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Submarino / Leonardo Moreira

SUBMARINO

Leonardo Moreira

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do Projeto Conexões Teatro Jovem e fez parte do seu portfólio no ano de 2013.
Qualquer montagem fora do Projeto deverá ser negociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos autorais.

Leonardo Moreira leomoreira@outlook.com

Prefácio

fevereiro de 2013

eu queria crescer para passarinho.”

Manoel de Barros

Uma piscina cheia de estudantes em trajes de banho. Uma piscina comum, para natação, tem oito raias. Som de água, adolescentes pulando na piscina.

Personagens

(M1)

(M2)

(M3)

ele

(F5)

(F6)

(F7)

(F8)

Todos os personagens são adolescentes entre 15 e 17 anos, e deverão ser chamados pelo nome dos atores que os interpretam.

(M) – masculino

(F) – feminino

O número que segue (M) ou (F) especifica a raia da piscina em que normalmente está.

As rubricas podem ser seguidas de forma metafórica. Qualquer ação pode também ser lida como um movimento coreográfico.

1

(M1) –

Debaixo d’água fica mais fácil ver. Abro os olhos apesar do cloro e ele está ali, soltando bolhas pelo nariz, como quando a gente afundava e tentava fazer com que nosso corpo não flutuasse. Como anteontem. Oito ou nove azulejos, esse é o seu tamanho. Dá pra contar os azulejos através dele. Daqui a alguns anos, talvez sejam só os azulejos sem ele. Daqui a uma semana, talvez. Mas hoje ele ainda está ali, submerso, submarino. Prendendo a respiração. Sem respirar.

2

(F5) –

A mãe dele não dorme mais. Não abre nem mais a torneira. Dizem.

(F6) –

A primeira coisa que o pai fez foi arrumar a cama dele. Esticar os lençóis, pegar o travesseiro do chão, amassar pra dar forma e colocar no lugar da cabeça dele.

(F5)-

Eu não acordei.

(F6)-

Sorte sua.

(F5)-

Só por isso não vim. Não era dia de competição. Era pra ser só mais uma aula de natação.

(F6)-

O (M1) foi o primeiro a gritar quando entendeu o que tinha acontecido. Dizem.

(F5)-

Você não ouviu?

(F6)-

Estava mergulhando. Começou a arder meu ouvido. Passei a semana pensando que talvez meu ouvido estivesse ardendo porque estava mergulhando e não podia ouvir direito o que aconteceu. Ou o contrário: que, como eu sabia o que ia acontecer, preferi que meu ouvido ardesse cheio de água do que ouvir o (M1) gritando.

(F5)-

Melhor pensar assim. Do primeiro jeito.

(F6)-

Levantei a cabeça da água. Não entendi muito bem o que tinha acontecido, eu tinha os cabelos grudados na boca, os olhos cheios de cloro.

(F5) –

E os ouvidos ardendo.

(F6)-

E os ouvidos ardendo. E então o (M1) gritou para que ajudassem aqui. E então a (F7) comentou que tinha sangue na água. (M2) não falou nada e começou a tentar tirar o corpo dele d’água. (M1) e (M2) passaram um tempo mergulhando e voltando pra respirar, na parte mais funda da piscina. Foi só aí que eu terminei de esfregar os olhos e tirei os cabelos molhados da boca.

(F5) –

Tudo muito rápido.

(F6) –

Quase um minuto. Quase nada.

(F5) -

E tiraram?

(F6) –

Não lembro. Só me lembro dele, do corpo, fora da piscina. Meus pés enrugados, congelando. E de pensar: amanhã não vai ter aula.

(F5) –

Não teve aula uma semana. É pouco.

(F6) –

E hoje a gente está aqui, pulando na piscina, como se não tivesse sido na semana passada.

(F5) –

Parece que faz mais tempo. Parece que foi ontem.

(F6) –

Ninguém viu a (F8) hoje de novo.

