loading

_peças /

Meu Adulto Favorito? / Dib Carneiro Neto

MEU ADULTO FAVORITO?

Dib Carneiro Neto

Direitos Autorais

 

DIREITOS AUTORAIS

 

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do

Projeto Conexões Teatro Jovem

e fez parte do seu portfólio no ano de 2015.

Qualquer montagem fora do Projeto deverá  ser

negociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos autorais.

 

Contato Dib Carneiro Neto:dibcarneironeto@uol.com.br

 

Dib Carneiro Neto dibcarneironeto@uol.com.br

CONSIDERAÇÕES DO AUTOR DIB CARNEIRO NETO

Esta peça é composta por seis monólogos, mas pode ser feita por 12 atores, cada dois fazendo o mesmo personagem, para que alunos muito jovens e inexperientes não se assustem por ter de decorar tanto texto de uma vez – e para dar a chance a mais alunos de participarem da peça, como é objetivo deste projeto Conexões. Ou seja, cada diretor/professor/orientador/coordenador pode ficar à vontade para trabalhar essa divisão de monólogos como for melhor para seu grupo.

A escolha do formato monólogo foi proposital, para que os alunos tenham contato com mais esse tipo de linguagem teatral, mais essa forma de fazer de teatro. Sim, é um jeito difícil de fazer teatro. Mas é importante que os alunos saibam que existe. Todos estão sempre bem mais acostumados e confortáveis quando a peça vem na forma mais comum, que é a dialógica, plena de diálogos curtos e rápidos. Daí a ideia de, desta vez, no projeto Conexões, oferecer uma linguagem diferente. É importante para os alunos compreenderem que há várias formas de se escrever uma peça de teatro – e os monólogos são uma dessas formas.

Seria mais apropriado e mais proveitoso se o texto fosse trabalhado por jovens com mais de 16 anos, pois os temas levantados nesses monólogos podem ainda não ser muito confortáveis ou inerentes ao universo dos pré-adolescentes, menores de 16 anos. É claro que, se houver interesse também dos menores, isso terá de ser muito delicadamente conversado, inclusive com seus pais. Os temas são, por exemplo, assédio sexual, corrupção, lidar com perdas, bullying sexual, preconceito racial, descoberta da sexualidade, homossexualidade.

É fundamental que seja explicado previamente aos jovens alunos interessados no texto que se trata de um exercício teatral baseado na IRONIA, no sarcasmo, na ambiguidade. Todas as situações sugerem esse jeito irônico de lidar com os temas. Os “adultos favoritos”, na verdade, são adultos problemáticos, que dificilmente seriam os adultos preferidos de alguém. Por isso, as redações escritas pelos alunos são todas de duplo sentido. Parece que os jovens estão encantados com aqueles adultos, mas, na verdade, estão sendo dúbios, estão manifestando um incômodo, um estranhamento. Isso precisa ficar claro. Trabalhar essa linguagem artificial é a chave para o espetáculo. Adolescentes, quando querem, e quase sempre querem, sabem muito bem como atingir pelo sarcasmo, pela negação disfarçada de afirmação. Dizer: “Meu pai corrupto é um herói”, por exemplo, é totalmente irônico, mordaz e crítico. Adolescentes são muito críticos. Em nenhum momento, a encenação pode passar a ideia de que esses jovens aprovam a conduta desses falsos adultos favoritos. O tom é de crítica, não de aceitação.

É preciso trabalhar com os alunos também o tom NÃO REALISTA do espetáculo. Nem sempre as peças de teatro são REALISTAS. Teatro lida com o fantasioso, o imaginativo, o improvável. Seria improvável que um adolescente escrevesse uma redação falando do assédio sexual da avó ou do homem vestido de Papai Noel?? Sim, seria improvável. A maioria não teria coragem de escrever, muito menos de entregar para a professora textos tão fortes e pessoais como esses. Mas é isso que interessa ao TEATRO: o imponderável, o inusitado, o improvável. Esta peça imagina uma situação improvável, ou seja, que um grupo ousado de alunos decidisse um dia ter a coragem de escrever essas redações. Essa é a matéria-prima do teatro: imaginar situações bem diferentes da realidade palpável, para que justamente o público reflita a partir de um exercício imaginativo. É muito importante deixar isso claro aos alunos: “Você não escreveria essa redação nunca, mas esses personagens do teatro tiveram a ousadia de fazê-lo e, a partir disso, levantaram temas importantes e corajosos. ”

Em essência, esta é uma peça fantasiosa, com o pé na realidade, que trata do seguinte tema: como podem ser complicadas as relações entre adultos e jovens, sobretudo jovens que estão a um passo de virarem adultos e terão de lidar com temas muito cabeludos ao longo da vida. É importante deixar claro o quanto esta peça está querendo mostrar o espanto, a insatisfação de jovens com relação ao mundo adulto. Como se eles se perguntassem: “Mas é nesse mundo que eu estou prestes a entrar? Vou virar um adulto assim? ” Ou seja, esta peça fala de jovens amedrontados pela proximidade da vida adulta.

O ponto de interrogação no título (MEU ADULTO FAVORITO?) dá a chave para que os jovens entendam que os temas estão sendo tratados de forma bem irônica. Seriam mesmo esses os adultos favoritos deles? Não, não seriam. O jogo teatral aqui proposto é o do questionamento. A plateia precisa entender esse jogo, em vez de se escandalizar com as histórias. Isso é papel do teatro: simular situações que levam à reflexão, que remetem a casos reais vividas pelo público, mas sem pré-julgamentos, sem preconceitos, apenas provocativamente.

Abertura

Peça em um ato e seis monólogos, para seis atores (três homens e três mulheres). A título de exercício, o diretor, caso queira, também pode optar por dobrar o número de atores, fazendo cada monólogo ser interpretado por duas vozes. Todas as ações transcorrem nos quartos de adolescente de cada personagem. Como sugestão do autor, a trilha sonora deve vir recheada de hits teens do momento, intercalando as falas com muita música, exatamente como se dá em um quarto de adolescente.

------

Depois do terceiro sinal, ouve-se em off uma gravação com burburinho de sala de aula e o som de uma campainha anunciando o fim da aula.

VOZ FEMININA EM OFF: – Classe, classe! Só mais uma coisinha! Anotem aí: Para a próxima aula, quero que todos tragam de casa uma redação com o seguinte tema, anotem: “Meu adulto favorito!” Anotaram? Vai valer nota, hein? Isso mesmo que vocês ouviram. “Meu adulto favorito!” Escrevam pelo menos uns dez parágrafos sobre o adulto de que vocês mais gostam na vida. Pronto, podem ir. Até a semana que vem.

