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Cimbelino Xxi: Um Ensaio / Marcos Barbosa

CIMBELINO XXI: UM ENSAIO

Marcos Barbosa

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do Projeto Conexões Teatro Jovem e fez parte do seu portfólio no ano de 2014. Qualquer montagem fora do Projeto deverá ser negociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos au www.marcosbarbosa.com.br

Personagens

Personagens

Cimbelino

Rei da Bretanha

Imogênia

filha de Cimbelino

Póstumo

marido de Imogênia

Clóten

enteado do Rei

Iachimo

um italiano

Diretor(a)

Atores/Atrizes

Esta peça contém uma peça. Em Cimbelino XXI: um ensaio, um grupo amador se reúne com o propósito de encenar Cimbelino, de William Shakespeare.

Quando se estiver representando, no texto, a peça de Shakespeare, serão empregados os nomes dos personagens de Cimbelino (Cimbelino, Póstumo, Iachimo etc.). Não se espera que esses personagens sejam sempre interpretados pelos mesmos atores, nem que apenas homens façam os papéis masculinos ou que apenas mulheres façam papéis femininos.

Quando se estiver representando, no texto, o grupo de teatro amador que ensaia

Cimbelino, surgirão o personagem Diretor(a), os personagens dos atores (muitas vezes sem designação individual, de modo que as falas podem ser distribuídas de modo diverso pelo elenco) e ainda o ator ou atriz que, naquele momento, esteja representando um dos personagens de Shakespeare (Ator/Atriz/Imogênia, Ator/Atriz/Clóten etc.).

O resultado disso tudo é um grande jogo de armar que cada grupo deverá montar do modo que lhe parecer mais conveniente.

Prólogo

Prólogo

Os atores –

Que as musas subam, feito fogo, ao céu

De imenso brilho da imaginação!

Agora o palco é o reino da Bretanha,

E Cimbelino é o rei estarrecido,

Já que a princesa, a jovem Imogênia,

Depois de desprezar o nobre Clóten,

Acaba de casar-se às escondidas

Com Póstumo, um rapaz de poucas posses.

Perdão, senhores, se esta humilde trupe,

História tão ousada vem contar

Em cena tão modesta. Acaso um palco

Pequeno como este abarca um reino?

Acaso poderemos neste chão

Fazer surgir a Itália ou a Inglaterra?

Verdade seja dita: mesmo o elenco

Mais reduzido pode se passar

Por multidão, contanto que vocês

Trabalhem com a imaginação.

Suponham, pois, que estamos no castelo

Em que se escondem Póstumo e Imogênia.

O rei, que declarou o banimento

Do ousado Póstumo, já vem cobrar

Que o moço vá-se embora para Roma.

E Clóten, jovem nobre desprezado,

Procura Póstumo para se vingar

Da pública e notória humilhação.

O amor dos jovens passará por provas

Que os levarão a extremos impensados,

Mesclando dor, ciúme e traição.

Veremos já, no espaço de uma hora,

Paixão, chantagens, fraudes e combates.

Aceitem-nos por coro nessa história,

Escutem com cuidado e pouca pressa

E julguem com carinho a nossa peça.

Diretor(a) (corrige) – “Peça!”

O elenco encara o diretor, sem entender muito bem o que signifi ca a correção.

Diretor(a) – Alguém aí falou “festa”, em vez de “peça”. O certo é “E julguem com carinho a nossa peça”.

– Como se fizesse muita diferença...

Diretor(a) – Claro que faz! Uma peça é uma peça e uma festa é uma festa.

– Ninguém vai entender nada mesmo, quanto mais reparar se a gente falou “festa” ou “peça”.

Diretor(a). Se vocês não estão entendendo nada, a culpa é de vocês. Mas a plateia,

ao contrário do elenco, não é burra.

– Ih...

– Pegou pesado...

Diretor(a) – O que tem aí para não entender? (explica) A filha do rei se casou em

segredo com um rapaz que não pertence à nobreza, desprezou um príncipe que

queria se casar com ela e aí o rei, indignado, mandou o tal do rapaz sair do reino.

– Então por que a gente não diz logo tudo assim?

Diretor(a) – Assim como?

– Desse jeito. (mostra como o coro deveria abrir o espetáculo) “A filha do rei casou com

um rapaz pobre, deu um pé na bunda do príncipe mauricinho e o pai dela resolveu

acabar a festa, quer dizer, resolveu começar a peça.”

– Eu gostei.

Diretor(a) – Vocês estão de piada comigo, né?

O elenco se entreolha.

Diretor(a) – Sabem há quanto tempo esta peça foi escrita? Mais de quatrocentos

anos! E sabe por que ela ainda interessa à gente? Porque em vez de jogar palavra

fora, do jeito que você fez, o autor cuidou do que ele escreveu.

– Mas dava para cuidar de um jeito mais fácil, né?

– Ô... Tudo pra você tem que ser fácil!

– E tudo pra você tem que ser difícil! Não já basta você ser difícil, não?

O elenco aparta o que poderia vir a se tornar uma briga.

Diretor(a) – Nem difícil, nem fácil. O que a gente quer, aqui, é encantar o coração

do público. E, às vezes, a estrada para o coração das pessoas é a mais comprida.

Essa é a hora em que a gente faz um acordo com quem veio assistir à peça e,

se a gente fizer esse acordo, de verdade, as pessoas vão entender. De novo, da

parte final, pode ser?

O elenco se reorganiza para apresentar o Prólogo.

Diretor(a) – Ok.

Os Atores –

Veremos já, no espaço de uma hora,

Paixão, chantagens, fraudes e combates.

Aceitem-nos por coro nessa história,

Escutem com cuidado e pouca pressa

E julguem com carinho a nossa peça.

– E aí?

Diretor(a) – Bem melhor. Se continuar assim, pode até ser que a “peça” vire mesmo

uma “festa”.

O elenco se parabeniza.

Diretor(a) – Cena 1!

O elenco se organiza para a Cena 1.

1. Quarto de Imogênia, no castelo do Rei Cimbelino.

Na cama, Póstumo canta para Imogênia, que ainda dorme.

Póstumo –

Raiou

No céu, cantou o sabiá

E o sol já levantou.

Seu cavalinho foi provar

Do cálice da flor.

As margaridas abrem já

Seus olhos de ouro em pó.

O mundo é belo a te chamar:

Acorda, meu amor!

Acorda, amor!

Imogênia desperta e sorri para Póstumo.

Póstumo –

Ainda que esse nosso adeus durasse

Até o fim da vida que nos resta

A dor de te deixar só cresceria.

Póstumo beija Imogênia e se prepara para sair.

Imogênia –

Não vai, espera só mais um pouquinho.

Ainda que você fosse a passeio,

Seria muito curto o nosso adeus.

