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Remoto / Stef Smith

REMOTO

Stef Smith

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do

Projeto Conexões Teatro Jovem

e fez parte do seu portfólio no ano de 2015.

Qualquer montagem fora do Projeto deverá  ser

negociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos autorais.

 

Contato Stef Smith:info@mlrep.com

Personagens

Tradução Fernanda Sampaio

Personagens

(nota da tradutora: os nomes entre parêntese são os nomes originais em inglês)

Bamba (Antler): Personagem feminino

Diesel (Oil): Personagem masculino

Jaque (Jax): Personagem feminino

Bolha (Blister): Personagem masculino

Turca (Teal): Personagem feminino

Rúbia (Red): Personagem feminino

Vinil (Desk): feminino ou masculino – está descrito como personagem masculino, mas se for interpretado por uma atriz, a produção pode simplesmente passar os pronomes (entre parênteses no texto) ao gênero feminino.

Falas marcadas por travessão: Qualquer gênero / qualquer número de atores

Gangue do Bolha: Estas personagens não têm falas, mas devem estar presentes no palco sempre que o Bolha estiver em cena – até saírem de cena no meio da peça.

As personagens podem ter qualquer idade. A única sugestão da autora é que Bolha aparente ser o mais velho e Vinil o (a) mais novo (a).

Notas da Autora:

O menor número de atores para a peça é oito. Entretanto não há número máximo devido ao uso do coro.

As falas marcadas com travessão ‘-’ podem ser ditas por qualquer ator. As personagens com nomes também podem fazer parte do coro, caso isso ajude a produção. A autora encoraja o grupo a ser imaginativo e divertido no uso do coro. As falas também podem ser alteradas quando isso ajudar a adaptar o texto ao idioma e linguagem natural dos atores.

A peça pode acontecer em qualquer parque no Reino Unido e a encenação pode ser simples ou complexa e está aberta à interpretação do grupo. Há poucas rubricas. Não há cenas, pois, a peça é um longo momento, com flashes para frente e para trás entre outros momentos. Em última instância, a autora pede para que o grupo imagine seu próprio mundo dentro do mundo de Remoto.

Texto

- Tranca

- Abre

- Maçaneta

- Porta

- Empurra

- Degrau. Um pé

- E depois o outro

- No primeiro degrau

- Ela fecha a porta depois de passar por ela

- O ar fresco é com um soco na cara

- O cheiro das nuvens e do frio. Aquela baboseira de outono.

- Ela tira o celular do bolso

- Coloca no segundo degrau

- Levanta o pé e pisa nele com força

- De novo

- E de novo

- E de novo

- Tela. Botões. Placa de circuitos. Espalhados pelo chão

- Aquele pedaço de plástico

- Destroçado em pedacinhos minúsculos

- E seu peito de repente se sente livre a pleno

- E ela fica parada um momento

Bamba: Não vai fazer falta.

- Não vai fazer falta, ela diz.

- Um pé na frente do outro

- Parece fácil

- Geralmente é fácil mesmo

- São só passos

- Não, não são passos, são grandes passadas

- Longas passadas para frente, sempre olhando para frente

- Ela puxa o capuz sobre a cabeça

- O rosto enfiado no casaco

- Mas não está fazendo tanto frio

- É só para criar uma atmosfera

- Fazer um clima

- De determinação

- Isso. Um clima que pode ser descrito como clima de determinação

Bamba: Tem um lugar que eu preciso ir. Só isso.

- No parque. É no parque que ela precisa ir

- Fica perto da casa dela. Uns dois minutos a pé

- Da casa dos pais dela

- Ela vinha sempre aqui antes

- Quando era pequena

- Balanços e gira-gira. Essas coisas de criança.

- Depois que fazem 10 anos, eles não vêm mais aqui

- Pelo menos não neste parquinho.

- Asfalto e ferro

- A tinta descascada

- Mães e carrinhos de bebê

- Pirralhos de oito anos em busca de aventuras

- O mundo todo à sua frente.

- Asfalto e ferro

Bamba: Não mudou nada.

- Ela está surpresa que o parque não mudou muito

- Entra no parque

- Capuz na cabeça

- Andando com propósito

- Como se estivesse ouvindo música com fones de ouvido tocando alto

- Mas não está

- Não tem nada tapando os ouvidos dela

- Entre eles só tem uns pensamentos carregados

- Rodando na cabeça dela como uma bola preta mágica

- E no meio do parque tem uma árvore.

- Uma árvore grande, velha e rústica

- Está aí desde os tempos da carochinha

- Sempre esteve aí

- Tem uns nomes marcados nela

- Tem as marcas dos pés de todos que tentaram subir nela

- Que passaram os dias de verão se balançando nos seus galhos

- A árvore recolhe a neve do inverno, da época quando costumava nevar

- Ela para no pé da árvore. Olhando para cima.

- Fazia tempo que não olhava para a árvore

- Olhar de verdade, sabe?

- E por um momento ela se toca

Bamba: A natureza é do cacete.

- Pensando assim, ela dá uma última olhada para trás

- O parque visto do nível do chão

- E então tenta alcançar o galho mais próximo

- Agarra e começa a subir

- Para cima e para frente

- Galho a galho

- Fazendo força e subindo

- Um pé de cada vez

- E pensa

Bamba: Aquelas aulas de ginástica olímpica quando eu era pequena estão valendo a pena

- E lá vai ela subindo a árvore

- Cada vez mais alto

- Entre as folhas de outono

- Os flocos cor-de-laranja e marrom

- Caindo como flocos de neve

- Como quando costumava nevar

- Ela acha um galho

- Sólido e forte

- Coloca um pé nele

- E depois o outro

- Segurando outro galho mais acima

- Ela nunca foi muito boa de altura

- Mas também nunca foi péssima

- Tira a mochila

- Se pendura em um galho

- Seu peito continua pleno e livre

- Respira ofegante

- Respira profundamente

- Fica de pé no galho

- Cada vez mais alto

- Na altura de uma janela de segundo andar

- Talvez até de terceiro

- Sem olhar para baixo

- Só olhando para frente, para a linha do horizonte

- Não tem outras árvores por aqui. Acabaram todas

- Esta árvore está sozinha

- Cercada por um mundo de carros e postes de luz

- Cercada por arranha-céus e pessoas falando sem parar

- Cercada pelo litoral e por penhascos

- Cercada por água

- Cercada por este país

- Um pedaço de terra

- E, afinal, um pedaço de terra é só um pedaço de terra

- E ela olha para as nuvens sobre sua cabeça

- E inspira profundamente

- E grita

Bamba: Meu nome é Bamba.

Não quero mais fazer parte do mundo.

Não deste mundo. Chega.

- E então cortamos para o outro lado do parque.

- Um rapaz chamado Diesel tira o celular do bolso

- Três barrinhas de sinal

- Não tem novas chamadas

- Ele se balança de um pé para o outro

- Ganhou um par de tênis novos de presente de aniversário

- Eles são bonitos, mas são meio apertados

- Clica em contatos

- Clica em chamar

Diesel: Atende

- O celular toca duas vezes

- Cai na caixa postal

Diesel: Oi Bamba, é o Diesel. Cadê você? Recebi o seu torpedo bizarro. O que que tá rolando? Onde você está no parque? Por que no parque? Bom, tô indo. Me liga.

- Em algum lugar não muito distante, uma garota bate na porta da irmã.

Jaque: Bamba, você tá aí? Vou entrar.

- Mas não tem ninguém. Nem um bilhete. Nem um sinal. Nem um nada.

- Só uma cama bem feita e um quarto arrumado demais. Estranho.

- Ela pega o celular. Nenhuma mensagem nova.

- Mandar mensagem nova.

Jaque: Oi, mana, ponto de exclamação. A mamãe disse que você foi comprar detergente. Você saiu, ponto de interrogação. Jaque, beijo. Carinha com língua para fora.

- Olha o celular de novo. Nada.

- Pega o casaco.

- Joga sobre os ombros.

- Abre a porta da frente.

- Crunch.

Jaque: ... o que foi isso...?

- Pega os pedacinhos quebrados de plástico.

- A tela despedaçada.

- Os pedacinhos da placa de circuitos.

Jaque: O celular da Bamba.

- Uma expressão de confusão e medo passa pelo rosto dela.

- Enquanto isso, chega ao parque uma congregação de indiferença e lamentação[1]

- Apalpando os bolsos.

- Olhando nas mochilas.

Turca: Ninguém tem cigarro?

Bolha: E grana?

- O grupo inteiro balança a cabeça.

- Apalpam todos os bolsos.

Turca: Nada.

Bolha: Vocês são um bando de inúteis mesmo. Valeu, então é melhor a gente tentar achar uma grana.

- Enquanto isso, lá na árvore.

- Bamba se senta. Em silêncio.

- Olhando fixamente.

- Buscando uma mudança.

- Tentando ouvir algum sinal de mudança.

Vinil: O que você está fazendo aí?

Bamba: Quê?