Monólogo 1

Monólogo 1

VOZ FEMININA EM OFF: – Redação número 1: ‘O PORCO DO MEU TIO’, POR MARCELA RODRIGUES DE OLIVEIRA

MARCELA – Pouca coisa na vida me deu tanto prazer quanto ouvir minha tia chamar de porco o meu tio. Como me fez bem. Eu ainda era quase um fiapo de gente quando ouvi. Novinha em folha. Uma pirralha. Será que essa palavra pode? Eu era bem pequenininha, mas já me empinava como menina atenta, já me aprumava como desbravadora de mistérios. Isso mesmo, ficou bonito assim, é mais bonito dizer assim de mim mesma, hoje, ainda agorinha. Uma menina atenta, desbravadora de mistérios. Acho importante lembrar dessas coisas. Uma redação de colégio pode ser muito útil. Nunca pensei que fosse pensar assim. Devo estar com febre? Lembrar serve para remendar. Oba! Outra frase que vai causar! A ‘psora’ vai pirar. Eu arraso mesmo! Beijinho no ombro! (beija um dos ombros e ri) Lembrar serve para remendar dentro da gente. Nem que seja um retalho estampado, escandaloso, de flor grande, em tecido fino, desbotado, já puído, nem que isso. Nem que seja um cerzido malfeito em nobre tule, nem que seja. Remendar, minha tia, remendar. Muito bem. Porcotio. Me interessa isso, recompor, suturar. Yes! Palavra linda: suturar! Quando eu passar dos 18, ou 20, só vou olhar para trás se for para me enxergar bem, muito bem, minha tia. Eu quero é mais! E eu ouvi muito bem ouvido a minha tia chamar de porco o meu tio e eu era uma garota do bem, muito bem, desbravadora, não xereta. Muito bem, tia, chamar meu tio de porco. Ele mereceu. E minha tia virou a minha heroína. Porcotio, eu ouvi muito bem. Não pirralha, mas interessada. Eu ouvi. Pouca coisa até hoje me deu tanto prazer. Acho que já escrevi isso. Puída ela é, a minha tia do bem. Franzina, delgada, mulher escassa. Desbotada, de nada valia tanto cerzido. Para que mulher assim? Assim mulher para quê? Assim? Sem voz. Passiva. Placidamente fêmea. Aturando o porcotio, porque sempre tinha voz de vagabunda ao telefone, procurando por ele, o porcotio. Ela atendia. Eu pensava: ativar, minha tia, ativar. Remendar, minha tia, remendar. Recompor, minha tia, recompor. Nem que seja, eu pensava. Mas nada. Ela só vivia para o porcotio, mulher assim. Um jeito de ser mulher. Jeito de ser, só isso. Eu, precoce, não xereta, tentando desbravar aquele mistério da tia puída. Garota, começando a ficar vermelha todo mês, no meio das pernas, novinha em folha, fiapo de gente, eu, pirralha interessada, punha reparo na presença grande do porcotio, adivinhava a vastidão do porcotio, e sentia náusea, arrepio, engulho, aperto, gastura, aflição... Ai, como eu amo esse dicionário de sinônimos. A ‘psora’ vai pirar. Mulher assim como minha tia, para quê?, eu sentia isso: mulher para quê? Assim? Pouca coisa me deu tanto prazer. Muito bem, minha tia. Chamar de porco aquela imensidão incômoda, sufocante, o peso do meu tio, os pêlos do meu tio, camisa aberta sem pudores, suor brilhando na corrente grossa, pescoço comprido saltado de veias, um tio soltando cheiros, o porco do meu tio. Um dia ela tinha de, eu pensava desbravando. Nem que isso. Delicadeza tem limite. Nem vem. Mulher assim? Várias, dezenas delas, de mulheres assim, nas páginas dos livros que eu já devorei até hoje. Fragilidade, submissão, mas em pleno século 21? Aqueles romances com heroínas sofredoras, quem diria que me serviriam tanto para entender a minha tia! Tantos livros contam essa mesma-mesmíssima história. Páginas e páginas de remendos, suturas, retalhos. O mistério nos livros puídos. Minha tia nos livros, puída. Mas ali, ainda menina em folha, novinha, o peso do porcotio, ali, eu custava a entender: para que mulher assim? Um dia ela tinha de. Muito bem, minha tia. “Não vai pôr a mesa?” Porcotio, sem pudores e soltando cheiros, mandando na tia franzina. “Não, essa toalha, não. Comprei a nova para quê? Para quem? Menina,vem ver toalha nova, vem ver, tio comprou. Estampada com flor grande, escandalosa, vem ver, sua tia pôs a mesa. Gostou, menina? Mas cadê o pudim? Como assim, já tem tanta coisa?!, tem nada, quero fartura na mesa, fartura na minha casa, eu trabalho para quê?, dinheiro não é seu. Pudim na mesa, agora. Fez para quê? Para quem? Guardando para sobremesa da janta? O que é isso?, falta de educação, traz agora, já na mesa o pudim. Menina, venha, venha ver, tem pudim com furinho, eu sei do que você gosta. Sua tia serve. Isso mesmo, fatia grande para a menina, ouviu?” Eu ouvi. Ouvi sim. Ouvi minha tia chamar de porco o meu tio. Manda, manda mais na minha tia puída, manda, porcotio. Mata de vergonha essa tia frágil, mata a delicada na frente das visitas, porcotio. Toalha nova? Pudim? Mulher assim para quê? Se é ele quem decide até o que vai à mesa, até o tipo de mesa, o tipo de toalha, o tipo de comida. Se é ele quem decide. Porco mandão, um dia ela vai ter de, pensava eu, menina atenta comendo pudim. Bem feito, achei foi bom, pingou pudim na toalha nova, estampada com flor grande, vai manchar, porcotio, vai manchar. Remendar, minha tia, remendar. Remendar a minha tia. “Gostou do vestido da tia, menina, gostou?” Tio comprou ontem, mandou a tia vestir hoje, ela vestiu, estampa grande, flor escandalosa. Pensava eu: não combina com o jeito assim de ser mulher da tia franzina, delgada. “Menina também quer vestido?” Assim? Mulher assim? “Tio traz e menina veste, presente do tio para menina bonita. Sua tia gostou muito do vestido novo dela. Claro que gostou, só eu sei comprar roupa para minha senhora, ouviu, menina, ouviu?” Ouvi, tio. Minha senhora... Ouvi, sim. Eu ouvi. Porcotio. O senhor e sua senhora. Muito bem, minha tia. Mais engulho, aflição, arrepio. Visitar de novo a tia delgada não, não quero ir, não me leve lá, por que sempre assim?, por que sempre?, eu pensava, quando eu for dona do meu nariz – e não vai demorar – eu não visito mais ninguém, mania mais invasiva, entrar na casa, comer na mesa, toalha nova, tem pudim?, gostou do vestido? Pelo menos, serve para observar. Disso eu até que gosto. Pelo menos, desbravar. Menina atenta, meu consolo é esse. Mas não vai ser sempre assim. Não. Um dia, eu tinha de. Nem que seja. Minha tia também. Imagina, ver aquele porcotio, camisa aberta, uma vez por semana eu. E todo dia minha tia, viver com ele, conviver com ele. Todo dia, minha tia, todo dia. Mulher assim para quê? Se é ele quem...quem tudo. Decide. Decide. Decide. Decide. E a tia lá, paradona. Suturar, minha tia, suturar. Eu ouvi que ela não estudou, coitada, filha primeira, mais ajuizada, tempo antigo, ficou em casa cuidando de gente velha, assim coitada, casou tarde e com traste arranjado, porcotio, soltando cheiros. Lá foi ela ajuizada cuidar de mais um, do infeliz, dos filhos do infeliz, barriga todo ano, “minha senhora”... Mulher assim? Se tivesse estudado como as irmãs, se tivesse tantos livros, coitada, tantos mistérios, seria outra vida. Como as irmãs. Mas não. Uma simplória, palavra antiga, mas vou escrever assim mesmo. Muito bem, minha tia, muito bem. Eu ouvi, ler livro não traz felicidade. Quem disse? Traz , sim. Até de escrever lição de escola eu ando gostando... Mas porcotio também não traz felicidade. Ele nem ia junto à maternidade, nenhuma vez, nem uminha vez. E sempre voz de vagabunda ao telefone. Suturar, minha tia, suturar. E depois, teve mais ainda. Depois, doía fundo a operação que ela teve de fazer, porém não mais do que a dor por dentro, sangrando na alma, como se sutura?, eu ouvi tudo, menina interessada, mulherzinha em formação. Lenço na cabeça da minha tia, esse tecido não foi ele quem escolheu, aposto, não mesmo, essa delicadeza do lenço ele não saberia ter com a mulher enferma, eu ouvi isso de alguém. Pesado, escandaloso, estampado, o porcotio ignorou tudo, a doença toda, não tem doença nesta casa, ele proclamou, ele preferiu assim. E, depois, vai chegar visita, não é hora disso, dinheiro nem é seu. Porcotio. E ela mais franzina ainda, um palito em pé, agora sem cabelo. Caiu, minha tia, caiu. Põe o lenço, é melhor, muita aplicação falta ainda, mas que aplicação?, eu ouvia, não xereta, precoce. No hospital ele também não foi, nem vez alguma, porcotio. Pudim? Um pedaço? Não tem mais... Ficou reta a minha tia de um lado só, muito bem, arrancou tudo de ruim daquele pedaço, foi embora uma parte de mulher puída, antes assim. Mulher assim? “Não tem mais? Como? Traz pudim, a menina quer, tem sim.” Eu pensava, não, não quero, não quero, adivinhando a vastidão do porcotio, os pêlos suando na corrente grossa. Todo mês, precoce, eu, vermelha no meio das pernas. Vai manchar, porcotio, vai manchar. Minha tia, todo dia. “Curativo, você faz depois, primeiro as visitas, ouviu? E põe toalha nova. Agora, sim senhora, agora, por que não?, sempre foi assim, ué, então, que história é essa?, que dor?, fricote isso sim, já não foi ao hospital?, agorinha, já, já, quem é que trabalha fora aqui?, dinheiro não é seu.” Porcotio. Recompor, minha tia, recompor. Dói fundo, ouvi muito bem que dói fundo. Telefone toca sempre quando ele não está, porcotio, e é vagabunda do outro lado da linha, eu ouvi isso também, xereta sim, tá bom. E ela?, atende?, atende, ué, não recusa a ligação, melhor: atende e desliga na cara da outra, bate no gancho, mas atende, minha tia do bem, era como se batesse na cara da vagabunda. Mulher assim? Então, por que... por que ela não podia também bater na cara do meu tio? Um dia ela há de, eu pensava. Um jeito assim, jeito de ser, só isso. Se tivesse estudado. Mas ainda tem mais pudim? Ainda tem o outro lado, cuidado, e se a coisa volta no outro seio?, eu ouvi muito bem, a coisa volta, “ a coisa”, coitada, desse jeito ela não pode ficar, é perigoso sofrer tanto, assim coitada, tem outro pedaço de peito, coitada assim, mulher assim, tem outro pedaço de peito. “Quer, menina, quer?” Engulho só de ver o pudim reinar, tontura só de ouvir o telefone tocar, mas ela tinha de. Se é ele quem... Pudim com furinho, que sem furinho não é a mesma coisa, fica parecendo flan, tem de ser com furinho. Com. “Menina gosta. Gosta com furinho, não é menina?” Eu pensava, não, não gosto, não, não quero, repugnando a imensidão do porco. Tio que dá em cima de sobrinha é porcotio. Mas, um dia, ela ainda há de, eu pensava. E aí chamou o meu tio de porco, e aí virou a minha heroína, e agora é o meu exemplo de gente adulta que, um belo dia, resolve mudar e dar a volta por cima. E se revoltar finalmente. Pouca coisa na vida me deu tanto prazer. Eu também, minha tia, eu também, mulher assim, vou precisar um dia dar a volta por cima. E eu vou me lembrar do seu exemplo, ah se vou! Muito obrigado. (pausa curta) Xiii, acho que escrevi demais...

