loading

_peças /

A Voz Do Silêncio / José Arhur Ridolfo

A VOZ DO SILÊNCIO

José Arhur Ridolfo

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do Projeto Conexões Teatro Jovem e fez parte do seu portfólio no ano de 2014. Qualquer montagem fora do Projeto deverá ser negociada com o autor ou seus agentes jarthur_ridolfo@hotmail.com

Introdução à Introdução

Diretores, leiam para seus atores, filhos e filhas. Atores, leiam para seus pais, irmãos e irmãs.

Atores e diretores, leiam para suas plateias, façam com que elas vejam, ou façam com elas mesmas leiam.

Que essa mensagem saia de meu coraçãoe entre nos seus.

Introdução

O objetivo de todo esse trabalho pode rapidamente ser resumido com uma palavra: despertar. A verdade é um artefato frágil, complexo, e na esmagadora maioria das vezes, difícil de enxergar, ainda que se encontre diante de nossos olhos. E, como se esse já não fosse um desafio árduo o bastante a ser superado, em pouquíssimos de nós resta a coragem e a astúcia necessária para admitir a verdade, ou para despertar-se para ela. Porém, esse é um passo fundamental para a emancipação do homem como indivíduo e na sociedade.

O que ocorre é que geralmente um homem emancipado e, por consequência, uma sociedade emancipada dificilmente atenderá aos interesses de seu governo, muito menos no caso de um governo como o vigente hoje no Brasil. Interesses os quais necessitam a exploração de seu povo. É aí que entra uma palavra-chave, tanto no contexto desse trabalho, quanto no vocabulário moderno: manipulação. Essa é a solução encontrada pelo estado para manter sua população sob controle. Sendo esta focada principalmente nos jovens, indivíduos que definirão o rumo da nação.

É de extrema importância para o governo manter uma população consumista, fanática e alienada. A maneira mais fácil e rápida de fazer isso é movendo os interesses dos jovens para estes fins, divergindo sua atenção para tudo aquilo que não faz diferença, que não muda nada, que só distrai. Nunca as palavras de Rousseau se mostraram tão concretas quanto hoje. O jovem atual está muito mais (para não dizer totalmente) propenso a considerar o valor econômico de uma ideia, de um fenômeno, de um objeto, que seu valor intelectual ou seu valor artístico.

Hoje, dificilmente se encontrará um garoto ou garota de lá seus 17 anos que se sacrifica não somente estudando, mas também trabalhando para ganhar um mísero salário e ajudar sua mãe com as despesas de casa ou economizar para uma faculdade decente. No entanto, são milhares aqueles que economizam meses a fio de trabalho para comprar uma joia, uma camiseta de marca ou alguma novidade eletrônica e poder se exibir para os outros, na ilusão de que aquilo os engrandecerá e os fará melhores que os outros. E essa ilusão se difunde na literatura, em programas de TV, e até, infelizmente, na música. Ou, pelo menos, naquilo que pretende se chamar de música.

Isso tudo contribui para a formação de uma juventude imediatista e iludida, que crescerá para fazer parte de uma sociedade imediatista e iludida. Uma sociedade que só busca e só encontra satisfação naquilo que pode lhe proporcionar conforto imediato, ou uma suposta “felicidade” imediata. Uma sociedade vulgar, inconsciente de si e das razões que permeiam todas e cada uma das ações por ela cometidas e os problemas que a afligem. A mais antiga técnica de controle utilizada pelo Estado, o pão e circo, tem sua eficácia comprovada.

Não tenho a menor pretensão aqui de incorporar o demônio de Nietzsche e afirmar que nossas ações devem ser ponderadas já que elas serão repetidas, assim como nossas vidas inteiras, eternamente, mas sim de afirmar que condicionar um pensamento ou uma ação à obtenção de conforto e satisfação imediatos é a maneira mais fácil de alienar-se e afastar-se da emancipação, para então ser submetido à manipulação do Estado e de qualquer influência externa. A resposta não está numa passeata pelas avenidas, segurando placas e atrapalhando o trânsito. Ela está na reflexão de cada um e nas ações conscientes e justificadas de todos.

Por muito tempo a sociedade corrompeu sua mais forte esperança de futuro. Por muito tempo os tiranos imperam. Está mais do que na hora de deixar que nossa raiva e nossa liberdade sejam maiores que o medo. Portanto, àqueles que são jovens em corpo, em alma ou em ambos: procurem a verdade. Admitam a verdade. E despertem-se. Despertem-se.

Personagens

A Voz do Silêncio – de José Arthur Ridolfo

“Omitir-se é colaborar com o opressor.”

Personagens

ALEXANDRE FURTADO XAVIER - Aspirante a jornalista, Alex é um adolescente mudo e muito introvertido.

VOZ DE ALEX - Em certas cenas o pensamento de Alex será representado por uma voz que pode vir da cochia ou ser reproduzida com algum equipamento de som. O ator que a emite pode ou não aparecer.

DANIELA DE ALVARENGA PEIXOTO - Garota cujas conversas com outras garotas na sala de aula renderam certa habilidade com leitura labial, o que a torna a única que entende o que Alexandre quer expressar sem que ele gesticule.

GABRIEL DA SILVA E OLIVEIRA - Outro garoto, vizinho de Daniela. É muito expressivo e muitas vezes autoritário, porém no fundo também é medroso.

FELIPE DE ABREU VIEIRA - Um jovem nerd que admira Alexandre, adora descobrir os segredos dos outros utilizando de suas habilidades com informática.

ANGÉLICA DE ABREU VIEIRA - Irmã mais nova de Felipe, é uma menina muito tímida, mas hiperativa em certas ocasiões.

“MÃE” ou “PAI” DE ALEX - Somente se escutará sua voz na maioria das cenas.

AGENTE DO SISTEMA - Também só se escutará a voz da personagem. Deve ser representada pelo mesmo ator/atriz que representa a(o) “MÃE/PAI” DE ALEX utilizando o mesmo figurino.

MÃE DE FELIPE - Uma tradicional dona de casa, que trata seus filhos como se fossem seus bichinhos de estimação.

IRMÃ DE DANIELA - Uma garota mais próxima da idade de Alex, rebelde, aparece sempre assistindo TV.

