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Maledicência / Jandira Martini

MALEDICÊNCIA

Jandira Martini

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do Projeto Conexões Teatro Jovem e fez parte do seu portfólio no ano de 2010.
Qualquer montagem fora do Projeto deverá ser negociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos autorais.

Jandira Martini: SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais) sbat13@ism.com.br

PERSONAGENS

BIA

CAMILA

DIEGO

DRICA

MARIA

MICA

ORELHA

QUITO

TIAGO

VITAMINA

UMA VOZ (masculina, que imponha respeito)

JOVEM

JOVENS QUE DANÇAM

UM GARÇON

UMA FAXINEIRA

PEÇA

A ação se passa num barzinho nada convencional

Palco nu.

Não há necessidade de paredes.

Deve-se utilizar o fundo e as laterais do palco onde a peça for apresentada. Há duas saídas laterais: a da esquerda leva à saída para a rua, e a da direita para a parte de serviço e à saída de emergência. Convenciona-se que a cabine de luz e som está localizada à frente do palco (plateia) em um plano um pouco superior. Quando o espetáculo começa a pista está delimitada pela luz, que deve ser sombria, como seria normal nesse tipo de ambiente.

Música altíssima, tipo bate-estaca. Uns oito jovens dançando, ao lado de: Orelha, Diego, Drica, Bia,Tiago, Camila, Maria, Quito,Mica e Vitamina, que também dançam animadamente. Um garçom circula pela pista servindo bebidas. Uma faxineira recolhe latinhas e copos plásticos espalhados pelo chão. Um tempo dessa situação. Diego saindo da pista e fazendo sinal para os outros, que, ainda meio dançando, vão até ele:

VITAMINA

E aí? Qualé?

DIEGO

Tô achando este pico meio devagar.

BIA

TODOS CONCORDAM

MARIA

Tô sabendo dum lugar quentíssimo lá em Moema.

TIAGO

Vamos nessa?

ORELHA

Dá um tempo, galera. Tá cedo. Daqui a meia hora gente vai. Belê, turma?

TODOS CONCORDAM

DIEGO

(OLHA O RELÓGIO E CONFIRMA COM UM DOS JOVENS NA PISTA)

São quatro e quinze agora?

JOVEM

(CONSULTA SEU RELÓGIO E CONFIRMA)

É isso aí, meu. Quatro e quinze.

DIEGO

(ALTO, PARA TURMA)

Oí, galera. São quatro e quinze. Quinze pras cinco a gente vaza. Belê?

VITAMINA

É “nois”!

Todos fazem sinais concordando. Um segundo e a luz e o som são cortados.

Reações normais a esse tipo de situação: vaias, gritos, risadas, etc. Até que baixa aquele silêncio de quando se cai na real. Tempo.

DIEGO

(EXPLODINDO)

Merda de Eletropaulo!

DRICA

Não estressa não. Normal. Acontece!

VITAMINA

Sacanagem, ó í ó!

ORELHA

Balada no escuro é o ó!

BIA

Já pensou se é apagão?

DIEGO

Odeio ficá no escuro.

VITAMINA

(ACENDENDO UM ISQUEIRO)

Qualé, cara? Não vai me dizê que tá com medo?!

DIEGO

(FALANDO ALTO, SE DIRIGINDO A CABINE)

Ei!!! Não tem luz de emergência, nesse moquifo, não?

VITAMINA

(APAGA O ISQUEIRO)

Aiiii! Merda!! Queimei o dedo.

MARIA

Lá em casa toda hora apaga...

TIAGO

Toda hora? Fala sério!

BIA

Onde cê mora?

MARIA

Não interessa!

ORELHA

Sem estresse, moçada! Nosso problema agora é luz!

VITAMINA

Luz e som! Sacanagem! Brochante, cara!

DIEGO

(NERVOSO, FALANDO ALTO, NA DIREÇÃO DA CABINE)

Ô meurmão! Não dá pra quebrá essa? Dá uma luzinha aqui pra nós,vai!

ACENDE-SE UMA LUZ DE EMERGÊNCIA.

GRITINHOS TIPO: UHUHUH!!

TODOS OS OUTROS JOVENS, QUE ESTAVAM NA

PISTA, O GARÇON E A FAXINEIRA

DIEGO

(ALIVIADO, PARA A CABINE)

Valeu, cara. Tá sabendo se foi geral, ou é só aqui?

TODOS OLHAM PARA A CABINE

TIAGO

(DEPOIS DE OLHAR, PARA DIEGO)

Tá falando com quem? Não tem ninguém lá em cima.

MARIA

Vai me dizê que a luz acendeu sozinha?!

TIAGO

Luz de emergência é automática, né irmãzinha?

MARIA

Se fosse automática não tinha demorado tudo isso pra acender, né ô esperto?

BIA

Isso pra mim é paixão.

MICA

O que é paixão?!

BIA

Esses dois aí, vivem se cutucando.

MARIA

Paixão, eu? Se liga, garota.

ORELHA

Tinha uma mina me dando o maior mole. Sumiu no meio da escuridão...

BIA

(DESDENHANDO)

Aquela popozuda siliconada?

ORELHA

Mor gata, né?

BIA

(SATISFEITA)

Foi miá noutro telhado.

DIEGO

Tô achando isso esquisito.

ORELHA

A gata me dá o maior mole?

DIEGO

(MEIO IRRITADO, CONFUSO)

Não, Orelha. É que não foi só gata, cara. Todo mundo sumiu no meio da escuridão, tá

ligado? Muito louco isso, meu. Apaga tudo e some todo mundo!?

MARIA

Muito louco mesmo. Onde será que eles se meteram ?

CAMILA

Não te falei, Quito? Não falei que este lugar era roubada? Não falei?

QUITO

Roubada por que, Camila? Podia tê acontecido noutro barzinho qualquer.

CAMILA

Este lugar é imundo, nojento. Enfiado na terra. Parece o porão do Drácula.

MICA

Acho manero. E amei o nome: “Cave”!

VITAMINA

(GOZADOR)

O nome é irado mesmo. Quê dizê “cave” a própria sepultura. Porque, vamos combinar ? Nós tamos embaixo da terra, né turma?

MICA

(SUPERIOR)

“Cave” em francês quer dizer porão, ô mané!

TIAGO

Como é que cê sabe?

MICA

Eu li.

VITAMINA

(GOZANDO)

Ela lê muiiiito!!!

MICA

Leio mesmo. “Quem lê sabe mais”.

VITAMINA

Quem disse?

MICA

Monteiro Lobato.

VITAMINA

Puta frase, hem? Gênio o cara! Quando cruzá com ele diz que eu mandei lembranças.

MICA

Ele tá morto e enterrado, ô ignorante!

DIEGO

(CONFUSO)

Nós também. Mortos acho que não, mas enterrados com certeza.