Vinil: Perguntei o que está fazendo aí?

Bamba: Estou pensando.

Vinil: Não dá para pensar aqui em baixo?

Bamba: Dá para você me deixar em paz, por favor?

Vinil: É um perigo ficar aí em cima. Pelo menos sem cordas de segurança. Se você tivesse cordas, ia ser bem mais seguro. Mas você não tem cordas, então não é seguro. Meu nome é Vinil. Qual é o seu?

Bamba: O seu nome é Vinil?

Vinil: Claro.

Bamba: Que nome esquisito.

Vinil: Qual é o seu nome?

Bamba: Bamba.

Vinil: Bamba? Por que te deram esse nome?

Bamba: É uma longa história.

Vinil: Tá ocupada demais para contar?

Bamba: Dá para dar o fora? Estou precisando de privacidade.

Vinil: Vou embora se você me contar a história.

Bamba: Por que você se chama Vinil?

Vinil: Porque é o meu nome.

Bamba: Que tipo de nome é esse?

Vinil: Para mim funciona.

- [Ele] olha para cima na direção dela

- Ela olha para baixo na direção [dele]

- Pausam aquele momento

Bamba: Qual é, mano? Para de ficar olhando. Vaza!

Vinil: É só que você parece meio velha para ficar subindo em árvores.

Bamba: Não tem idade para subir em árvores - tem? Não tem limite. Qualquer idade tá valendo.

Vinil: É tipo um protesto?

- Bamba não sabe como responder

- Ainda não

- Imagens de carros cantando pneus

- E bandeiras balançando ao vento

- E a polícia jogando bombas de gás

- E moradores de rua

- E os resultados das provas

- E seu pai no fundo do jardim fumando em silêncio

- Tudo isso passa pela cabeça dela

Bamba: Pode ser.

Vinil: É um protesto ou não?

Bamba: É particular.

Vinil: Posso subir?

Bamba: Não.

- [Ele] tenta alcançar o galho com uma mão.

- Se ergue até o galho

- O galho estala

Vinil: Merde!

Bamba: O quê?

Vinil: Significa merda em francês.

Bamba: Grande merda.

Vinil: Me ajuda a subir?

Bamba: Não vai rolar, garotão [pequena]. Tô voando solo.

Vinil: A vista é bonita daí de cima? Eu ia gostar de dar uma olhada.

Bamba: Dá para ver o parque todo daqui de cima. É claro que é bonito.

Vinil: Me ajuda a subir?

Bamba: Não dá. Só tem lugar para uma pessoa aqui em cima. Só tem lugar para mim.

- O vendo soprava forte em torno deles

- De repente fica frio no galho onde Bamba está de pé

- Ela se abaixa para descansar

Vinil: É uma árvore gigante. Deve ter espaço para mim também.

Bamba: É melhor você ir para casa. A sua mãe ou tutor legal ou sei lá quem vai ficar preocupado.

Vinil: E a sua mãe?

- Bamba se senta no galho.

- Ela olha para Vinil lá embaixo

- Corta Vinil pela metade só com o olhar

Vinil: É melhor eu vazar. (brincando) Amanhã, mesmo lugar, mesma hora?

Bamba: Vaza.

- O [garoto] sobe o zíper da jaqueta

- Dá uma última olhada na garota na árvore

Vinil: Sabe que você é doida?

Bamba: A gente se vê, Fita Cassete.

Vinil: É Vinil. Meu nome é Vinil.

- Não longe dali, um garoto chamado Diesel também sobe o zíper do casaco

Diesel: Que frio do cacete!

- Olha o celular de novo

- Nada

- A mãe dele diz que ele é viciado em ficar olhando o celular

- Mas ele não é viciado.

- Ele consegue parar quando quiser.

- Está começando a sentir uma coceira na garganta

- Ele nunca se preocupa com nada, mas agora está preocupado com a amiga

- Não era do feitio dela não ligar de volta. Ela não era assim.

Diesel: Me liga, tá?

- Quando acaba de deixar a mensagem

Diesel: Que droga!

- Chega à altura da sua visão uma confusão de cânticos e chicletes

Bolha: Ei! Óleo de Caminhão. Cadê a sua namorada? A mamãe te deixou sair sozinho hoje, foi?

Diesel: Oi Bolha.

Bolha: O que você tem aí para mim?

Diesel: Como é que é?

Bolha: Me empresta cinco?

Turca: É melhor dar cinco contos para ele.

- Uma garota chamada Turca ajuda a juntar a grana.

- Dizem que ela é prima do Bolha, mas ninguém tem certeza e ninguém tem coragem de perguntar.

- É como se o Bolha falasse outra língua e a Turca tivesse que traduzir

Diesel: Ainda estou esperando o cincão que te dei na semana passada.

Bolha: Gastei. Preciso de outro empréstimo.

Turca: Ele precisa de mais cinco.

Bolha: É o preço do cigarro que não para de subir. Tipo inflação, sabe?

- Bolha não tinha ideia do que era inflação, mas isso não tinha a menor importância.

- Ele parecia ser muito mais velho do que a sua idade

- Por causa de uma mistura de cigarros

- Com jaquetas três vezes maiores que o seu tamanho

Bolha: Eu e os meus amigos estamos alucinados por um cigarro. Ficamos no maior mau humor se não damos umas tragadas depois de um dia duro de trabalho.

Turca: E hoje foi um dia bem duro.

Bolha: Muito duro.

Turca: Muito muito duro.

- Bolha tem um grupinho de fãs que vive seguindo ele.

- Nenhum deles fala muito.

- Exceto por uns gritos aleatórios chamando a mãe de alguém de alguma coisa.

Diesel: Não tenho nenhum dinheiro, Bolha. Só estou com o celular.

Bolha: Pode passar então. Estou precisando de um celular novo. Está mais do que na hora de dar um upgrade no meu.

Turca: Não ouviu o grandão?

Diesel: Tá de brincadeira?

Bolha: E eu tenho cara de palhaço?

Diesel: Até que você tem uma cara engraçada /

Turca: / O que você disse?

Bolha: Celular.

Diesel: Foi um presente de aniversário. Minha mãe pagou os olhos da cara.

Turca: ‘Minha mãe pegou os olhos da cara’. Tanto faz.

Bolha: E agora ele vai ser o seu presente para mim.

Diesel: Nem pensar. Não vou te dar o meu celular.

Bolha: O que você disse?

Diesel: O que estou dizendo é que não vou te dar o meu celular.

Bolha: É melhor você pensar bem.

Turca: Você vai querer pensar melhor, não vai?

Diesel: Por quê? O que vocês podem fazer?

Bolha: Por que você não imagina o que podemos fazer e multiplica por 100?

Diesel: Por que você mesmo não multiplica por 100?

Bolha: Sou disléxico.

Diesel: Disléxico nada. Você é burro mesmo. É diferente.

Bolha: O que você disse?/

Diesel: Quer dizer... o que quero dizer é...

Turca: Repete aí se for capaz, Óleo na Pista.

- Nessa hora o grupo fica mudo.

- Bolha parece uma bexiga pronta para estourar.

- A Turca faz cara de pitbull bravo.

- E Diesel sente o seu estômago dar um bicaço na garganta.

- E se arrepende imediatamente de tudo que tinha acabado de dizer.

- Diesel tinha um problema: ele abria a boca e deixava as palavras saírem sem muita cerimônia.

Diesel: Olha, Bolha. Foi mal. Eu só tava zoando. Não leva a sério o que eu disse... Estou esperando uma ligação da Bamba e estou um pouco tenso. É só isso.

Bolha: A sua namorada? Vocês estão saindo, é?

- Uma vantagem do Bolha é que, como usava muito facebook e twitter, ele se distraía fácil.

- Nenhum pensamento ou pessoa conseguia prender a atenção dele.

- E, sendo o mais velho de cinco irmãos, Diesel sabe como tirar vantagem de uma boa distração.

Diesel: É, algo assim. Mas, na verdade, não estamos namorando de verdade.

Bolha: Ela vai ficar brava se você se atrasar. Para o encontro.

Turca: Tisc Tisc. As garotas não gostam de homem atrasado.

Bolha: A Turca sabe do que está falando. Afinal, é uma garota.

Diesel: Sabe de uma coisa? Vocês estão certos, galera. É melhor eu ir indo... obrigado pelo conselho.

- E simples assim

- Diesel se safa do grupo

Bolha: A gente se vê.

Turca: A gente se vê.

Diesel: É. A gente se vê.

- Escapou por pouco do desastre

- Seus passos rápidos afastam as folhas do caminho

- Ele nem ousa olhar para trás quando ouve Bolha gritar

Bolha: Divirta-se no encontro.

- E a Turca completa com...

Turca: ‘Com quem será? Com quem será que o Diesel vai casar?

Vai depender. Vai depender se a Bamba vai querer’

- Diesel vira a esquina e desaparece

- E quase atropela um [garoto]

- Andando a passo de lesma

- O que não está certo, pois as lesmas não andam

- Mas tudo bem.