CAPANGAS DO SISTEMA - Não há um número mínimo ou máximo de Capangas. Eles devem usar um capuz ou algo que esconda parcialmente/totalmente seus rostos e de preferência roupas escuras. Em determinadas cenas, eles serão diferenciados para facilitar os diálogos. Nas outras eles podem ser articulados livremente.

VÍTIMA DO SISTEMA - Um jovem desconhecido que será capturado pelos Capangas.

Cena Um

Cena Um

(ALEXANDRE está sentado no canto do palco, em frente a uma carteira com uma folha em branco e ar pensativo, preparando-se para escrever algo)

VOZ DE ALEX – Agora, vamos começar minha história. Uma história que deve convencer a todos da verdade que eles encaram todos os dias, mas que não querem admitir. Talvez porque tenham medo. Talvez porque dói. Mas ela deve ser vista, e todos devem ter a coragem de grita-la para quem não quiser ouvir. Até o momento em que só acreditar nela não será o bastante. Que ironia... Eu que tenho coragem não posso gritar.

“MÃE/PAI” DE ALEX (fora de cena) – Xavier, alguém aqui embaixo quer vê-lo.

ALEX – (Levanta-se vagarosamente e sai do quarto, fechando a porta em seguida. Desce as escadas para encontrar DANIELA a sua espera)

DANI – Oi Alex! Tudo bem? Anda fazendo algo interessante ultimamente?

ALEX – (Somente movimenta os lábios)

DANI – Fala mais devagar... (Dani se esforça para ler os lábios de Alex)

ALEX – (Faz movimentos exagerados com os lábios para ajudar Dani)

DANI – Também não tenho feito muita coisa. Ando um pouco com o pessoal de vez em quando. Meus pais não gostam que eu saia muito, as coisas estão tensas por aqui, você sabe, os desaparecimentos e tal... Eles não largam do meu pé de jeito nenhum.

ALEX – (Finge fazer uma cara de espanto bem sarcástica, depois sorri)

DANI – Como anda sua nova matéria? Ocupado?

ALEX – (Arregala os olhos e sacode a cabeça largamente para cima e para baixo,

confirmando e enfatizando a parte do “ocupado”)

DANI – Você e suas histórias de rebeldia. Logo quero ler alguma no jornal.

ALEX – (Simplesmente a encara e esboça um sorriso)

DANI – O Gabriel quer fazer mais uma das “reuniõezinhas” dele. Como se já não bastassem as coisas que ele fica postando nos blogs...

ALEX – (Dá uma “bufada” de desprezo em relação ao blog de Gabriel)

DANI – Diferente de você que não pode, ele se satisfaz só falando que vai fazer as coisas... (Ri)

ALEX – (Sorri para Daniela de maneira extremamente irônica, como se fosse dar risada para zombar do que ela acabara falar)

DANI – Chega de brincadeira, vamos logo ou o Gabriel vai encher o saco.

(Os dois se dirigem à porta dos fundos. Ao caminhar para fora de casa, Alex olha para trás diretamente para sua/seu “MÃE/PAI” e sacode a cabeça, em um frio gesto de despedida).

Cena Dois

Cena Dois

(Os cinco amigos se encontram próximos a um parque abandonado. As ruas estão vazias, poucas pessoas se encontram fora de suas casas)

GABRIEL (com ar irônico) – Os pombinhos vieram, que bom, estava ficando silencioso demais por aqui.

DANI (para Gabriel) – Engraçadinho...

FELIPE – E aí Alex! Como é que você tá?

ALEX – (Sorri e cumprimenta FELIPE. Vira-se para ANGÉLICA e faz um carinho em sua cabeça, como se ela fosse uma criancinha. Esta sacode a cabeça)

ANGÉLICA – Para Alex, parece meu pai! Oi Dani!

(ANGÉLICA dá um beijo em DANIELA. Enquanto isso, GABRIEL e ALEX se entreolham e ALEX se aproxima até apertar a mão de GABRIEL)

GABRIEL – Há quanto tempo, bonitão. Ainda com suas loucuras de pseudo jornalista?

ALEX – (Sorriso irônico)

GABRIEL – Tá legal, quando terminar o novo Manifesto Comunista, me chama. (Dirige-se ao resto do grupo) Hora de planejarmos nossa zoeira semanal contra os carasdo Sistema. Ideias?

FELIPE (exaltado e ansioso) – Espalhar várias bombas pelo bairro para pegar qualquer maluco do Sistema que der bobeira...

DANI (cortando o barato de Felipe) – Não Felipe, já discutimos sobre suas bombas. Imagina se algum distraído passa por uma?

FELIPE – Ninguém mais anda por aqui, estão todos em casa. Nem minha mãe tem saído direito, sai uma vez por mês no máximo para fazer compras...

DANI – Ainda assim, é perigoso.

ANGÉLICA – Aposto que você mesmo esqueceria onde colocou as bombas, aí seria o primeiro a ir pelos ares! (Ri)

(Todos riem. Felipe dá uma risada forçada e sarcástica)

FELIPE (exaltando-se novamente) – É óbvio que eu colocaria um rastreador para não esquecer...

GABRIEL (também cortando Felipe) – Não Felipe. Você nem teria onde comprar o equipamento para fazer esse tanto de bomba. E sua mãe não vai achar isso no supermercado, né...

(Felipe abaixa a cabeça e move-se para perto de Alex)

FELIPE – Eu faria umas bombas caseiras... Você aprovaria né Alex?

ALEX – (Dá um tapinha nas costas de Felipe e sorri enquanto faz um gesto afirmativo)

ANGÉLICA – Podíamos fazer umas armadilhas mais simples... Alguma coisa com gás, sei lá... Para ver se eles se afastam.

DANI – Pode ser que funcione.

GABRIEL – Não gosto da ideia de pegar muito pesado com eles, em todos os bairros em que eles se instalaram pessoas começaram a desaparecer... Isso não pode ser coincidência.

DANI – Até a TV eles controlam agora com a emissora que montaram aqui perto.