Monólogo 2

Monólogo 2

VOZ FEMININA EM OFF: – Redação número 2: ‘A CADERNETA DA VOVÓ”, POR JORGE FERES AZIZ

JORGE – Será que pode gente que já morreu? Esqueci de perguntar. Quer dizer, pra falar a verdade, dude, achei zoado perguntar isso pra Lúcia. Ela é mina-gata, tipo ‘da hora’, sabe? Zoado ela ser a ‘psora’ e mandar fazer lição de casa. Mas é assim que é, man. Não tive a manha de perguntar pra ela se adulto favorito inclui adulto morto. Porque meu adulto favorito é minha avó. Minha ‘cadáver’ favorita. (ri) Da hora! Vou escrever isso. As cinzas da minha vó são o que de mais sincero eu posso escrever sobre esse tema. Fechou. Quero só ver a reação da ‘psora’ gostosa! (ri) Minha avó libanesa foi gente fina comigo. Minha chapa. Quando ela morreu, eu segurei choro até quando pude. Que eu não queria fraquejar na frente de tanta prima que eu ainda quero pegar. Minha avó teve mais netas do que netos. Essas minas já choravam o suficiente no velório, eu não precisava, tinha de aguentar. Ah, minhas priminhas... Já ‘fiz’ algumas delas, mas ainda quero ‘fazer’ as outras. Que prima existe é pra isso mesmo. Minha avó mesmo me dizia isso. (ri). Vó da hora! Libanesa machista pra caceta, mas caguei... “Vai praticar com a sua prima, menino, que você já está aí molengando, está passando da hora de aprender.” Ê, vó ‘sussa’ que era a minha. Pai e mãe ficam cheios de palavras difíceis pra falar desses assuntos comigo. Vó, não. Mandava ver, na mira certa, com aquele sotaque de árabe que ela nunca perdia. Dude, já deu cada pau entre ela e minha mãe por minha causa! “Ele é meu filho, não se intrometa na educação dele!” E a outra: “Mas ele é meu neto! Você não pode me impedir de nada.” E a outra: “Mas é meu filho!” “É meu neto!” Tipo isso. Mas, ah, quem mandou ser tão gostoso? (ri) Vó ficou viúva quando eu nem era gente, tá ligado? Passou mais da metade da vida dela sem homem. Tinha um carinho comigo... A mulherada-neta não tinha vez com ela, te contei? O mano-aqui, assim, tipo eu, saía na frente em tudo com a velha. A primeira assadeira de esfiha vinha do forno direto pra minha frente na mesa. A casa dela podia estar cheia de toda a parentada, mas o muleke aqui é que se dava bem. Essa vó me mimava com cada comida. É impossível saber quantas panelas ela encheu de folha de uva em sua vida. Pegada boa que minha avó tinha pra enrolar charuto. Manja charuto? Comida de gente árabe. Então. Ela recheava cada folha com arroz, tomate picado e carne moída, enrolava cada uma como se fosse tipo um charuto, sacou? Era pra mim todo esse carinho. Charuto de folha de uva. Meu prato predileto, mesmo agora sem a vó. Restaurante não faz igual. Mãe também não aprendeu direito. Vó fazia pra mim, mano, pra mim. Eu era o habib dela. Habib. É ‘querido’ na língua dela. E teve o lance da caderneta, tá ligado? Manja caderneta? Não? Nem eu manjava. Falei: “Ó, véia, seguinte, não tem mais esse lance de caderneta. Eu teclo aqui nas notas do meu i-phone, que, aliás, foi você mesma quem deu o dinheiro pra eu comprar, vó, lembra, vózona?” Neta nenhuma ganhou i-phone da vó, só euzinho aqui, o “the best”, sacou? Mas vó teimou que queria caderneta e que eu não sabia o que era uma caderneta: “Eu é que não sei ler e você é que não sabe o que é uma caderneta?” Vixi, levei bronca. Chupa, garoto! (ri) Pois é, esqueci de dizer: vovó libanesa era analfabeta, não sabia ler nem escrever, nem em árabe, muito menos em português. Não deu tempo disso na vida dela. Teve aventura demais de migração, fugir da guerra, esses lances, e depois teve de casar com meu avô quando ela ainda tinha 16. Que zoeira, meu. Casar com 16. Tô fora. Bom, mas o lance da caderneta foi tipo isso: queria que eu marcasse todo dia as despesas dela na tal caderneta, pra ela saber onde é que estava indo o dinheiro da pensão que o vô deixou pra ela. ‘Massári’ vai embora e a gente nem vê pra onde foi”, ela dizia. ‘Massári’ é dinheiro na língua de árabe. Bufunfa, manja? Luz: 17 reais. Água: 25 reais. Supermercado: 53 com mais 50 centavos. Padaria: 9. Açougue: 12. Armarinho: 34. Quitanda: $ 15,50. Sapato novo: 70. “Já marcou tudo?” Já, vó, já anotei tudo. No i-phone ou i-pad, ia ser mais rápido ainda, você não quis. “Agora, Habib, leia pra vovó tudo o que você anotou, pra eu conferir se marcou certo mesmo.” Sacanagem! “Tá bom, vó, eu já sabia que você ia me pedir isso.” E ela continuava, dura na queda: “Posso ser uma libanesa analfabeta, mas não sou burra. Não fui pra escola como você e todas aquelas suas primas, por isso vocês têm de saber dar valor a isso.” Xii, aí cabô, o sermão durava minutos. E, no caso da minha vó, sermão era palavra mais do que certa para o que ela fazia, porque tem a palavra mão dentro da palavra sermão, tá ligada, ‘psora’ gostosa? Sermão da minha vó tinha muitas mãos. Ser-mãos! Ela falava e passava a mão. Manja um cara que não sabe falar sem colocar a mão no outro o tempo todo? Esse cara era minha vó. As mãos enrugadas dela faziam a festa no meu corpo. Não, sem sacanagem, véio, não é assim também... Segura o forninho, aí, bro! Era só o jeito dela, dude. Mas, pra falar a verdade, nunca vi a vó falando com as mãos quando conversava com as minhas primas. Só quando era comigo... Hummmm... Bom, mas tinha o lance da caderneta, te contei? O tempo foi passando e eu só ali, na ponta do lápis, fazendo balancete pra véia, que me fez de seu secretário ou escriturário ou tesoureiro ou contador, sei lá, tudo isso junto. Me dava mais mimos ainda, pra me agradecer. Ê vó generosa. Minha adulta favorita. Me dava até um certo orgulho, tipo assim, eu era o neto escolhido pra ser o rei da contabilidade da vó libanesa, o rei da caderneta. “Vá, menino, buscar agora a caderneta, porque eu esqueci que ontem à noite a vizinha me vendeu uma rifa. Rifa de televisão.” Lá ia eu, parava tudo pra atender minha vó, com sede de aritmética. Mó legal, mano. Pode crer. E ela com as mãos me agradecendo. Carinhosa que só vendo. E tinha o fim do ano. Ah, no fim do ano, era da hora. Balanço final. A euforia da somatória total. Fechou. Eu somava os doze meses e enchia a boca pra dar o veredicto, o resultado de 365 dias de continhas bem armadas: “Vovó, durante este ano todinho você gastou Xis.” Eu anunciava aquilo com o coração aos pulos. E ela, impávida libanesa, fascinada por dinheiro, sempre respondia: “Não é possível, eu gastei muito mais, você somou direito, menino?” Sacanagem! Comecei a achar aquilo tudo muito sinistro, mano. Total sinistro. Por que era tão importante pra minha avó dizer sempre que gastava mais do que realmente tinha gastado? Por que ela duvidava dos números e por que ela duvidava de mim? Por que o dinheiro era assim tão forte na cabeça dela? Por que ela precisava repetir o tempo todo que seu marido, um homem bom e trabalhador, a deixou bem de vida? Que matemática era aquela na vida dela? Será que meus Brothers do colégio têm razão quando dizem que “turco é mão fechada”, que turco vive em função de grana? Não, essa visão torta e preconceituosa da minha raça, das pessoas do meu sangue, não podia ser confirmada justamente na figura da minha avó. Sem chance, bro. Que complicação que é gente adulta, eu pensava. Ainda penso isso, tipo até hoje, que minha vó já morreu e que já acabou minha brincadeira de contadorzinho aprendiz. A caderneta da minha vó me empurrou não só para a matemática, mas para a tridimensionalidade do mundo adulto. Me empurrou para a vida. Agora, acho que arrasei. A ‘psora’ gostosa nem vai acreditar nessas palavras que eu usei, mó trampo: tridimensionalidade, somatória, veredicto... Que eu sou foda, meu, falô? Minha avó analfabeta merece esse palavrório de dicionário: se ela estivesse aqui, ia ficar orgulhosa do neto e me passava a mão nas partes, tenho certeza. Desde criancinha, ela me ensinou o que é ‘ramémi’, te contei? Coisa da língua dela. Ramémi é pombo, manja pombo? Esses que cagam na rua, nas praças, tá ligado? Ramémi é pombo, ela me dizia, mas é também pinto. Pinto de galinha, vó? “Não, menino, o pintinho aqui embaixo, ó.” E passava a mão no meu pau, minha avó carinhosa. “Cadê a ramémi do meu neto, cadê?” Meu, lascou! Eu fui crescendo e foi ficando esquisito aquele negócio da minha vó brincando com a minha ramémi. (ri) Dava um frisson, olha aí outra palavra sinistra! Frisson! Já no finalzinho da vida dela, minha vó começou a me exibir cada vez mais para suas amigas libanesas, as comadres da minha querida vovó. Ao saber da existência da caderneta, uma dessas amigas dela, toda pegajosa, também querendo me alisar os cabelos e escorregando as mãos pelo meu pescoço, um dia comentou tipo assim “como aquele neto era bonzinho com a vovó”. Lascou. Sabem o que minha vó respondeu pra comadre dela? Que eu só fazia aquelas contas todas da caderneta em troca de muitos mimos e presentes que ela me dava. Sacanagem! Eu nunca me senti pago por uma tarefa legal, da hora, como aquela, que eu fazia como um jogo, uma brincadeira de homenzinho, manja?, uma aventura de cúmplice para cúmplice. Era meu jeito de entrar no mundo adulto, junto com a minha avó. A caderneta me fez crescer. A vó foi chata, me decepcionou, se mostrou ignorante em muitas coisas? Sim, foi, mas, quer saber?, cago pra isso. Eu aprendi a gostar dela sem idealizações. Aprendi toda a porrada de sentimentos – bons e ruins – que compõem uma pessoa. Vovó, entorpecida por dinheiro, mas muitas vezes também generosa e desprendida como uma fada madrinha, me fez entender a riqueza das individualidades. Cada um é como é. Cada um é um, falô? O importante é que houve, sim, uma puta troca de carinho entre nós dois, entre avó e neto, enquanto durou toda aquela aventura da caderneta. O importante, também, é que eu consegui finalmente terminar de escrever essa redação e acho que vou matar a pau – e, um dia, quem sabe, ainda pego e ‘faço’ aquela ‘psora’ gostosa. Mas, não sei, fico aqui pensando: talvez eu corte a parte que fala da minha ramémi e das mãos da minha vó o tempo todo querendo pegar na minha ramémi. Ramémi é pombo, no libanês da minha vó. É só um pombo, mais nada. Mais nada.