- Mas tudo bem.

- Enquanto isso, Bamba está olhando para Vinil

- Como um pássaro empoleirado observando um rato

- Segue os passos [dele] saindo do parque

Vinil: Foi mal.

Diesel: Dá para prestar atenção?

Vinil: Já pedi desculpas.

Diesel: Olha, melhor você não ir naquela direção.

Vinil: Por quê?

Diesel: Tem um bando de idiotas virando a esquina.

Vinil: Tudo bem. Sei me cuidar.

- Do alto daquela árvore no meio do parque

- Uma voz grita

Bamba: Diesel!

- Ela grita forte, mas está lá no alto

- E ele está muito longe

Bamba: ...Esquece...

- Uma hora ele vai entender. Uma hora ele vai descobrir onde ela está

- Ela espera que sim

Diesel: A vida é sua.

Vinil: De qualquer jeito, valeu.

Diesel: Suave.

- Diesel e Vinil se afastam um do outro

- Os dois só colidem por um breve momento

- E caminham em direções opostas

- Enquanto isso, Jaque caminha na rua perto de casa

- Ela não quer contar para a mãe, não quer que a Bamba leve bronca

- Até ela sabe que aconteceu alguma coisa

- Mas não sabe o que exatamente

- Enquanto isso Diesel anda as alamedas do parque

- Na verdade o parque não é muito grande

- Mas se alguém estiver a fim se perder

- Sempre tem um jeito

- Enquanto isso Bamba se senta na árvore. Esfriou.

- Olhando para o horizonte de prédios

- Ela sussurra para si mesma

Bamba: Meu nome é Bamba e não quero fazer parte deste mundo. Não quero mais.

- Mas a voz dela treme um pouco

- Como se, depois de ter visto o amigo

- Ela tivesse perdido um pouco da certeza

- Sua força fica abalada

Bamba: Diesel?

- Mas ele saiu de vista

- Bamba balança a cabeça

Bamba: Tudo bem. Eu tô de boa. Você está fazendo isto por um bom motivo. Você está fazendo isto por um bom motivo.

- Ela está bem

- Ela se balança para voltar ao momento

- Pensa sobre terremotos

- Pensa sobre enchentes

- E volta a olhar para o céu

Bolha: Ô mané!

Jaque: O que você quer?

Bolha: Vimos o namorado da sua irmã dando um tempono parque. (sarcástico) Aposto que você está morrendo de inveja dela ter um garanhão daqueles.

Jaque: Você viu o Diesel?

Bolha: Tá com ciúmes?

Jaque: Não. Estou procurando a Bamba

Bolha: Não vimos ela não

Turca: Não vimos nem a sombra dela.

Bolha: Com certeza está se pegando com aquele bobo do Diesel. Eles nasceram um para o outro. Dois losers.

Jaque: Para onde ele foi?

Bolha: Por ali, na direção dos balanços.

Turca: Correndo para encontrar a mina.

Jaque: Beleza. Valeu.

- Com isso, Jaque sai andando e passa pelo Bolha

- E o Bolha estende o braço e agarra ela

Bolha: Espera um pouquinho. Merecemos um pagamento por essa informação. Nossa informação não sai de graça.

Turca: Não tem nada de graça por aqui.

Jaque: Tô sem grana

Turca: Ela tá dizendo que tá sem grana, Bolha.

Bolha: Tisc. Tisc.

- Ele torce o braço dela

- Tudo fica preto

- Bolha sabe ser brutal quando quer

- Todo mundo sabia disso

Jaque: Tá machucando!

Bolha: Você tem que ter alguma coisa.

Turca: As pessoas sempre têm alguma coisa.

Jaque: Não tenho nada. Você tá machucando o meu braço.

Rúbia: Cuidado. Você tá machucando uma garota

- Bolha solta o braço de Jaque

- Ninguém, e muito menos as pessoas deste grupo, ninguém nunca questiona o que o Bolha faz

- Não quando ele está fazendo a patrulha

Bolha: O que você disse?

Rúbia: É só que....

Turca: O tigre comeu sua língua?

Rúbia: É só uma questão de educação.

Bolha: Desde quando você dá a mínima para educação?

Rúbia: Você sempre disse que é importante ter educação.

Bolha: Tá legal. Só que não é educado questionar o que o cara tá fazendo.

Turca: É verdade.

Rúbia: Ela é mais nova que você e é uma garota. Ela não fez nada. Com todo o respeito /

Bolha: / Com todo o respeito?

Turca: Tá louca por ela?

Rúbia: O quê?

Bolha: Quer comer ela?

Rúbia: Não. Não! É só que ... eu tenho uma irmãzinha da idade dela. É como se você estivesse machucando a minha irmã.

Bolha: Mas não estou.

Turca: Mas não está.

Rúbia: Mas é como se estivesse. Olha, Bolha, você tem que ser... sabe como é... quando é uma menina... acho que...

Turca: Ficou gaga de repente, tagarela?

Bolha: Eu falei que isso aqui era um debate? Pedi uma grande discussão sobre boas maneiras? Ou só estava atrás de uma grana para comprar cigarros para vocês? Cala a boca, Rúbia. Ou você vai ver o que acontece quando eu perco a etiqueta de verdade.

- Por um momento, silêncio.

- Essa garota, a Rúbia, nunca dizia nada para ninguém

- Mas algo aconteceu

- Quando ela imaginou a irmã ali

- Bolha com suas mãos enormes em volta do bracinho dela

- Rúbia não gostava de ficar pensando nessa imagem

- Ela achava que boas maneiras não eram assim

- Na verdade, nada se parecia tão pouco com boas maneiras

- E o tempo todo, Bamba estava olhando

- Ela estava olhando o Bolha colocar as mãos enormes em volta do bracinho da Jaque

- Ela estava longe demais para conseguir ouvir

- Longe demais para ver detalhes

- Mas dava para perceber que as coisas não estavam indo bem para a Jaque

- E ela não sabia o que fazer

Bamba: Nem pense em bater nela!

- Mas ninguém estava ouvindo

Bamba: Eu disse nem pense em bater nela!

- Mas ela estava gritando com o vento.

- Ninguém estava ouvindo

- E ela estava se sentindo totalmente impotente.

Rúbia: Vou vazar. A gente se vê, galera.

- Nessa hora, Bolha agarra o casaco da Rúbia

Bolha: Onde você pensa que vai?

Turca: De repente apareceu um compromisso em outro lugar?

- E simples assim tudo muda de lado

- Amizades, aliados, inimigos, os poderosos, os sem voz

- Tudo muda

Turca: Então vai.

Rúbia: Então vai aonde?

- De repente Rúbia vê um lado da Turca que nuca tinha visto antes.

- Os olhos chegam perto dela

- Como um predador

- Tigres

- Leões

- Panteras

Bolha: Corre

Rúbia: O quê?

Turca: Ele disse para você correr

Rúbia: Bolha, não seja um /

Bolha: / Você ficou contra nós

Turca: Agora nós ficamos contra você.

- Rápido assim, tudo muda de lugar

- Mas ninguém disse que o mundo era justo

- Ninguém disse nada sobre justiça

- E com isso, a Rúbia agarra a mão da Jaque

Rúbia: Vamo lá, mina!

- Um pé na frente do outro

- Um pé na frente do outro

- Bolha e sua corja de marias-vai-com-as-outras só parados ali

- Olhando

- Cruelmente dando um tempo para elas correrem parque adentro

- E lá em cima da árvore, Bamba de repente começa a se sentir muito idiota

- De repente ela começa a se sentir muito sem sentido

- Tipo assim, se ela descesse

- Ninguém iria saber que ela tinha subido

Bolha: O que vocês acham, galera? Tá na hora de ir atrás delas?

Turca: Eu digo, vamos dar uma vantagem para as bebezinhas. Sabe como é. Eu nunca... nunca mesmo... nunca confiei nela.

Bolha: Ah é? E o que foi que ela fez para você?

Turca: É só que eu nunca tive uma boa impressão dela... acho que já deu, né?... melhor irmos atrás delas.

Bolha: Virou chefe agora?

Turca: Não. Claro que não. Não virei chefe de nada... Só estou fazendo o que você faria. Não estou?

Bolha: Melhor irmos atrás delas.

Bamba: Corre! Jaque! Corre!

- Começam a ouvir as pesadas passadas de Bolha e seus capangas

- Um pé depois do outro

- Um pé depois do outro

- Rúbia grita na distância

Rúbia: Não para de correr.

Bamba: Não para de correr!

- Em pânico, Bamba se sente presa

- Ela achou que seria fácil

- Fácil ficar nas nuvens

- Mas esqueceu que as coisas continuariam acontecendo no chão

- Ela estando lá ou não.

- Mas afinal era a irmãzinha dela

- A irmãzinha metida em uma encrenca

- Coloca o pé em um galho mais baixo

- Não consegue ficar olhando

- Ninguém nem precisaria saber que ela tinha subido

- Só precisava descer da árvore

Vinil: Vai descer então?