GABRIEL – O que você acha Alex? Tô achando você muito quieto hoje. (Ri)

ALEX – (Vira-se para Gabriel e dá um sorriso sarcástico)

FELIPE – Dizem que eles pegam as pessoas para fazer algum tipo de “lavagem cerebral”... Talvez esse seja o objetivo, e os que não mudam de ideia, nunca mais voltam.

GABRIEL – Vamos visitar os outros condomínios e perguntar para as pessoas o que elas acham que está acontecendo. Você seria um bom entrevistador Alex. Só que eu faço as perguntas.

ALEX – (Dirige-se a Daniela e movimentas os lábios)

DANI (dando uma risadinha) – É, eu sei.

GABRIEL – O que é que ele falou?

DANI – Ele disse que não adianta você ficar planejando isso tudo só para depois colocar no seu blog e não fazer mais nada. Para alguém que diz ser tão rebelde você passa tempo demais na frente do computador.

GABRIEL – Olha aqui, meus seguidores todos me admiram. A qualquer hora eu podia fazer uma revolução se eu quisesse... E aquelas frases que colocou no blog são muito bonitas, viu Angélica?

ANGÉLICA (voz infantil) – Obrigada!

FELIPE – Eu faço coisas úteis no computador. Quase hackeei o computador da minha vizinha ontem.

GABRIEL – Você ficou é vendo outras coisas da vizinha né... (Gabriel começa a rir sozinho)

ALEX (para Gabriel) Shh!

(Alex dá um tapa no ombro de Gabriel, que faz uma cara amarrada. Todos riem.)

DANI (segurando o riso) – Obrigada por manter o nível da conversa.

ANGÉLICA – A gente não devia ficar muito tempo aqui, outro dia nós planejamos o “ataque” dessa semana.

ALEX – (Aponta para Angélica e balança a cabeça em um tom afirmativo)

GABRIEL (olhando para Alex) – Estraga prazeres... Outro dia nos encontramos para conversarmos melhor.

FELIPE – E vou dar uma vasculhada para ver se encontro uns locais bons para plantar umas bombas. Só para garantir... Vem comigo Lica?

ANGÉLICA (meio desanimada) – Fazer o quê...

(Alex “fala” algo para Dani)

DANI – O Felipe é um maior nerd, duvido que ele não conheça uns becos aí para se esconder.

GABRIEL – Não estão esquecendo nada não?

(O grupo junta as mãos e as levantam juntos, gritando)

TODOS – LINGÜIÇA! *

(O grupo se despede e cada um se retira para sua respectiva residência enquanto Felipe e Angélica começam a analisar a área procurando lugares propícios para bombas e armadilhas.)

*O grito “Linguiça” tem um significado especifico e emocional ligado ao Grupo de Teatro do Colégio São Luís – CSL que realizou as edições de 2008 e 2009 do Projeto Conexões do qual eu participei. Em seu lugar pode ser usado outro grito que expresse a união e a harmonia presente em seus respectivos grupos.

Cena Três

Cena Três

(Casa de Felipe. A Mãe de Felipe está lavando louça na cozinha. O apartamento se encontra silencioso, assim como o prédio inteiro, até que a Mãe de Felipe escuta alguém bater à sua porta. Ela abre prontamente)

MÃE DE FELIPE – Boa tarde! Posso ajudar?

CAPANGA – Boa tarde. Eu estou fazendo uma pesquisa sobre política na vizinhança, eu poderia entrar por uns minutinhos, para algumas perguntas?

MÃE DE FELIPE (um pouco hesitante) – Ehh... Claro, por quê não. Entre por favor. Aceita alguma coisa?

CAPANGA – Não se preocupe senhora, não pretendo me demorar.

(Os dois se sentam. A mãe de Felipe continua um pouco inquieta)

CAPANGA – Antes de qualquer coisa, a senhora se considera uma ativista política?

MÃE DE FELIPE – Não, com certeza não, não gosto de me envolver muito com esse tipo de coisa.

CAPANGA – Entendo. Então a senhora diria que não se importa muito com os partidos que estão concorrendo pelo poder atualmente?

MÃE DE FELIPE – Claro que as coisas costumavam ser mais fáceis com um partido mais... Flexível no poder, mas eu não posso reclamar.

CAPANGA – Então a senhora não simpatiza muito com o Sistema?

(A mãe de Felipe fica mais agitada e nervosa, gaguejando ao responder)

MÃE DE FELIPE – Não, não, não foi isso que quis dizer. Eu... Eu não tenho nada contra o Sistema, claro que não. Eu simplesmente não tenho nada a favor também eu diria... É indiferente para mim.

(Ela dá um sorriso sem graça e continua nervosa, como se já visse que não foi bem sucedida em corrigir o erro que cometera. O Capanga age com naturalidade)

CAPANGA – Tá legal, acho que já tenho tudo de que preciso aqui.

(O capanga se levanta e prepara para sair. A mãe de Felipe levanta-se de um salto ainda muito assustada e ainda gaguejando)

MÃE DE FELIPE – Calma, é... É só isso que quer mesmo? Tem certeza que não quer que eu escreva alguma declaração, uma sugestão, quem sabe até um elogio?

(Ela dá um sorriso sem graça novamente ao ver que só está piorando a situação. O capanga continua agindo com naturalidade enquanto os dois se movem em direção à porta)

CAPANGA – Não, não se incomode senhora. Como eu disse são só perguntas simples. Já tenho tudo de que preciso.

MÃE DE FELIPE – Tudo bem então...

CAPANGA –Posso pedir somente para que assine esse documento?

(O CAPANGA entrega uma caneta a ela e estende uma prancheta. Enquanto ela se inclina para assinar, ele puxa uma seringa de seu bolso e injeta uma substância em seu pescoço. Imediatamente a MÃE DE FELIPE fica inconsciente. O CAPANGA a impede de cair e chama o OUTRO CAPANGA que estava á sua espera do lado de fora para ajuda-lo a carregá-la)

Cena Quatro

Cena Quatro

(O palco escurece e duas cadeiras estão posicionadas frente à frente relativamente afastadas uma da outra e somente um foco de luz sobre a cadeira na qual a MÃE DE FELIPE está sentada com um saco, pano ou capuz sobre a cabeça, semi-consciente. Os dois CAPANGAS se posicionam um de cada lado da outra cadeira. Entra a/o AGENTE DO SISTEMA segurando uma folha de papel)

AGENTE DO SISTEMA – Pode retirar.