DRICA

(A SÉRIO)

Ai, Diego. Papo mais tétrico. Não começa não. Só de pensá já me dá claustrofobia.

TIAGO

Melhor a gente vazá.

CAMILA

E subir no escuro aquela escadaria nojenta que a gente desceu?

QUITO

E daí? Qualé o problema?

CAMILA

Tudo porque você insistiu na ideia de conhecer um lugar novo.

QUITO

Vai jogá a culpa em mim agora? Todo mundo concordou.

BIA

Esse todo mundo inclui você, viu Camila? Tudo que ele sugere cê acha lindo!

CAMILA

(IRRITADA, FALANDO ALTO)

Que que cê tá querendo dizer com isso, hem Bia?

TIAGO

Peraí, gente. Discussão mais idiota. Foi votado. Venceu a maioria.

BIA

Eu votei contra.

DIEGO

ORELHA

Ó í, turma. (ESTIRANDO-SE NO CHÃO) Negócio é relaxá. Tomá mais umas breja e

esperá a luz voltá. (ALTO, EM DIREÇÃO A COXIA) Garçom!! (PARA OS OUTROS)

Senta aí, galera!

ALGUNS SE SENTAM, MAS MANTÉM UMA

POSTURA TENSA.

DRICA

Não esquece que cê veio guiando, Orelha.

ORELHA

Tô sussa. Por que que eu ia esquecê?

MICA

Amnésia alcóolica.

VITAMINA

Ô, a mina tá demais! Amnésia alcóolica! Essa cê leu onde? É de quem?

MICA

Da tu mãe!

TIAGO

Ô, ô, ô!! Qualé, Mica? Não tá vendo que o Vitamina tá brincando?

VITAMINA

(AINDA BRINCANDO)

É por isso que eu sou ignorante. Quem sabe tudo, em vez de ensiná, prefere ofendê.

MICA

Ah, vai te catá, Vitamina.

(A PARTIR DE AGORA AS TERMINAÇÕES DOS INFINITOS VERBAIS SERÃO DIGITADAS DE MANEIRA CORRETA, MAS DEVE-SE MANTER A PRONUNCIA USUAL.)

QUITO

A Mica tá certa, viu Orelha? Amnésia alcoólica mesmo. Aí, meurmão, cê não lembra nem

onde deixou o carro.

BIA

E ainda faz escândalo porque perde a chave.

ORELHA

Qualé, moçada? Menos!

MARIA

E o coitado do Tiago tem que ficar dando uma de babá de bêbado, né Tiago?

TIAGO

(DISTRAÍDO)

Que?

MARIA

O Orelha.

TIAGO

Que tem o Orelha?

QUITO

Caraca! Neguinho tá viajando legal. Tamos falando do Orelha há horas.

TIAGO

Tava pensando. É. Tá esquisito.

DRICA

(PREOCUPADA)

O que tá esquisito?

TIAGO

Tá ligado que só tem a gente aqui? Não é estranho? Onde é que se enfiou todo mundo?

Porteiro, Segurança, Recepcionista, DJ ?

DIEGO

É isso aí. Tá muito estranho.

MARIA

Vai ver os caras se mandaram e largaram a gente aqui .

CAMILA

A troco de que?

MARIA

Sei lá! Tem louco pra tudo.

TIAGO

Tô achando que este pico é zoado mesmo. (GRITA) Garçom!!!

ORELHA

Relaxa, cara. Já chamei.

BIA

E ele apareceu por acaso?

DRICA

E aquela tiazinha da limpeza, onde será que se enfiou?

MARIA

Deve tá no “toilette”. Eu vou lá...

MICA

Nessa escuridão?

MARIA

Tô acostumada.

VITAMINA

(REMEDANDO)

“Lá em casa toda hora apaga!”

TODOS (MENOS MARIA) RIEM MAIS DO QUE SERIA NORMAL. A RISADA MURCHA E DÁ LUGAR A UM SILÊNCIO TENSO.

MARIA

Algum dos palhaços aí tem coragem de ir comigo, ou vou ter que ir sozinha?

UM TEMPO EM QUE NINGUÉM SE MANIFESTA.

ORELHA

Eu vou. Aquele monte de breja que eu tomei, agora bateu forte. Tô precisando esvaziar. Ó,

se o garçom aparecer pede umas pra mim, que é pra repor. Empresta o isqueiro aí,

VITAMINA

(ACENDENDO UM CIGARRO)

Tá vendo como é bom fumar? E cês ainda reclamam...

(ENTREGANDO)

Num gasta tudo. Vai que a luz não volta. Aquela puta escada no escuro, vai ser uma bad!

DRICA

(PREOCUPADA, SAINDO DE CENA PARA VERIFICAR)

A escada tem que ter luz de emergência.

(FORA DE CENA, ALTO, EM DESESPERO)

Não acredito!! Ai, meu deus!

TODOS SURPRESOS COM O JEITO DELA.

DRICA

(ENTRANDO)

Não tem luz nenhuma. Maior escuridão. Um breu só.

VITAMINA

Ó í, Orelha. Se liga no isqueiro.

ORELHA

ELES SAEM. UM TEMPO DE SILÊNCIO EM QUE

TODOS SE OLHAM SEM SABER O QUE DIZER.

DRICA

(NUM REPENTE, NERVOSA, AOS GRITOS)

Garçom!! Garçom!!

(INDO NA DIREÇÃO DA COXIA, GRITA MAIS)

Onde é que você se meteu, cara? Garçom!!! Garçom!!!

TODOS PREOCUPADOS COM O

COMPORTAMENTO DELA.

CAMILA

(INDO ATÉ ELA, ASSUSTADA)

Que é isso, Drica? Cê não tá se sentindo bem?

QUITO

(IDEM)

Quer uma água? Eu vou pegar...

BIA

Onde, Quito? Nem cozinha deve ter nesta merda!

DIEGO

Um depósito de bebidas tem que ter. Ou aquilo que a gente tomou era birita virtual? Eu vou achar... ( E AMEAÇA IR)

DRICA

Deixa, Diego. Não precisa não.

(DE UM LADO PARA OUTRO, COMO FERA ENJAULADA)

Merda que é não ter carro, viu? Se eu não precisasse de carona, já tinha vazado faz tempo.

TIAGO

(ACOMPANHANDO O MOVIMENTO DELA)

Deixa eles voltarem do banheiro que a gente vai. Eu te levo.

DRICA

(INQUIETA, INDO)

... eu vou sozinha mesmo. Não aguento mais ficar aqui...

CAMILA

Peraí, Drica! Espera o isqueiro. Cê vai acabar caindo na escada...

DRICA

Prefiro me arrebentar do que ficar fechada aqui dentro. (E VAI)

TIAGO

(SE DESCULPANDO COM OS OUTROS)

Eu vou com ela, galera. Acho que cês deviam se mandar também. (SAINDO) Fui!

CAMILA

(ALTO, NA DIREÇÃO DA SAÍDA DELES)

Eu só vou esperar o isqueiro.