Imogênia oferece um anel a Póstumo.

Imogênia –

O diamante foi da minha mãe

E é seu até que de outra se enamore,

Quando eu morrer.

Póstumo –

Mas, como assim, de outra?

Que os deuses só me entreguem a você.

Que às outras eles vedem meus abraços

Com a própria morte!

Póstumo põe o anel no dedo e o observa, encantado.

Póstumo –

Vai ficar comigo,

Enquanto a mão for viva.

Imogênia e Póstumo se beijam.

Póstumo –

E, assim como você saiu perdendo

Na troca, ao me aceitar, também agora

Sou eu quem ganha: use isso por mim,

É a algema de um amor, que na mais linda

Prisioneira eu ponho.

Póstumo põe o bracelete em Imogênia. Os dois beijam-se. Entra Cimbelino.

Imogênia e Póstumo se assustam, ela se interpõe entre Póstumo e o pai.

Cimbelino –

Seu vagabundo! Some já daqui!

Se eu outra vez te pego a emporcalhar

Meu reino assim, te mato! Fora,

Veneno do meu sangue!

Imogênia –

Meu pai, não vá

Fazer, na raiva, um mal a si.

Cimbelino –

Sua desleal!

Em vez de me alegrar, me faz

Mais velho um ano.

Juntou-se a um mendigo e pôs meu nome

Na lama podre.

Imogênia –

Não! Acrescentei

Mais brilho ao seu nome.

Cimbelino –

Estúpida!

Imogênia –

É culpa sua, se hoje eu amo Póstumo.

Crescemos juntos e ele é um homem digno

De quem se amar e, por estar comigo,

Bem caro paga.

Cimbelino –

O quê?

Perdeu o juízo?

Póstumo –

Meu senhor,

Eu vou embora hoje...

Cimbelino vai retrucar, mas é antecedido por Clóten, que entra e,

num rompante, ataca Póstumo com violência.

Clóten –

Cachorro filho da puta!

Clóten e Póstumo brigam. Imogênia faz menção de ajudar Póstumo,

mas Cimbelino a impede, segurando-a. Póstumo é claramente

mais forte e domina Clóten, no chão.

Póstumo vai acertar um soco em Clóten, mas

Imogênia solta-se de Cimbelino e consegue deter Póstumo a tempo.

Imogênia –

Chega! Chega!

Cimbelino puxa Imogênia para longe de Póstumo, ela tenta se soltar do pai, mas

Cimbelino a contém. Póstumo deixa Clóten no chão e faz sinal para que Imogênia se

Póstumo –

Que os deuses te protejam!

Eu vou embora.

Póstumo olha para Imogênia, beija o anel e sai. Imogênia cai de joelhos.

Imogênia –

Ah, Deus!

Quando ele vai voltar?

Nem mesmo a morte deve ter

Pontada tão doída.

Cimbelino –

Menina tola!

Sai Cimbelino, levando consigo Imogênia. Ator/Atriz/Clóten interrompe o ensaio.

Ator/Atriz/Clóten – Diretor?

Diretor(a) – Que foi?

Ator/Atriz/Clóten – Uma dúvida: no dia da peça eu vou dizer mesmo aquilo?

Diretor(a) – Aquilo o quê?

Ator/Atriz/Clóten está um pouco sem jeito para responder.

Diretor(a) – Desembucha!

Ator/Atriz/Clóten vai até Diretor(a) e fala ao ouvido.

Diretor(a) – “Cachorro filho da puta?” É claro que vai!

Ator/Atriz/Clóten – Mas não era para ser Shakespeare?

Diretor(a) – Mas é Shakespeare?

Ator/Atriz/Clóten – Shakespeare mesmo, de verdade?

Diretor(a) – De verdade, claro!

– Estou começando a gostar mais do cara.

– Eu também.

– Fala sério. Uma fala dessa aí até eu escrevo.

– Vou catar uma foto dele e postar assim no Face: “Cachorro filho da puta!” Assinado:

William Shakespeare.

O elenco ri.

Diretor(a) – Com tanta coisa importante que Shakespeare escreveu na vida você

vai escolher logo isso pra postar no Face?

– Não gostou? Reclama com Shakespeare!

O elenco ri.

Diretor(a) – Eu vou te dar outra sugestão.

– Ih, lá vem...

– Tá. Qual é a sugestão?

Diretor(a) – “É na cega estupidez dos tolos que se afia a razão dos sábios!” Assinado:

William Shakespeare.

O elenco ri mais ainda. O Ator/Atriz, ofendido, ainda pensa em retrucar,

mas o(a) Diretor(a) toca o ensaio.

Diretor(a) – Cena do bar!

– Quem vai fazer o Póstumo nessa cena?

– Posso fazer?

Diretor(a) – Pode, mas vê se não fica tirando sarro do personagem. Ele está meio

bêbado, não é caindo de bêbado.

– Pode deixar.

– Eu faço o Iachimo, então!

Diretor(a) – Tá, mas vê se não fica forçando a barra no sotaque de italiano.

– O cara é italiano!

Diretor(a) – Nem começa! Cena dois!

O elenco se prepara para a cena 2.

2. Um bar, na Itália.

Entram Iachimo e Póstumo, que está um tanto embriagado. Iachimo parece estar

arrastando Póstumo para longe de alguma briga.

Iachimo –

Ainda bem que eu apartei você daquele italiano. Ia ser uma pena vocês se juntarem

com um propósito tão mortal por conta de uma coisa assim, banal, sem importância.

Póstumo –

Perdão, meu caro, mas minha questão não era em nada tão banal assim.

Iachimo –

Jurar e defender com o próprio sangue

Que essa Imogênia é mais virtuosa e bela

E sábia e mais constante e menos dada

Que a dama mais preciosa que tivermos...

Não creio que a prefira às italianas.

Ou essa dama já não vive mais

Ou sua opinião já está bem gasta.

Póstumo –

Ela é a melhor. Mantenho o juramento.

Iachimo aponta o diamante na mão de Póstumo.

Iachimo –

Se perto de outras que eu conheço ela brilhasse mais que esse diamante, que supera

tudo que já vi, eu não duvidaria do que diz. Mas nunca vi diamante mais precioso,

nem você mulher tão rara.

Póstumo –

Ela vale cada elogio, assim como esta pedra.

Iachimo examina o diamante no anel de Póstumo.

Iachimo –

E quanto será isso?

Póstumo –

Mais até que o mundo inteiro.

Iachimo –

Ou já morreu essa mulher fantástica ou o preço dela está um pouco alto.

Póstumo –

Engano seu.

Indica o diamante.

Póstumo –

Esta pode ser vendida, ou mesmo dada, se houver dinheiro suficiente para a compra

ou mérito para o presente. A outra não é uma coisa, para que se venda, e só os

deuses podem dar de presente.