(Um dos CAPANGAS retira o pano, saco ou capuz da cabeça da MÃE DE FELIPE. Ela lentamente começa a abrir os olhos e tomar consciência da situação. A/O AGENTE DO SISTEMA senta-se entre os capangas)

MÃE DE FELIPE – Onde... Onde eu estou?

AGENTE DO SISTEMA – Não se preocupe senhora, você está em um lugar seguro. Nós só precisamos conversar um pouco. Como está se sentindo?

MÃE DE FELIPE (ainda um pouco tonta e desorientada) – Estou meio zonza...

AGENTE DO SISTEMA – Isso é normal, logo estará se sentindo melhor. Pois bem, a senhora está familiarizada com o partido político conhecido como o Sistema, certo?

MÃE DE FELIPE – Não sei se “familiarizada” seria um termo muito bom nesse caso, mas acho que eu precisaria morar em uma caverna para não conhecê-lo.

AGENTE DO SISTEMA – É claro. No entanto acho pouco provável que a senhora tenha conhecimento sobre a origem ou sobre os princípios dessa organização, não é?

MÃE DE FELIPE – Nunca tive muita curiosidade para ser sincera.

AGENTE DO SISTEMA – O Sistema nasceu como uma organização de segurança privada contratada pelo governo para proteger “elementos-chave” em áreas urbanas perigosas.

CAPANGA – No começo era um trabalho simples. Mas conforme nossos reservatórios de água ficavam mais escassos e a produção agrícola caía brutalmente com as mudanças climáticas, as camadas mais baixas da população não tinham tanto acesso a suprimentos.

OUTRO CAPANGA – Isso aumentou muito o nível de criminalidade. O que antes eram pequenos focos de violência logo se tornaram um problema de segurança nacional. O custo desse serviço cresceu rapidamente, e a dívida do governo também. Até que o dinheiro acabou.

OUTRO CAPANGA – A organização ofereceu uma solução para o governo– a dívida seria saudada se parte do poder fosse transferido para um membro executivo da organização. Era isso ou o governo teria de assistir a sociedade destruir a si mesma.

OUTRO CAPANGA – Esse executivo seria responsável pela implantação de um novo “Sistema” de administração do governo. O nome acabou pegando.

AGENTE DO SISTEMA – Em alguns meses estávamos no controle da segurança, depois da mídia, em um ano da distribuição de suprimentos e hoje tudo. A senhora teve sorte de seu bairro ser um dos que menos foram atingidos pelas reações da população.

(A mãe de Felipe leva as mãos à boca, atônita com as informações que acaba de receber e mantém uma constante expressão de pavor)

MÃE DE FELIPE – Isso tudo aconteceu tão rápido?

AGENTE DO SISTEMA – É claro que resumimos bastante a história, mas mudanças drásticas requerem velocidade de ação.

(Mãe de Felipe fica sem palavras por um longo período)

MÃE DE FELIPE – Isso aconteceu na minha frente e na frente de milhares de pessoas sem ninguém perceber?

AGENTE DO SISTEMA – Os governos ocultam todo tipo de informação de sua população. É difícil para a sociedade entender que ela é a fonte da maioria de seus próprios problemas. As pessoas não querem admitir a verdade. Quanto menos aceita-la.

(Mais um longo silêncio se instala no local. A Mãe de Felipe ainda tem dificuldade para encontrar palavras)

AGENTE DO SISTEMA – Mas a senhora não tem que se preocupar com nada, o único objetivo do Sistema é garantir a segurança de seus simpatizantes.

MÃE DE FELIPE – Realmente, se eu não sofri nenhum tipo de agressão ou dificuldade durante todo esse processo significa que estou realmente segura.

AGENTE DO SISTEMA – É lógico que está! Mais um sinal de como nosso Sistema é benéfico para seus cidadãos!

MÃE DE FELIPE – E tenho suprimentos, a TV e o rádio estão funcionando...

AGENTE DO SISTEMA – Tudo cortesia, é claro, de nosso Sistema!

MÃE DE FELIPE – Parece que esse negócio realmente funciona, e muito bem na verdade!

AGENTE DO SISTEMA – Melhor não poderia estar, não é?

MÃE DE FELIPE – Nem sei por que me sentia insegura quando saía de casa...

AGENTE DO SISTEMA – É completamente compreensível senhora, mas agora poderá sair convicta de que o Sistema estará sempre lá para protegê-la!

MÃE DE FELIPE – Mas isso ainda me parece muito estranho... Parece até certo tipo de manipulação. Esse tempo todo não fui cobrada nenhuma taxa, nenhum imposto adicional. Como isso funciona exatamente?

(A/O Agente esboça um sorriso sarcástico e coloca a mão sobre um dos ombros da mãe de Felipe)

AGENTE DO SISTEMA (com um ar de riso) – A senhora deve estar com uma visão errada de nossos objetivos. Não somos algum tipo de TV por assinatura não. Tudo o que pedimos da senhora é sua lealdade.

MÃE DE FELIPE – Como assim “minha lealdade”?

AGENTE DO SISTEMA – Só pedimos que a senhora continue comprando alimentos, roupas, que continue falando de nós, apoiando nossos ideais e, é claro, explorando os benefícios que fazem do cidadão do Sistema melhor!

MÃE DE FELIPE – Parece até bom demais para ser verdade...

AGENTE DO SISTEMA – Nós garantimos para a senhora que é.

(Com a mão sobre o ombro dela, A/O Agente começa a conduzir a mãe de Felipe em direção à saída)

MÃE DE FELIPE – Isso me deixa mais tranquila. Fico até ansiosa para contar tudo isso para minhas crianças!

AGENTE DO SISTEMA – Conte-os tudo! Tenho certeza de que a senhora os fará ver como o Sistema é ótimo!

(Ainda com a mão sobre o ombro da mãe de Felipe, A/O Agente faz um sinal para um dos capangas que se aproxima dela com uma seringa e injeta novamente a substância em seu pescoço. Os três a seguram impedindo-a de cair e a carregam para fora)

Cena Cinco

Cena Cinco

(Daniela está chegando a seu apartamento. Sua irmã está assistindo TV como ela faz a grande maioria do tempo e não gosta de ser interrompida)

DANI – Você viu se a mamãe...

