autógrafo pra ela. De repente todo mundo é o melhor amigo do Arthur. O Ricardo deu o nome de Arthur pro seu cachorro. A mãe do Marcos disse que se seu bebê for menino vai se chamar Arthur. A coisa engraçada é que realmente estão todos se comportando melhor. Eu vi a Joana ajudando alguém do primeiro ano a achar o ginásio. O Marcos começou a fazer trabalho voluntário, pelo amor de deus. Talvez serem vistos como heróis fez com que eles se comportem como heróis. Trabalho voluntário, pelo amor de deus.

Felipe olha pro seu pão e decide por mais requeijão.

É isso. Tá todo mundo feliz. Bem, não é tudo um mar de rosas, você sabe. O Bruno tá tomando medicação, você sabia?

O João tá sumido há semanas, e o carteiro vai passar o resto da sua vida na cadeia, mas, você não tá nem aí, desde que você tenha o seu pão. Como você se sente?

Felipe se vira pra ela.

Considera.

Por um tempo longo.

Abre sua boca para responder.

Para.

Dá de ombros e volta para sua torrada.

Lena o encara.

LENA Eu te admiro demais.

O pão está pronto. Felipe parece satisfeito.

Joana e Marcos entram.

JOANA É melhor vocês virem com a gente.

MARCOS De verdade é melhor vocês virem com a gente.

LENA O que é?

Pausa curta.

JOANA De verdade mesmo é melhor vocês virem com a gente.

Lena vai com Joana e Marcos.

Felipe olha para o pão, olha para Joana, Marcos e Lena, e de volta para o pão. Irritado, põe o pão de lado cuidadosamente.

***

No mato. Cátia, Bruno, Lena, Marcos e Joana.

Eles ficam em volta de um rapaz que parece um mendigo. Suas roupas estão rasgadas e sujas e seu cabelo está manchado com sangue seco de um machucado antigo na sua testa que não foi limpo. Ele fica parado de pé, desconfortável, encarando os outros como se fossem “aliens” e se tem a impressão de que ele poderia fugir a qualquer instante.

Por fim, Felipe fala.

FELIPE Oi Arthur.

ARTHUR Tudo bem.

Pausa.

CÁTIA a gente achou ele aqui em cima, no morro

BRUNO eu achei ele

CÁTIA morando nessa mata

BRUNO eu achei ele, eu achei ele, eu achei o Arthur vivendo nesse buraco, eu achei ele

CÁTIA é tipo esse buraco que ele fez, você tem que engatinhar pra conseguir entrar

BRUNO Eu engatinhei, eu adoro engatinhar, eu adoro engatinhar Lena

CÁTIA tipo uma toca no seu buraco e ele arrastou pedaços de papelão e trapos pra fazer melhor, mais resistente e a prova d’água

BRUNO Eu amei o lugar, Lena, é tipo um esconderijo.

CÁTIA Ele tá morando lá.

BRUNO Morando, ela tava gritando pra eu sair da terra, mas eu amo a terra, eu não amo a terra?

CÁTIA Ele tava se escondendo bem no fundo.

BRUNO Vocês já tiveram a sensação de que as árvores estão te observando?

CÁTIA Aterrorizante.

ARTHUR Não eu não tava.

BRUNO Vocês já quiseram esfregar a cara de vocês na terra?

JOANA Não.

BRUNO Ele não falava com a gente. Acho que ele não sabia seu próprio nome.

ARTHUR Arthur, meu nome, eu tenho um nome, é...

BRUNO Vamos fazer isso? Vamos esfregar nossa cara na terra? O que vocês acham, vamos esfregar nossa cara na terra?

CÁTIA Eu acho que a cabeça dele tá machucada.

MARCOS Quem, a do Bruno ou a do Arthur?

BRUNO Eles não comem terra em alguns lugares? Vamos comer terra? Eu fico imaginando qual será o gosto da terra, o que vocês acham, vocês acham que tem gosto meio de terra, ou, ou...

Ele se abaixa para comer um punhado de terra.

CÁTIA Eu acho que ele está aqui em cima faz semanas. Escondido. Eu acho que ele não está muito legal.

BRUNO (cuspindo a terra) É nojento!

De repente começa a rir enquanto tenta tirar a terra da sua boca.