(F5) –

Faz tempo que ninguém vê.

(F6) –

Você sabe como ela está?

(F5) –

Eles tinham começado a namorar, assim oficialmente, há menos de um mês.

(F6) –

É bastante tempo.

Silêncio.

(F6) –

Quanto tempo você já conseguiu?

(F5) –

Quase um minuto.

(F6) –

Já é bastante.

(F5) –

Me ajuda? Segura a minha cabeça, se eu bater três vezes na sua coxa, espera um pouco mais e me deixa levantar.

(F6) –

Tá. Um, dois, três.

(F5) mergulha. (F6) segura a cabeça dela debaixo d’água. Por quase um minuto. (F5) bate três vezes na coxa de (F6). Ela volta a respirar. Levanta a cabeça da piscina. Os olhos cheios de cloro, os cabelos grudados na boca.

3

(M2) toma fôlego.

(M2) –

Antes eu conseguia ir e voltar mergulhando. Duas vezes vinte cinco, cinquenta metros.

(M3) –

Sem pegar ar?

(M1) –

Cinquenta metros sem pegar ar. (pausa) Agora estou com um pouco de medo. Vou tentar atravessar de costas, com o nariz e os olhos fora d’água.

(F8) passa por eles. Eles param de falar.

(M3) –

Ela veio?

(M2) –

Semana passada ela também veio. Um silêncio quando ela entrou, parecia que todo mundo estava debaixo d’água. Quase meio minuto em silêncio.

(M3) –

Quer que eu marque o tempo?

(M2) faz que sim com a cabeça e começa, se apoia nos azulejos, faz sinal para que (M3) comece. Empurra os pés, pegando impulso e começa a nadar. De costas.

(M3) –

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, quatorze, quinze, dezesseis, dezessete.

(M2) pára. Um tempo recuperando o fôlego.

(M2) –

Dezoito dias já, desde que ele pulou.

(M3) –

Você não contou direito como ele... Você viu quando ele pisou no trampolim. Viu quando ele escorreu e bateu a nuca antes de cair. Viu o tempo em que ele ficou parado no ar antes de cair na água.

(M2) –

Foi o melhor salto dele. Ele nunca foi bom, em nada.

(M3) –

Você viu quando ele afundou dois metros e não voltou. Você mergulhou e tentou puxá-lo pelo braço. Você tentou puxá-lo pelo braço. Você tentou umas cinco vezes.

(M2) –

Eu não sabia que as pessoas podiam ser pesadas debaixo d’água.

(M3) –

Ele era pesado em qualquer lugar.

Os dois riem.

(M2) –

Ele não gostava de mim.

(M3) –

Pra você ele era só o gordo. Você gritou “pula, baleia de sunga azul” antes dele pular. E ele pulou.

(M2) –

Ele não gostava de mim.

(M3) –

Por isso.

(M2) –

Você se lembra de quando o prendemos no banheiro e como ele pediu pra sair, chorando. E como rimos quando ele começou a chorar. E quando desenhamos no quadro (F8) abraçada a um porco, quando eles começaram a namorar. E como ele não falou nada, mas dava pra ver ele engolindo as palavras. Assim, de covardia.

(M3) –

Ele não gostava de fazer ninguém chorar.

(M2) –

Eu não quero mais falar disso. Se a gente parar de falar, a gente esquece. Se a gente esquece, a gente volta a mergulhar. Me deixa continuar.

(M3) –

(depois de um tempo) A piscina fica cheia no verão, né? (pausa) Vai lá. Eu continuo a marcar o tempo. Parou no dezoito.

(M2) volta a nadar de costas.

(M3) – Dezenove, vinte, vinte e um, vinte e dois.