Iachimo –

Talvez ela seja sua, no papel. Mas, sabe como é, às vezes o passarinho bebe água

no vizinho e um anel assim também pode ser roubado.

Póstumo –

Sua Itália não tem um único sedutor capaz de dobrar a honra da minha mulher.

Ladrões vocês devem ter bastante, não duvido, mas por este anel eu nada temo.

Iachimo –

Meu caro, com toda sinceridade... Umas cinco conversas dessas e eu teria sua linda

esposa, se eu tivesse a chance de chegar a ela como amigo.

Póstumo segura Iachimo pela camisa. Iachimo não se deixa abalar.

Iachimo –

E ouso apostar metade das minhas posses contra esse anel. Faço isso mais para

disputar com sua arrogância que contra a honra dela.

Póstumo larga Iachimo. Iachimo, sem perder a compostura, conserta a roupa.

Póstumo –

Na sua imensa presunção você se engana. E estou bem certo de que, se tentasse

fazer isso, encontraria o merecido.

Iachimo –

E o que seria isso?

Póstumo –

A repulsa dela, embora, pela simples tentativa, você merecesse ainda uma punição.

Iachimo –

Dez mil ducados contra o seu anel, que, se eu chegar até a sua dama, com nada

além do que a chance de um segundo encontro, eu trago dela a honra que você

supõe tão rara.

Póstumo hesita.

Póstumo –

Aposto apenas ouro contra ouro. O anel me vale tanto quanto o dedo, do qual até

faz parte.

Iachimo –

É sábio, de sua parte, estar com medo...

Iachimo ri da hesitação de Póstumo. Póstumo, fi nalmente, cede.

Póstumo –

Empresto o diamante até sua volta.

A minha dama excede, na bondade,

a imensidão da sua mente imunda.

Eu o desafio à aposta. Eis o anel.

Póstumo entrega o anel a Iachimo, que admira a beleza do diamante.

Iachimo –

Se eu não trouxer de volta uma prova clara de que me servi da melhor parte dessa

sua dama, são seus os meus dez mil ducados e o diamante. Se eu for embora,

deixando-a honrada como você crê que ela seja; a joia dela, a sua joia e o ouro em

minha posse, tudo é seu.

Póstumo –

Se você for até onde ela está e der, de modo claro, a entender que a conquistou,

já não sou mais seu inimigo e ela não merece a nossa rixa. Mas, se ela não ceder à

sedução, e se você não der prova do contrário, por sua mente suja e pelo ataque

feito à honra dela, você terá de responder com sua espada.

Iachimo estende a mão para Póstumo.

Ator/Atriz/Póstumo hesita.

Diretor(a) – Aconteceu alguma coisa?

Ator/Atriz/Iachimo faz sinal para que Ator/Atriz/Póstumo

sele o pacto com um aperto de mão.

Ator/Atriz/Póstumo – Não vou dar a mão.

Ator/Atriz/Iachimo – Minha mão tá suja?

Ator/Atriz/Póstumo – Não. Mas é que não faz sentido.

Diretor(a) – Não faz sentido o quê?

Ator/Atriz/Póstumo – Póstumo não ia fazer uma aposta maluca dessa. Já pensou?

Correr o risco de tomar corno e ainda ajudar o cara que vai pegar a mulher dele?

Diretor(a) – Mas ele tem certeza de que não vai tomar corno.

Ator/Atriz/Póstumo – E por isso vai jogar a mulher dele na fogueira?

Diretor(a) – Vai.

Ator/Atriz/Póstumo – Não faz nenhum sentido.

– Concordo!

Diretor(a) – Póstumo está apaixonado e longe da mulher que é a vida dele.

Ator/Atriz/Póstumo – E daí?

Diretor(a) – Você já se apaixonou?

Pequena pausa. Ator/Atriz/Póstumo faz que sim.

Diretor(a) – Paixão mesmo? De verdade? De doer?

Pequena pausa. Ator/Atriz/Póstumo faz que sim.

Diretor(a) – E quando você estava apaixonado(a), nunca fez merda? Merda grande,

dessas que depois você pede a Deus pra voltar no tempo e consertar?

Diretor(a) – Agora imagina passar por isso com a(o) sua(seu) namorada(o) noutro

país e você sem pai, sem mãe e sem nenhum amigo pra te dar ombro?

Diretor(a) – Entendeu, agora?

Ator/Atriz/Póstumo volta ao papel, agora com imensa convicção.

Póstumo –

Se você for até onde ela está e der, de modo claro, a entender que a conquistou,

já não sou mais seu inimigo e ela não merece a nossa rixa. Mas, se ela não ceder à

sedução, e se você não der prova do contrário, por sua mente suja e pelo ataque

feito à honra dela, você terá de responder com sua espada.

Iachimo estende a mão para Póstumo. Póstumo sela o acordo com um aperto de mão.

Diretor(a) – Muito bom!

Ator/Atriz/Póstumo – Odeio Shakespeare!

Risada geral.

O elenco se prepara para a cena 3.

3. No castelo do Rei Cimbelino.

Imogênia lê, sozinha. Iachimo aproxima-se e a observa à distância.

Iachimo vai até Imogênia.

Iachimo –

Imogênia assusta-se, mas Iachimo a tranquiliza e apresenta-lhe uma carta.

Imogênia observa a carta e seu semblante enche-se de felicidade.

Imogênia –

O cavalheiro vem de Roma,

Com carta do meu amor.

Iachimo –

O nobre Póstumo está bem seguro

E envia saudações.

Imogênia –

Sou muito grata.

E estou às ordens,

No que eu puder fazer.

Iachimo –

Eu agradeço.

Iachimo encara Imogênia.

Imogênia –

Por que a admiração?

Iachimo –

É louco o homem? Deus lhe deu dois olhos

Para enxergar o céu e as maravilhas

De terra e mar e distinguir estrelas

No firmamento e seixos semelhantes

Na imensidão da praia e não podemos,

Com lentes tão sublimes, distinguir

Do puro o podre?

32 Marcos Barbosa

Imogênia –

Mas, como assim, senhor?

Meu amor passa bem?

Acaso está doente?

Iachimo –

Está perfeito.

Imogênia –

E tem mantido um bom humor, espero?

Iachimo –

Alegre o tempo todo. É o estrangeiro

Que mais faz festa. E agora já o chamam

De “o inglês farrista”!

Imogênia estranha o comentário, Iachimo fi nge não perceber.

Imogênia –

Quando estava aqui

Tendia a ser mais triste e, muitas vezes,

Sem causa alguma.

Iachimo –

Triste, eu nunca o vi.

Imogênia –

Então lhe peço

Que seja mais direto em responder

Ao que eu pergunto. Pois, decerto sabe

Alguma coisa que concerne a mim.