QUITO

Eu vou com você.

CAMILA

Não precisa não. Tá se sentindo culpado por ter enfiado a gente neste buraco?

QUITO

Que saco, Camila! Para de me culpar. Não posso querer vazar também?

MICA

Pode, claro que pode. Eu vou também. Vamos nessa, Diego?

DIEGO

(AMEAÇANDO IR)

VITAMINA

Qualé? Vão desertar? Me largar sozinho?

BIA

Eu fico com você.

VITAMINA

Eu não mereço. Quer dizer: ninguém merece!

TIAGO

Aqueles dois não tão demorando muito no banheiro não?

BIA

Tô sabendo de casos incríveis que começaram num banheiro. Alguns até acabaram em casamento.

VITAMINA

Também tô sabendo de casos incríveis.

BIA

De banheiro?

VITAMINA

Não. De jararacas que morderam a língua e morreram vítimas do próprio veneno.

BIA

(SEM GRAÇA)

Num falei por maldade. Tô preocupada com vocês. Cês tão muito nervosos.

MICA

Ô “ Santa Bia dos Nervosos”, tá achando que engana quem?

BIA

Peraí, gente! Foi só uma gracinha.

CAMILA

Ah, era pra rir? Devia ter avisado.

BIA

Que é isso? Só faltou luz. Por que vocês tão desse jeito?

ORELHA E MARIA VOLTAM.

ORELHA

Bad news, galera!

MARIA

Nada de garçom, nem de tiazinha da limpeza.

ORELHA

Fuçamos tudo.

MARIA

Ninguém em lugar nenhum.

QUITO

É ridículo, meu. Cadê o responsável por esta merda? O cara tinha que, pelo menos,

aparecer aqui pra dar uma satisfação, copiou?

ORELHA

É isso aí. É ridículo, cara. Mas “esqueceram de nós 4”. (CONTA) Ou melhor, de nós

BIA

MICA

E a gente só tava esperando o isqueiro...

ELES AMEAÇAM SAIR, MAS PARAM AO VER TIAGO E DRICA QUE VEM ENTRANDO. ELA CHORANDO, AMPARADA POR ELE, QUE TAMBÉM PARECE ARRASADO. REAÇÃO DE TODOS ESTRANHANDO.

DIEGO

(NERVOSO, JÁ PREVENDO)

E aí? Qualé? Voltaram, por que?

TIAGO

(SEM CORAGEM DE FALAR)

A porta de Saída não abre.

CAMILA

Não acredito!

QUITO

Como assim? Não abre?

TIAGO

Tá trancada.

MICA

Que absurdo! Será que os caras não se tocaram que a gente tava aqui?

DRICA

(QUASE CHORANDO)

Claro que se tocaram. Alguém trancou a gente aqui.

DIEGO

(TENTANDO DISFARÇAR A PREOCUPAÇÃO)

Por que eles iam fazer isso?

MARIA

Falei, num falei? Se mandaram e esqueceram dos “troxas”.

DRICA

Não esqueceram não. Foi de propósito.

MARIA

Sem nóia, Drica. Isso que cê tá dizendo não faz o menor sentido.

ORELHA

Sem breja, sem som e sem luz não vai dar mesmo, né turma? Vamos vazar, galera!

TIAGO

Tá lesado ou surdo, cara? Vazar como?

ORELHA

Pela saída de emergência, né ô vacilão?

BIA

Tem saída de emergência nesta merda?!

MARIA

Só tem. Lá no fundão, depois dos banheiros. Tem até um plaquinha acesa.

VITAMINA

Então vamos nessa.

QUITO

Melhor a Maria ir na frente. Ela já sabe onde é.

VITAMINA

(DANDO ORDENS)

Todo mundo em fila aqui, atrás de mim. Drica, vem comigo na frente!

DIEGO

Deixa a Maria ir na frente, Vitamina.

VITAMINA

Maria tem isqueiro por acaso? Não tem. Eu tenho. (LEVANTA O ISQUEIRO E ACENDE SOLENEMENTE) “Só o isqueirão salva!”

TODOS SAEM EM FILA, VITAMINA E DRICA NA

PALCO VAZIO UM LONGO TEMPO.

ELES VOLTAM ( NÃO MAIS EM FILA) LENTA E

ESPAÇADAMENTE. DESÂNIMO GERAL.( É

COMO SE OS COMENTÁRIOS E IMPRECAÇÕES

ÓBVIAS, TIVESSEM SIDO DITOS FORA DE CENA,

DIANTE DA PORTA DE EMERGÊNCIA.) TEMPO.

DIEGO

(AGITADO)

Meu velho vai processar esses caras. Eles vão se ferrar. É contra a lei. Porta de emergência tem que permanecer aberta.

BIA

(IRÔNICA)

Mesmo depois do bar já ter sido fechado?

QUITO

Mais uma razão pra processar. Como é que neguinho tranca tudo sem conferir se ficou

alguém dentro? Eu vou encher esses caras de porrada!

CAMILA

Agora, né? Quando eu falei...

QUITO

Não começa.

CAMILA

Mas é muito grave, cara. Já pensou se acontece alguma coisa com a gente aqui trancado?

QUITO

Acontece o que, Camila? O que que pode acontecer?

BIA

(FERINA)

Pode pegar fogo.

VITAMINA

(FINGINDO ESPANTAR BIA E EM SEGUIDA ACENDENDO OUTRO CIGARRO)

Xô, urubú! Xô!

DRICA

(DESCONTROLADA, GRITA)

Cala boca, Bia! Cala boca! Não diz isso nem brincando, que atrai. E apaga essa merda desse cigarro, Vitamina. Não circula ar aqui dentro, daqui pouco minha garganta vai começar a fechar. (PARA QUITO E DIEGO) E vocês também! Em vez de pensar em processar e bater, por que não pensam num jeito de sair daqui?

UM TEMPO EM QUE TODOS PENSAM EM ACHAR UMA SAÍDA.

CAMILA

Mas é muita zica, não é não? Depois daquela a barra lá na “facul”, a gente sai pra tentar esquecer e se divertir e cai numa dessas. Parece castigo.

DIEGO

(PREOCUPADO)

Castigo por que? Eu não fiz nada de errado. Tô tranquilo.

BIA

Mesmo? Não tá parecendo.

ORELHA

Eu, ó: suave. Só falei o que eu sabia.

MARIA

Mesmo sabendo alguma coisa, acho que a gente não devia ter falado.

MICA

Pelo amor de deus! Não vamos falar mais nisso.

MARIA

Acho que a gente precisa falar sim. Sei lá. Pra mim ainda tem alguma coisa pegando nessa história.

QUITO

Gente, esquece isso. Já foi. Acabou. Sem neura, por favor. Seguinte: nós estamos presos numa merda de um barzinho subterrâneo e temos arrumar um jeito de sair daqui.