IMÃ DE DANI – Cale a boca.

DANI – Eu estou perguntando se você viu...

IRMÃ DE DANI – Cale a boca.

DANI – Dá para deixar de ser idiota e...

IRMÃ DE DANI – Cale a boca!!

(Daniela dá um grito agudo que só é superado pelo de sua irmã que começa a gritar também. As duas continuam medindo suas capacidades vocais até que Daniela perde a paciência e vai para seu quarto. Enquanto isso Gabriel está chegando a seu apartamento e também vai para seu quarto, que é adjacente ao de Daniela. Os dois se sentam frente a seus computadores)

GABRIEL – Dani!! Você viu o que eu coloquei no blog?

DANI – Caramba Gabriel, só tem uma parede entre a gente!

GABRIEL – Tá, tá, mas dá uma olhada.

(Daniela começa a ler as últimas publicações no blog de Gabriel)

DANI – Deixe-me ver... Angélica falando bobagem... Achei– “Gabriel: Não vamos mais aguentar isso! Vamos enfrentar o Sistema! Lutem por suas liberdades!” Que bonito, mais um dos ataques de rebeldia dele que acabam em jogar papel higiênico molhado na janela da base do Sistema.

(Daniela fica com raiva, levanta, sai de seu apartamento e atravessa o corredor até bater na porta do apartamento de Gabriel)

GABRIEL (abrindo a porta) – O que foi Dani?

DANI – Você fica fazendo essas brincadeirinhas aí, provocando os caras para depois não fazer nada e ainda acha que eles serão tão gentis com você?

GABRIEL (com um tom sarcástico) – Quem disse que eu não vou fazer nada?

DANI – Então o que você pretende fazer?

GABRIEL – Bom... Não sei ainda... A gente podia desligar os geradores da emissora, sei lá.

DANI – Claro, aí se você tiver sorte o bastante para não acabar eletrocutado vai ter que explicar para algum capanga do Sistema o que você estava fazendo lá.

GABRIEL – Eles não seriam tão espertos...

DANI – Você é louco? Tem gente desaparecendo em todas as regiões em que eles chegam, vai me dizer que isso é coincidência? Eles já vieram arrumar a TV da minha irmã porque ela não estava conectada na emissora deles. Eles sabem de tudo. Nem duvido que estejam escutando nossa conversa agora.

GABRIEL (se aproximando de Daniela) – Quer ir para um lugar mais reservado?

DANI (empurrando Gabriel) – Cala a boca. Isso é coisa séria.

GABRIEL – O que você sugere que eu faça? Escreva historinhas que nem o Alex?

DANI – Olha aqui, o Alex sai para investigar as pessoas, ele observa e escreve coisas sérias, não essas suas provocaçõezinhas inúteis.

GABRIEL – Sei, sei... O Alex é um frustrado que fica inventando essas historinhas aí só para compensar o que ele não pode falar.

DANI – Eu tenho certeza que ele não escreve nenhuma historinha. Essas ele deixa para você. Mesmo mudo ele consegue falar coisas mais úteis do que você que fala pelos cotovelos.

(Os dois sentam, cansados de discutir. Um silêncio ocupa o apartamento e os envolve)

DANI – Sei lá Gabriel, as coisas não estão fáceis, sabe.

GABRIEL – Não está fácil para ninguém Dani.

DANI – Talvez seja assim mesmo. Talvez todos nós devemos ser manipulados. Talvez nós simplesmente não queremos admitir isso então ficamos calados. Talvez porque seja mais fácil...

GABRIEL – Xii, já tá começando a falar asneira.

DANI (dando risada) – É, acho que estou mesmo.

GABRIEL – As coisas vão melhorar. Eu tenho um pressentimento.

DANI – Nossa, eu achei que eu era quem tinha pressentimentos.

GABRIEL (rindo também) – Eu também tenho. Só não são tão frequentes.

DANI – Saquei. Estou cansada, vou ver se minha irmã me deixa dormir um pouco.

GABRIEL – Qualquer coisa tenho sempre uma cama...

DANI – Não Gabriel.

GABRIEL – ...para você! Eu ia dizer que eu dormiria no sofá.

DANI – Ia sim, claro.

(Daniela volta para seu apartamento. Sua irmã ainda está assistindo TV, mesmo assim ela tenta ir para o quarto descansar)

Cena Seis

Cena Seis

(Os dois capangas do Sistema estão levando a mãe de Felipe de volta para seu apartamento. Eles a colocam na porta como se nada tivesse acontecido. O OUTRO CAPANGA sai enquanto o CAPANGA pega sua prancheta novamente e tenta acordar a mãe de Felipe)

CAPANGA – Senhora... Você está bem? Olá?

(Mãe de Felipe começa a recuperar a consciência gradativamente e a perceber onde está enquanto levanta)

MÃE DE FELIPE (ainda um pouco desorientada) – O que... O que aconteceu? Quem é você? O que está fazendo aqui?

CAPANGA – A senhora não se lembra? Eu só vim perguntar algumas coisas e já estava de saída quando pedi para que assinasse um documento então a senhora desmaiou.

MÃE DE FELIPE – Ah, certo, me lembro de você. Eu já assinei o documento?

CAPANGA – Assinou sim, a senhora está se sentindo bem?

MÃE DE FELIPE – Estou sim, só estou um pouco tonta, não se preocupe.

CAPANGA – Nesse caso eu vou me retirar. Uma boa tarde para a senhora!

MÃE DE FELIPE – Boa tarde...

(Ela fica em silêncio por um período e continua tentado entender a situação, olhando de um lado para o outro)

MÃE DE FELIPE – Que estranho...

(Depois de um tempo ela dá de ombros e retoma suas atividades dentro de casa. Felipe e Angélica estão chegando após a exploração dos arredores do bairro para implantação de bombas e armadilhas. Os dois cruzam com o Capanga antes de entrar no apartamento e ficam muito desconfiados em relação ao estranho. Depois que ele sai, os dois correm para dentro)

FELIPE – Mãe?