4

(F8) –

Um mês. Um mês é a metade do tempo que a gente namorou. Parece que a gente namorou pouco tempo. Parece que faz tempo demais que a gente não é mais namorado. “Distâncias somavam a gente pra menos”, escrevi no meu perfil dois dias depois. Mas era ele quem gostava de copiar poemas. Eu só sou boa em geografia. Um mês é a metade do tempo que a gente namorou. Namoro mesmo. Porque antes disso teve a aula de educação física em que ele colocou gelo no meu nariz. E as vezes em que ele me ensinou literatura, eu geografia. E as madrugadas de mensagens sem sentido, cheias de relevos e não-palavras. E a primeira vez que a gente se beijou. E as tantas outras vezes que ele pensou em me beijar e eu nunca nem percebi. Tem coisas que a gente só percebe depois que passa. Quase tudo é assim. Foi assim quando minha mãe e meu pai se separaram. Foi assim quando eu não li o que ele teve medo de escrever. É assim quando a gente pensa que está num vale sem se dar conta de que é cânion. É assim nesse um mês inteiro de inverno.

Quando eu voltei pro clube, quinta-feira, onze dias sem entrar na água, as pessoas pararam de falar quando eu entrei. Mas elas não falavam dele. Amanhã elas falariam de mim. Era o boato de que (F7) tinha ficado com não-sei-quem o que interrompia meu inverno. Todos pararam de falar, como se fosse um desrespeito que a vida continuasse. E era.

Eu entrei na água. Eu mergulhei. Eu abri os olhos enquanto nadava pra não perder minha raia. Eu apoiei as mãos na pedra pra sair. Eu me sentei na borda da piscina. Eu ri com o comentário que (F5) fez sobre o maiô da professora. Eu comentei que (F7) não tinha vindo. Me falaram de não-sei-quem. (F7) era o assunto mais importante do dia. (F7) sem saber me salvava. Quem olhasse de fora poderia pensar que ele não está sempre na piscina, me vigiando. Como um submarino que se aproxima demais da costa, sem ninguém se dar conta.

(F5) –

Então ela desapareceu da festa.

(F8) –

Quê?

(F6) –

Em que mundo você está?

(F8) –

(F5) –

A (F7) desapareceu da festa e já sabe o que todo mundo está falando, né?

(F6) –

Será que aconteceu alguma coisa? Ela nunca falta na natação.

(F5) –

Me mandou uma mensagem hoje cedo. Disse que está gripada.

(F8) –

Faltar em véspera de treino assim, deve ser grave.

(F5) –

Desculpa, mas posso ser honesta?

(F8) –

Desde quando se pede desculpas por honestidade?

(F5) –

Você também faltou num monte de treino.

(F8) –

Era grave.

(F5) –

(F8) –

Hoje faz um mês.

(F6) –

Só isso? (pausa) Competição de apneia?

(F8) –

Tá bom. Um, dois, três.

As três afundam na água.

5

(F8) continua a nadar e se aproxima de (M1). Os dois terminam uma corrida, apoiados na borda da piscina. Ela ganha. Depois de um tempo em silêncio, os cabelos cheios de cloro.

(M1)-

Três meses.

(F8) –

É mais tempo do que a gente namorou. Ele te contou como tudo começou?

(M1) –

Ele sempre foi o mais quieto da classe.

(F8) –

Mas com você ele falava. Eu achei que vocês fossem namorados.

(M1) –

Ele não era meu tipo. Ele era meu melhor amigo, mas agora o posto está vago.

(F8) –

Trê meses é muito tempo.

(M1) –

Vou esperar mais um pouco pra preencher essa vaga.

(F8) –

Posso te contar como ele me pediu em namoro?

(M1) –

Se você quiser lembrar.

(F8) –

Eu lembro todo dia. Quase todo dia.

(M1) –

(F8) –

A gente tinha acabado de apostar quem chegava primeiro até o outro lado da piscina.

(M1) –

Ele sabia que você ia ganhar. Ele nunca nadou bem.

(F8) –

Eu ganhei. Ele nem me deixou tomar fôlego e já começou a falar dos submarinos.

(M1) –

Ele gostava de copiar poemas.