Monólogo 3

Monólogo 3

VOZ FEMININA EM OFF: – Redação número 3: ‘AQUELE PAPAI NOEL, EVER’, POR ANA PAULA FONSECA SILVA DE LIMA.

ANINHA(cantando) “Noite feliz, noite feliz, oh senhor, Deus do amor, pobrezinho, nasceu em Belém, Eis na lapa, Jesus nosso bem, Dorme em paz, ó Jesus, Dorme em paz, ó Jesus”. Não. Errou. Não é Jesus. O meu adulto preferido é outro... É o Papai Noel. Esse mesmo. O bom velhinho. Meu, pode ser que eu seja muuuuito zoada por causa disso, véio. Mas, pra mim, a melhor coisa ever é a noite da visita do Papai Noel. Quer dizer, tipo assim, era, né, era a melhor noite ever, porque não é mais. Agora isso tudo acabou. Decretaram, sim, “decretaram”, que eu, meus irmãos e meus primos já estamos crescidinhos demais para acreditar no velho de barbas brancas. Mas, quer saber?, eu ainda acredito. Claro, se o meu adulto favorito ever é o Papai Noel, então significa que eu acredito em Papai Noel. Pelo menos, naquele que vinha aqui em casa todo dia 24 de dezembro trazer a sacola de presentes que os meus pais e os meus tios entregavam pra ele sem a gente perceber. Quer dizer, tá louca, queridinha? Eu saquei desde a primeira vez que aquilo tudo era armação, meu. Beijinho no ombro. Mó palhaçada. Eu devia ter o quê? 3 ou 4 anos, tipo isso, véio. Tentei passar pra frente a minha descoberta, quer dizer, na verdade, a minha desconfiança. Mas só tem retardado e nerd na minha família. Brothers and Sisters, versão Big Bang Theory, tá ligado? Ninguém acreditou na minha teoria de que ‘aquilo’ era um homem qualquer contratado e fantasiado de Papai Noel. Preferiram acreditar na versão oficial da casa. Lesados. Mas, fala sério, o que eu podia esperar de meninos e meninas que até hoje assistem a Big Bang Theory e ainda se identificam com aqueles nerds e vestem aquelas camisetas de super-heróis da Marvel, sabe tipo isso? Bom, pior são os meus pais que já assistiram mais de mil vezes todos, eu disse todos, os episódios das zilhões de temporadas de... Friends. E ainda assistem! Pai e mãe adoram aquele bando de tiozinhos “amigos para sempre”. Eles falam os diálogos junto com a televisão, acredita? Tô fora, véio. Minha família é toda zoada, mesmo, isso não pode ser normal... Se é pra chutar o balde, pra mim, the best ever é o Chaves, “sem querer querendo”. Não tem nada melhor na linha trash, ever, do que o Chapolin Colorado... “Não contavam com a minha astúcia?” Então, meu, diante dessa gente totalmente disfuncional que convive comigo ever, eu acabei mesmo desistindo de revelar para o mundo que Papai Noel não existe e que aquele homem que nos visitava todo dia 24 de dezembro era de carne e osso. Um homem, meu, como qualquer outro homem. Tinha cheiro, saca? Cheiro de homem. Um cheiro dele, de mais ninguém. Sinistro. Ó, tô sentindo agora o cheiro dele. Bizarro, véio. Sempre que falo nele o cheiro vem junto, ever. O velho bonzinho. Eu comecei a crescer e a desejar muito, cada vez mais, a noite da véspera de Natal. (cantando) “Jingle Bells, Jingle Bells, jingle all the way...” A cada ano eu me arrumava mais, punha vestidinho curto que me davam, queria pintar os olhos, ficar toda pimpona pra receber o Papai Noel. Tipo isso: eu ficava ali ‘divando’ a noite toda (faz poses, caras e bocas e usa o celular para fazer selfies em cena). Esperando pelo momento de ser notada pelo Papai Noel, que, aliás, tinha o seu ritual de sempre. Chegava com um ajudante, um anão. Eram tantos pacotes, que o anão era muito útil pra segurar as sacolas, organizar a entrega dos presentes em volta da árvore. Meu pai tentava tirar esse anão da jogada, porque eram dois cachês pra pagar, o dele e o do Papai Noel, mas a pivetada tinha acostumado com o ritual do anão. Se ele saísse fora, ia dar bafo. Melhor não ‘causar’. Que criança pentelha é a pior coisa ever. E o anão ficou de vez no esquema do nosso Natal em família. Eu confesso que tinha um pouco de medo daquele ser todo fofinho, verticalmente prejudicado... (ri) Bizarro total. Gostava mesmo era do Papai Noel. Tinha a ordem certa de entrega dos presentes, eu lembro bem. Eu, como a filha mais velha e também a prima mais velha, era sempre a primeira. Os mais velhos primeiro, ever. A-do-rooo! Lá ia eu. A primeira a sentar no colo do Papai Noel. Ele dava beijinho, um pouco melado, tipo assim demorado. Eu sentia minha bochecha esquisita, parece que ficava pegando fogo, não sabia o que era, não sabia explicar. Aí ele punha a gente sentada no colo dele. Fazia perguntas, sempre as mesmas, tipo: “Você foi boazinha o ano inteiro? Tirou notas boas na escola? Foi malcriada alguma vez? Fez alguma coisa feia?” Eu ia respondendo só com a cabeça. No máximo, eu conseguia ser monossilábica. “Sim. Sim. Não. Não.” Eu não conseguia falar mais do que isso, no colo dele, porque, já falei, parecia que tudo pegava fogo. Aquela roupa vermelha, véio, sei não, mas tinha algum superpoder, não é possível... Tipo assim, algum super hiper mega blaster poder, ever. Eu não contava com toda aquela astúcia. Quer dizer, a cada ano eu desejava mais toda aquele astúcia. Sem entender, sabe? Sem querer querendo... Hoje eu acho que entendo um pouco do que acontecia ali. Era um medo, misturado com uma vontade, que espalhava um frio pela barriga toda. Um momento tipo assim molhado. O momento do colo do Papai Noel. Nunca tinha contado isso pra ninguém, meu. Essa redação está sendo “o canal”. Da hora. Não contei nunca, nem mesmo pra minha lista de contatos favoritos, as minhas ‘besties’: a Ju, a Pri, a Lilica e a Má. Tentei uma vez puxar com elas o assunto de Natal. Teclei no nosso grupo do whatsapp, só pra sondar, como é que o Papai Noel ia na casa delas, como era o esquema, mas “só que não”... elas não se ligaram nada no meu papo, meu, ficaram lá “divando” no instagram enquanto eu teclava sem resposta... Não rolou. O que eu queria dizer pra elas é que, desde a primeira visita do Papai Noel, quando eu tinha o quê?, acho que uns 3 ou 4 anos, já falei isso, então, desde a primeira vez no colo dele, eu sentia, sei lá, um volume, sabe?, uma coisa assim tipo dura no colo dele, no meio das pernas do Papai Noel. E aquela coisa se mexia aqui atrás, me dava uma onda, tá ligado? Ninguém da minha família percebia o que se passava comigo. Abobados. O meu ritual secreto com o Papai Noel. Tentei comentar com as minhas primas, pra checar tipo assim se na vez delas também aparecia aquele troço extra, aquela coisa quente armada feito um revólver no colo do Santa Claus. Só que não. As lesadas, ever, me olhavam de um jeito tipo assim meio hiper mega blaster BV, sabe?, olhar de freirinha do convento?, manja as virgens do jardim da infância? Não rolava papo desse nível com elas, meu. Beatas total. Patricinhas ever. Eu tive de ficar na minha. E, depois, se algum adulto percebesse, eu perderia total o meu adulto favorito. Meu pai demitia o Papai Noel...e o anão junto... Fiquei na minha, tá ligado? Segredo meu e do Santa. O pau do Santa (ri). Só bem depois é que eu vim a entender que eu gostava muito, ué, gostava mesmo, e daí?, daquele colo quente na noite de Natal, e da sensação bizarra ever de mexer em algo proibido, e do efeito ‘mó’ maluco daquela firmeza de quentura no meio das minhas perninhas, menina ainda sem pelos, depois com pelos, hormônios a mil, véio... Eu era uma garota tipo precoce, virada na pegação... Tipo a ‘ovelha negra’ daquele rock antigo, dinossauro total, daquela vovozinha sem noção, a Rita Lee, manja? Prefiro a Kate Perry, ever. Desde cedo. Pois eu recebia os pacotes de brinquedos, descia do colo dele e queria mais daquele outro brinquedo, o brinquedo extra, potente, latejante, que o Papai Noel me dava anualmente, religiosamente... Só que não. Não podia ter mais. Tinha de esperar o próximo ano. E vinha o próximo ano. E, de novo, eu sentia a melhor coisa dura, ever, no melhor colo do mundo, ever. (demonstra excitação, mexe no próprio corpo) O meu adulto favorito, ever. Papai Noel... Já faz uns dois ou três anos que decretaram o fim desse ritual, alegando tipo isso que eu já falei: fechou, lacrou, não precisa mais, ever, porque já não tem criança na família... Partiu Natal. E o anão junto... Tenho vontade, sabe?, um dia vou fazer isso, vontade de resgatar em alguma caixa postal de alguém lá de casa o celular do homem que se vestia de Papai Noel pra minha família, toda noite de 24 de dezembro... “Alô, é o Santa? Tem pau de selfie? Não? Tá limpo, então me manda um selfie do pau?” (ri) Fala sério. Não, nada disso. Eu teclava pra ele tipo isso: “Então, né, tipo você se lembra de mim? Só que não, eu sei... Mas tudo bem, tá limpo, só me diz então quanto é que você cobra pra se vestir de novo de Papai Noel só pra mim? Sim, só pra mim. Eu ganho mesada. E minha mãe é moleza, libera o cartão dela quando eu quero. Como? Não está entendendo? Tá, eu sei, ainda demora pra chegar o Natal, mas será que não rola assim tipo hoje mesmo?” (encerra a cena cantando e manipulando partes do próprio corpo) “Dorme em paz, ó Jesus, Dorme em paz, ó Jesus.” Não. Errou. Não é Jesus. Meu adulto favorito é Papai Noel. Aquele Papai Noel, ever.