Bamba: O quê? Não. Não... só tô... Por que você voltou?

Vinil: Perdi uma luva. Estava no meu bolso e não está mais. Minha mãe vai ficar uma fera se descobrir que perdi uma luva. Ela diz que eu roo luvas como um cachorro rói ossos. Eu acho a comparação esquisita, porque eu não como as luvas; só perco. Então você desistiu do protesto? Não durou muito tempo, heim?

Bamba: Não desisti de nada. Eu não estava... estava só achando uma posição mais confortável

Vinil: É mais confortável aqui em baixo. Isso eu posso garantir.

- Bamba sente uma onda de vergonha envolvê-la

- Ela não queria parecer tão fraca

- Porque não estava passando por uma fase

- Tudo isso – não era só uma fase

- Era o ônibus atrasado

- E o preço do leite

- E a maioridade sexual

- Não era só uma fase

Bamba: Você viu uns caras mexendo com uma garota?

Vinil: O quê?

Bamba: Um mané chamado Bolha. A cara dele é como um saco de caranguejos esmagados.

Vinil: Bolha? Por que ele se chama Bolha?

Bamba: Na escola primária, ele torceu a pele do braço de um garoto com tanta força que nasceram bolhas. O nome grudou feito chiclete. É melhor você nem chegar perto dele. Ele te comeria vivo... E então? Você viu ele?

Vinil: Não. Não vi esses caras. Por quê?

Bamba: É que a minha irmãzinha tá.... deixa pra lá.

Vinil: Sua irmãzinha o quê?

Bamba: Deixa quieto.

Vinil: Por um acaso você consegue ver ela daí de cima?

Bamba: Ver o quê?

Vinil: A minha luva

Bamba: A sua luva?! Não. Tenho coisas mais importantes para ver do que a sua luva, garoto.

Vinil: Olha, é importante para mim, então é importante, tá?

Bamba: Por que se importa tanto? É só uma luva. Vai no camelô e compra três luvas por cinco conto.

Vinil: Não tenho tanto dinheiro assim.

Bamba: Você não tem cinco contos para comprar umas luvas?

Vinil: Não.

Bamba: Então pede para a sua mãe. É pouca grana. Você não devia esquentar a cabeça por uma mixaria dessas. Tem tanta coisa maior para a gente se estressar.

Vinil: A minha mãe também não tem esse tipo de dinheiro.

Bamba: Ah é? Ela não tem cinco contos? Caraca!

Vinil: Ela não trabalha.

Bamba: Então você devia arrumar um trampo.

Vinil: Eu cuido dela.

Bamba: Ah.

- Com isso, Bamba procura nos bolsos.

Bamba: Olha. Pega.

- Ela joga uma nota de cinco.

Bamba: Dá para comprar um par de luvas novas.

Vinil: Mesmo?

Bamba: Não fica me olhando assim. Te dou outra nota se você for embora.

Vinil: Não. Não precisa... valeu. Obrigada pelo empréstimo.

Bamba: Não precisa devolver. Também não quero a história da sua vida. Só quero que vá embora.

Vinil: Se um dia precisar... de um amigo.

Bamba: Não preciso de outro amigo. Não preciso de nada seu. Melhor você vazar. Por que não vai procurar a sua luva perdida? Daí você pode guardar a nota de cinco para outra coisa.

Vinil: Pode crer. Valeu. Até mais então.

Bamba: Até mais.

- Vinil vai embora com os olhos grudados no chão

- À procura da luva perdida

- E Bamba olha para trás, mas não vê a irmã

- Não vê o Bolha

- Só o céu escurecendo pouco a pouco

- Ela se concentra.

- Fazendo o possível para continuar olhando para cima

- Tentando ouvir sinais da irmã

- Tentando ouvir sinais de mudança

Jaque: O que foi aquilo?

Rúbia: Olha, eu te ajudei

Jaque: Ele não ia me machucar. Tipo machucar de verdade.

Rúbia: Você não sabe como ele é. Eu já vi ele erguer uns baixinhos na parede e virar de ponta cabeça

Jaque: Mas por que sair com um cara desses /

Rúbia: / Proteção. Você sabe como no oceano os peixinhos ficam em volta dos peixões para não serem comidos?

Jaque: Não.

Rúbia: Bem, é assim. É isso que eu faço. Sei que sou um peixinho só tentando não ser comido.

Jaque: Do jeito que você fala, parece coisa de covarde.

Rúbia: Um covarde faria o que eu fiz?

Jaque: Você não me salvou nem nada.

Rúbia: Você parecia alguém que precisava ser salvo

Jaque: Eu tava de boa, tá? Tudo ia ficar bem.

Rúbia: ... Eu só tava.... É que já vi muita gente ser massacrada. Pelo Bolha e daí tem os meus irmãos... tipo... você fica de saco cheio de ver as pessoas se machucando. Depois de um tempo, fica meio chato.

- Inesperado

- É uma boa palavra para o que acabou de acontecer

- Inesperado

Jaque: Qual é o seu nome?

Rúbia: Rúbia.

Jaque: Jaque. Você não está na minha escola, está?

Rúbia: Não estou em nenhuma escola.

Jaque: Você não está na escola?

Rúbia: Não. Não vejo sentido.

Jaque: Pode crer. Ficar na cola do Bolha faz muito mais sentido.

Rúbia: É melhor do que nada. Para falar a verdade, isso é melhor do que qualquer outra coisa na minha vida.

- As duas ficam lá. Paradas.

- Entendendo nada e tudo uma sobre a outra

Jaque: Então qual é o plano? Eles vão ficar correndo atrás da gente para sempre?

Rúbia: Vão encher o saco logo. Só precisamos ficar um passo à frente. Só isso. Você vem?

- E assim a Jaque pega na mão da Rúbia

- Jaque percebe naquele instante que desde pequena nunca mais tinha pegado na mão de ninguém

- Tipo pequena mesmo. Mais nova do que agora

- Ela aceita.

- Uma vez na vida engolindo a teimosia

- Ela gosta da peixinha. Pelo menos parece que gosta.

- E que mãozinhas. Percebe que a Rúbia tem mãos muito pequenas

Bamba: O que estou fazendo?

- Bamba começa a pensar sobre a escolha que tinha feito

- Parecia uma escolha simples

- Uma escolha de força

- Uma escolha de coragem

- Mas agora não tinha mais tanta certeza

- Talvez ela fosse velha demais para isso

- Porque não era mais uma criança

- Não era mais pequena

- O mundo tinha deixado mais do que claro que não havia nada de infantil nela

- Provas

- Libras esterlinas

- Euros

- Férias no Caribe, quando tiver idade

- Poupar para comprar um apê

- Poupar para comprar um carro

- Quando tiver idade

- Mas quem sabe... talvez essa ideia tenha sido meio precipitada

- Tipo, qual adolescente fica sentada em uma árvore?

- De repente pareceu uma coisa meio infantil

- Uma mulher crescida não faria um negócio desses

- Faria?

Diesel: Atende o celular

- Diesel já caminhou metade do parque

- Não consegue ver a amiga

- Não consegue telefonar para a amiga

Diesel: Oi, Bamba, é o Diesel. Seu celular tá sem bateria? Porque... não faz nenhum sentido eu deixar esta mensagem se ele estiver sem bateria... mas se não estiver e você ouvir esta mensagem, me liga, tá? Estou esperando por você. Não é legal me deixar aqui esperando assim... espero que esteja tudo bem. Me liga.

- Em outro lugar do parque, pés chutam folhas

- Olhos estão focados no asfalto

- Mergulhados em pensamentos

Vinil: Com licença. Será que um de vocês viu uma luva?

Bolha: Uma luva?

Vinil: É. Parecida com esta aqui porque é o par. Sabe?

Turca: Tá com cara que a gente viu uma luva?

Vinil: Não sei... que cara tem quem viu uma luva?

- O silêncio envolve o grupo

- Todos um pouco confusos com a evidente falta de medo de Vinil

Bolha: Aonde você pensa que vai?

Turca: Não ouviu o cara? Aonde você pensa que vai?

Vinil: Só estou procurando a minha luva

Bolha: Por onde andou?

Turca: Por onde andou?

Vinil: Só no parque...

Bolha: Você não é meio grandinho para passear no parque?

Turca: É. Meio grandinho.

Vinil: Você precisa repetir tudo o que ele diz?

Turca: Não. Posso dizer o que quero.

Vinil: Então devia.

Turca: Devia o quê?

Vinil: Dizer o que quer.

Turca: Eu digo.

Vinil: Que bom.

Bolha: Peraí. O que está acontecendo aqui?

Vinil: Nada. Com licença...

Turca: Peraí. Estamos procurando duas garotas. Elas correram naquela direção.

Vinil: Eu vi uma garota em cima de uma árvore, mas não vi duas garotas correndo.

Bolha: Garota em cima de uma árvore?

Vinil: Sim. A árvore no alto do parque.