DIEGO

UM TEMPO DE REFLEXÃO E TODOS TEM A MESMA IDEIA E TODOS PEGAM SEUS

CELULARES AO MESMO TEMPO, EM MOVIMENTO IDÊNTICO, COREOGRAFADO,

ENQUANTO DIZEM SIMULTANEAMENTE:

MARIA

Polícia! (E DIGITA)

DIEGO

Meu pai! (IDEM)

VITAMINA

Bombeiro! (ID.)

CAMILA

Minha mãe! (ID.)

MICA

Chaveiro 24 horas! (ID.)

QUITO

Resgate! (ID.)

ORELHA

Meu irmão! (ID.)

TIAGO

Seguro residência! (ID.)

DRICA

Meu tio delegado! (ID.)

BIA

Defesa civil?! (ID.)

TODOS, SEMPRE AO MESMO TEMPO, COLOCAM O FONE NO OUVIDO. CONSTATAM QUE NADA ACONTECE E BAIXAM OS CELULARES.

TODOS

(OLHANDO O VISOR)

Sem serviço!

TODOS ATÔNITOS E DESALENTADOS COM A SITUAÇÃO.

UM TEMPO.

BIA

É isso aí. Tamos, no mínimo, a dez metros do nível da rua. Mas cês quiseram porque quiseram se enfiar neste “porãozaço”. Eu fui contra.

DIEGO

(EXALTADO)

Tamos sabendo, Bia. Deixa de ser pentelha!

BIA

(SE EXALTANDO TAMBÉM)

Ah, que que é? Que que eu fiz agora?

MARIA

(ID.)

É que cê fala demais.

CAMILA

(ID.)

Se mete em tudo.

ORELHA

(ID.)

Se liga na bagaça, garota. Fica na tua.

BIA

(ID.)

O que cê quer dizer com isso? Que eu não tenho direito de falar?

VITAMINA

(ID.)

QUITO

(ALTO, PRA ENCERRAR A DISCUSSÃO)

Peraí, galera! Para com isso! Para! Ficar discutindo entre a gente não vai resolver nada.

TODOS TENTAM SE ACALMAR. TEMPO.

MICA

(PENSATIVA)

“O inferno são os outros”!

TIAGO

Que é isso agora, Mica?

MICA

Eu li isso não sei onde. É uma peça de Teatro, acho. Os carinhas ficam trancados num

lugar e começam a se agredir, se acusar. Aí, eles percebem que morreram e estão no inferno.

DRICA

Ai, por favor! Para! Não quero saber o resto.

MICA

O resto é isso. Eles chegam a essa conclusão: “o inferno são os outros”. Essa é a ideai que o autor quer passar.

TIAGO

Quem é o autor?

MICA

Acho que é um francês.

DIEGO

ORELHA

Que que cê tá resmungando aí, Diego?

VITAMINA

O autor. É Sartre. Jean Paul Sartre.

TODOS SURPRESOS OLHAM PARA ELE.

VITAMINA

“Surprise!” Os ignorantes também leem.

QUITO

Você leu?

VITAMINA

REAÇÃO SEM GRAÇA DE MICA, QUE ENTENDEU.

QUITO

E aí? Fala, cara. Como é que termina a história?

OUVE-SE UMA VOZ AMPLIFICADA POR ALTO

FALANTES:

VOZ

“ATENÇÃO! ATENÇÃO! DENTRO DE TRÊS MINUTOS VAMOS COMEÇAR!”

A REAÇÃO DE TODOS TENTANDO LOCALIZAR A

VOZ E ENTENDER DO QUE SE TRATA. UM

TEMPINHO E A VOZ REPETE A FALA ANTERIOR.

ORELHA

(AINDA TENTANDO LOCALIZAR A VOZ)

Que loucura, meu! Que que é isso??

QUITO

Ei! A gente tá trancado aqui. Avisa aí. Dá pra mandar abrir a emergência?

MARIA

(TENTANDO DIALOGAR COM A VOZ)

Vai começar o quê??

UM TEMPO.

DIEGO

Responde, cara. Fala com a gente! Quem é você??

TIAGO

(PROCURANDO)

Não tem ninguém lá na cabine. De onde que tá vindo essa voz? Do além?

DRICA

(A SÉRIO, RESPIRANDO MAL)

A Mica tá certa. Vai ver a gente morreu mesmo. E vamos pagar nossos pecados.

MICA

Que pecados, Drica? Não entra nessa. Não pira.

DIEGO

Não vamos viajar, galera. É isso que eles querem.

CAMILA

Eles quem?!

DIEGO

Sei lá. Mas tô começando a entrar na da Drica. Trancaram a gente aqui de propósito.

BIA

Nós só temos três minutos, turminha. (OLHA O RELÓGIO) Menos agora.

CAMILA

(IRRITADA, NERVOSA)

Para de botar a gente pra baixo, garota...

BIA

(NO MESMO TOM, MAS VERDADEIRA)

Não tô botando pra baixo. Se liga, turma. A gente precisa se preparar pra enfrentar.

TIAGO

VITAMINA

Demorou o que?

TIAGO

A gente precisa se preparar.

VITAMINA

Pra que?! A gente nem sabe o que vai acontecer!

VOZ

“ATENÇÃO! ATENÇÃO! DENTRO DE DOIS MINUTOS , VAMOS COMEÇAR!”

ORELHA

(NERVOSO, AGREDINDO)

Começar o que, seu panaca? Desce aqui, manezão. Nós somos sujeira, cara. Desce aqui e enfrenta a galera!

DRICA

(SEGURANDO-O, TENTANDO ACALMAR)

Não provoca que é pior. A gente nem sabe se é um só.

QUITO

Vamos se ligar, turma. Alguém trancou a gente aqui, certo?

ALGUNS CONCORDAM, ALGUNS EM DÚVIDA.

QUITO

Quem?? E pra quê??

VITAMINA

(TENTANDO ENCONTRAR UMA RESPOSTA)

Só pra zoar com a cara da gente?

CAMILA

Tipo pegadinha?

MARIA

(DESCOBRINDO, CONVICTA)

Assalto!

MICA

Assalto?! Será? Ô, meu deus!

TIAGO

Só é. Certeza. Trancaram a turma do bar e agora vem pra cima da gente.

ORELHA

Vamos reagir, né galera?

QUITO

Nem fudendo, cara. Neguinho tá matando por qualquer dez “miréis”.

DRICA

Melhor entregar tudo logo.

QUITO

Tudo o que? Eu não tenho nada...

VITAMINA

(APONTA O PÉ DELE)

Só tem. Puta tênis americano, meu!

TIAGO

(IMPOSITIVO)

Tira!

QUITO

Meu tênis novinho?!

ORELHA

Compra outro, mano. Teu “véio” tem grana pracarai..

TIAGO

(ID. ANT.)

Vai galera! Todo mundo tirando os tênis.