Monólogo 4

Monólogo 4

VOZ FEMININA EM OFF: – Redação número 4: ‘PIZZA COM PROPINA’, POR JOSÉ ANTONIO ROMEU FILHO.

ROMEUZINHO – Foda-se. Acho que a maioria vai escrever o mesmo, mas... foda-se. Meu adulto favorito é mesmo o meu pai. Isso mesmo, ‘psora’. Paizão é o meu ídolo. Ele é o meu espelho, como disse a minha mãe outro dia, com ponta de inveja. Foda-se. Eu quero ser como ele quando eu crescer. (ri) Tá bom, já sou bem crescidinho, mas eu adoro falar essa expressão, sabia? ‘Quando eu crescer...’ Minha mãe me chama de Peter Pan. Fica dizendo que menino tem mania de ser menino para sempre. Que eu não quero crescer de jeito nenhum. Ficar na Terra do Nunca. Mas não é verdade. Eu quero crescer. Mas quero crescer só se for pra virar um adulto ‘tipo assim igual que nem’ meu véio. Mó adulto que ele é. Pra mim é um gigante. Foda-se o que dizem dele. Porque, sim, dizem muito coisa dele, sobre ele, a partir dele, por causa dele. Os jornalistas não largam do pé do velho. Meu paizão tá no jornal todo dia. Não é só no jornal-jornal, não, esse jornal sujo, feito de papel que solta tinta. Meu pai sai todo dia nos jornais da televisão também. No rádio... Ah, sei lá, acho que até no cinema já vi meu pai falando. Homem de fibra, opiniões sempre marcantes, véio articulado pra caraca, que ele é que devia estar escrevendo este texto aqui pra mim. Cada palavra que ele usa! Cada uma mais cabeluda do que a outra! Paizão letrado que eu tenho. Não vou ter orgulho? Inquérito, sigilo bancário, acareação, prisão domiciliar. Todas essas palavras ele anda usando aqui em casa, cada vez mais. Até de um tal de habeas corpus ele fala toda hora, sei lá que língua é essa. ‘Psora’ me disse que é latim. Deve ter a ver com América ‘Latina’... Não sei direito, porque mudo tanto de escola, que só posso ter perdido essa matéria... Político não sossega numa cidade só. Já mudamos umas três vezes de cidade, e eu, de colégio. Quando eu crescer, quero viajar bastante também e aprender latim, igual meu pai. Cara bom tá aí. Requisitado. Chamam o cara pra lá e pra cá toda hora, não importa, a hora que for... Pai vai correndo, que é do bem, atende todo mundo ‘com muito prazer’, como ele diz. Político bom sabe agradar a todo mundo. Fica popular, assim como uma celebridade, sabe? Meu pai é famoso, muito famoso. Já saímos até em revista de celebridade, manja essas de caras e bundas? (ri) Saímos a família inteira numa foto de página dupla, tirada lá na ilha do dono da revista. Sinistro. Meus amigos me sacaneiam, não entendo direito se estão com inveja de mim ou se é só zoeira mesmo, tipo bullying, sabe essa palavra que inventaram lá nos Estados Unidos e todo o resto do mundo copia? Bullying. Mas, também, foda-se. Não tenho tantos amigos assim. Defendo meu pai, dou uma porrada no babaca que vier me encher o saco e, pronto, mudo de colégio. De tanto mudar de escola, fica difícil ter amigo, tipo, amigo-amigo mesmo, sabe? Então foda-se, ué. Os jornalistas já vieram querendo me perguntar como é ser filho de um homem assim tão “polêmico”. Mas meu pai, que sabe das coisas, me proibiu de falar com a imprensa. Disse que não é justo comigo e que tudo tem sua hora. Eu ia perguntar assim pro jornalista: “Por que é que você está chamando meu pai de polêmico?” Jornalista tem mania só de perguntar. Nunca sabe responder nada, só perguntar. Já reparou? Se perguntam alguma coisa, qualquer coisa, para um jornalista, ele gagueja. Na faculdade deles, devem fazer lavagem cerebral até o cara parar de responder as coisas. Na cabeça de jornalista, só deve ter ponto de interrogação. Eu tô falando deles porque não passa um dia em que não tenha pelo menos um repórter grudado no meu pai, na minha família. Aprendi a observar esses caras. Tem uns que pensam que são autoridade, que são da polícia, que são detetives. Ficam mordendo uma ponta de caneta velha e fazendo cara de investigador pro meu pai... Audácia!, meu pai gritou outro dia. Cada palavra legal que o meu pai grita... Preciso lembrar de muitas delas, pra encher essa redação de vocabulário da hora. Que eu sou filho de político articulado, meu, tá ligado? Pai tava outro dia com um monte de camarada dele, na sala da minha casa, e eu fiquei ali só manjando, como esses carinhas gostam do meu paizão, como puxam o saco dele o tempo todo. Quando eu crescer, como não vou ter grandes amigos mesmo, vou querer um bando de puxa-saco em volta de mim, igual acontece com meu pai, tá pegando o raciocínio? Então, eles tavam ali na sala, meu pai me deixou ficar um tempo ouvindo, que às vezes meu pai diz: “Tá um homão já o meu filhão!” Não é sempre que ele diz isso, não. Tem hora que ele dá um berro assim: “Já não disse que é pra tirar as crianças da sala?” Pai enérgico da porra. Isso que é pai. Firmeza ele tem, ô se tem. Meu ídolo. Pois, então, eu tava ali na sala ouvindo os caras falando e rindo. O assunto era propina. Propina, saca? Gorjeta. Meu pai deu uma aula pra eles. Mó orgulho que eu senti. Ficou lá na poltrona principal da sala, contando pros caras como se pede propina nas outras línguas. Em húngaro, falam “dinheiro oleoso”, porque engraxa as mãos. Lá também chamam gorjeta de “gratidão”. Mexicanos pedem uma “mordida”. Colombianos chamam de “serra”, quando querem um pedaço pra eles do dinheiro que não é deles. No Quênia, pedem uma graninha “para o chá”. Na Turquia, é “dinheiro para a sopa”. Agora eu captei por que meu pai vive dando dinheiro para o “cafezinho” ou a “cervejinha” dos caras que puxam o saco dele. Aí, começou uma gargalhada geral, perdi um pedaço da conversa, só sei que riam e falavam de “dinheiro na cueca”. Coisa de macho, tá ligado? É um jeito meio divertido de viver, por isso gosto tanto do meu pai. Ele sabe viver. Minha mãe é mais pesadona, mais tipo cara fechada. Pai, não. Pai vive a vida, beleza? Todas essas reuniões na sala da minha casa terminam sempre do mesmo jeito, que eu adoro. Mãe liga e pede pizza. Adoro quando acaba em pizza. Sou doidão por calabresa, igual meu pai. Anotei outro dia uma frase inteira que meu pai falou na sala, durante a pizza, porque eu sabia que um dia eu ia usar numa redação de escola: “A acusação é sempre um infortúnio, enquanto não verificada pela prova.” Pedi pro me pai me explicar, mas ele estava muito ocupado naquele dia, estava tipo assim “levemente alterado”, como disse minha mãe. Parece que a frase não é dele, é de um tal de Ruy Barbosa. Dei um google e vi que o cara era bom de prosa, fazia cada discurso-cabeça... Igual meu paizão. Fala bem pra caraca, meu, já não te disse? Teve aquele dia, o dia em que eu acho que mais chorei na minha vida. Não era choro de dor de apanhar, que eu já levei cintada do meu pai, sim, ô se levei. Todo mundo leva, não leva? Pai bom é pai enérgico, diz minha mãe. Eu concordo. Pai bom sabe a hora de tirar o cinto. Mas não foi cinto naquele dia. Foi pior até. Foi só no sermão, na falação em cima da minha cabeça. Isso, vindo do pai, dói mais do que cinto no lombo, meu, te garanto. Minha mãe viu que eu completei muito rápido o meu álbum de figurinhas da copa do mundo, que eu e o pai não somos nada sem futebol. Ele me levou em todos os jogos do Brasil, manja? Que ele é ‘assim’ com os caras da Fifa, sabe? ‘Assim’, que eu digo, é que ele é ‘chapa’ dos carinhas, tipo brother, e então ele tinha camarote em todas as arenas, que meu pai é foda, meu. Quero ser como ele quando eu crescer. Mas, então, a mãe descobriu que eu dei uma ‘afanada’ de leve no bolo de figurinhas do filho de um dos camaradas do meu pai, no dia em que teve uma reunião lá em casa e um gordão folgado levou o filho, porque não tinha com quem deixar. “Vai brincar com ele, vai, querido!”, me disse minha mãe. Brincar?!! Que porra é essa de viadagem? Tô fora. Brincar, agora, eu só brinco é com menina, falô, meu?, que eu não sou boiola. Eu sou espada, tá ligado? Quando eu manjei aquele monte de figurinhas que eu não tinha, e o babaca querendo trocar, imagina, meu, trocar o caramba, eu fui pegando as que eu quis e escondendo debaixo da toalha da mesa e o otário do garoto nem percebeu. No dia seguinte, minha mãe me torrou o saco até descobrir como que o meu álbum ficou cheio tão de repente. Foi lá e bateu pro paizão enérgico. Não deu outra. Virou um escândalo, uma gritaria. Meu pai esmurrava a mesa e berrava palavras lindonas, me agredindo como se fosse ponta de faca no meu peito, saca? Falava de honestidade, da importância de fazer tudo certinho na vida. Chamou o motorista dele, me enfiou no carro oficial e me fez ir pra casa do gordão folgado, devolver todas as figurinhas pro menino otário. Me fez confessar na frente dos pais do babaca e pedir desculpas e dizer que eu estava arrependido e que nunca mais eu faria isso. Que meu pai é foda. Quando ele fala de justiça, então, melhor a gente dar logo um ‘pause’ no nosso i-tudo, que a coisa vai longe. Discurso de Ruy Barbosa. Meu ídolo esse pai. Podem rir de mim na escola o quanto for. Foda-se a CPI da corrupção, a foto do pai toda hora no noticiário, já disse que se foda! Meu pai é total do bem. Não deixa o filhão-aqui ficar nem com figurinha repetida, que o bosta daquele garoto nem ia usar mais pra nada. Princípio é princípio, ele repetia na minha cabeça, como martelada. Doeu mais que cinto. Pai deve ter sofrido muito naquela noite inteira em que deixaram ele lá naquela “instituição judicial”, como disse minha mãe. O jornal chamou de presídio, mesmo. Na escola, os mauricinhos sacanas me zoaram durante umas três semanas. Viadinhos. Pra eles, o lugar que meu pai foi era “cadeia” e pronto. Eu fingia que não era comigo, fazia cara de parede, cara de paisagem, que eu não sou bobo nem nada. Sofrer de bullying é coisa de boiolinha. Eu sou um forte. Firmeza. Igual meu pai. Um forte. Eu queria ter ido lá no juiz e dizer que paizão é foda, que não me deixou ficar com as figurinhas da Copa daquele bostinha, um menino mimado que eu nunca mais eu vi na vida. Eu ia mandar o juiz dar um google no Ruy Barbosa, pra ele entender a cabeça do meu pai. E eu convidava o juiz para uma pizza lá na sala de casa. Mas não foi assim. Fiquei sabendo – e não entendi nada – que o que meu pai fez foi mandar aquele juiz tomar no meio do cu dele. É. Parece que a coisa anda complicada de novo pro meu paizão. Mas, foda-se. Eu disse: foda-se. Logo a gente muda de novo de cidade – e eu, de colégio. Tá bom assim, ‘psora’? Ou quer mais?