(F8) –

Ele disse que tinha visto no wikipedia que a forma dos submarinos, charutos, sabe? Eu disse que sabia.

(M1) –

(F8) –

Essa forma é conhecida como casco de lágrima, e foi inspirada no corpo das baleias. E há uma borracha cobrindo o casco, revestimento anecóico.

(M1)-

O que isso?

(F8) –

Eu perguntei a mesma coisa. Ele ficou em silêncio.

Os dois ficam em silêncio um tempo longo.

(F8) –

Então ele disse que era pra não refletir as ondas sonoras. Pra ficar em silêncio? eu perguntei.

(M1) –

Pra ficar em silêncio, o melhor é afundar na água, soltar todo o ar pelo nariz até encostar no fundo da piscina e ficar quieto até sentir que vai desmaiar. Então esperar um pouco mais.

(F8) –

Foi isso que ele me respondeu.

(M1) –

A gente era tão amigo que gostava de dizer as mesmas coisas.

Ela ri.

(M1) –

Continua a contar.

(F8) –

Então eu ri e falei que ia afundar a cabeça dele na piscina pra ele ficar em silêncio. Ele me perguntou sobre meu pai e minha mãe. Eu disse que eles estavam se separando. Ele disse que disso ele sabia, que queria saber como eu estava. E ninguém tinha me perguntado isso antes. Aí eu contei como eu me sentia.

(M1) –

E como era?

(F8) –

Eu ia ter que desenhar um mapa pra explicar isso, eu disse. E ele disse que ia gostar de ver esse desenho. A gente deve ter ficado quase meio minuto em silêncio. Não tinha quase ninguém na piscina e eu senti vontade de beijá-lo e contei isso pra ele. Ele perguntou se eu não me importava que ele fosse gordo. Eu o puxei pra debaixo d’água e o beijei. Eu nunca pensei que podia fazer isso, eu me importava. Quando a gente voltou a respirar, ele disse que queria ser meu namorado. “Se você não contar pra ninguém” e afundei a cabeça dele na água, pra ele ficar em silêncio.

Eles ficam quase meio minuto em silêncio.

(M1) –

Não tem quase ninguém na piscina.

(F8) –

Você não se importa por eu ter sido namorada dele?

(M1) –

Eu nunca achei que eu te falaria isso, eu me importo. Mas acho que ele não se importaria: eu era o melhor amigo dele.

Os dois afundam na água e se beijam. Voltam à superfície.

(F8) –

Você tem mais fôlego que eu.

(M1) –

Já faz três meses. Eu queria ser seu novo namorado.

(F8) –

Se você não contar pra ninguém.

(M1) ri e afunda a cabeça dela na água.

6

(M1) –

Só ele sabe. Debaixo d’água fica mais fácil ver. Abro os olhos apesar do cloro e ele está ali, soltando bolhas pelo nariz, vigiando tudo o que eu faço, tudo o que talvez ele estivesse fazendo. O último mês que roubei dele. Oito ou nove azulejos, esse é o seu tamanho. Daqui a alguns anos, talvez sejam só os azulejos sem ele. Mas quatro meses depois ele ainda está ali, só que quase ninguém se lembra. Nem nós.

7

Duas ações simultâneas: (F5), (F6) e (F7) nadam na piscina. (F8) está longe, fora da piscina.

(F7) –

É verdade. Dizem.

(F6) –

Na escada em três.

(F8) –

Na escada a gente fala segredos.

As três nadam até perto da escada da piscina e falam baixo, em segredo.

(F5) –

Mas namorando ou eles só se ficaram?

(F7) –

(M2) viu os dois juntos na piscina outra dia. Eles se beijam debaixo d’água. Dizem. Haja fôlego.

As três riem.

(F8) –

Debaixo d’água ninguém vê. Só ele.

(F6) –

Não sei… Ele era o melhor amigo dele.

(F5) –

Vai ver por isso tem direito.