ANGÉLICA – Tudo bem com você?

MÃE DE FELIPE – Tudo bem crianças, é claro!

FELIPE – Você viu aquele cara no corredor?

MÃE DE FELIPE – Vi sim!

FELIPE – Ele tinha uma cara suspeita, uma roupa esquisita, parecia até alguém do Sistema. Você não chegou a falar com ele, não é?

MÃE DE FELIPE – Falei sim, qual o problema?

FELIPE – O quê? E se ele for do Sistema? Esses caras são perigosos, se eles entraram aqui no condomínio não deve ser coisa boa...

MÃE DE FELIPE – Perigosos? Não seja ridículo, ele só veio fazer umas perguntas. Não vejo nada de perigoso nisso.

ANGÉLICA – Você enlouqueceu mãe?

MÃE DE FELIPE – Não sei do que vocês dois estão falando.

FELIPE – Mãe, todos os bairros onde existe uma base desses sujeitos tiveram uma pancada de casos de desaparecimento recentemente.

MÃE DE FELIPE – Filho, pessoas desaparecem de vez em quando.

ANGÉLICA – Não três do mesmo condomínio em uma semana mãe!

MÃE DE FELIPE – Vai ver eles não gostaram do Sistema e foram embora. Apesar de que eu nem sei por quê fariam isso, o Sistema é tão bom.

FELIPE (virando para Angélica e falando baixinho) – O que ela tem comido ultimamente?

ANGÉLICA (responde no mesmo tom) – Não sei, o mesmo que a gente eu acho.

MÃE DE FELIPE – Olha só, eles disponibilizam TV, colocaram um supermercado aqui pertinho e até garantem nossa segurança pelas ruas.

FELIPE – Sim, o sinal de TV deles, o supermercado deles e as regras deles.

MÃE DE FELIPE – É claro! E não é muito bom? Temos tudo aquilo que precisamos com qualidade e conforto!

ANGÉLICA (fala baixinho para Felipe) – Ela enlouqueceu...

FELIPE – Mãe, agora é sério, quem era aquele cara saindo do prédio?

MÃE DE FELIPE – Não era ninguém Felipe. Ele veio, fez umas perguntas e foi embora. Agora pare com essas bobagens e vá fazer alguma coisa útil.

FELIPE – Você pode ter certeza de que vou fazer alguma coisa útil.

(Felipe corre para seu quarto. Angélica fica um tempo encarando a mãe, que volta a suas atividades, e depois segue Felipe)

Cena Sete

Cena Sete

(Alex está em seu quarto novamente, sentado, escrevendo)

VOZ DE ALEX – Isso é bom... A história está ficando boa. Logo todos verão o que realmente está acontecendo bem debaixo de seus narizes. Só preciso ser mais rápido. Assim não preciso convencer um a um. Assim todos os que souberem estarão do meu lado...

(Batidas na porta interrompem a concentração de Alex)

“MÃE/PAI” DE ALEX – Xavier?

(Alex ignora o chamado e tenta continuar escrevendo)

“MÃE/PAI” DE ALEX – Xavier?

(Alex bate com a mão na mesa)

“MÃE/PAI” DE ALEX – Uma amiga sua o está esperando.

(Alex se levanta, e enquanto está de costas guardando seu material Daniela se esgueira através do corredor até parar bem próxima de Alex que ao se virar leva um susto com Daniela tão próxima)

DANI – Oi!

(Alex se recupera do susto, então olha para Daniela e sorri. Ela por sua vez tenta olhar por cima de seus ombros para espiar o que ele escrevia )

DANI – A história está ficando boa?

ALEX – (Balança a cabeça e tenta se colocar na frente da linha visão de Daniela para que ela não veja sua história)

DANI – Espero que esteja. De qualquer forma todos os jornais vão querer sua história. A não ser que o Sistema chegue a eles antes, claro. Aí sim eles vão fazer com que ninguém acredite em você. As investigações andam interessantes?

ALEX – (Dá de ombros e começa a andar pelo corredor, pensativo. Depois vira as mãos repetidamente caracterizando um gesto de “mais ou menos” e movimenta os lábios lentamente para que Daniela entenda o que ele diz)

DANI – Todos só repetem o quanto acham o Sistema legal? Isso é muito estranho. Mas você já descobriu bastante coisa, né? Não posso ler nem um pedacinho?

(Daniela começa a andar em direção ao quarto. Alex coloca-se na sua frente tentando convencê-la do contrário)

ALEX – (Sinaliza com as mãos para que ela tenha calma e novamente movimenta os lábios olhando para ela)

DANI (afastando-se da porta) – Ah... Quer deixa-la mais convincente? Tudo bem então. Espero que ela fique bem convincente, porque o Gabriel está louco para fazer mais uma daquelas “reuniõezinhas” dele.

ALEX – (Esfrega a cara com as mãos em sinal de desprezo e depois vira os olhos para cima para indicar extrema falta de paciência. Porém logo faz um gesto em direção à saída)

DANI – Vamos lá então...

(Os dois se retiram)

Cena Oito

Cena Oito

(O grupo se reúne novamente no parque abandonado. Felipe e Angélica esperam por Alex e Daniela que se aproximam. Eles se cumprimentam)

DANI – Ué, quem mais queria fazer essa reunião ainda não apareceu? Estranho...

ANGÉLICA – Nós estávamos nos perguntando a mesma coi...

(Angélica mal termina a frase já é interrompida por Gabriel que chega correndo)

GABRIEL – Vocês não vão acreditar no que acabou de acontecer.

(Todos olham para Gabriel com cara de espanto e curiosidade)

FELIPE – Fala logo!

DANI – Desembucha!

GABRIEL (com muita raiva e entusiasmo) – Eu fui no supermercado comprar peru e batata para a minha mãe, aí eu vi que o preço do quilo da batata tinha aumentado dois reais de ontem para hoje! Será possível isso? Esses filhos da mãe do Sistema...

ANGÉLICA – Por que você não comprou batata que não seja do Sistema?

GABRIEL – Você é louca? As batatas que não são trazidas pelo Sistema são horríveis, deve ter até veneno naquelas lá...