TODOS COMEÇAM A TIRAR OS TÊNIS.

CAMILA

Quanto tempo falta?

VITAMINA

(CONSULTA O RELÓGIO)

Um minuto e dez segundos, acho.

TIAGO

(PARA VITAMINA, IMPOSITIVO)

Tira! Os relógios também, galera. Quem tem vai tratando de tirar.

DIEGO

Vamos empilhar tudo aqui, gente.

OS RAPAZES, E ALGUMAS GAROTAS TAMBÉM,

TIRAM OS TÊNIS E OS RELÓGIOS COLOCANDO

UNS SOBRE OS OUTROS, NO CENTRO DO

PALCO, ENQUANTO O DIÁLOGO PROSSEGUE:

VITAMINA

Que mais, turma?

BIA

Os celulares!

MICA

TODOS PEGAM SEUS CELULARES E PÕEM NA

PILHA

VOZ

“UM MINUTO! UM MINUTO PARA COMEÇAR! UM MINUTO! UM MINUTO!

UM MINUTO! UM MINUTO!”

MARIA

(DESCONTROLADA, GRITA)

Já entendemos! Não somos idiotas!

CAMILA

Ai, tá me dando a maior dor de cabeça!

QUITO

(CARINHOSO, TENTANDO UMA MASSAGEM NO PESCOÇO DELA)

É tensão. Já vai passar.

MICA

Eu tenho aspirina na bolsa.

TIAGO

Bolsas, meninas! As bolsas! (PARA OS RAPAZES) Carteiras!

MICA PEGA A ASPIRINA E JOGA A BOLSA NA

JOGAM AS CARTEIRAS.

VOZ

“TRINTA SEGUNDOS! TRINTA SEGUNDOS! TRINTA SEGUNDOS!”

DRICA

(TAMPANDO OS OUVIDOS, RESPIRANDO MUITO MAL)

Não é assalto. É tortura. Eu não vou aguentar.

DIEGO

(PEGANDO A MÃO DELA, TENSO)

OS DOIS SE SENTAM.

ORELHA

TODOS SE SENTAM À ESPERA, OLHANDO

FIXAMENTE PARA A SUPOSTA CABINE DE LUZ

E SOM E TENTANDO APARENTAR A MAIOR

VOZ

“TEMPO ESGOTADO. ESTÃO PRONTOS?”

TODOS SE ENTREOLHAM SEM

SABER COMO AGIR.

VOZ

“ESTÃO PRONTOS OU NÃO?”

DIEGO

(COM MEDO DE FALAR)

Tá tudo aí.

VOZ

“TUDO O QUE, DIEGO?”

DIEGO

(CADA VEZ MAIS TEMEROSO, CONFUSO)

Como é que cê sabe meu nome?

VOZ

“O QUE VOCÊ QUER DIZER COM: ESTÁ TUDO AÍ ? ”

CAMILA

(SE ENCHENDO DE CORAGEM)

Quer dizer, que tudo que nós temos de valor tá aí. Nessa pilha. Tênis, celular, dinheiro,

VOZ

“ E PRA QUE EU IRIA QUERER ISSO, CAMILA?”

MARIA

(BAIXO)

Ele conhece a gente?!

ORELHA

(PERDENDO O CONTROLE, LEVANTANDO E AVANÇANDO, DEDO EM RISTE)

Óiquí, cara! Tô sabendo qualé a tua. Tô ligado. Se neguinho, ainda por cima, veio afins de

zoar com a cara da galera, certeza que num vou deixar, copiou, meu?

VOZ

“QUE LÍNGUA ELE FALA?! ALGUÉM PODE TRADUZIR?”

TIAGO E QUITO SEGURAM ORELHA TENTANDO

FAZER ELE SE ACALMAR. TEMPO.

MICA

(CAUTELOSAMENTE)

É que... nós já entendemos... é um assalto, não é?

VOZ

“ASSALTO?! (RI) NÃO. NÃO É UM ASSALTO.”

MICA

Não é?

VOZ

“RECOLHAM ESSAS COISAS.”

ELES HESITAM.

VOZ

“ANDEM. CALCEM OS TÊNIS, PEGUEM AS CARTEIRAS E OS CELULARES.

NÃO É UM ASSALTO, JÁ DISSE.”

MARIA

É o que, então?

VOZ

(SUBINDO O TOM)

“CHEGA DE PERGUNTAS! PEGUEM SUAS COISAS!”

AINDA TEMEROSOS E SEM ENTENDER, ELES

COMEÇAM A RECOLHER AS COISAS.

VITAMINA

(PARANDO, SE DIRIGINDO A VOZ, EXALTADO)

Só é assalto, cara. Primeiro cê corta a luz, faz sumir todo mundo, tranca a turma aqui dentro e fica fazendo guerrinha de nervos de: “vamos começar” sem dizer o que! Isso se chama assalto sim, cara. Pode olhar no dicionário: qualquer ataque violento e inesperado é assalto. Assalto psicológico. As palavras podem ter vários sentidos, cara. Copiou?

VOZ

(APLAUDE)

‘BRAVO, VITAMINA. GÊNIO, CARA! AS PALAVRAS PODEM TER, OU

ADQUIRIR, VÁRIOS SENTIDOS MESMO. POR ISSO SÃO PERIGOSAS. PENA

QUE NENHUM DE VOCÊS LEMBROU DISSO ANTES.

DRICA

(SEM AR, DESESPERADA, SE AJOELHANDO)

Por favor! Eu não sei que tipo de jogo é esse, mas eu não posso participar, entende? Eu tô

me sentindo muito mal. Eu não posso saber que tô trancada num lugar que a minha

garganta vai fechando e...

(TENTANDO TOMAR FÔLEGO, ASMÁTICA)

Eu faço o que você quiser, mas tem que ser rápido, eu preciso sair daqui, por favor.

ORELHA

Tá ligado que ela tá mal, cara ? Quebra essa, meu. Ela vaza e a galera fica aqui pagando o mico do teu joguinho. Deixa ela sair!

VOZ

“ DIGAMOS QUE SEJA MESMO UM JOGUINHO, TIPO “A PALAVRA É”. OU,

TIPO “VERDADE OU CONSEQUÊNCIA”.

A DRICA SAIR SÓ DEPENDE DE VOCÊS. ENTREM NO JOGO, E LOGO A

DRICA E TODOS VOCÊS SE VERÃO LIVRES DE MIM.”

AINDA DESCONFIADOS, TODOS SE

ENTREOLHAM CONCORDANDO.

TIAGO

Belê, então, né turma? Vai. Vamos lá! Pode começar.

TODOS SE SENTAM, DISPOSTOS A JOGAR.

VOZ

“ ENTÃO, A PALAVRA É: MALEDICÊNCIA!”

TODOS ATÔNITOS, SEM SABER O QUE FAZER.

VOZ

“E ENTÃO?”