Monólogo 5

Monólogo 5

VOZ FEMININA EM OFF: – Redação número 5: ‘O CACHORRO QUE ERA GENTE’, POR VIVIANE LEAL.

VIVI – O ‘turquinho’ da minha sala, o Jorge, me contou que seu adulto preferido era sua avó, que já morreu. Bem, se pode gente que já morreu, será que pode bicho? Queria escrever sobre o Pinguim. Queria que ele fosse o meu adulto favorito dessa Redação. Mas tenho medo de levar um zero. Nunca tirei zero na escola. Pelo menos, ainda não. O Pinguim entrou na minha vida aos poucos, bem aos poucos. Foi falando oi e ficando. No começo, eu entendia ‘au’. Mas era ‘oi’ o que ele me falava. Quando uma prima afastada da minha mãe ou da minha avó, ou de ambas, saía de férias com a família, deixava o Pinguim em casa. Era o cachorro dela. Essa prima afastada até que poderia ser também o meu adulto favorito, porque foi graças a ela que tive o Pinguim pra mim por um tempo. Era uma farra, mas eu sabia que não podia me apegar muito a ele. “Desapega, desapega!” Não queria sentir muita saudade quando ele voltasse pra casa daquela prima. Então, eu ficava sempre com um pé atrás. Como se um pé só fosse suficiente para não me deixar cair de amores pelo Pinguim... Um fofo. Pra me conquistar, ele se apoiava nas duas patas de trás e levantava as duas da frente, como se quisesse me cumprimentar. Aí era covardia, porque eu me derretia toda... Ele me dizia que adorava passar as férias em minha casa, que não era uma casa cheia de frescura como a dele e tinha um quintalzão bem legal. Nas segundas férias que ele passou em casa, ele já estava tão meu amiguinho que até veio me pedir uma coisa, o danadinho, todo sem jeito, esfregando o focinho no meu rosto insistentemente. Queria que eu, de vez em quando, assim como quem não quer nada, distraída, desastrada, esquecesse o portão aberto do quintal, para ele dar umas escapadinhas pela vizinhança. Ele voltaria logo, prometia não ultrapassar o tempo combinado e nunca contar aquele segredo nosso pra ninguém. Fiquei de pensar. Ele me lambeu o rosto. Pinguim conquistava a gente de cara. Era peludo, macio como travesseiro. Malhado de branco e preto. Por isso ganhou esse nome de sua dona afastada. A prima. Quer dizer, de sua dona, a prima afastada. “Muita responsabilidade deixar este cão aqui... E se acontece alguma coisa com ele durante as férias da prima?” Eram minha mãe e minha avó reclamando da folgada prima asfaltada, digo, afastada... Ufa, ainda bem que tem corretor automático no meu Windows. Sabe? Quando eu era muito, muito menorzinha do que hoje, eu chegava a vomitar de medo de cachorro. A gente ia fazer visita na casa de seja lá quem fosse e, se eu ouvisse um latido, já começava a passar mal. Sujei mais de um tapete, desses que dizem que são finos e caríssimos, e minha mãe e minha avó faziam aquelas cenas de “oh, que vergonha, oh, que vexame, deixe que eu limpo, oh, não sei mais o que fazer com essa menina, oh, quer que eu leve o tapete na lavanderia?” Quanto drama elas faziam... Ainda se fosse um daqueles tapetes voadores das histórias de sheiks, califas e gênios da lâmpada... “Essa menina medrosa precisa ter cachorro em casa”, aconselhavam os outros. Aí o Pinguim foi ficando, já que cada vez a viagem de sua dona era mais longa e dominada, ops!, demorada. Santo corretor! “Ela me disse que quer conhecer o mundo inteiro, aquela chata esnobe”, me contou o Pinguim lá pelas quartas férias em minha casa. “Desde que não me volte da Pérsia com uma cesta de gatos... Ou de Pequim trazendo uma sacola cheia dos meus parentes...” Eu morria de rir com esses comentários espirituosos do Pinguim. Até que a prima esfarrapada, não!, afastada quis se livrar dele de vez, porque ela ia agora morar em um apartamento e, bem, veio pedir o que a gente já estava querendo fazia tempo, mas pediu toda com jeito, esfregando o focinho, digo, o nariz dela onde não era chamada, insistentemente. E aquela prima não sossegou enquanto não lambeu o rosto de minha mãe, ou de minha avó. Ou de ambas.Viva! O Pinguim virou o nosso cachorro! E, depois, eu tinha já parado de ter medo de cachorro. Não sei exatamente quando isso começou a acontecer. Não me dei conta logo, mas já não tinha medo de cão nenhum. Já abraçava o Pinguim, beijava, punha comida na sua boca, sem medo de ser mordida por ele, sem mais nenhum pânico pelo som dos seus latidos. Cansei até de ouvir das visitas adultas: “Que gracinha, como se entendem bem, a menina e o cachorro, o cachorro e a menina... Parece até que conversam...” Sem mais medo nenhum, eu até já ajudava a dar banho no Pinguim, coitado. É, coitado, mesmo. “Se cachorro também não gosta de tomar banho, é porque banho é ruim mesmo”, me diziam meus irmãos. Ah, os meninos... O Pinguim, que, afinal, também era menino, me dizia que tomar banho era uma sessão de tortura à base de água e sabão. Depois da tortu..., digo, do banho, por mais que a gente o enrolasse numa toalhona felpuda, o Pinguim se soltava irrequieto e chacoalhava todo o corpo de uma vez só. Era a sua cerimônia de secagem, o frenético ritual de espalhar os pingos d’água por quem estivesse por perto. Ele sabia que esse tipo de gente que a gente é, tipo assim da raça humana, principalmente menina como eu, adora cheiro de limpeza e aspecto de higiene. Eu o abraçava com força e enfiava a minha cara naquele monte de pelo macio, lavado e escovado. “Tá limpo”, eu dizia - e tenho certeza que ele entendia o duplo sentido da expressão. O Pinguim adorava me ver jogar videogame com a minha família. Num dia em que eu perdi feio do meu irmão mais velho e boboca e ele me zoou por horas seguidas, o Pinguim percebeu que eu estava triste, se aproximou devagar, subiu nas duas patas traseiras, me estendeu as duas da frente e me disse: “Tá limpo.” E eu também entendi todos os sentidos daquela frase. Vinham sempre muitas visitas à minha casa e todas gostavam muito de brincar com o Pinguim ou, pelo menos, de afagá-lo um monte de vezes, sem cerimônia nenhuma. Quando os adultos da minha casa fizeram questão de anunciar que o tempo tinha passado e que o Pinguim também já era um cachorro adulto, aí eu comecei a reparar que ele, de fato, estava com uns comportamentos muito bizarros. Meu cachorro adulto. Voltou a me pedir insistentemente para eu esquecer aberto o portão do quintal. “Quero conhecer mais gente da minha raça”, argumentava. “Gente?”, eu perguntava. “É modo de dizer, você entendeu”, respondia