CÁTIA Eu não sei como ele conseguiu sobreviver, o que ele comeu.

BRUNO (como se fosse hilário) Provavelmente ele tem comido terra!

Ele cai na gargalhada.

CÁTIA Demorei meia hora pra conseguir fazer ele sair.

BRUNO Vocês conseguem sentir como este dia é maravilhoso?

CÁTIA Eu usei violência.

BRUNO usou mesmo.

CÁTIA Eu ameacei arrancar um dos olhos.

BRUNO Ela ia mesmo fazer isso. Agora ela adora violência. Vocês sentem esse dia acariciando o rosto de vocês?

CÁTIA Ele está detonado.

MARCOS Qual deles?

BRUNO Vamos dar as mãos? Vamulá, vamos dar, vamos dar as mãos, vamo lá, vamos-

De repente Cátia dá um tapa na cara dele. Por um segundo parece que ele vai chorar, mas ao invés de chorar ele apenas ri.

LENA Ok. Tá legal. OK.

Arthur.

ARTHUR Hum?

LENA Oi, Arthur. Como você está?

ARTHUR

LENA É isso. Muito bom. Felipe?

MARCOS Porque isto aqui é um pouco...não é mesmo. Quer dizer isto aqui é muito, falando em surpresas, é, merda. Não, merda não, quero dizer isto é bom

JOANA Bom de que jeito?

LENA É sim, é bom, Arthur, está vivo, mas eu quero dizer sim, deixa as coisas meio

MARCOS Fodidas?

LENA complicadas, não, não...não diz

JOANA O que é que a gente vai fazer?

LENA Não panica.

MARCOS O que é que a gente vai fazer?

LENA Eu disse pra não panicar.

MARCOS A gente não tá panicando.

LENA Ótimo, porque essa uma das coisas que é... Então.

ARTHUR Eu sei meu nome.

LENA Sim você sabe.

ARTHUR Arthur, é Arthur, meu nome é Arthur.

LENA Bom. Bem isso é...

Bruno começa a dar uma risada nervosa.

Não, não, não Bruno, isso é, isso não vai, então cala a boca. Por favor.

CÁTIA O que vamos fazer?

LENA Felipe?

O que é que a gente vai...?

Felipe?

Felipe?

Fala alguma coisa Felipe!

Pausa. Mas Felipe não diz nada.

LENA O que aconteceu.

Arthur não responde.

Lena vai até ele.

O que aconteceu?

ARTHUR Eu...

Eu tava num

escuro

andando, engatinhando no escuro, quando você se move mas com suas mãos e joelhos, engatinha, engatinhando nesse lugar escuro e eu não me lembro

coisas

Eu caí, eu caí, eu caí na

Acorda, acordei, acordei, acordei com um líquido na minha cabeça, folhas, mortas e podres, eu me lembro das folhas, mas só escuro talvez uma luz alto, alto, alto, alto, alto...lá no alto e, eu bebi o líquido era sangue, tinha, era meu, então eu, não está errado porque era meu

Engatinhando por muito tempo, eu pensei, mas era difícil saber, túneis, com medo. Eu senti como se a escuridão fosse meu medo, vocês entendem o que eu quero dizer? Eu estava enrolado nela. Como um cobertor macio.

Então eu saí.

Eu vi

essa

luz, essa luz do dia, eu vi essa luz e fui nessa direção, ao encontro, e eu pensei que tinha morrido porque é isso que as pessoas

vai para a luz, você

e tinha tanta dor na minha

cabeça

Eu pensei que a luz ia fazer a dor sumir, mas não fez porque a luz era isso.

Tempo

Eu estava confuso.

Tempo

Lá fora.

Eu tava triste, detonado.

Eu vim pra fora.

Eu não conseguia lembrar das coisas.

Eu não conseguia lembrar de nada.

Eu era novo.

Um novo

um novo

um novo eu. E eu me senti

eu ri. Doeu quando eu ri, mas eu ri porque eu era novo e eu tinha me livrado do velho e eu ri até que a noite veio e aí eu entrei em pânico, porque a escuridão, de novo

Eu corri

Arranhando tinha um monte de, arranhando minha pele

E eu achei meu lugar onde eu moro, e é lá que eu moro agora, eu moro lá.