BIA

É que a gente ainda não entendeu muito bem o jogo...

MARIA

É pra fazer o que com a palavra?

VOZ

“SE COLOCAR.”

VITAMINA

Como assim se colocar?! Definir?!

VOZ

“TAMBÉM. DIZ AÍ, VITAMINA. JÁ VI QUE VOCÊ É BOM NISSO.”

TODOS OLHAM VITAMINA, À ESPERA QUE ELE

OS SALVE.

VITAMINA

Maledicência é.... é... pô, essa é dificil! (PENSA) É assim: dizer mal de alguém...

MICA

É. É isso. É falar mal de alguém.

VITAMINA

No sentido de difamar uma pessoa...

ORELHA

Só é! Certeza. É fofocar! Espalhar um babado caô.

DRICA

(COM URGÊNCIA)

VOZ

“AGORA SE COLOQUEM.”

DIEGO

Como assim, se coloquem?!

MICA

Em relação a palavra...?

QUITO

Tô fora. Eu nem uso essa palavra.

BIA

Eu nunca falei isso na minha vida.

CAMILA

Nem eu.

MARIA

Também não.

ORELHA

Eu hem, turma? Palavrinha escrota essa. É até difícil de falar: ma-le-di-cên-cia! Porra!

VOZ

“O QUE ESTÁ EM JOGO NÃO É O USO DA PALAVRA.”

TIAGO

(INTRIGADO, TENTANDO ENTENDER)

É o que, então? Onde é cê quer chegar, cara?

VITAMINA

“À VERDADE.”

MICA

Que verdade?

BIA

Dá uma pista, por favor. Se não a gente não sai daqui hoje...

VOZ

(CORTA, SUBINDO O TOM)

“EU JÁ DEI UMA PISTA. A PALAVRA É A PISTA.

MARIA

Maledicência é a pista?

DRICA

(SEMPRE AFLITA)

Ai, pelo amor de deus! Fala qualquer coisa, gente! Faz alguma coisa, pelo amor de deus!

REAÇÃO MEIO ATARANTADA DE TODOS, SEM

SABER COMO AGIR.

VOZ

“JÁ QUE NENHUM DE VOCÊS PARECE DISPOSTO A SE COLOCAR, E NEM A

DIZER A VERDADE, VAMOS CONTINUAR. “VERDADE OU CONSEQUÊNCIA”,

LEMBRAM? A CONSEQUÊNCIA É OUTRA PALAVRA. E A PALAVRA É:

PRECONCEITO!”

DIEGO

(EXALTADO, DESCONTROLADO)

Oiquí, cara! Não tô entendendo que joguinho intelectual de merda é esse teu! E por que nós? Por que fazer esse tipo de joguinho com a gente? (AMEAÇANDO) Cê vai se fuder, viu cara? Vai pegar um processo ferrado! Se acontecer alguma coisa com a Drica a culpa é tua!

VOZ

“CULPA! GOSTEI. ESSA PALAVRA TAMBÉM ESTÁ EM JOGO.”

DIEGO

Ninguém aqui tem culpa de nada! Eu vou te processar, cara!!

VOZ

“ COMO? VOCÊ SABE QUEM EU SOU?”

DIEGO

Eu descubro!! Eu vou descobrir!

VOZ

“ÓTIMO. VAI SER BOM PRA VOCÊ, DESCOBRIR QUEM EU SOU, DIEGO. VOU

DAR MAIS UMA PISTA. EM CONSIDERAÇÃO A DRICA. NÃO POR MEDO

DAS TUAS AMEAÇAS. ATENÇÃO, TURMINHA, QUE ESSA É QUENTE!

TODOS ANSIOSOS À ESPERA DO QUE VIRÁ.

VOZ

“O NOME PRISCILA PORTO DIZ ALGUMA COISA A VOCÊS”?

TODOS SE OLHAM DISFARÇADA E

VOZ

“ E ENTÃO?”

TODOS BAIXAM A CABEÇA EVITANDO FALAR.

VOZ

“A DRICA NÃO VAI AGUENTAR MUITO TEMPO MAIS. ALGUM DE VOCÊS

CONHECE ALGUÉM CHAMADO PRISCILA PORTO?”

DRICA

(SEM AR)

Conhecemos sim ... Conhecemos!

MICA

(TENTANDO MINIMIZAR)

Mais ou menos.

DIEGO

Muito pouco.

BIA

A gente se cruza de vez em quando.

QUITO

Quer dizer, cruzava.

MARIA

Não é nossa amiga não. Só colega.

VITAMINA

É. Lá na “facul”.

CAMILA

Ela era da nossa turma, quer dizer, da nossa classe.

VOZ

“ERA?”

DIEGO

(SEM CORAGEM)

É. Era. Ela foi expulsa.

VOZ

“POR QUÊ?”

DRICA

(SEMPRE AFLITA)

Ai não, por favor. Não podemos perder tempo respondendo esse tipo de pergunta. Tá em todos os jornais, deu na televisão, tá na Internet...

VOZ

(SUBINDO O TOM)

“EU QUERO OUVIR DE VOCÊS!”

TIAGO

O que a gente sabe é o que tá na mídia.

CAMILA

É isso aí. Foi coisa lá da Reitoria. Decisão deles.

QUITO

Fizeram uma Sindicância. E decidiram expulsar.

VITAMINA

É. Chegaram à conclusão que o comportamento da garota “ofendia a decência, e a ética acadêmica” . Foi mais ou menos isso que eles disseram.

VOZ

“CHEGARAM À CONCLUSÃO A PARTIR DO QUE?”

ORELHA

(IMPACIENTE)

Da tal Sindicância. Se liga, cara.

VOZ

“E VOCÊS?”

MARIA

Nós?! Então. A nossa turma, aqui, também foi chamada a depor, o que eu achei uma

grande sacanagem.

MICA

Fizeram um montão de perguntas. Tipo Inquisição mesmo.

QUITO

É. Isso aí. Imprensaram a gente. Tipo ou falam ou vão se ferrar também.

DRICA

É. Tipo esse joguinho nojento... que você tá fazendo com a gente... agora.

VOZ

“E VOCÊS?”

QUITO

Nós?

OLHA OS OUTROS PROCURANDO APROVAÇÃO.

QUITO

Ah, a gente disse o que sabia.

TODOS CONCORDAM : Isso! Isso aí!

CAMILA

(TOMANDO CONSCIÊNCIA, NERVOSA)

É isso que você quer saber, não é? O que a gente disse. Entendi. Eu sei lá quem é você, e nem sei porque isso te interessa! Mas se é só isso que você quer saber, vamos lá! Jogo rápido, então, pra acabar logo com esta merda. Eu disse que soube que ela tinha dado pra vários professores. Pronto. Foi só isso que eu disse.

ORELHA

Só isso?! Porra, meu! Cê acabou com a mina!

QUITO

(SURPRESO)

Camila! Você disse isso?