- Como um ratinho andando por um beco cheio de gatos de rua

- Vinil desaparece pelo caminho.

Vinil: Valeu, galera.

- Deixando Bolha e sua gangue discutindo o que fazer em seguida

Bolha: Por que não vamos ajudar a tal garota a descer?

Turca: O que você quer dizer com isso?

Bolha: Tipo... da tal árvore a gente vê o parque inteiro. Talvez a gente consiga ver a sua amiga.

Turca: Ela não é minha amiga.

Bamba: Tá tudo bem. Tô de boa.

- Ela diz para si mesma

Bamba: Segura a onda. Controle-se.

- Ela sabia que não era loucura

- Sabia que vinha das profundezas do seu ser

- Mas também sabia que em algum lugar do parque sua irmã estava procurando por ela

- E estava com saudades do Diesel.

- Saudades das piadas dele.

- Era o mesmo malabarismo de sempre entre o que o seu cérebro quer

- E o que as suas costelas querem

- Presa entre o que veio antes

- E o que vem depois

Bamba: Mais uns 60 anos?

- Isso se ela não fumar ou praticar esportes radicais

- Ela tem mais uns 60 anos disto aqui

- E aí estava o problema

Jaque: É verdade o que dizem sobre o Bolha?

Rúbia: Dizem o quê?

Jaque: Sobre as pílulas. Naquela festa.

Rúbia: Sei lá. Depende do que as pessoas estão dizendo. É mais uma parada do irmão dele.

Jaque: É uma parada sua?

Rúbia: Minha? Não. Por quê?

Jaque: Tava pensando.

Rúbia: É uma parada sua?

Jaque: Tá zoando? A minha irmã mais velha me mataria se eu chegasse perto de uma coisa dessas. Ela é super protetora.

Rúbia: Eu nunca ia deixar a minha família mandar na minha vida.

Jaque: Você não conhece a minha irmã. E eu prefiro escutar conselhos dela do que do seu melhor amigo Bolha.

Rúbia: Dá para parar com essa história do Bolha?... Ele nem é meu amigo. Quero dizer, não é mais.

Jaque: Então pra que se preocupar? Você fica melhor trancada em casa do que saindo com esse mané.

- O que a Rúbia queria dizer é que estava meio que presa na gangue

- Fazia dois anos que estava no fim da fila da gangue

- Eles estavam lá quando a mãe dela a expulsou de casa uma noite

- Ou quando os irmãos dela pegaram sua carteira

- Mas ela tinha crescido mais rápido que eles

- Mais do que eles

- Ela achava que era melhor ter a gangue do que não ter ninguém

- Por isso disse simplesmente

Rúbia: Você sabe que eles não são tão maus. São só imaturos

- A própria Jaque sabia que não estava dizendo a verdade

Turca: Estamos indo muito devagar. Elas vão conseguir escapar antes de a gente chegar na metade do caminho.

Bolha: Vão para casa. Todos vocês. Podem vazar.

- O grupo pausa e olha para o Bolha

Turca: É. Ele tem razão. Podemos dar conta sozinhos. Não precisamos de corpo mole.

Bolha: Na boa, Turca. Baixa a bola. Não precisa ferrar com os que resolverem ficar... mas é isso mesmo. O resto pode vazar. A gente se vê amanhã. E façam o favor de trazer grana. Nada de bolsos vazios amanhã. A menos que queiram mais um dia sem cigarro.

- E simples assim, o grupo começa a desaparecer

- Ninguém mais queria ficar correndo atrás de duas garotas no parque

- Não estavam nem aí

Bolha: Então somos só nós dois.

Turca: Parece que sim.

- Bamba está vendo tudo isso

- Ela vê o grupo se desfazer.

- Ela imaginou que tinham se separado para facilitar a busca pela sua irmã

- Bamba sentia as palmas das mãos suadas

- Tudo tinha mudado

- E ela não tinha nenhuma ideia do que fazer

Bamba: Que vá tudo pro inferno

- Era muito mais difícil do que ela pensava

- Porque ninguém tinha avisado como é difícil mudar

Turca: Você devia se preocupar, Bolha. A Rúbia indo embora desse jeito. Eu não quero mais ninguém tendo essas ideias, tá ligado? Esse tipo de ideia pode ser contagiosa. Pode envenenar tudo. Quando as pessoas começam a ter suas próprias ideias de como as coisas deveriam ser, é daí que fica perigoso para os peixões como nós.

Bolha: Peixões? Eu sou alérgico a peixe.

Turca: Tigres. Leões. Tanto faz. Sabe daquela época quando dizem que tinha lobos aqui? Então, somos nós. Nós somos os lobos. É importante as pessoas saberem.

Bolha: Não era uma mercearia que tinha aqui?

Turca: Antes disso. Antes de todos os humanos. Os lobos têm dentes super afiados. E não têm medo de usá-los.

Bolha: Eu nunca tive medo, Turca. Mesmo depois de tudo que aconteceu. Nunca tive medo de nada.

Turca: É por isso que você é meu amigo, Bolha. É por isso que essa galera te respeita.

Bolha: É. Pode crer. Vamos nessa então.

Turca: Você vai na frente. Mostra o caminho.

- Foi aí que a Turca ouviu a voz dos irmãos soando na cabeça dela

- Se proteja

- O mundo está cheio de lobos

- Se proteja

Diesel: Tá de brincadeira. Bamba? É você mesmo?

- Os dois ficam se olhando

- Conectados no silêncio e na confusão

Diesel: O que tá fazendo aí em cima? Você odeia subir em árvores.

Bamba: Diesel, você precisa encontrar a Jaque. O Bolha tá atrás dela.

Diesel: O quê?

Bamba: Você precisa ir.

Diesel: Tem alguma coisa errada com as suas pernas?

Bamba: Não posso descer, Diesel. Faz parte desse... não sei como explicar... Eu...

Diesel: Eu te liguei.

Bamba: Eu arrebentei meu celular

Diesel: O QUÊ?!

Bamba: Não preciso dele.

Diesel: Você não precisa dele?

Bamba: Não preciso.

Diesel: Você não vai /

Bamba: / Não vou mais.

Diesel: Não vai mais?

Bamba: Tem um eco aqui? Olha, dá para você ir ver se a Jaque tá bem?

Diesel: Por que você não desce e a gente vai juntos?

- As palavras não encontram a Bamba

- Ela sentiu uma dose dupla de sentimentos: culpa e força

- E sua mente passou rapidamente pelos noticiários de televisão

- E revistas de fofoca

- E roupas para gente magra

- E beijar os garotos

- E não beijar os garotos

- E definitivamente não ficar grávida antes dos 20

- E desligar as luzes quando sair do quarto

- E reciclagem

- E tudo que ela conseguia dizer era

Bamba: Não posso.

Diesel: Olha. Já deu. Chega dessa história. Vamos dar uma olhada.

- Bamba só balança a cabeça

Diesel: Olha, não vou atrás da Jaque sem você. Que coisa idiota. Desce aqui. O Bolha está rolando pelo parque procurando encrenca. Você quer estar aí em cima quando ele chegar?

Bamba: Não tô nem aí se o Bolha quer me pegar ou não.

Diesel: Virou herói de repente?

- A verdade é que Bamba nunca tinha se sentido tão pouco heroica

Diesel: Vai me contar por que decidiu se esconder em uma árvore?

- Ela respira profundamente

- Como a gente faz antes de enfiar a cabeça debaixo d’água

Bamba: Não estou bancando o ‘herói’... mas não quero mais saber de nada disso.

Diesel: Saber do quê?

Bamba: De qualquer coisa. De tudo.

Diesel: Da escola?

Bamba: Não.

Diesel: Alguma coisa em casa?

Bamba: Não. E sim. Tudo isso. Tudo de tudo. Tipo, dá uma olhada em volta.

- Bamba e Diesel tiram os olhos um do outro

- E olham para o chão

- Olham para o céu

- Olham para tudo que conhecem

Bamba: Tá tudo virando uma porcaria.

Diesel: Eu não... desde quando... dá para você descer?

Bamba: Não. Chega. Não quero mais.

Diesel: Você não está sendo um pouco... Olha, deixa pra lá. Vamo ‘bora.

- As mãos dela estão tremendo.

- Os olhos se enchendo de lágrimas.

Bamba: Você não percebe? Tudo importa.

Jaque: Olha. Valeu pela... sei lá... mas vou vazar. Preciso encontrar a minha irmã.

Rúbia: Então é simples assim? Sai fora.

Jaque: O que você quer?

Rúbia: Não posso te deixar sair andando por aí sozinha... você não sabe onde está o Bolha.

Jaque: Tá tudo bem. Ele não é tão durão quanto você acha. Você tem uma ideia dele na cabeça, mas ele é só um cara... sei lá.