(Todos se entreolham e viram suas caras, decepcionados)

DANI – Tá bom Gabriel. E você fez o quê?

GABRIEL – Fui reclamar com o gerente daquela joça, é claro. Ele falou “Quer reclamar garoto? Isso é com o superintendente do Sistema da região. Tenta lá, vai moleque!”

FELIPE – Você achou o tal superintendente?

GABRIEL – Eu sei lá onde aquele infeliz estava, também não ia ficar perdendo tempo batendo boca com esse tipo de gente, não ia dar em nada mesmo.

DANI – Então você deixou por isso mesmo?

GABRIEL – Lógico que não! Eu voltei para casa e escrevi tudo no meu blog! Quero ver o que eles vão fazer agora que todos saberão como eles sabotam as batatas.

(Todos suspiram com mais desapontamento ainda. Alex dá um tapa em si mesmo)

DANI (em um tom sarcástico) – É claro Gabriel, agora eles ficarão tão ofendidos que é capaz de cortarem seu sinal, ou não deixarem você comprar mais batata.

GABRIEL (com ar irônico) – Pelo menos eu não fico inventando historinhas trancado no meu quarto, não é Alex?

(Alex olha para Gabriel sem expressão nenhuma e ignora o comentário)

ANGÉLICA – Não começa Gabriel.

GABRIEL – Eu estava brincando com ele.

FELIPE – A gente devia pensar em algo bem mais sério dessa vez. Não para irrita-los, mas para fazer com que eles percam o controle e se exponham. Até porque a situação está ficando feia. Até minha mãe está agindo de maneira estranha agora.

(Alex fica curioso e puxa Daniela. Todos voltam seus olhares para Felipe. Daniela observa Alex de perto para interpreta-lo)

DANI (para Felipe) – Ele perguntou como isso aconteceu.

FELIPE – Eu não entendi direito, minha mãe nunca foi muito fã do Sistema, aí do nada ela começou a elogiar, falar que o Sistema é super legal, que nós devíamos agradecer por tudo o que eles fazem por nós...

ANGÉLICA – É, isso tudo depois que uns caras vieram para o condomínio e “perguntaram” um bando de coisas para ela.

(Alex fica inquieto e chega bem próximo de Angélica)

ALEX – (gesticula um “O quê?” para Angélica que não requer tradução)

ANGÉLICA – Uns caras estavam saindo do apartamento dela quando eu e meu irmão estávamos chegando. Eles não me pareciam familiares e nem amigáveis.

DANI – Por que Alex, você sabe de alguma coisa?

(Alex vira-se para Daniela e movimenta os lábios exageradamente)

DANI – As pessoas que ele investigou até agora todas tiveram alguma mudança de comportamento depois de passar por alguma “entrevista” desse tipo.

GABRIEL (interrompendo) – Como é que esse cara investiga as pessoas? Ele nem fala!

(Todos fecham a cara e encaram Gabriel, que, por sua vez, faz cara de desentendido)

ALEX – (gesticula também encarando Gabriel)

(Daniela por algum motivo já sabe, ou supõe o que Alex quer dizer)

DANI – Ele não fala, mas escuta muito bem!

(Os olhares retornam-se para Alex que continua “falando” com Daniela)

DANI – Ele não achou que significava muita coisa porque elas já estavam muito acostumadas com o Sistema. Mas nunca viu sua mãe falando bem do Sistema.

FELIPE – Nem eu, por isso achei estranho. Ela nunca ligou muito para essas coisas, mas sair por aí fazendo elogios não tem nada a ver com ela.

DANI – Talvez isso ajude a história que Alex está escrevendo. Mas só o depoimento de alguns cidadãos não dá matéria. Precisamos de algum podre deles.

ANGÉLICA – Eles devem ter alguma coisa escondida na emissora.

GABRIEL – Essa ideia é minha. Eu que tinha pensado em cortar a energia da emissora, não é Dani?

DANI – Não estamos falando de cortar a energia de ninguém. Queremos a informação que está lá, não que eles percam toda a informação.

(Alex continua gesticulando para Dani)

DANI – Felipe, talvez você consiga invadir os computadores da emissora. Ou até os da base, lá deve ter muita sujeira. O que acha?

FELIPE – Eu posso tentar. Ainda bem que já fiz algumas bombinhas, vai que eles me pegam né.

DANI – Esse é um belo plano para os próximos dias. Contamos com você Felipe.

(Alex olha para Felipe e faz um sinal de “joiapara tentar encoraja-lo)

FELIPE – Que reconfortante.

ANGÉLICA – Não se preocupem, eu vou ajudar.

GABRIEL (começa a cochichar) – Eu não quero interromper o motim, mas está ficando escuro e estou ouvindo alguém se aproximando.

DANI (cochichando também) – Tá legal, depois de amanhã nos encontramos aqui.

TODOS (ainda cochichando) – Lingüiça!

(E cada um corre para seu canto)

Cena Nove

Cena Nove

(Daniela está chegando em seu apartamento. Sua irmã, como de costume, está assistindo TV, completamente alienada)

DANI – Ei, alguém passou por a...

IRMÃ DE DANI – Cale a boca.

DANI – Não, é sério vai, me deixa falar com você.

(Daniela senta ao lado de sua irmã e a encara)

IRMÃ DE DANI (suspira impacientemente) – Tá bom, o quê que você quer?

DANI – Veio algum sujeito esquisito aqui no apartamento ou no condomínio nos últimos dias?

IRMÃ DE DANI (sem tirar os olhos da TV) – Não, só vieram aqueles caras do Sistema semana passada para trocar o sinal de TV de todo mundo, você estava aqui, você sabe.

DANI – Mas além deles não veio mais ninguém?

IRMÃ DE DANI – Já disse que não. Porque veio me fazer esse bando de pergunta idiota?

DANI – Tem umas coisas estranhas acontecendo por aqui, mais estranhas que o normal, e eu estou tentando descobrir quem está por trás disso.

IRMÃ DE DANI – O Sistema, é óbvio.

DANI – Você também acha?

IRMÃ DE DANI – Eu sempre achei. Na verdade, eu sempre soube.

DANI – Então por que nunca me disse antes?