ele. Outro comportamento sinistro do Pinguim era se esfregar demais e até se agarrar nas pernas das visitas e ficar lá com uma gemedeira estranha. Lá vinham minha mãe ou minha avó com aquelas exclamações de sempre, oh, que vergonha, oh, que vexame. Falaram meio baixinho a palavra ‘cio’, que eu já sabia o que era, porque tinha aparecido em algum livro. O fato é que o Pinguim estava na idade de namorar. E ele nunca se abriu comigo sobre isso... Bem, eu também nunca me abri com ele sobre os carinhas da hora da minha escola. Então, empatou. Dessa situação de oh, que vergonha!, oh, que vexame!, para chegar ao sumiço definitivo do meu cachorro, foi um passo, um passo bem curto, aliás. Não lembro quem da casa notou primeiro, mas o Pinguim tinha sumido. Procura que procura que procura que procura... e nada. Meu coração começou a disparar. Já sei! O Pinguim fez com algum dos meus irmãos aquele trato de deixar o portão aberto. Se for isso, ele vai voltar logo. O Pinguim é gente de palavra. Fui checar com cada um dos meus irmãos e ninguém lá de casa tinha ouvido falar que se podia fazer um trato com cachorro. Menino é tão lesado mesmo... Cadê o Pinguim? Cadê o Pinguim? Roubaram o meu cachorro, mataram o meu cachorro... Me segurei até onde deu e aí caí no choro. Foi justamente nessa hora que a campainha tocou e entrou a prima afastada, dizendo que acabara de chegar de uma viagem a Galápagos, com escala pela Lapônia e até deu uma passadinha em Machu Picchu e outra em Oklahoma, mas que tinha gostado mesmo era das compras em Miami... Aí parou no meio da sala e se lembrou de perguntar: “Mas cadê o meu fofo? Onde está o Pinguim da mamãe?” Olhou de repente para mim e sapecou: “Mas por que esta menina está chorando?” O Pinguim sumiu, disse o boboca do meu irmão mais velho. Foi de arrepiar essa coincidência da visita da prima afastada justamente no dia em que perdemos para sempre o Pinguim que tinha sido dela. A perua, chata e esnobe da prima afastada ficou ali insistindo que devíamos pôr faixa na rua, anúncio no jornal, no facebook. Os adultos da minha casa não fizeram nada disso. Mantinham uma calma suspeita, mas que o meu desespero e a minha tristeza pela perda do Pinguim não me deixaram perceber. Só mais tarde, bem mais tarde, semanas, meses, acho até que tinha passado um ano e o assunto Pinguim já podia ser tocado até na hora das refeições sem que nenhuma das crianças tivesse uma crise de choro, só aí é que o mistério do sumiço do nosso cachorro foi revelado. “Aquele roça-roça nas visitas estava passando da conta, um vexame, uma vergonha”, disse minha mãe. Ou minha avó. Ou ambas. “A gente gostava dele, mas a melhor solução era que ele fosse embora. Vocês não iam deixar a gente dar o Pinguim para aquele entregador de pizza que vivia brincando com ele quando vinha fazer as entregas... Se a gente pedisse, vocês não iam permitir... Tinha que ser feito daquele jeito. Mentimos que ele sumiu. Nós é que demos sumiço nele. Vocês sofreram menos. E, depois, ele já ia começar a ficar um cachorro velho... Se morresse aqui, a choradeira seria pior.” Alguém ainda arrematou: “Foi para o bem de vocês.” Achei podre. Meus irmãos gritaram a palavra sa-ca-na-gem, assim bem pronunciada. Estão vendo por que é que não dá para eu escolher um adulto favorito da raça humana? Nenhum adulto da minha casa merece esse título. Gente grande é podre. O Pinguim, sim, merece ser o meu adulto favorito. Eu quis saber se podia ir ver o Pinguim na casa do tal entregador de pizza. “Não, ele avisou que ia mudar de cidade com a família. E agora chega. Essa história já passou...” Fiquei triste, claro que fiquei. Que decepção com o mundo dos adultos... Meu coração como sempre disparou, a cabeça rodou, a garganta secou, foi ficando tudo escuro na minha frente. De toda essa baboseira que os adultos da minha casa me despejaram, de tudo isso eu só conseguia me lembrar de duas palavras, que eu fiz questão de devolver a eles, olhando bem nos olhos de todos: Vergonha e vexame. A voz falhou, mas eu disse. “Vergonha e vexame foram o que vocês fizeram, não entendem isso?” Me joguei na cama e passei dias sem fome, sem vontade de ver pai, mãe, vó... Mentiram pra mim, querendo me proteger da dor de perder meu cachorro. Mas mentir é proteger? Não é, acho que não é. Me separaram de meu grande amigo, mais adulto do que qualquer um deles, porque um dia ele iria envelhecer mais e mais e depois morrer?!! Mas todo mundo não vai morrer um dia?!! Por que adultos fogem tanto quando o assunto é morte? Eles é que são complicados: as crianças, não. Será que um dia eu serei uma adulta dessas que pensam que vida e morte são tão distanciadas assim? Pensei tudo isso tão sentidamente, que fiquei com medo de já estar, eu mesma, virando adulta naquele momento. Será?, pensei. Tenho tanto ainda que brincar. Depois de dias trancada no quarto, respirei fundo, corri pro sofá e mergulhei dentro de um livro, que isso agora é uma das minhas brincadeiras preferidas: ler. Contava cada história para o Pinguim... Será que o moço da pizza lê e sabe contar histórias para o meu Pinguim? Tomara. Um dia ainda vou insistir que quero ir visitá-lo, seja em que cidade for. Mas, sabe?, com o tempo, a minha raiva dos adultos foi acalmando um pouco. Minhas saudades do Pinguim foram aumentando. Pensei: Acho que a vida é tipo assim, isso é que é a vida: tudo vai mudando dentro da gente, dia após dia. Tem coisa que aumenta, tem coisa que diminui. Tem gente que nos decepciona demais, tem gente que erra pensando que acertou, tem gente totalmente do bem que acaba fazendo coisas do mal... “Tudo se ajeita com o tempo”, diziam minha mãe e minha avó. Ou ambas. É... o tempo... Ah, só falta agora contar mais uma coisinha. Na semana passada, a campainha tocou aqui em casa e surgiu na porta da frente aquela mesma prima distante, a prima afastada, com uma franzina cadelinha cor de rosa no colo. Barulhenta, espevitada, gritalhona, a pequenininha não sossegou enquanto não pulou do colo da dona e correu pro nosso quintalzão. A prima sem cerimônia foi de novo lamber minha mãe ou minha avó. Ou ambas. “- Eu vou pra lá de Marrakesh. Posso deixar a Rosinha aqui até eu voltar?” No sofá, eu levantei os olhos do meu livro e pensei: “Tá limpo.”

Monólogo 6

Monólogo 6

VOZ FEMININA EM OFF: – Redação número 6: ‘O IRMÃO MAIS CARINHOSO DO MUNDO’, POR RICARDO NEVES DE FREITAS.