E eu sei sim o meu nome então vocês podem calar, vocês podem...

Eu moro lá. É

meu, eu

moro

lá.

Arthur.

Eu não vou voltar.

Tempo.

É Arthur.

LENA Como é que você tá vivendo?

ARTHUR No buraco.

LENA Não, como?

O que você come?

ARTHUR Você pode comer qualquer coisa. Eu como coisas.

Nada morto, eu não

Insetos, grama, folhas, tudo de bom, mas nada, eu peguei um coelho um dia e comi isso, seu pelo era macio, quente, mas nada, eu achei um pássaro morto um dia e comi um pouco dele mas me fez passar mal então nada, nada morto, essa é a regra, nada

Pausa curta.

O que?

JOANA Meu deus.

MARCOS Ele pirou.

JOANA Ele perdeu a-

LENA OK. Agora as coisas ficaram estranhas. As coisas ficaram bem, bem estranhas, Felipe. Eu quero dizer, com o maior respeito, Arthur, você devia estar morto.

ARTHUR Morto?

LENA E eu quero dizer, teve um velório, teve julgamento, teve choradeira... estão dando teu nome a um laboratório de ciências, pelo amor de deus.

ARTHUR Eu estou...morto?

Bruno começa um riso nervoso.

CÁTIA Cala a boca.

ARTHUR Eu estou morto?

LENA Quer dizer que agora a gente tem mesmo que, não sei como a gente vai sair dessa porque agora a gente tem mesmo que

ARTHUR Eu achei que eu estava morto.

MARCOS Você não está morto.

CÁTIA (para o Bruno) Se você não calar aboca você vai estar morto.

BRUNO Eu amo isso aqui! É incrível! Caras!

JOANA O que a gente vai fazer?

MARCOS É, o que a gente vai fazer?

LENA A gente vai, certo, a gente vai...o que a gente vai fazer?

FELIPE Arthur?

ARTHUR Sim?

FELIPE Você quer voltar?

ARTHUR O que?

FELIPE Com a gente.

ARTHUR Eu

FELIPE Ou você quer ficar? Você é feliz? Aqui?

LENA Felipe –

FELIPE Cala a boca. Você quer ficar?

Bruno? Leva o Arthur para sua toca. Depois volta aqui com a gente.

BRUNO Isso é demais!

Bruno leva Arthur para fora. Todos encaram Felipe.

LENA O que tá rolando?

FELIPE (para Marcos e Joana) Voltem pra casa. Não falem nada pra ninguém sobre isto.

LENA Felipe…?

JOANA A gente vai se meter em encrenca.

FELIPE Se vocês forem embora agora e não disserem nada a ninguém sobre isto, vocês não vão se meter em encrenca.

Ela pensa. Balança a cabeça para Marcos. Eles saem.

LENA Felipe o que você está fazendo?

O quê? Mas ele...

Tempo.

Felipe, ele está pirado. Está machucado, tem sobrevivido comendo insetos há semanas, ele está fora de si, ele precisa de ajuda.

FELIPE Ele está feliz.

LENA Ele não está feliz, ele está louco.

FELIPE Ele não quer voltar.

LENA Porque ele está louco! A gente não pode deixar ele aqui, quer dizer isso não é, você está falando sério? Você está realmente-

Tudo bem, é, vai ter que-

Felipe isso aqui é Loucura. Quer dizer eu nunca, mas isto, porque, tudo bem, sei lá, mas isto é realmente Loucura. A gente não pode simplesmente deixar ele aqui em cima.

FELIPE Eu tô no comando. Tá todo mundo mais feliz. O que que é mais importante; uma pessoa ou todo mundo?

Ela encara Felipe.

LENA É o Arthur, Felipe, Arthur! A gente costumava ir às festas de aniversário, tinha sempre aquele sorvete ruim e a gente zoava, lembra?

FELIPE Se ele voltar vai destruir nossa vida. Ele não pode voltar, Cátia.

LENA Ah, beleza, agora você está falando com a Cátia, tipo, eu não, eu não, porque você não gosta do que eu estou dizendo e agora é a Cátia, você senta aí e não diz uma palavra por anos e de repente agora vai rolar um mega papo com a Cátia.