Iachimo toma as mãos de Imogênia nas suas.

Iachimo –

Ah, minha cara! Dói meu coração

Ao ver tão linda dama, cujo reino

Supera os reinos dos maiores reis,

Se ver trocada assim, por prostitutas

Que Póstumo contrata com seu ouro!

Imogênia –

Não diga mais nada.

Imogênia tenta se controlar, mas não consegue prender as lágrimas.

Iachimo se aproxima de Imogênia, oferece-lhe um lenço, ela aceita. Quando encontra

espaço, Iachimo oferece seu ombro para que Imogênia repouse a cabeça.

Iachimo –

Se fosse meu seu rosto, pra banhar

Meus lábios, fossem minhas suas mãos,

Que a cada toque obrigam-me a jurar

Fidelidade, e que mantêm parados

Aqui meus olhos, fixos, eu seria

Amaldiçoado se me emporcalhasse

Em lábios mais pisados que os degraus

Da escada que conduz ao Capitólio.

Iachimo olha Imogênia nos olhos.

Iachimo –

Se vingue!

Imogênia –

Vingança?

Vingança como? Se isso for verdade,

O que eu faria para me vingar?

Iachimo –

Eu me ofereço para o seu prazer.

Imogênia assusta-se e se afasta de Iachimo.

Iachimo continua a se aproximar de Imogênia.

Iachimo –

Eu sirvo muito mais pra sua cama

Que aquele renegado e vou te amar

Com toda discrição.

Imogênia –

O quê?

Iachimo –

Deixa eu cuidar um pouco dos seus lábios.

Iachimo tenta beijar Imogênia. Imogênia empurra Iachimo.

Imogênia –

Sai já daqui! Malditos meus ouvidos,

Que te escutaram tanto! Não foi honra

Que fez você contar a sua história.

O que você procura é baixaria.

Difama um homem bom, que não tem nada

A ver com o seu relato e se insinua

A uma mulher que sente por você

Desprezo, como sente pelo diabo!

Meu pai, o rei, há de ser informado

Do seu ataque.

Iachimo não se abala com a fala de Imogênia e, subitamente, muda de tom.

Iachimo –

De coração, eu peço mil desculpas.

Princesa, eu fui ousado ao relatar

Notícias falsas, mas com isso eu pude

Honrar e confirmar a sua escolha

De esposo tão perfeito. Eu só falei

Aquilo porque gosto muito dele.

E precisava de uma prova clara

De que era firme a sua confiança.

Imogênia hesita, Iachimo ajoelha-se diante dela.

Iachimo –

Eu peço o seu perdão

Imogênia –

Está desculpado... Passar bem, senhor.

Imogênia sai. Iachimo fala à plateia.

Iachimo –

Por fora, tudo nela é um tesouro!

E, dentro, a alma sendo assim tão rara,

É mesmo a própria Fênix e eu perdi

A aposta. Que a bravura me acompanhe!

Armado estou, de audácia, até os dentes!

Ator/Atriz/Iachimo – (para Diretor(a)) E aí?

Diretor(a) – E aí o que?

Ator/Atriz/Iachimo – Legal?

Diretor(a) – Se eu não disser nada é porque passa! Não é pra parar! Vamos logo,

que senão isso não termina nunca!

– (baixinho) Cachorro filho da puta...

Diretor(a) – Eu ouvi!

O elenco se prepara para a cena 4.

4. No castelo do Rei Cimbelino.

Clóten dedilha um violão. Entra Imogênia, que vai passar por ele sem cumprimentar,

mas Clóten se interpõe no caminho dela e ela para, a contragosto, para ouvi-lo.

Clóten canta, muito desafi nado.

Póstumo –

Raiou

No céu, cantou o sabiá

E o sol já levantou.

Seu cavalinho foi provar

Do cálice da flor.

As margaridas abrem já

Seus olhos de ouro em pó.

O mundo é belo a te chamar:

Acorda, meu amor!

Acorda, amor!

Imogênia prende o riso, mas Clóten, sem perceber a situação,

põe o violão de lado e tenta se aproximar de Imogênia.

Clóten –

A sorte e a honra dele terminaram.

Não pode regressar e não suporta

Ficar lá onde está. Qualquer mudança

Só troca uma miséria pela outra.

Por que ficar do lado de um vencido?

Imogênia –

Está desperdiçando o seu esforço,

Comprando nada além de confusão.

Clóten –

Escuta aqui: eu juro que te amo.

Imogênia encara Clóten com desprezo e vai sair, mas ele a detém.

Clóten –

Isso é resposta?

Imogênia tenta se desvencilhar, Clóten a detém.

Imogênia –

Eu vou lhe responder com grosseria

A cada galanteio que fizer.

Aprenda a conhecer o seu lugar!

Imogênia tenta outra vez se desvencilhar, Clóten a detém.

Clóten –

Você não vai embora feito louca.

Imogênia –

Um imbecil não cuida de uma louca.

Clóten –

O imbecil sou eu?

Imogênia –

Se eu for a louca.

Me largue, e aí eu deixo de ser louca

E os dois estão curados.

Clóten solta Imogênia.

Imogênia –

Me desculpe...

Você me fez perder os meus bons modos.

Clóten –

Seu pacto com aquele vagabundo

Que só vivia aqui por caridade

E esmola, não tem mais valor nenhum.

Imogênia –

Você não serve nem

Pra escravo dele!

Clóten –

Eu quero que ele morra!

Clóten empurra Imogênia, que cai.

Diretor(a) – Ei, pera lá! Não precisa fazer isso com tanta força!

Ator/Atriz/Clóten – Desculpe.

Ator/Atriz/Imogênia – Por mim, tudo bem.

Diretor(a) – Tudo bem nada, que isso aqui não é MMA!

Ator/Atriz/Imogênia – Ele perdeu a cabeça junto com o personagem. Ninguém

se machucou. Um empurrão assim não é nada. É mais honesto do que bullying

de rede social. Aqui é por uma causa boa. Você precisa ver o que eu aguento de

pancada na net, porque decidi entrar pro grupo de teatro. Ali, sim, é que a galera

entra pra machucar de verdade.

– E às vezes consegue.

– Porque tem covarde pra tudo.

Ator/Atriz/Imogênia (para Ator/Atriz/Clóten) – Vai, pode fazer de novo.

Ator/Atriz/Clóten olha para o diretor.

Diretor(a) – Se ninguém vai se machucar e se tá todo mundo de acordo...

Ator/Atriz/Imogênia (para Ator/Atriz/Clóten) – Vai!

Imogênia –

Você não serve nem

Pra escravo dele!

Clóten –

Eu quero que ele morra!