Rúbia: Tá zoando? Duas semanas atrás, ele achou um cachorrinho. Um cachorrinho de três patas. Velho, tinha mais feridas na pele do que a própria pele. A Turca segurou o cachorro no chão – ele latia e chorava e daí o Bolha pegou uma pedra enorme e jogou na cabeça dele. Ele parou de latir, mas o Bolha não parou. Ele só pegou a pedra de novo e bateu de novo e de novo e de novo. Até o bichinho ter virado nada. A Turca disse que era melhor acabar com a vida miserável dele, mas ele parecia bem. E eles deixaram ele lá. Logo ali, no outro lado do parque. E ainda tem sangue nos sapatos deles. Todo ressecado nos cadarços. Não contei isso para ninguém... e nunca vi nada igual antes... e nunca quero ver de novo.

Jaque: Por que você não impediu os caras?

Rúbia: O que você queria que eu fizesse? Quando eles metem alguma coisa na cabeça... Olha só para a gente. Não vou te deixar sair andando sozinha pelo parque.

Jaque: Eu sei me cuidar.

Rúbia: Fui eu que te meti nesta encrenca.

Jaque: Mas eu não sou um cachorro aleijado. Vou ficar bem. De verdade.

SILÊNCIO

Rúbia: Sabe aquele garoto que você estava procurando?

Jaque: O Diesel?

Rúbia: É. Ele estava caminhando lá para o alto do parque. Tava indo na direção da árvore.

Jaque: Valeu.

- Com isso, ela se aproxima e beija Rúbia

- Bem na boca

- Foi um beijnho

- Nada de língua

- Jaque sabia que não precisava ser salva, mas gostou do gesto

- As duas dão um passo para trás

- Um pouco surpresas pelo beijo

- As duas um pouco confusas, mas nenhuma delas assustada

- Nenhuma certa do que significava aquele beijo

- Nenhuma se importando muito

Jaque: A gente se vê

Rúbia: A gente se vê

- Um pé na frente do outro

- Um pé

- E depois o outro

- Em direções opostas

Diesel: Desce aqui. A gente encontra a Jaque e resolve isso.

Bamba: Quantas vezes preciso repetir, Diesel?

Diesel: Qual é? Tá escurecendo. E eu não tenho uma lanterna. Meu celular está sem bateria, o seu está destruído. A sua irmã pode estar perdida no parque. Não se trata só de você. Para de ser idiota. Vou vazar, Bamba...

- O céu escurece

- As nuvens se aproximam

- Não havia dúvidas. Estava anoitecendo

Diesel: A sua mãe vai ficar preocupada.

- Foi um golpe baixo, mas bastou para o coração da Bamba pular no peito

Bamba: Eu disse para ela que ia ficar na sua casa.

Diesel: Será que essa desculpa vai colar mesmo quando você não voltar para casa depois de uma semana?

Bamba: Não consigo. Não dá mais. É difícil demais. A minha mãe chora. Muito. O meu quarto é do lado do banheiro e eu ouço ela chorar. Não sei por que, Diesel. Ela chora, só isso. E você sabe que não é um bom sinal quando a sua mãe passa horas chorando.

Diesel: Há quanto tempo ela está chorando?

Bamba: Tempo bastante. E o meu pai começou a fumar de novo.

Diesel: E daí? Você fuma nas festas!

Bamba: Mas é diferente. Ele anda meio quieto. Ele parece.... sei lá... E eu odeio a escola, Diesel. Odeio. Não faz nenhum sentido. Não dou a mínima para uma revolução que aconteceu há 80 anos. E não tem chance de eu entrar na faculdade com as minhas notas e não tenho um puto para sair de casa e não tenho emprego e não quero continuar morando com a minha mãe até os 45 anos.

SILÊNCIO

Diesel: Tá rolando algum lance hormonal... ou algo parecido?

Bamba: Não estou menstruada, Diesel.

Diesel: Que nojo! Na boa. Por que você não desce e a gente conversa? Estou ficando com torcicolo só de ficar olhando pra cima... e daqui a pouco você nem vai conseguir enxergar onde por os pés. Desce aqui. Tá ficando perigoso.

Bamba: Ótimo! Que fique perigoso mesmo.

Diesel: Tá com desejo de morte?

Bamba: Não. Mas pelo menos alguma coisa mudaria. Tá tudo cinza. Dá uma olhada nesse monte de cinza.

- E a Bamba sentiu uma pontada no músculo à esquerda do coração

- E quando olhou para todo o cinza à sua volta

- Sentiu uma conexão do cérebro com a língua

- E por um instante, algumas palavras chegaram a ela

Bamba: Não são essas coisas. Não é por isso que estou aqui. Dou conta dessas coisas. As coisas da vida e tudo o mais. É só que...

Diesel: Fala de uma vez.

Bamba: Aprendi uma palavra outro dia. Na aula de literatura. A professora estava analisando um livro velho sei lá sobre o que e daí ela falou... das pessoas sendo Apáticas... era sobre a Apatia.

Diesel: Tá. E o que significa?

Bamba: É sobre as pessoas que não se importam. As pessoas que não querem se importar com nada.

Diesel: Dá para explicar como ficar sentada em cima de uma árvore mostra que você se importa?

Bamba: Não. Não é isso. Depois que ela disse a palavra, não consigo parar de ver e de sentir Apatia em todos os lugares. E não acho certo. As pessoas não se importando. É frustrante... é .... difícil...

Diesel: Agora vai começar a falar das crianças passando fome?

Bamba: Para de tentar deixar tudo pequeno. Não é pequeno. Estas ideias não são pequenas.

Diesel: Olha. Resolve essas coisas todas depois que sairmos da escola. Deixa pequeno por enquanto. É uma questão de sobrevivência. Deixa essas coisas no seu inconsciente até você conseguir fazer alguma coisa.

Bamba: O quê? Tipo, como todo mundo à nossa volta?

Diesel: Não é como se você estivesse fazendo alguma coisa.

Bamba: Não. Não é isso!

- Bamba aperta o peito.

- E as lágrimas enchem seus olhos, mas não caem

- Ela não gostava muito do mundo

- E não sabia o que fazer com esse tipo de sentimento

- Não sabia onde colocá-lo

Diesel: Olha. Não fica tão envolvida assim. Você pode salvar o mundo outro dia. Agora desce. Beleza?

Bamba: Mas aí é que está o problema, entende? Não posso mudar o mundo e com certeza não consigo salvá-lo. Não posso fazer nada.

- Os dois amigos ficam se olhando

- Faz anos que não brigam

- Talvez estivessem a poucos metros um do outro, mas também estavam a mundos de distância

Diesel: E a sua irmã?

- Bamba sentiu uma pontada dupla de culpa e tristeza

Bamba: Não posso descer.

- Ela queria descer

- Queria encontrar a irmã

- E gritar com ela

- Dar bronca

- E depois abraçá-la

- Do jeito que as irmãs mais velhas fazem

- Mas não fez nada disso

- Ela estava sentada naquela árvore

- Esperando algo melhor

- Querendo algo maior

- Um pé

- E depois o outro

- Bamba olha para todo o cinza à sua volta, seus olhos úmidos de querer

- Diesel olha a amiga e o silêncio entra rastejando pela sua mente

- A Turca sobe a colina, procurando lobos, pronta para dar o bote

- Bolha caminha dois passos atrás, incerto depois de tantas mudanças de lado

- Rúbia toca os lábios, pensando no beijo, tentando imaginar como ela se sentiu

- Jaque sente a energia nos seus pés, nas suas mãos

- De repente Vinil dá meia volta, de repente percebendo que tinha mandado uma matilha de animais urrar com uma garota em cima da árvore... o que [ele] tinha feito?

Jaque: Diesel! Você viu /

Diesel: Jaque! Olha. A sua irmã não quer descer

Bamba: Você tá bem? Você tá bem!

Jaque: Faz um tempão que estou te procurando! Tava super preocupada, estava... Por que você está em uma árvore?

Diesel: Ela não quer descer.

Bamba: Eu estava preocupada. Vi o Bolha indo atrás de você. Ele te machucou?

Jaque: O que você está fazendo? E como soube do Bolha? O que mais você viu?

Bamba: Vi o Bolha te perseguindo.

Jaque: E não veio me ajudar?

Bamba: É que...

Diesel: Ela não vai descer. Ela não gosta do mundo.

Bamba: E o que aconteceu com o Bolha? Por que ele ficou tão bravo?

Jaque: Dá um tempo! O que você disse sobre o mundo?

- Bamba se sentiu perdida de novo

- Mais uma pessoa para explicar tudo

- E por algum motivo, com estas pessoas mais próximas

- Ela achava mais difícil

- Ela achava mais difícil explicar aquela dor

- A dor no seu peito, no seu cérebro

Jaque: É por causa daqueles comerciais na televisão? Já falei para você parar de assistir aquela tristeza

Diesel: Já perguntei – não é por causa dos comerciais.

Jaque: É por causa da escola? As coisas em casa?

Diesel: Não, não se trata de nada disso. Mas também é tudo isso.