FELIPE Cátia?

LENA Vamos, vamos lá, vai, não vai ser tão ruim assim, vai ser, a gente pode explicar. A gente pode falar. A gente pode relembrar a coisa toda e fazer eles entenderem-

FELIPE (para Cátia) Você entende?

LENA Entende o que?

CÁTIA Sim. Eu entendo.

LENA Ah, beleza, agora você tá provocando.

Bruno volta, rindo.

(apontando para o Bruno) Bem eu vou falar com ele pelo que eu tô entendendo disto. Felipe, a gente não pode fazer isto, e se ele voltar na semana que vem, ano que vem, em dez anos?

FELIPE Leva o Bruno.

CÁTIA Okay.

BRUNO Vamos pra algum lugar?

LENA Não, não, espera, você não pode, não, isto é...Cátia?

FELIPE Faz disso um jogo.

BRUNO A gente vai jogar um jogo?

FELIPE Você e a Cátia vão jogar um jogo. Com o Arthur

BRUNO Beleza!

CÁTIA Como?

LENA Como o que? O que vocês, vocês podem, por favor, falar comigo como se

FELIPE Bruno?

BRUNO Quem?

FELIPE Vem aqui.

Bruno vai até o Felipe.

FELIPE Eu vou fazer uma experiência com este saco plástico. Eu quero que você fique sem se mexer enquanto eu faço está experiência.

BRUNO Eu adoro experiências! Vai ter fogo?

FELIPE (esvaziando seu saco plástico ) Não. Fogo não.

Não se mexe.

Felipe coloca o saco na cabeça de Bruno.

BRUNO Ficou tudo escuro.

Ele puxa as alças do saco para trás ao redor do pescoço e cruza, deixando o saco hermético.

Bruno está rindo dentro do saco, olhando em volta e inspirando e expirando pela boca.

Meio abafado.

Felipe olha para Cátia. Ela assente com a cabeça.

Isso é demais!

LENA Fe… Felipe?

Felipe tira o saco.

BRUNO Isso foi demais!

FELIPE Você apenas faz o que a Cátia mandar.

BRUNO Eu sou muito bom em fazer que os outros mandam.

LENA Não! Para, não, não, Felipe, não faz isso, o que você tá fazendo, o que você...

FELIPE Ele está morto. Todo mundo pensa que ele está morto. Que diferença vai fazer?

Ela o encara.

LENA Mas ele não está morto. Ele está vivo.

CÁTIA Vamos lá Bruno.

BRUNO Isso aqui é o máximo.

LENA Não, Cátia, não, para, Cátia...?

Mas ela vai, levando o Bruno com ela. Lena se volta para Felipe.

Felipe?

Felipe?

Por favor!

Por favor, Felipe!

Mas Felipe simplesmente vai embora.

***

No mato. Felipe e Lena sentados

Silencio absoluto.

Felipe pega um pacote de balas.

Abre.

Come uma.

Mastiga. Pensa.

Oferece uma pra Lena.

Ela pega.

Ela começa a chorar baixinho.

Chorando, ela põe a bala na boca e começa a mastigar.

Felipe põe seu braço ao redor dela.

De repente ela para de mastigar e cospe a bala.

Levanta, encara Felipe.

Sai com muita raiva.

FELIPE Lena?

Lena?

Quatro

Quatro

Uma rua. Joana e Marcos.

JOANA Foi embora?

MARCOS É.

JOANA Foi embora?

MARCOS É.

JOANA O quê, ela foi embora?

MARCOS Sim.

Tempo.

JOANA Quando?

MARCOS Semana passada.

JOANA Onde?

MARCOS Sei lá. Ninguém sabe.

JOANA Ninguém sabe?

MARCOS Bem, ninguém não, quer dizer alguém deve saber, mas ninguém que eu conheça sabe.

JOANA Quer dizer ela deve ter ido pra algum lugar.

MARCOS Mudou de escola. Isso é o que o pessoal tá falando.

JOANA Mudou de escola?

MARCOS É.

JOANA Do nada?

MARCOS Do nada.

JOANA Sem dizer nada?

MARCOS sem dizer um nada

Pausa.

JOANA Uau.

MARCOS É.

JOANA Uau.

MARCOS É.