Clóten empurra Imogênia, que cai. Clóten, recuperado da explosão,

vai ajudar Imogênia a se levantar, mas ela recusa a ajuda.

Imogênia –

Já basta que ele saiba que você

Sequer ousou falar o nome dele.

Respeito mais a roupa que ele veste,

A roupa mais surrada que ele veste,

Do que eu jamais respeitarei você.

Clóten –

A roupa? Mas que diabo!

A roupa dele?

Você me ofendeu!

A roupa mais surrada dele?

Imogênia –

Sim!

Eu trago testemunhas, se quiser.

Clóten –

Vou contar ao seu pai.

Imogênia –

Conte também à sua mãe!

Imogênia sai.

Clóten –

Eu hei de me vingar!

A roupa mais surrada dele? Ela vai ver...

Apenas o elenco masculino se prepara para a cena 5.

Diretor(a) – Agora é a 5, pessoal.

– A gente ainda não decidiu quem vai fazer.

Diretor(a) – Tá. Quem gostaria de fazer o Iachimo?

Todos os homens do elenco levantam a mão. O(a) Diretor(a) escolhe um.

Diretor(a) – Faz você!

Ator/Iachimo – Yes!

Outro ator – Manda ver!

Ator/Iachimo – Deixa comigo... (para o(a) Diretor(a)) Posso escolher a Imogênia?

Diretor(a) – Até parece! Quem gostaria de fazer a Imogênia?

Ninguém se voluntaria.

Ator/Iachimo – E agora, posso escolher?

Diretor(a) – Ah, qual é, pessoal! De novo isso? Quem vai fazer a Imogênia?

Uma atriz – Acho que um dos meninos devia fazer.

Um ator – Até parece...

Diretor(a) – (diz o nome de uma das atrizes), você pode fazer?

– Por que eu?

Diretor(a) – Porque você faria bem.

Algum ator – E como!

Os meninos riem.

Diretor(a) – Ô, parece criança! Vai lá, (diz o nome da atriz), mostra para eles que

teatro é teatro!

Os atores se preparam para a cena 5.

5. Quarto de Imogênia, no castelo do Rei Cimbelino.

Imogênia dorme profundamente. Entra Iachimo, sem ser notado.

Iachimo –

É linda como um lírio, em meio à cama.

Mais alva que os lençóis! Ah, um só toque

Ou um beijo nesses lábios de rubi!

O quarto é perfumado por seu hálito.

A luz da vela busca os olhos dela

E quer erguer-lhe as pálpebras pra ver

O brilho que se esconde sob a tela

Dessas janelas de lilás e branco,

Rendadas com o azul do próprio céu.

Algumas notas sobre o corpo dela

Irão enlouquecer o seu marido.

Com muito cuidado, Iachimo vai erguer parte da blusa de Imogênia,

mas a Atriz/Imogênia não deixa.

Iachimo tenta, outra vez, erguer parte da blusa de Imogênia,

mas a Atriz/Imogênia não deixa.

Ator/Iachimo – Aí não tem cena! Ela não deixa eu mexer na blusa!

Atriz/Imogênia – Claro!

Diretor(a) – Mas aí não tem peça!

Atriz/Imogênia – Dá um jeito!

Diretor(a) – Um jeito como? Iachimo descobre uma marca no seio de Imogênia,

que está dormindo, conta para Póstumo que viu o sinal em forma de flor, e aí

Póstumo fica louco de ciúme e resolve matar Imogênia. Se Iachimo não descobrir

o sinal, a peça acaba aqui.

Atriz/Imogênia – Tá, mas eu não vou deixar ele abrir minha blusa na frente de

todo mundo!

Diretor(a) – Mas, se o problema é esse, você fica de costas para todo mundo e de

frente só para ele.

Ator/Iachimo – Eu até prefiro!

O elenco masculino ri.

Atriz/Imogênia – Nem sonhando!

Diretor(a) – Então ele não abre a blusa, só faz de conta.

Atriz/Imogênia – Nem assim! Vai ficar todo mundo me zoando e é capaz do meu

pai me tirar do grupo de teatro!

Diretor(a) – Mas, meu Deus do céu, será assim tão complicado? Eu garanto que

Shakespeare não teve esse problema, e olha que ele fez essa peça no século XVII!

– É, mas quando ele fez a peça não tinha mulher em cena.

– Não?

– Não.

– Como assim?

– Só tinha ator homem, na Inglaterra.

– Que desperdício...

– Pra você ver.

Diretor(a) – Bem lembrado. Um ator homem para fazer Imogênia!

O elenco masculino reage indignado.

Diretor(a) (diz um nome) –, pode ser?

– Por que eu?

Diretor(a) – Porque você faria bem.

Algum ator – E como!

Todos riem.

Diretor(a) (diz o nome do ator) –, vai lá e... (o elenco inteiro completa a fala junto com

o diretor) “mostra para eles que teatro é teatro”!

Todos riem, menos o ator que fará Imogênia.

Ator/Iachimo – Eu continuo no Iachimo?

Atriz/Imogênia – Não, eu quero fazer. Posso?

Diretor(a) – Como assim?

Atriz/Imogênia – Eu queria ver como é estar do outro lado.

Diretor(a) – Sério?

Atriz/Imogênia faz que sim.

Diretor(a) – Está bem, então? Vamos lá?

Os atores se preparam para recomeçar a cena 5,

com o Ator/Imogênia deitado de frente para a plateia.

Atriz/Iachimo – É melhor você ficar de costas para eles e de frente para mim.

Ator/Imogênia – Mas eu não tenho nenhum problema se eles virem no meu “seio

esquerdo, a marca de um botão de flor, qual cinco gotas de carmim.” Ao contrário

da senhorita, eu sou um ator.

– Boa!

O elenco masculino aplaude. Atriz/Imogênia encara o diretor.

Diretor(a) – Achei que a gente já tivesse passado dessa fase, pessoal! (diz o nome do

ator), fica de costas pra gente e toca o bonde, pelo amor de Shakespeare. Vamos

logo, que era para ser uma cena de passagem!

Os atores se preparam para recomeçar a cena 5,

com o Ator/Imogênia deitado de costas para a plateia.

Imogênia dorme profundamente. Entra Iachimo, sem ser notado.

Iachimo –

É linda como um lírio, em meio à cama.

Mais alva que os lençóis! Ah, um só toque

Ou um beijo nesses lábios de rubi!

O quarto é perfumado por seu hálito.

A luz da vela busca os olhos dela

E quer erguer-lhe as pálpebras pra ver

O brilho que se esconde sob a tela

Dessas janelas de lilás e branco,

Rendadas com o azul do próprio céu.

Algumas notas sobre o corpo dela

Irão enlouquecer o seu marido.

Em vez de se aproximar da blusa do Ator/Imogênia,

a Atriz/Iachimo dá a volta por trás e se aproxima das calças do Ator/Imogênia.