(F7) –

Dizem que os dois já estão juntos há dois meses, mas só agora começaram a contar pra todo mundo. Por causa do acidente, sei lá por quê.

(F5) –

Já vai fazer quase seis meses. É bastante tempo. Ela está certa.

(F8)-

Parece que foi ontem.

(F7) –

Dizem que ela diz que parece que foi ontem.

(F6) –

Parece que foi ontem que ela beijou o (M1).

(F7) –

Dizem que durante a chuva de ontem…

(F5) –

Eu fiquei presa dentro do carro com a minha mãe. A gente não conseguia nem entrar em casa, de tão forte. A chuva.

(F7) –

Dizem que eles ficaram aqui no clube esperando a chuva passar. Os dois sozinhos.

(F6) –

Eu não acredito.

(F8)-

Meus dedos estavam bem finos e enrugados, tanto tempo na água. A gente estava esperando todo mundo ir embora. E todo mundo queria ir embora com medo do céu escuro. As nuvens avisando que só do que temos que ter medo é da água. Ainda demorou um tempo pra começar a chover. E era só a gente se beijando secretamente na água. A primeira vez que só os azulejos nos viam. A primeira vez em que nem ele estava ali.

(F7) –

(M2) que viu.

(F5) –

Me dá um pouco de raiva pensar que (F8) e (M1) estão juntos.

(F6) –

Já faz meio ano. Antes, a gente falava dele em toda conversa, agora ninguém lembra mais. É assim.

(F7) –

Hoje no perfil dela estava assim: “o mundo lá fora gritando, tudo continua.”

(F5) –

Há meio ano ela cismou de copiar poemas. Como ele fazia.

(F8) –

Eu não queria me esquecer dele. Eu tinha medo de que eu já tivesse me esquecido.

(F7) –

É um jeito de pedir desculpas.

(F6) –

Desde quando se pede desculpas pelo tempo?

8

Todos nadam, como se nada – nunca – tivesse acontecido. Ou como se já tivessem se esquecido.

9

(F7) –

Dizem que foi em 17 ou 18 de outubro – quase ninguém mais se lembra da data exata, mais ou menos oito meses desde o dia do acidente, (M2) entrou na piscina, ficou de pé diante da quarta raia: a que era dele. Todas as outras raias ocupadas. E falou rindo o que queria dizer gritando, o que todo mundo já sabia: que (M1) e (F8) eram namorados.

Dez metros pra direita, (F8), na última raia, teve vontade de chorar, então mergulhou e abriu os olhos debaixo d’água porque então poderia dizer que os olhos vermelhos eram por causa do cloro. Dez metros para a esquerda, (M1), na primeira raia, apoiou as mãos na beira da piscina, levantou todo o corpo num impulso e saiu. Dizem.

(M2) –

Daquele dia eu não vou esquecer. Não vou esquecer que eu o puxei pra fora d’água como se tivesse o pescoço sangrando. Como se eu tivesse escorregado. Como se fosse a minha nuca que tinha deixado sangue no trampolim.

Por isso gritei o que todo mundo já sabia e falei o que todo mundo devia estar pensando. Uma baleia é grande demais pra se esquecer assim tão fácil. Desculpa.

Não foi culpa minha, isso eu repito todos os dias. Pra me convencer, pra não esquecer. A (F8) está dando por (M1). A (F8) está dando pro (M1). A (F8) está dando pro (M1). A (F8) está dando pro (M1). E ninguém diz nada. Como é que se pode mergulhar depois disso? Alguém me diz: como é que se pode mergulhar disso? A (F8) está dando pro (M1). Disso ninguém vai esquecer.

(F5) –

A (F8) afundou na água. Só quando voltou é que a gente viu que ela estava chorando. O que a gente devia fazer era abraçar a (F8) e mergulhar com ela, pra ficar em silêncio, pra não escutar mais nada. Mas ninguém fez isso. Eu não fiz.