JOANA Uau.

MARCOS Eu sei.

JOANA O Felipe sabe?

***

Na mata. Ricardo sentado com o Felipe. Felipe não está comendo. Ele olha fixo para frente. Silêncio. De repente Ricardo se levanta.

RICARDO Felipe, Felipe, olha isso! Felipe, olha pra mim, olha pra mim, Felipe!

Ele anda plantando bananeira.

Tá vendo? Tá vendo que eu tô fazendo? Você tá vendo, Felipe?

Ele cai. Felipe nem olha pra ele. Ricardo se levanta, se recompõe e senta com Felipe.

Silêncio.

Quando é que você vai voltar?

Felipe dá de ombros?

Vamos lá, Felipe. Volta pra gente. Pra que você quer ficar sentado aqui? No meio desse mato? Você não cansa? Não fica de bago cheio de ficar aqui, todo dia, sentado sem fazer nada?

Sem resposta.

Tá todo mundo perguntando de você. Cê sabia? Todo mundo perguntando “cadê o Felipe?” “O que o Felipe anda fazendo?” “Quando é que o Felipe vai sair daquela porra daquele mato?” “não era muito bom quando O Felipe mandava o show?” o que você acha disso? O que você acha de todo mundo perguntando de você?

Sem resposta.

Você não tá interessado? Não tá interessado no que tá acontecendo?

Sem resposta.

João encontrou deus. É isso, é isso ai, eu sei. Ele se alistou no exército de Jesus, ele fica aí pelos shoppings cantando e tentando entregar uns folhetos pras pessoas. O Daniel tá fazendo um tipo de estágio com um dentista. Ele detesta. Não suporta as cáries, contou que as vezes quando as pessoas abrem a boca dá a sensação de que vai cair lá dentro.

Pausa.

Bruno tá cada vez tomando um remédio mais forte. Semana passada viram ele olhando fixo pra parede e babando. Ou é babando ou rindo. Continua falando de terra. Eu acho que ele vai ser internado. A Cátia não tá nem ai. Tá ocupada demais organizando coisas. Você não ia acreditar como as coisas ficaram, Felipe. Ela é louca. Ela cortou fora o dedo de alguém do primeiro ano, pelo menos isso é o que andam falando por aí. Isso não te chateia? Você nem fica chateado com isso?

Sem resposta.

Agora o Luis é o melhor amigo dela. Jogo perigoso. Tenho pena do Luis. E a Joana e o Marcos começaram a fazer uns roubos em lojas. Eles são profissa mesmo, roubam qualquer negocio que você quiser.

Felipe?

Felipe!

Ele sacode o Felipe pelos ombros. Devagar Felipe olha pra ele.

Você não pode ficar aqui pra sempre. Quando é que você vai sair daqui?

Felipe não diz nada. Ricardo deixa quieto.

Felipe volta a encarar o vazio.

Ricardo.

É legal aqui em cima.

Enquanto eu tava subindo aqui tinha um vento trazendo umas folhinhas. Cê sabe, uma onda de vento com folhinhas, tipo de margaridas, mas menores, e muitas delas, tipo flocos de lã ou algodão, foi bem esquisito, quer dizer isso veio de repente do nada, esse vento de flocos, e por um minuto eu pensei que eu tava numa nuvem, Felipe. Imagina só.

Imagina só estar dentro de uma nuvem, mas com espaço dentro dela também, por um segundo, enquanto eu subia aqui eu me senti como um alien numa nuvem. Mas senti mesmo. E nesse segundo, Felipe, eu soube que tem vida em outros planetas. Eu soube que a gente não tá sozinho no universo, eu não só pensei ou senti, eu soube isso, eu sei isso, foi como se o universo tivesse de repente mudando seu curso para dar uma olhada em mim, essa visão que pode ver tudo, apenas por uma fração de uma batida de coração por segundo. Mas eu não pude ver quem eram eles ou o que estavam fazendo ou como eles viviam.

Como você acha que eles estão vivendo, Felipe?

Como você acha que eles estão vivendo?

Sem resposta.

Tem mais estrelas no universo do que grãos de areia na praia.

Pausa.

Volta, Felipe.

Felipe?

Sem resposta. Eles sentam em silêncio.

Fim.

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