Jaque: Você não pode estar tão chateada assim – vai ter assado hoje no jantar e, olha, a mamãe falou que você foi comprar detergente.

Diesel: Talvez ajudasse se você não prestasse tanta atenção no que a TV está falando, não acha? Que tal esquecer tudo aquilo?

Jaque: É melhor você não estar de brincadeira. Porque não tem graça. Não acredito que passei a tarde toda te procurando e você parada aí em cima. Quer saber de uma coisa, Bamba? Não estou nem aí. Vou para casa com ou sem você. Diesel você vem?

- Diesel olha para a Jaque

- Fica tentado

- Está dando as costas

Bamba: Para com isso!

- E na cabeça dela, era tipo

- Imagens de carros cantando pneu

- E uma bandeira ao vento

- E a polícia jogando latas de gás

- E os moradores de rua

- E os resultados das provas

- E terremotos

- Enchentes

- Ônibus atrasados

- O preço do leite

- A maioridade sexual

- Provas

- Libras esterlinas

- Euros

- Férias no Caribe quando tiver idade

- Poupar para comprar um apê

- Poupar para comprar um carro

- Noticiários de televisão

- Revistas de fofoca

- Roupas para gente magra

- Beijar os garotos

- Não beijar os garotos

- Não ficar grávida antes dos 20

- Desligar as luzes quando sair do quarto

- Reciclagem

Bamba: Reciclagem!

Diesel: O quê?

Jaque: Você tá zoando. Agora vou embora mesmo.

Bamba: Não. Não é isso. Mas é isso. Não é tão simples. Não tem nada de simples nessas ideias, não tem nada de simples em mim, ou em vocês ou aqui, ou nesta cidade, neste país. E as pessoas tentam te dizer que é fácil. Simples. Mas a verdade é que ninguém liga. Ninguém se importa o bastante para olhar as coisas de frente. Como tudo é difícil. Porque é difícil. É difícil saber que não dá para consertar as coisas. Não dá para fazer nada sobre nada. É difícil. E ninguém se importa.

SILÊNCIO

Jaque: Eu me importo

Bamba: Você se importa mais com o formato das sobrancelhas do que com o que está acontecendo no mundo.

Jaque: Você diz isso por pura maldade.

Diesel: Por que deveríamos nos importar?

Bamba: Porque é nosso também. É isto que vamos herdar. Isto. Esta bagunça. E não quero nada disso, Diesel. Nem um pedaço.

- Com isso, o silêncio cai sobre o trio

- É dolorido olhar para o mundo

- Agora Diesel entende

- É dolorido ver como o mundo é de verdade

Diesel: Acho que se esconder em uma árvore não é a melhor forma de... consertar as coisas.

Bamba: O que você propõe então?

Diesel: Não me interessa propor nada. O voto?

Bamba: Você acha mesmo que o voto muda alguma coisa?

Jaque: (sarcástica) Ah, claro. É quase tão útil quanto subir em uma árvore.

- Há poucos minutos dali, Rúbia dá meia volta

- Ela sabe que precisa ver aquela garota de novo

- Não pode deixar assim

- Há poucos minutos dali, Turca e Bolha se aproximam da árvore marchando

- Buscando algo para agitar, buscando alguma coisa.

- Há poucos minutos dali , Vinil corre para a árvore.

- Querendo ter certeza de que não causou nenhum problema

- Queria ter certeza de que não mandou os lobos para os carneiros

Bamba: O que mais então? Não consigo pensar em mais nada para fazer.

Jaque: Você tá agindo feito um idiota. Você nem tem nenhum motivo decente. Tô fora. Tô muito fora.

Bamba: É por você, Jaque. É por você que estou aqui!

Jaque: É minha culpa? Por que é minha culpa?

- E simples assim, tudo mudou de novo

Rúbia: Jaque!

Jaque: Rúbia? O que tá fazendo ...?

Rúbia: Preciso falar com você, sobre o que aconteceu /

Diesel: / O que você tá fazendo falando com esta inútil? Ela é amiga do Bolha.

Jaque: Ela não é nada disso. Ela... me ajudou... antes.

Diesel: Um leopardo não muda as suas listras.

Bamba: Manchas. Os leopardos têm manchas.

Rúbia: Não fiz de propósito, aquilo de antes. Foi mau pelo seu celular e tudo mais. O Bolha tava só zoando.

Diesel: Não teve graça nenhuma.

Turca: Eu rachei o bico.

Bolha: Eu também.

Turca: Não liguem para a gente. Temos que resolver uns negócios com nossa amiga aqui.

Diesel: Eu achei que você não fosse amiga desses caras.

Bolha: Ninguém falou nada sobre amigos.

Turca: Eu falei. Eu disse amiga.

Bolha: Ah.

Jaque: Dá para deixar a gente em paz?

Turca: A gente vai embora. Na hora certa.

Diesel: Virou capanga, Bolha?

Bolha: Tá zoando? Ainda sou o chefe desta gangue.

Diesel: Não parece.

Turca: Nenhum de nós tem chefe mais.

Bolha: Ei. Turca. Olha o que você está dizendo.

Rúbia: Olha, foi mau o que aconteceu antes. Desculpa. Passei dos limites.

Jaque: O que você está dizendo, Rúbia?

Turca: Lembra do que fizemos com aquele cachorro perneta?

Rúbia: Olha, eu tenho uma grana. Compro cigarro para você a semana toda.

- Jaque não podia evitar uma pontada de decepção

- Bolha sentiu o suor na palma das mãos

- E a Turca grudou os olhos na Rúbia

Bolha: Acho justo, Turca. Tô a fim de uma tragada. Foi um dia estressante.

Turca: Eu não acho. Não acho que seja uma boa oferta. Não sou pamonha feito você, Bolha.

Bolha: Pamonha?

Rúbia: Olha, Turca, o que aconteceu antes, não significou nada.

- Com isso, Turca se curva

- E pega o galho que Vinil tinha quebrado

- Lá de cima, Bamba vê tudo

Bamba: Cuidado!

- Turca gira o galho em cima de sua cabeça

Rúbia: Tá planejando descer o cacete em alguém?

Turca: Tá pensando em ficar quietinha para mim?

- E assim, faz mira em Rúbia

Jaque: O que você está fazendo?!

Turca: Não chega perto ou eu arrebento a sua cabeça também.

Bolha: Não tem graça, Turca. Você pode machucar ela feio.

Turca: Essa é a ideia.

Rúbia: Olha, Turca. Não fiz por mal. Foi mal, tá? Desculpa. Não precisa fazer nada drástico.

Turca: Eu sei que você gosta de beijar garotas. Estava te fazendo um favor não contando para ninguém. Mas hoje... quando vi você sair correndo com ela... pensei... legal, por que não mostro pra ela o que penso dela de verdade?

- Turca dá um passo à frente.

- O galho na mão

- Pronta para atacar

- Rúbia sente as mãos tremendo

- Ela pensa no cachorrinho de três patas

- Pensa na cabeça dele e como ficou depois da pedra

Rúbia: Para! Desculpa, tá? Desculpa. Não fiz por mal. Beijei uma garota. Tudo bem. Mas não sei... tipo... não sei o que quero.

Turca: Faz o favor de ficar paradinha? Por favor?

Jaque: Se você vai bater nela, vai ter de bater em mim também.

Bamba: Jaque! Não!

Jaque: Nós nos beijamos. Tá legal? Nos beijamos. Não quis dizer nada. Foi só um beijo. Não precisa dar paulada em ninguém só por causa de um beijo.

Bolha: Larga o pau, Turca. A nossa onda não é estourar a cara das pessoas. Você bate nela com esse galho e você tá acabada. É isso que você quer? Pode confiar. O meu irmão foi preso e vou te contar, não foi nenhum mar de rosas. E ela não vale a pena. Não vale a pena.

- Uma lágrima escorre dos olhos de Bolha, mas ele enxuga rápido com a mão

- Diesel tem a impressão que seu coração parou

- E Rúbia olha dentro dos olhos da Turca

Vinil: Não machuca ela. Não vou deixar você machucar ela.

- E, do nada, Vinil vai para cima da Turca

- Agarra o galho

- Os dois fazem um cabo de guerra puxando para cá e para lá

- Turca derruba Vinil

Turca: Já deu! Eu devia esmagar as cabeças de todos vocês, seus covardes. Olha só para vocês. Não servem nem para lutar. Nem têm coragem de fazer alguma coisa sobre o que eu estou fazendo. Estão com medo de uma gangue idiota?! Bando de bundões. Vocês não percebem? Vocês precisam aprender a lutar. Não vão durar muito tempo se ficarem aí com essa cara de medo. Vocês não passam de um bando de... fedelhos. São uns fedelhos idiotas, todos vocês.

- Turca joga o galho no chão.

- Eles ficam ali parados

- Em silêncio

- A cada minuto parecendo menos com crianças e mais com adultos

Jaque: Eu prefiro ser covarde do que idiota

- Jaque pega o galho depressa

- Aponta o galho na direção de Turca, que nem pisca

Bolha: Ei! Não fala assim com ela.