Iachimo –

Na bunda esquerda, a marca de um botão

De flor, qual cinco gotas de carmim.

O Ator/Imogênia levanta num salto.

Ator/Imogênia – Ô, pirou de vez, sua maluca?

Atriz/Iachimo – Que foi?

Ator/Imogênia – Vai mostrar minha bunda pra plateia?

Atriz/Iachimo – Ah, desculpa, pensei que ao contrário de mim você fosse ator!

O elenco ri.

Diretor(a) – Parou!

Diretor(a) entra em cena.

Diretor(a) – Essa cena é para ter quatro minutos! No máximo! Será possível?

– Do jeito que está, eu não faço.

– Do jeito que ela quer, ninguém faz!

Diretor(a) – Chega!

Silêncio.

Diretor(a) – Alguém tem alguma ideia?

Silêncio.

Diretor(a) – Cancela o espetáculo, então?

Um ator levanta o braço.

Diretor(a) – Sério?

O ator faz que sim.

Diretor(a) – Não tá de sacanagem, né?

O ator faz que não.

Diretor(a) – Então vai lá.

Diretor(a) deixa a cena.

Novo Ator/Iachimo (para Atriz/Imogênia) – Vamos lá?

Atriz/Imogênia – Qual é a ideia?

Novo Ator/Iachimo – Relaxa... Vou pular direto para a parte do bracelete e depois

eu dou um jeito, fica tranquila.

Atriz/Imogênia – Olha lá, heim?

Novo Ator/Iachimo – Pode confiar.

Os atores se reposicionam para dar continuidade à cena 5.

Iachimo –

E quer erguer-lhe as pálpebras pra ver

O brilho que se esconde sob a tela

Dessas janelas de lilás e branco,

Rendadas com o azul do próprio céu.

Iachimo, com extremo cuidado, retira o bracelete de Imogênia e o põe no próprio braço.

Iachimo –

É meu e servirá de testemunha.

Iachimo abre a camisa, fi ca próximo a Imogênia,

retira um telefone celular do bolso e se prepara para fazer uma foto.

Iachimo –

Com prova tão secreta, vai pensar

Que abri de fato a tranca e que roubei

A honra que ela tinha por tesouro...

Um, dois, três, e já!

Iachimo faz a foto e sorri.

Novo Ator/Iachimo – E aí?

O elenco inteiro aplaude.

– Mandou bem!

– Agora sim!

– Isso sim que é prova falsa.

– Um selfie desse caindo na net acaba com a honra de qualquer uma.

– Faz muito mais sentido, né?

Novo Ator/Iachimo (para Diretor(a)) – Gostou?

Diretor(a) – O problema não é um selfie aparecer para resolver uma cena de uma

peça do século XVII... O problema é ver que, para muita coisa, a gente hoje em

dia está cinco séculos mais tapado que na época de Shakespeare...

Silêncio.

Diretor(a) – Mas isso a gente não vai mudar nesse ensaio, né? Cena 6, vamos lá.

O elenco se prepara para a cena 6.

6. Um bar, na Itália.

Iachimo põe o anel em cima da mesa.

Póstumo –

A pedra ainda brilha como antes,

Ou já não serve mais para você?

Iachimo –

Se eu perdesse essa aposta eu perderia

A pedra e todo o ouro que ela vale.

Mas eu faria o dobro do caminho

Por outra noite doce, como aquela,

Que eu tive na Bretanha. O anel é meu.

Iachimo vai pegar o anel, mas Póstumo o detém.

Póstumo –

A pedra é muito rara.

Iachimo –

Nem um pouco.

A sua esposa sendo assim tão fácil.

Iachimo volta a tentar pegar o anel, mas Póstumo outra vez o detém.

Póstumo –

Não faça da derrota uma piada.

Agora já não somos mais amigos.

Iachimo –

Sim, somos, se você tiver palavra.

Eu conheci de perto a sua esposa

E não estenderei essa conversa

Pois posso lhe afirmar que conquistei

A honra dela e, assim, o anel é meu.

E nisso não fiz mal, pois só cumpri

Seu gosto e o gosto dela.

Póstumo –

Se houver prova

De que vocês dois foram para a cama,

São seus o anel e ainda a minha mão.

Se não, me pagará com sua espada

Por sua boca suja.

Iachimo –

Já que insiste…

Iachimo mostra a Póstumo o bracelete de Imogênia.

Iachimo –

Não vá perder a cor! Olha esta joia.

Você bem sabe que ela faz um par

Com o diamante. E eu vou ficar com os dois.

Iachimo guarda o bracelete.

Póstumo –

Eu quero ver de novo. É mesmo a joia

Que um dia eu dei a ela?

Iachimo entrega o bracelete a Póstumo e deixa que ele a examine.

Póstumo, ansioso, fala consigo.

Póstumo –

É como uma serpente nos meus olhos.

Eu morro só de ver. Não há verdade,

Nem honra nem amor, onde há disfarce

Onde há beleza, onde há um outro homem.

Iachimo –

Tirou do braço e entregou a mim.

O gesto valeu mais do que o presente.

Póstumo –

Talvez tenha mandado para mim.

Talvez tenha perdido, ou foi roubada

Por uma serviçal que se vendeu...

Revele algum sinal do corpo dela,

Pois esse bracelete foi roubado!

Iachimo –

Já que pediu…

A prova é que num seio que apertei

Repousa marca digna do local.

Beijei a marca – eu juro! – e tive fome

E então a pus nos lábios outra vez,

Embora eu já estivesse saciado.

Da marca você lembra?

Póstumo –

Sim, eu lembro.

É prova de outra marca, tão imensa

Que mal no inferno cabe.

Iachimo –

Quer ver mais?

Ator/Iachimo mostra, no celular, uma foto.

Diretor(a) – Vamos pular a parte da brincadeira, que isso aqui já está virando

palhaçada!

Os atores voltam a se concentrar nos personagens.

Póstumo –

É prova de outra marca, tão imensa

Que mal no inferno cabe.

Póstumo entrega o anel a Iachimo.

Póstumo –

Aqui, é seu.

Iachimo –

Eu juro que–

Póstumo –

Não jure.

Será mentira se vier jurar

Que tudo foi mentira. E eu te mato

Se me negar que fez de mim um corno.

Iachimo –

Não vou negar.

Iachimo sai.

Póstumo põe-se a escrever uma carta.

Póstumo –

Eu mato essa mulher esquartejada!

Eu mato bem na frente do pai dela!

Alguma coisa assim eu vou fazer!

O elenco se prepara para a cena 7.

7. No castelo do Rei Cimbelino.

Entra Imogênia, lendo uma carta. Enquanto Imogênia lê,

Clóten aparece ao fundo e a escuta, escondido.