CAMILA

(CHORANDO)

Conselho fazendo aquele montão de perguntas. Eu não sabia mais o que dizer. No começo, eu disse que não sabia de nada. Mas eles foram me pressionando e eu fiquei com medo. Não foi por maldade, Quito. Foi de nervoso. Eu fiquei nervosa . Então eu disse. (TENTANDO SE DESCULPAR) Mas eu disse também, que eu não tinha provas. Eu disse que soube...

TIAGO

Soube por quem?

CAMILA

Pela Bia.

BIA

(VERDADEIRA)

Por mim?! Mas eu nunca te disse isso. Nunca! O que eu disse foi que eu tinha ouvido um babado forte: que a garota tava dando mole pra um professor. Foi isso que eu te disse, e foi isso que eu disse lá na Sindicância também. Alguém comentou isso comigo. (TENTANDO LEMBRAR) Um dos garotos, acho. (LEMBRANDO) Foi você, Tiago!

TIAGO

(SE ALTERANDO)

Eu?! Qualé?! Não vem me acusando não. Eu não disse nada disso. Eu só te perguntei, se você tinha notado que ela dava umas olhadas sinistras pro professor! E você, como é uma jararaca e tem inveja da garota, porque ela é gostosa e fazia sucesso com a moçada, já aumentou o que eu disse.

BIA

(IDEM)

Eu sou jararaca? É você é o que? O gostoso da turma? Fica de pegação com a Maria, mas tá é afim de ficar com todas! Você reparou no jeito que ela olhava o professor, por que? Por ciúme, cara! Cê ficou bolado porque ela nunca te deu mole.

TIAGO

Cala essa boca! Cê num tá sabendo de nada, garota. Foi a Maria que chamou minha atenção pro jeito que ela olhava...

MARIA

(ENCIUMADA)

Cê tava afim de ficar com a garota, Tiago?

TIAGO

Eu, hem? Cê inda acredita no que a Bia diz?

MARIA

Até acredito, porque a coisa não foi assim como cê tá dizendo... O que eu te disse é que, já que ela não dava mole pra nenhum garoto da classe, devia estar querendo chamar a atenção de algum professor. Se não por que que ela se sentava daquele jeito?... mostrando as pernas, como disse a Mica.

MICA

(FLAGRADA)

Eu?! Eu disse isso? Pode até ser. Não lembro.

VITAMINA

Pô, Mica! Parei contigo. Puta preconceito! Logo você. Tão moderninha, toda intelectual, censurando as pernas da garota. Lindas, por sinal!

MICA

(EXALTADA)

Eu não censurei nada. Foi só um comentario. Um comentario bobo. Inconsequente. Idiota. Acho que foi falta de assunto. Só pra puxar conversa, sei lá. Mas vamos combinar? A a garota, incomodava a gente, não é não? Muito liberada, muito na dela, nem aí pra nós. Aí, todo mundo começou a olhar enviesado pra coitada e a comentar, e a Drica foi logo dizendo “que aquilo não era jeito de se vestir pra ir à facul” ; “que pelo jeito não eram só as pernas que ela queria mostrar não”...

DRICA

(SE ESFORÇANDO, SEM FÔLEGO)

“Que eu desconfiava... que ela nem usava calcinha”... Eu disse sim. Disse.. e me

MICA

(IRÔNICA)

Vacalinha?! Hum! Ele cria palavras. Não gosta de exibir cultura, mas gosta de criar

VITAMINA

(SEM GRAÇA, SE DESCULPANDO, COM VERGONHA DE FALAR)

É uma mistura de vaca com galinha. Foi só uma piadinha. Eu não perco essa mania de querer ser engraçado. Acho que é porque... eu acho que é isso que vocês esperam de mim, não é? Então, quando a Drica comentou que aquilo não era modo de se sentar numa sala de aula, que pelo jeito ela tava querendo mostrar as calcinhas, eu pra não perder a piada, sai com essa. Que aquilo era comportamento de ‘vacalinha”. Foi uma piada besta. Só que o Orelha achou muito engraçado e começou a espalhar.

ORELHA

Foi mal, gente, foi mal. Eu sei que foi mal. Mas cês sabem como eu sou. Eu sou fissurado numa giriazinha nova. Sou louco pra espalhar uma novidade. É o meu jeito de me enturmar, tá sabendo? De chamar atenção pra minha discreta e humilde pessoa, tá ligado? E também, eu achei, que até que “vacalinha” era um apelido suave pra mina, perto do que o Quito andava espalhando, diz aí Quito...

QUITO

Eu? Dizer o que? Eu não tenho nada pra dizer.

CAMILA

O que que cê andou espalhando, Quito?

QUITO

(PARTINDO PARA O ATAQUE, PARA SE DEFENDER)

Se eu disse alguma coisa foi porque eu ouvi de alguém. Não pus apelido nenhum na

garota! Qualé? Pegaram a mania da Camila agora? Eu sou culpado de tudo que dá errado? Já tô me sentindo culpado da gente ter caído nesta espelunca, agora vão querer jogar a culpa da garota ter sido expulsa pra cima de mim também? Nem vem, viu, Orelha? Que essa eu não vou deixar barato não!

ORELHA

(TENTANDO BAIXAR A BOLA)

Sem estresse, meurmão. Ninguém tá te culpando de nada. Todo mundo aqui já assumiu que fez cagada. Cê vai ter que assumir também. Sabe por que, meu? Porque eu vi. Eu te flagrei, de montão, dizendo pros manos lá da facul, que a mina nem merecia comentários, porque não passava de uma puta. E cê dizia isso muito claro, assim com toda as letras: Pu-ta!

CAMILA

Que baixaria, Quito. Precisava falar desse jeito?!

QUITO

(EXALTADO)

E você precisava ter dito que ela “dava pra vários professores?”

(SE REFERINDO A CADA UM)

E vocês? Precisavam criticar o jeito dela olhar, de se vestir, de sentar, de mostrar as pernas, de se comportar? Certeza que não. Eu também não precisava, mas eu disse. Um pouco pra ser legal com o Diego, que andava todo deprê, todo bolado, sei lá por que? Ele que veio com essa de que a mina era puta, e eu...

DIEGO

Puta não. Puta eu nunca disse. Eu disse: garota de programa.

QUITO

E não é a mesma coisa, cara? Garota de programa só é um jeito delicadinho de dizer puta. E eu saquei que cada vez que eu comentava isso com alguém, cê gostava, ficava até mais alegrinho, sorrindo, aí eu comecei a repetir até sem perceber, por vício, e quando alguém vinha me perguntar: “é verdade isso, cara? Cê tem certeza?” Eu dizia: “certeza, meu.”, porque não dava mais pra desmentir nem voltar atrás, porque a coisa já tinha se espalhado.

BIA

E você, Diego?

DIEGO

(CABISBAIXO, SEM CORAGEM DE ENCARAR)

Eu? Eu o que?