RICARDO – Meu irmão mais velho. Sim, é ele mesmo. Pronto, decidi. Meu adulto favorito é o meu irmão mais velho. Não que ele já seja um adulto. Mas tem quase dois anos a mais do que eu e vai ser adulto antes de mim, então posso muito bem dizer que ele é o meu adulto preferido, não posso? Não é que, para ser adulto, é preciso sair da faixa do teen? Então. Meu brother já é quase nineteen. Vai virar twenty e deixar de ser teenager logo-logo. Gosto dele pra caramba. É um chão pra mim. Me ensina segurança. Eu fui nascer nesse signo boboca que é o signo de peixes. Detesto ser peixe. Sensível, sofredor, introspectivo. Meu ‘brother’ é aquariano, daqueles que sabem o que querem, que falam alto, querem mandar nos outros. Decidem tudo por nós, e isso é muito bom para um pisciano indeciso e inseguro. Ele faz comigo cada brodagem legal. Cool, brother, cool. O quê? Se a gente não briga como todos os irmãos brigam? Sim, claro que sim, já acertei a fuça dele, atirando um tênis na cara dele. Foi meio ‘traíra’ da minha parte, porque esperei ele ficar distraído total. Acho que o susto dele foi maior que a dor do tênis na testa. Não me lembro bem por que eu fiz isso. Coisa de ‘muleke’, falei? ‘Leke’ total. Ele jogava sujo no Mario Kart, empurrava as minhas mãos do controle, quase na reta de chegada da corrida, o sacana. Nunca soube perder, só queria ganhar. Eu também, fala sério. “Competitivos esses meus meninos”, dizia a nossa mãe, “quem será que eles puxaram?” Puxamos você mesmo, mãe sem noção. Puxamos você. Engraçada essa expressão: puxar alguém. Imagino cenas engraçadas em que todo mundo fica se puxando com as mãos o tempo todo. Da hora. “Puxa, puxa, puxa a vassoura da bruxa!” Nossa irmãzinha temporona adorava essa musiquinha irritante da história de João e Maria. Tínhamos de cantar para ela e com ela. Era uma tipinha mais pra calminha, comportadinha. Sabe mina cheirosinha? Princesinha do papai e da mamãe? Tipo isso. Mas ela não puxou ninguém da nossa família. Nem poderia. Era adotada. Uso o verbo no passado porque já está fazendo um ano que ela foi embora de casa. Isso mesmo. Foi quase-irmã. Aconteceu mais ou menos assim: Mãe não conseguiu ter filha-mulher e convenceu o pai a pegar uma lá no orfanato de uma cidade aqui pertinho da nossa. Foram lá escolher. Mãe queria alguma já meio grandinha, que já soubesse arrumar cozinha, fazer as camas. “Tá com falta de empregada, cada vez mais elas exigem seus direitos. Uma menina vai ajudar bastante aqui em casa.” Ouvi esse pedaço de conversa, na mesa de tranca dos adultos. Sacanagem. Por isso, o papo de que seria nossa irmã não colou direito, não. Tava mais parecendo que foram em agência de empregada doméstica. Sacanagem. Tem adulto que é bem sacana mesmo. Que nem os pais da Vivi, que mentiram pra ela e sumiram com o cachorro dela, só porque ele entrava no cio. Vivi me contou que vai escrever sobre isso na Redação. Será que bicho pode? Se a Vivi tirar zero, vai ser da hora, porque ela é a mais nerd da minha sala. Bom, os adultos... Então, eles vieram perguntar pra mim e pro meu irmãozão-brodaço, se a gente topava ter irmãzinha. Teatrinho, isso sim. Pai e mãe se fazendo de democráticos. Puro teatro. Já estava tudo decidido por eles. A menina já estava quase na porta de casa, pra quê perguntar se a gente aceitava? Era que nem perguntar: vocês querem ter uma cachorrinha? Sacanagem. Por mim, tudo bem, podia vir a menina. Eu já tinha o meu irmãozão, que me bastava. Gosto mesmo é do meu brother. Mãe falava assim pras amigas da tranca: ‘Esses meninos um dia vão embora mesmo. Filho nunca é companheiro pra vida toda dos pais. Filha, sim. Filha é pra sempre.” Sei... Mãe se traía nessa falação toda, porque deixava escapar que filha cuida mais, ajuda a arrumar a casa, a louça, aprende a cozinhar. Traduzindo: minha mãe não queria uma filha, queria preparar um escrava pra cuidar dela e do pai na velhice, isso sim que eu acho. Acho isso mesmo. Pronto, falei. Não podia dar certo. Como não deu, ué. Durou pouco essa aventura babaca de ter irmãzinha. Eu não precisava de companhia, porque tinha meu brother, que cuidava de mim pra cacete. “Já pro banho, meninos!”, gritava a mãe todo dia na mesma hora. A gente ia junto, os dois pro mesmo banho, eu e o brother, que uma chuveirada só, única pros dois meninos, economizava a água do planeta. Meu pai é engenheiro ambientalista, mó cabeça de natureba, então o banho em dupla tinha até a explicação mais certinha possível. Consciência ecológica. Era uma intimidade sinistra com meu irmãozão-brother. Eu até que gostava. Dava uns arrepios, de vez em quando. Meu pau ficava duraço quando meu irmão abaixava pra pegar o sabonete. Ele deixava cair de propósito, eu acho. Eu passei a mão na bunda dele uma vez. Foi só uma vez, porque ele se virou e me lascou uma porrada. Desse dia em diante, ele é que passava toda vez as mãos na minha bunda. Pra descontar, ele dizia. “Quem mandou abusar?” Quer saber? Comecei a achar gostoso. Carinho entre irmãos não tem sacanagem. É só não enxergar sujeira, ué. Mãos firmes as do meu irmão... Mas também durou pouco esse banho em dupla pra salvar o planeta. Quando a mãe percebeu que rolava essa coisa de mão boba entre nós dois, putz, nem gosto de lembrar. Aí foi que voou mão pra todo lado mesmo. As mãos grossas da minha mãe espancando os dois. Era tapa pra todo lado. “E que nunca mais vocês entrem no banheiro juntos, ouviram? Nunca mais. Desperdicem água o quanto for, mas cada um sozinho de agora em diante.” Meu irmão é um querido. Quando ninguém está olhando, na sala, na frente da tevê, no sofá, aonde for, ele me puxa pra sentar em cima dele, no meio das pernas dele. Serve pra gente relembrar da antiga hora do banho. Intimidade de irmãos não é sacanagem, já falei. Parece boiolagem, mas não é, não. Coisa de brother. Por exemplo: eu tinha um caderninho, tipo diário de menina, sabe?, só que em vez de encher de coraçãozinho e de rabisco colorido, que eu sou espada, eu usava pra copiar da internet as letras de música em inglês. Não gosto de control c, control v. Gosto de copiar com a minha letra. Meu brother, que cuida muito bem de mim, bateu pra mãe que eu estava virando viadinho e que eu tinha até caderninho de letra de música, como se eu fosse uma menininha. Ele não percebeu que eu ouvi quando ele foi me dedurar pra mãe. Meu irmão se preocupa tanto comigo. Ele não achava normal menino com caderninho de música. Devo isso pra ele, pra sempre. Irmão bom que não me deixou virar frutinha. Nunca mais achei meu caderno de música. Mãe deu sumiço. Só pode ter sido isso. Eu perguntava pra todos em casa, cadê meu caderno? Mãe olhava pro meu irmão, trocavam olhares que só podiam ser olhares de cumplicidade. Eu sei perceber essas coisas. É típico de pisciano sensível. Detesto ser peixe. Preferia ser brucutu que nem o brother. Que brodagem da hora meu irmão fez comigo. Sem caderninho de música eu pude crescer mais espada. Graças ao meu adulto favorito, meu irmão superprotetor. Ontem mesmo ele me ‘encoxou’ no sofá, depois que eu reclamei que ele andava sumido de casa, e que agora ele só queria saber de sair com aquelas minas meio vagabas da classe dele. Depois, ele me deu um empurrão gostoso e saiu andando, me deixou caído no chão. Isso é que ser espada mesmo. Aprendo cada coisa com meu irmão mais velho. Quando os amigos dele vão em casa, ele nem me deixa chegar perto mais. Está me ensinando a me comportar como um menino. Que irmão mais carinhoso do mundo. Foi dizer pra mãe que eu não desgrudava o olho daquele amigo dele, meio galãzinho, de olhos azuis e cabelos loiros. Eu olhava mesmo, não conseguia não olhar. Era como se aquele cara tivesse um ímã nos olhos dele, que puxavam os meus pra dentro deles. Dava um friozinho na barriga. Mas agora eu me tranco no quarto e fico só ouvindo as vozes deles vindo da sala. Eu queria que a minha voz engrossasse que nem a deles. Não sei, não, se vou conseguir. Acho que sensibilidade demais impede a voz de engrossar. Não falei que odeio ser pisciano? Quando menos espero, meus olhos se enchem de água. Brother já disse pra eu parar com isso, mas não consigo controlar. É como se abrisse sozinha uma torneirinha em cada olho. Mas eu prometi pro meu irmão que vou ser espada como ele é. Ele riu, acho que ficou feliz por mim e, aí, me jogou de novo no sofá e me ‘encoxou’ outra vez. No dia em que minha mãe levou embora de casa a menina do orfanato, as torneirinhas dos meus olhos demoraram mais pra fechar. Eu olhei para a minha quase futura irmã indo embora e não aguentei. Minhas lágrimas pingavam. Ela estava com o olhar mais triste que eu já vi na vida. Não sei seu um dia vou ver alguém com olhar mais triste do que aquele. Mas meu brother me disse que era o mais certo a se fazer. Ele ouviu as amigas da nossa mãe, na mesa de baralho, falando que a menina se parecia demais com o nosso pai. E que minha mãe inventou que era uma garotinha de orfanato, e que era uma filha bastarda do meu pai que tinha aparecido de repente na vida da gente. Meu irmão acreditou e virou um bicho. Como é bom ser aquariano forte e decidido. Ele invadiu a sala, jogou o baralho pra cima e gritava que não queria mais aquela menina dentro de casa, que ele não tinha irmãzinha nenhuma. “Exijo a verdade”, ele gritava, parecendo último capítulo de novela. Eu gosto de novela, mas meu irmão querido disse que eu não posso gostar, não, que também é coisa de mulherzinha. Bom, naquele dia, as mulheres que jogavam baralho foram recolhendo suas bolsas e saindo de fininho. No dia seguinte, em respeito ao meu irmão, pra evitar mais confusão, minha mãe devolveu a filha adotiva ao orfanato, alegando que os papeis ainda não estavam prontos e que dava tempo de anular tudo. (pausa curta) Adoro o meu irmão mais velho. Ele defendeu a nossa família de uma menina intrusa, porque, afinal, irmão dele, mesmo-mesmo, era só eu, mais ninguém. Só que vai ser difícil pra mim esquecer aquele olhar de tristeza da garota que quase teve uma família, depois voltou pra vida de órfã, como se nada tivesse acontecido. O nome disso é rejeição, eu ouvi numa novela das seis. E vai doer pra sempre na vida dela, tenho certeza, que pisciano sabe dessas coisas de sofrimento que dura pra sempre. Pobre quase-irmã. O que vai ser dela agora? Vai ser difícil me esquecer disso. Já faz um ano. Meu irmão aposto que já esqueceu. Ele é que é bom. Um forte. Quem mandou eu ter nascido sob o signo de Peixes?

FIM

VOZ FEMININA EM OFF: – Queridos pais, obrigado pela presença. Pra quem não me conhece ainda, eu sou a coordenadora da escola e aqui do meu lado está a professora de Redação do nosso colégio. Chamamos vocês aqui porque achamos que seria importante discutirmos juntos, em grupo, algumas das redações que seus filhos nos entregaram na semana passada. “Meu adulto favorito. ” O tema era esse, vocês bem sabem. As cópias seguiram para vocês por e-mail, mas tenho aqui algumas impressas para quem ainda não leu. Então, queridos pais, vamos lá? Vamos debater? Quem de vocês quer começar?

FIM

Table of Contents