- Turca olha para o Bolha

- Aliviada de não ter mais a responsabilidade das palavras

- Bolha dá um passo no meio do grupo

- Abaixa o galho nas mãos de Jaque

- E ele pensa, ninguém vai se machucar hoje

- Ninguém vai se machucar

Vinil: O que está acontecendo aqui?!

Bamba: Só estamos tentando não fazer merda.

- Um a um, eles se viram e olham para a garota em cima da árvore

Bamba: Vocês estão errados. A resposta não está em brigar, não desse jeito. É só olhar para as pessoas à sua volta. Elas não ligam para as coisas a ponto de lutar por elas. Só ficam sentadas sem fazer nada. Deixam o mundo passar por elas. Talvez pudessem lutar por alguma coisa, mas não fazem nada. Todo o poder no mundo e não se importam com nada, não lutam por nada. Não somos covardes porque não lutamos. É só escolher algo por que lutar. Quando eu luto, quero lutar por algo mais importante que isso... mais que você ameaçando uma garota com um galho porque ela beijou outra garota. Tenho mais o que fazer com o meu tempo, coisas melhores pelas quais lutar. Todos temos.

SILÊNCIO

Turca: Não precisa fazer sermão

Diesel: Bamba, tá na hora de descer.

Jaque: Peraí. O que você quis dizer quando disse que foi por minha causa que você subiu aí?

- Com respirações profundas e carregadas, Bamba suspira

- Exaustivo

- Bamba sabia uma coisa

- A mudança é exaustiva

Bamba: Foi aquela mensagem.

Jaque: Que mensagem?

Bamba: Você me mandou aquela mensagem.

Jaque: ... Não me lembro...

Bamba: Eu perguntei se você queria ir ver a vovó neste sábado ou no outro e você disse...

Jaque: Não sei do que você tá falando.

Bamba: Você disse – para mim tanto faz. Você escreveu exatamente isso no seu celular e mandou para mim. Levou uns 30 segundos. Para você tanto fazia neste ou no outro.

- O grupo se entreolha

- Ninguém entende direito aonde ela quer chegar

- Mas percebem que deve querer chegar em algum lugar

Jaque: Mas por que isso foi um problema?

Bamba: Porque você não se importava. Não se importava se ia ver a vovó ou não. Você não ligava se ia comigo. Você não se importava... apatia. E pensei, se a minha própria irmã não se importa conosco... então tá tudo ferrado mesmo. A apatia está em toda parte. Talvez venha embutida em todos nós. Vai ver que nada nunca vai mudar. Vai ver que é assim mesmo. Eu não gostei dessa sensação. Não gostei que você não se importava.

Jaque: ...Só quis dizer que estou livre nos dois fins de semana.

Rúbia: Acho que você está interpretando demais.

Bamba: Não estou não. Era tipo assim... como é aquele ditado?

Bolha: É a última gota que faz transbordar o cálice.

- O grupo todo se vira e olha para o Bolha

Bolha: O quê? Não sou um ignorante.

Bamba: Exatamente.

Jaque: Foi por isso que você despedaçou o celular?

Bamba: O whatsapp não fazia mais sentido. Facebook não fazia mais sentido. Candy crush não fazia mais sentido. Tanto faz, não é? Tudo isso. Nada disso importa quando você tem coisas mais importantes. Coisas maiores. A droga do celular era só... uma... distração. Ele me impedia de ver o mundo como ele é. O celular impedia tudo.

Vinil: Quer saber de uma coisa, Bamba. É você que não liga a mínima... qual é a palavra mesmo?

Bolha: Apatia...

- O grupo se vira e olha para o Bolha de novo

Bolha: O quê foi? Eu estava prestando atenção.

Vinil: Apatia. Soa como alguma doença bizarra. Nós, aqui no chão, nós nos importamos. Não temos escolha. Se não, é só... chato ou sem sentido ou sei lá o quê. Você precisa se importar com alguma coisa. Todo mundo sabe disso. E você aí. Nessa árvore. Tudo bem cair fora, mas não é meio idiota cair fora porque os outros estão caindo fora?

Jaque: Quê?

Vinil: Ela está fazendo exatamente o que ela odeia que os outros façam. Certo?

Jaque: Oh. Certo.

Vinil: Não sei como consertar as pessoas que não se importam. Não sei como fazer as pessoas perceberem as coisas que precisam ser consertadas. Porque elas estão em toda parte. As coisas que precisam de conserto. Todos nós podemos falar de três coisas em 30 segundos que precisam de conserto, mas ninguém vai consertar nada se não fizermos parte de tudo.

Turca: Isso aqui tá parecendo um episódio da Vila Sésamo.

Bolha: Cala a boca, Turca.

Diesel: O que você estava dizendo antes? Você tem razão. Isso aqui é nosso. É tudo nosso. Mas não dá para torná-lo nosso, tipo nosso mesmo, sem estar dentro. Não dá para consertar nada sobrevoando por cima das coisas.

- Tem mudanças que a gente sente

- Em algum lugar sob as costelas

- Algum lugar à esquerda do coração

- Algo acontece

- Alguma mudança

- E vai acontecer muitas vezes ao longo dos anos

- Até eu sei disso

- É como uma falta de ar

- Isso, essa é a melhor descrição: uma falta de ar

- E Bamba sentiu exatamente isso. Sentada na árvore. Olhando para baixo

- Olhando aquelas pessoas

- Pessoas que pareciam tão confusas quanto ela

- Tinha sido um outono difícil, ela pensou.

- O outono do que veio antes, e do que virá depois.

Diesel: Por favor, desce.

Jaque: Preciso de você.

- E simples assim, tudo muda de novo.

- Bem quando você se apega a alguma coisa

- Bem quando você decide

- A coisa muda

Bamba: Tá bom.

- Um suspiro

- E uma respiração

Bamba: Com uma condição. Vocês precisam subir aqui primeiro.

Diesel: Tá maluca?

Bamba: É o sol. Está se pondo. Não dá para ver daí de baixo. É muito perto do chão. Mas daqui de cima, os vermelhos e amarelos. É lindo.

- Bamba olha para o Bolha e a Turca

Bamba: Mas primeiro é melhor vocês darem o fora.

Jaque: Vocês ouviram.

- Bolha e Turca olham para o grupo

- Bando de manés

- Bando de metidos

Bolha: Sabemos quando não somos queridos. Você vem?

- Rúbia balança a cabeça

Rúbia: Desta vez não.

Turca: É melhor a gente não te ver de novo, beleza?

Rúbia: Beleza.

- Em silêncio os dois saem marchando

- Eles não vão contar sobre o que aconteceu aqui hoje

- Nunca

- Mas algo mudou neles

- De uma forma mínima, algo mudou neles

Bamba: Olha, prometo que desço depois. Venham ver isso.

- E simples assim

- Um a um eles começaram a subir na árvore

- Ajudando um ao outro

- Subindo aos tropeções

Jaque: Tenho medo de altura

Rúbia: Vai ficar tudo bem.

- Galho a galho

- Um pé sobre o outro

- O grupo se acomoda nos galhos da árvore

- Como corvos

- Ou pombas

- Ou gaivotas

- Ou pardais

- Todos empoleirados nos galhos

- Olhando a mudança das luzes

- Olhando o sol mergulhar atrás desta nossa grande pedra

Bamba: É incrível tudo o que você vê quando olha direito

Diesel: É demais quando as luzes mudam

Vinil: Tô vendo a minha luva. Olha! Ali, ó... ah não. É só um pacote de salgadinho

Diesel: Tudo parece tão menor daqui de cima.

Jaque: Como é que se chama mesmo? Tipo, nas fotos. Acabamos de aprender em artes. A profundidade e aquela...

Bamba: Perspectiva.

Jaque: Isso. Perspectiva.

- E naquele instante

- Um floco branco cai do céu

- Bamba estende a mão

- E pega o floco e ele desaparece

- Era neve?

- Bamba não tem certeza

- Mas ela agora sabia. O sol certamente iria nascer de novo

- Exatamente como ele iria se pôr de novo

- É demais tudo o que a gente vê quando olha direito

Bamba: A natureza é do cacete.

- A escuridão e as sombras caem sobre o grupo

- E todos ficam sentados ali em silêncio

- Seguram os galhos com um pouco mais de força

- E ficam quietos, mesmo que apenas por um momento.

- Bamba sorri para si mesma e se pergunta se o dia valeu a pena

- Se tinha valido a batalha

- Só para ela poder ver este pôr do sol

- E concluiu que provavelmente tinha valido sim

- Sempre vale a pena ver mais um pôr do sol.

- Ela prometeu a si mesma que ia começar a olhar para cima. Para não deixar de ver

- Afinal, a perspectiva é tudo.

- E com isso, Vinil quebrou o silêncio

Vinil: Só uma coisa... Como vamos descer?

BLECAUTE

[1] no original: a group of shrugs and sighs collect – N.da T.

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