BIA

De onde você tirou essa de garota de programa?

DIEGO

(SEM LEVANTAR A CABEÇA, DEPOIS DE UM TEMPO)

Eu inventei.

BIA

(QUERENDO ENTENDER DE FATO)

Por que?!

DIEGO

(IDEM ANTERIOR)

Quem começou a falar mal da garota fui eu.

VITAMINA

Não. Peraí, Diego. Não é assim. Todo mundo, aqui, falou mais do devia.

DIEGO

(DESARMADO, EMOCIONADO)

Mas a garota não teria acabado expulsa, se eu não tivesse começado, né, cara? Ninguém nem tinha reparado muito nela... Eu é que desde o primeiro dia de aula me amarrei na mina. Fiz de tudo pra me chegar, mas ela nunca me deu mole. Me esnobava total. E quanto

mais ela me esnobava, mais amarradão eu ficava. Aí, um dia, tomei coragem e convidei ela pra balada. E ela disse na minha cara: “ Eu, hem? Balada, pegação, ficar? Com você? Tô fora !” Foi uma porrada. Doeu aqui. (GESTO) Me senti um merda, um lixo, passei uns dias totalmente deprê, foi aí que me veio essa ideia besta de espalhar um babado qualquer contra ela, só pra sacanear, pra ela perder um pouco daquela pose... Mas eu juro, que se eu soubesse onde iria dar...

ABAIXA A CABEÇA TENTANDO ESCONDER A

EMOÇÃO.

DIEGO

É! É isso aí, turma. A culpa é toda minha. Mas eu já resolvi. Eu vou à Reitoria, vou

TODOS TOCADOS PELA EMOÇÃO DELE E SUAS

PRÓPRIAS CULPAS.

VITAMINA

Eles podem até voltar atrás na expulsão. Mas o que o gente disse sobre a garota não dá mais pra apagar.

MICA

(SACANDO, QUASE PARA SI)

(EMPOLGADA)

Maravilha! Ganhamos, gente! Ganhamos!

TIAGO

Qualé, Mica? Pirou? Ganhamos o que?

MICA

O jogo, galerinha! Ganhamos o jogo! Chegamos onde ele queria.

BIA

Ele quem?!

MICA

O cara lá em cima.

ORELHA

Caraca! Eu já tinha deletado isso!

MARIA

(TENTANDO FALAR COM A VOZ)

Ei! Diz aí! Era isso?

DRICA

(ESPERANÇOSA)

Era isso, não era?

TIAGO

Responde, meu.

QUITO

Onde é que você se meteu, cara?

MICA

Chegamos, ou não chegamos, à verdade que você queria?

DRICA

Ai, meu deus!

MARIA

Ai, não! De novo não!

DRICA

(TOTALMENTE SEM AR)

Gente!... Gente!... Eu não... vou aguentar. Eu estou... completamente sem ar... Acho que eu vou desmaiar...

VOLTA A MESMA LUZ DO INÍCIO, AO MESMO

TEMPO EM QUE ENTRA A MÚSICA, RETOMADA

DO PONTO EM QUE HAVIA SIDO CORTADA.

TODOS OS JOVENS, O GARÇOM E A FAXINEIRA

REAPARECERAM NA MARCAÇÃO INICIAL.

DIEGO, DRICA, CAMILA, TIAGO, QUITO, MARIA,

MICA, BIA, ORELHA E VITAMINA NOS EXATOS

LUGARES EM QUE SE ENCONTRAVAM NO

MOMENTO DO BLECAUTE INICIAL.

DIEGO OBSERVA OS AMIGOS, OS OUTROS

JOVENS, O GARÇOM E A FAXINEIRA, SEM

ENTENDER NADA.

DIEGO

(CONFUSO, PARA O MESMO JOVEM DO INÍCIO)

E aí, meu? Onde é que cê tinha se metido?

JOVEM

Eu?? Como assim, cara?

DIEGO

Pra onde cês foram quando faltou luz?

JOVEM

Não sei do que cê tá falando, meu. Onde é que faltou luz?

DIEGO

JOVEM

(FALANDO ALTO)

Ah, qualé, mané? Tá querendo curtir com a minha cara?

DIEGO

(IDEM)

Eu?! Você é que tá afim de zoar com a minha. Custa responder? Ou é algum segredo de Estado, que o panaca, aqui, não pode saber?

A TURMA, SENTINDO O CLIMA, SE APROXIMA.

TIAGO

Tudo certo aí, Diego?

DIEGO

Médio. Tô só querendo saber como é que sumiu todo mundo, e o cara já se encrespou todo. Explica pra ele, Tiago.

DRICA

(FALANDO NORMALMENTE)

Explicar o que, Diego? Quando é que sumiu todo mundo?

DIEGO

(ESTRANHANDO)

Drica?! Cê tá bem?

DRICA

Tô ótima. Por que? Não devia?

DIEGO

A tua asma! Cê ficou tão mal. A gente trancado e aquele cara, aquela voz...

VITAMINA

Que voz, Diego?! Que papo doido é esse?!

DIEGO

Vão se fazer de manés também? A voz que surgiu do nada, depois que cortaram a luz e sumiu todo mundo...

ORELHA

O meurmão! Donde cê tirou essa? Eu que bebo e cê que fica de porre? Vem dançar, cara. Meia horinha só. Quinze pras cinco a gente vai vazar mesmo.

SEM ENTENDER O QUE SE PASSA COM DIEGO,

A TURMA VOLTA A DANÇAR, ACHANDO TUDO

MUITO ESTRANHO E ENGRAÇADO.

DIEGO

(PARA O JOVEM)

Na boa, só me explica uma coisa. Aquela hora eu te perguntei se eram quatro e quinze, aí apagou a luz...

JOVEM

Aquela hora, mano? Cê me perguntou isso inda agorinha.

DIEGO

Não, meu. Faz o mor tempão que eu te perguntei.

JOVEM

Tempão?! Pirou, esclerosou ou tá chapado? Cê acabou de me perguntar isso.

DIEGO

(COMEÇANDO A ACREDITAR)

Não. Não pode ser...

JOVEM

Só pode, ô vacilão.

(MOSTRANDO O RELÓGIO)

Olha aqui, cara! Copiou?

DIEGO OLHA O RELÓGIO DO JOVEM, QUE

RECOMEÇA A DANÇAR, E CONFERE COM O SEU.

NA PISTA TODOS CONTINUAM A DANÇAR

ANIMADAMENTE, ENQUANTO DIEGO

PERMANECE PARALISADO TENTANDO

A LUZ, SOBRE A PISTA, VAI CAINDO, FICANDO

ILUMINADA APENAS A CARA ATÔNITA DE

SAINDO EM RESISTÊNCIA E A MÚSICA VAI

SUMINDO ATÉ O

FIM

JANDIRA MARTINI - JANEIRO DE 2010

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