(M3) –

A gente só conseguiu ficar olhando pra água gelada, pensando que o (M1) fosse sair da piscina e se abraçar ao (M2) com força. E eles iam cair na piscina, um tentando afogar o outro, gritando coisas que a gente não ia entender, espirrando água pra gente não ver que eles estavam se machucando. Como nos filmes. Mas ele não fez. Ele só saiu saiu da piscina. E ninguém entendeu. Ninguém entende nada.

(F6) –

Isso também era a vida continuando, só que ninguém sabia. Todo mundo sabia que não fazia tanta diferença que a raia quatro estivesse vazia. Mas ninguém gostava de saber disso.

(F8) –

Foi então que todo mundo se virou com o barulho que vinha da porta de vidro. Um passarinho, voando sem saber pra onde – como eu, como nós – tinha batido contra o vidro. Às vezes você pensa que está num cânion, mas está num vale.

10

(M1) –

O passarinho bateu a cabeça no vidro com força e caiu no chão, tonto. Ninguém mais se lembrava do que o (M2) tinha dito. O que interrompeu nosso pequeno problema foi algo maior: o passarinho no chão, meio tonto.

Ele ainda tentou voar de novo, mas foi quebrando o ar sem rumo, meio cego pelo sangue debaixo das penas. Voou baixo. Caiu de novo. E de novo. Até cair na piscina. O passarinho quase quebrou o vidro tentando entrar no nosso aquário.

As penas molhadas só aumentavam o pânico do bicho. Asas se debatendo, água espirrando.

Então gritei: ajuda aqui e pulei de volta na piscina. (F7) comentou que tinha sangue na água. (M2) não falou nada, também pulou e começou a ajudar a tentar tirar o o pássaro da água. Passamos um tempo mergulhando e voltando pra respirar, na parte mais funda da piscina. Foi só aí que (F8) terminou de esfregar os olhos e tirou os cabelos molhados da boca.

Peguei o passarinho nas mãos, com força e o tirei da água. Já sem respirar.

11

Carregando um passarinho morto, (M1) sobe no trampolim. Fica parado, prestes a pular.

(M1) –

Parece engraçado enterrar um bicho que se afogou. (pausa) Um ano, hoje. A brincadeira é imaginar futuros submersos pra ele.

Devagar, todos se posicionam em suas raias, prontos, para começar uma competição. Rindo, felizes. Prestes pular na piscina.

(F5) –

Eu começo. Ele morreu aos 78 anos, de um acidente vascular cerebral, como minha avó. Eu não fui ao seu enterro porque já não me lembro nem do meu nome.

Ela pula na piscina e começa a nadar.

(M3) –

Ele morreu aos cinco meses de idade, dormindo. Até hoje sua mãe não entendeu o que aconteceu, até hoje ela não dorme.

Ele pula na piscina e começa a nadar.

(F7) –

Dizem que morreu enquanto percorria um cânion deserto. Sua esposa nunca encontrou o corpo, mas coleciona mapas de relevo.

Ela pula na piscina e começa a nadar.

(F6) –

Morreu enquanto o filho dava comida em sua boca, tinha mais de cem anos.

Ela pula na piscina e começa a nadar.

(M2) –

Morreu aos trinta e quatro, assistindo a uma peça de teatro sobre um menino que morreu numa piscina. As pessoas só perceberam quando a peça acabou.

Ele pula na piscina e começa a nadar.

(F8) –

Ele ainda não morreu. Uns dizem que virou azulejo. Eu digo que ele virou passarinho.

Ela pula na piscina e começa a nadar.

(M1) –

Ele morreu bem velhinho, sozinho em casa, sem avisar ninguém. Ele nunca gostou de fazer ninguém chorar.

Observa os outros nadando, ainda com o pássaro na mão.

(M1) –

Eles nadam como se nada tivesse acontecido. Como se a vida continuasse. E continua.

Ele vai pular na piscina.

FIM

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