Imogênia –

“Se eu for preso por voltar ao reino, a justiça e a fúria de seu pai não serão tão cruéis

quanto você, minha amada, é capaz de me renovar com apenas um olhar. Aviso

que estou na Câmbria, no atracadouro de Milford. Faça o que seu coração mandar.

Desejo a você toda felicidade, permaneço fiel e te amo cada vez mais.” Póstumo.

Imogênia olha em volta e Clóten se esconde, para não ser percebido.

Imogênia –

Será que é longe? Eu creio que se alguém

Se arrasta no caminho em sete dias

Eu posso deslizar num dia só.

Já vejo tudo, não me importa nada.

Eu vou a Milford, essa é minha estrada!

Imogênia sai apressada. Entra Clóten.

Clóten –

Ela me disse – e dói arrancar essa mágoa do meu coração –, que respeitava mais

a roupa de Póstumo do que a mim, com tudo que eu tivesse de nobreza e de riqueza...

Pois é com a roupa dele que eu vou pegá-la à força. Primeiro eu mato ele

e aí ela vai ver com os próprios olhos que o meu valor há de ser uma tormenta

pra insolência dela. Com ele caído no chão, termino meu discurso de insultos em

cima do cadáver dele. E quando meu desejo estiver saciado – o que vai acontecer

comigo usando as roupas dele, só pra ela se sentir humilhada – chuto ela de volta

para casa. Ela estava feliz da vida quando me desprezou. Eu vou estar ainda mais

feliz na minha vingança.

Diretor(a) – Estou pensando que a gente pode fazer a transição para a próxima

cena com cavalos e trombetas.

Ator/Clóten – Como assim?

Diretor(a) – Ainda não sei, querem improvisar?

O elenco faz uma absoluta confusão com imitações de cavalos

e de sons de trombeta, enquanto se preparam para a cena 8.

Póstumo está escondido, espreitando uma possível chegada de Imogênia.

Entra Clóten, vestido com roupas iguais às de Cimbelino.

Póstumo procura se ocultar, mas Clóten inspeciona o local e percebe

a presença de alguém escondido. Clóten recua e saca uma arma.

Clóten –

Quem está aí

Tentando se esconder? Algum bandido?

Algum tipo de escravo?

Póstumo se revela.

Póstumo –

Eu sou do tipo

Que não vai deixar nunca sem pancada

Quem me chamar escravo!

Clóten –

Patife, marginal! Se entregue agora!

Póstumo –

A quem eu devo me entregar? A você?

Também eu tenho braço e coração.

Se falo menos é porque não uso

A língua como espada. Então por que

Eu devo me entregar a alguém assim?

Só temo e só respeito a quem é sábio,

Dos imbecis eu rio.

Póstumo e Clóten lutam. Póstumo toma a arma de Clóten e o mata.

Ainda irado, Póstumo desfi gura o rosto do cadáver de Clóten.

Póstumo percebe que alguém se aproxima e esconde-se. Entra Imogênia,

que repara no cadáver de Clóten, com o rosto desfi gurado

Imogênia –

São as roupas de Póstumo!

Conheço a perna dele e é essa a mão,

Os pés e coxas são de deuses gregos,

Os músculos de Hércules e o rosto...

Meu Deus do Céu! O rosto destruído!

Aos prantos, Imogênia cata fl ores a sua volta.

Imogênia –

Vou perfumar com flores seu sepulcro,

Com flores que me lembram do seu rosto.

O lírio de tez clara, a orquídea azul,

E a pétala da rosa não maltratam

Nem são mais perfumados que teu sopro.

Tudo isso os passarinhos caridosos

Irão buscar e, quando for inverno

E as flores acabarem, lhe trarão

Um cobertor de musgo para o corpo.

Imogênia deita fl ores em torno do cadáver de Póstumo,

enquanto chora e entoa um canto fúnebre:

Imogênia –

Não te assolam mais o sol

Nem o inverno furioso,

Teu encargo terminou

Paga e lar tens neste pouso.

Moços, moças, todos vão

Terminar no pó do chão

Não te oprimem mais os fortes,

Longe dos tiranos vais.

Pão ou linho já não portes,

Tronco ou junco são-te iguais.

Sábios, reis e magos vão

Igualar-se ao pó do chão.

Não te assustam tempestades

Nem o estrondo do trovão

Nem sermões nem falsidades,

Cessam o gozo e a aflição.

Juventude e amores vão

Conformar-se ao pó do chão.

Do exorcismo és livre!

Do feitiço és livre!

Do assombrado és livre!

Todo mal te esquive!

Branda seja a tua rasura,

Nobre a tua sepultura!

Póstumo aproxima-se. Imogênia sente a chegada de alguém e,

ao se virar e se deparar com Póstumo, assusta-se.

Imogênia –

É você, meu amor?

Póstumo encara Imogênia friamente, apontando-lhe a arma que tomou de Clóten.

Imogênia –

Póstumo indica, com a arma, o cadáver de Clóten.

Póstumo –

Quem está aí é Clóten, o imbecil.

O bolso tão vazio quanto a cabeça.

A lei não me protege, então por que

Eu deveria suportar que um traste

Metido a besta me ameaçasse,

Posando de juiz e de polícia?

Por que nós temos que temer a lei?

Matei-o com a arma que ele mesmo

Levou ao meu pescoço. E vou jogá-lo

No rio que corre atrás desse rochedo

E que vai arrastá-lo até o mar.

Póstumo acua Imogênia, que procura se afastar.

Imogênia –

Que ideia faz você me olhar assim?

Que raiva é essa, que te rouba o ar?

Seu rosto guarda a imagem de um terror

Que vai além de toda explicação.

Recobre o seu juízo e dê um jeito

De controlar o medo, ou esse assombro

também há de roubar o meu bom senso.

Póstumo –

O que a mulher fizer de juramento

Ao seu amado vale tanto quanto

A honra que ela tem. Ou seja: nada!

Fingida desgraçada!

Póstumo acua Imogênia, que procura se afastar.

Imogênia –

Quem é você?

Póstumo está cada vez mais irado.

Póstumo –

Eu sou um nada!

Melhor seria mesmo nada ser!

Póstumo mostra o bracelete, para o espanto de Imogênia.

Póstumo –

O que era bom e nobre agora é podre

E falso, pois você desceu demais!

Póstumo ergue a arma para atacar Imogênia, mas dessa vez ela não recua.

Imogênia –

Não temo a sua raiva, um sentimento

Mais raro vence as dores, vence os medos.

Póstumo ergue outra vez a arma para atacar Imogênia,

mas ela outra vez não recua e ele hesita. Imogênia leva a mão

em que Póstumo segura a arma contra o próprio peito.

Imogênia –

Eu mesma saco a espada. Vai! Sem medo!

Ataca o lar do mais sublime amor!

No coração só me restaram mágoas.

Imogênia aperta a arma contra o peito, mas Póstumo afasta a arma.

Imogênia –

Você foi bravo em coisas bem maiores

Mas passa agora apenas por covarde...

Meu caro, pode ser bastante honesto:

Que estranha infecção foi se alojar

De modo tão profundo em seus ouvidos?

Eu, falsa com você? O que é ser falsa?

Deitar na cama e só pensar em ti?

Chorar de hora em hora e despertar

Com pesadelos de que algo horrível

Passou-se com você. Ser falsa é isso?

Dois dias viajei e duas noites,

Dormindo pelo chão, seguindo firme

Em frente, mesmo quando enfraquecia?

Eu, falsa? Seu juízo é testemunha!

Póstumo larga a arma.

Póstumo –

Maldito Iachimo,

Italiano mentiroso.

As mãos, tão venenosas quanto a língua,

Domaram meus ouvidos suscetíveis.

Póstumo chuta a arma.

Póstumo –

Longe de mim, coisa repugnante!

Não vou amaldiçoar a minha mão!

Póstumo abre os braços para Imogênia.

Póstumo –

Meu lírio perfumado,

Rainha, meu amor!

Imogênia corre para os braços de Póstumo.

Diretor(a) – Espera!

A cena é interrompida.

Ator/Atriz/Póstumo – Fiz alguma coisa errada.

Diretor(a) – Não.

Ator/Atriz/Imogênia – Fui eu, então?

Diretor(a) – Não. Não é isso... É que a gente já mudou tanta coisa, que eu não sei

se a gente deve seguir como Shakespeare queria, com Imogênia, depois de tudo,

perdoando Póstumo. O que vocês acham?

O elenco, aqui, expressa de modo a não dirigir estritamente suas opiniões acerca de

possíveis fi nais para a peça, debatendo, sobretudo, se Imogênia deveria perdoar um

homem que, movido pela paixão, desconfi ou dela, submeteu-a

a uma situação vexatória e agora ainda se volta contra ela com violência.

Diretor(a) (para a plateia) – E vocês?

Diretor(a) leva o debate à plateia. Após ouvir as opiniões, diretor fi ca pensativo.

Ator/Atriz/Imogênia – Eu tenho uma ideia... Eu vou fazer o final que eu quero,

pode ser?

Diretor(a) – Mas ainda vai ser Shakespeare?

Ator/Atriz/Imogênia – Cada palavra que eu disser, vai vir da peça. Eu só vou

mudar a ordem.

Diretor(a) – Sério?

Ator/Atriz/Imogênia faz que sim.

Ator/Atriz/Póstumo – Legal, eu também vou improvisar. E aí a gente vê o que

Diretor(a) – Maravilha. Vamos lá.

O elenco se prepara para retomar a cena.

Póstumo –

Longe de mim, coisa repugnante!

Não vou amaldiçoar a minha mão!

Póstumo abre os braços para Imogênia.

Póstumo –

Meu lírio perfumado,

Rainha, meu amor!

Póstumo abre os braços para Imogênia, mas ela lhe dá as costas.

Póstumo aproxima-se, mas Imogênia o repele.

Imogênia –

A espada já não é mais necessária.

O que você me disse me matou.

Póstumo –

Não chora mais, amor, ou pode ser

Que eu fique emocionado de tal jeito

Que seja até suspeito, para um homem.

Imogênia –

Por mim, pode chorar até cansar.

Ouvi você dizer que sou vadia

E o golpe da mentira em meus ouvidos

Dói mais que tudo. Fale o que quiser...

Póstumo –

Serei pra sempre o esposo mais fiel

Que alguma vez já fez o juramento.

Imogênia –

É pura traição o que prometem

Os homens às mulheres. Em seus erros

Fazem tudo que era belo resultar

Em armadilhas pra enganar mulheres!

Imogênia vai sair, Póstumo tenta detê-la, mas ela se desvencilha

de Póstumo e sai. Póstumo, desolado, fala à plateia.

Póstumo –

Razões do amor são todas sem razão.

Morreu a ave que eu amava tanto.

Se fosse minha a escolha, eu pularia

Dos meus dezesseis anos aos sessenta,

Trocando as alegrias por muletas,

Pra não viver o que eu aqui vivi.

Mentiras cortam mais do que as espadas

E são mais venenosas que as serpentes

Do Nilo, cujos sopros tomam conta

Do vento e levam peste ao mundo todo.

A reis, rainhas, nobres, moças, mães...

Até no mais secreto vão da morte

Penetra, feito víbora, a mentira.

Póstumo ajoelha-se, diante do cadáver de Clóten e começa um canto fúnebre que,

aos poucos, vai sendo entoado por todo o elenco.

Póstumo e Elenco –

Não te assolam mais o sol

Nem o inverno furioso,

Teu encargo terminou

Paga e lar tens neste pouso.

Moços, moças, todos vão

Terminar no pó do chão

Não te oprimem mais os fortes,

Longe dos tiranos vais.

Pão ou linho já não portes,

Tronco ou junco são-te iguais.

Sábios, reis e magos vão

Igualar-se ao pó do chão.

Não te assustam tempestades

Nem o estrondo do trovão

Nem sermões nem falsidades,

Cessam o gozo e a aflição.

Juventude e amores vão

Conformar-se ao pó do chão.

Do exorcismo és livre!

Do feitiço és livre!

Do assombrado és livre!

Todo mal te esquive!

Branda seja a tua rasura,

Nobre a tua sepultura!

Da plateia, Diretor(a) aplaude.

Diretor(a) – Muito bom, pessoal. Esse vai ser o final da peça! Muito bom!

– E o final desse ensaio?

Diretor(a) – Ensaio é ensaio, acaba e pronto, não precisa de final.

– Acho que esse vai precisar.

Diretor(a) – Por quê?

O elenco mostra a plateia.

Diretor(a) – Ah...

Epílogo

Diretor(a) se volta para a plateia e começa uma fala que, aos poucos,

vai sendo composta, em um coro de vozes, por todo o elenco:

Diretor(a) e Atores –

Com pena hábil, com estilo fino,

O senhor Shakespeare compôs a história

Da pobre filha do Rei Cimbelino,

Cujo destino se afastou da glória.

O enredo foi um pouco transformado,

Mudamos até mesmo seu final

Mas, lendo a peça verão, de bom grado,

Que a essência dela permanece igual.

A história aqui contada é muito antiga,

Já não há mais mentiras nem chantagens

O amor não cede mais espaço à intriga.

Quem já sofreu, no entanto, com boatos,

Embora constituam exceção,

Ecoem nossa voz no coração.

Todos fazem uma reverência ao público.

Fim

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