IRMÃ DE DANI – E eu ia te contar para quê? Para você dar uma de louca, sair por aí xingando o Sistema e depois ser sequestrada e voltar que nem um vegetal? Ou pior, nunca mais voltar? Não, obrigada.

DANI – Mas o que você acha deles?

IRMÃ DE DANI – Acho que são um bando de filhos da puta, que ficam manipulando as pessoas como se fossem ratos no laboratoriozinho deles.

DANI (surpresa) – Não sabia que você odiava eles tanto assim ha tanto tempo.

Por que não faz nada?

IRMÃ DE DANI – Eu e que exército? Acha que eu vou me juntar a esses malucos aí andando na rua com placas (ela aponta para a TV)? Se ficar andando na rua só falando bobagem funcionasse a gente já teria um bando de mendigo ocupando cargos públicos.

DANI – Você podia juntar mais gente. Olha o Gabriel, ele não tem nenhuma ideia boa, mas muita gente lê o blog dele.

IRMÃ DE DANI (rindo) – O Gabriel e o blog dele? Se ele disser que tem um caminhão na frente da casa dele distribuindo picolé de graça não aparecem mais que dois dos fãs dele. Eles são frouxos, se acham o máximo na web e tal, e na hora de tirar a bunda da cadeira inventam mil desculpinhas.

DANI – Não posso discordar de você. Qual a sua sugestão?

IRMÃ DE DANI – Espere. Não dá para fazer muito agora. O povo é idiota, nem quando a carniça começar a feder eles verão o que está acontecendo bem debaixo de seus narizes. Mas a verdade sempre vem à tona, de um jeito ou de outro.

DANI – Eu não vou ficar esperando. Vou descobrir o máximo que eu conseguir.

IRMÃ DE DANI – Boa sorte. Ficarei muito bem aqui enquanto tiver comida e TV.

(Dani fica em silêncio por um momento depois vai para seu quarto, sua irmã permanece sentada sem desgrudar os olhos da TV)

Cena Dez

Cena Dez

(Dentro da base do Sistema daquela região, o/a Agente passa as últimas informações e instruções para as próximas operações aos Capangas. Ela/ele entra segurando uma folha de papel)

AGENTE DO SISTEMA – Até segunda ordem continuamos nossas operações no bairro mantendo o nível de discrição de sempre.

CAPANGA – E como anda o novo roteiro para a conversão dos indivíduos que forem encarcerados?

AGENTE DO SISTEMA (mostrando a folha a todos, ou colocando-a sobre alguma carteira) – Tudo o que fizemos foram algumas modificações no roteiro antigo. O Presidente ainda está terminando o novo, está concentrado em torna-lo mais “convincente” pelo que ele falou.

OUTRO CAPANGA – O que você espera dele?

AGENTE DO SISTEMA – Ele parecia confiante. Disse que o projeto vai fortalecer bastante nossa influência.

CAPANGA – Que bom, porque está ficando cansativo bater de porta em porta convencendo cada um.

AGENTE DO SISTEMA – Por falar nisso, preciso que me atualizem sobre o progresso da operação dessa semana.

OUTRO CAPANGA – Nosso progresso tem cumprido as expectativas. O maior supermercado da região já está sob nosso controle.

(A/O Agente começa a tomar anotações nas costas da folha)

CAPANGA – E pelo menos 90% das transmissões de rádio e televisão já estão sendo monitoradas.

OUTRO CAPANGA – Já controlamos aproximadamente 85% da imprensa também, o que inclui as gráficas e editoras locais.

CAPANGA – Por enquanto.

AGENTE DO SISTEMA – Enquanto aos cidadãos?

OUTRO CAPANGA – Temos uma influência muito boa eu diria. Praticamente todos os condomínios da região já foram “questionados”.

CAPANGA – A única coisa que me aborrece são aqueles moleques que ficam zanzando no parque a alguns quarteirões daqui.

OUTRO CAPANGA – Por mim, acho que eles estão tramando alguma coisa.

AGENTE DO SISTEMA – Acham que eles têm potencial para oferecer algum perigo à operação?

CAPANGA – Se não me engano, foi um deles que quase consegui passar pela segurança dos computadores da emissora.

OUTRO CAPANGA – Até sei que moleque que é, olha aqui: Felipe de Abreu Vieira. Eu o vi quando visitamos aquela mulher anteontem. Pestinha...

CAPANGA – Tem certeza de que não é aquele tal de... Gabriel da Silva e Oliveira que escreve uns blogs não?

OUTRO CAPANGA – Não, esse daí não é problema. Ele até escreve suas “rebeldias” lá nos blogs dele, mas nunca toma nenhuma atitude. É até bom que ele continue com esse comportamento, incentiva os outros a fazerem o mesmo. Aí, no final, ficam todos em casa, sem dar trabalho.

CAPANGA – Duvido que eles sejam muito espertos. Só falam demais mesmo. A maioria deles pelo menos.

(O outro Capanga abre um sorriso amarelo)

AGENTE DO SISTEMA – Não se preocupem, se nossos planos continuarem andando, logo eles não serão mais problema. Estão com algum novo alvo em mente?

OUTRO CAPANGA – Eu coloquei uma escuta num apartamento quando fui instalar o cabo de nossa emissora na TV e peguei uma garota falando umas coisas interessantes.

CAPANGA – Era a irmã de uma garota desse grupinho aí.

OUTRO CAPANGA – Ela mesma, Daniela de Alvarenga Peixoto. Parece que a irmã dela está precisando de uma correção de curso.

AGENTE DO SISTEMA – Perfeito. Comportamento subversivo não será tolerado. Esse é um ótimo lugar para começar.

OUTRO CAPANGA – Não sei, algo me diz que essa daí vai ser mais difícil.

CAPANGA – Vai nada, a traremos para cá o quanto antes.

(Os Capangas se entreolham e sorriem novamente)

OUTRO CAPANGA – Entramos nós dois então, não quero correr riscos com essa.

AGENTE DO SISTEMA – Podem começar imediatamente. Nos encontraremos novamente para a atualização do roteiro daqui a dois dias. Dispensados.

(Os Capangas seguem seus caminhos enquanto A/O Agente sai pelo lado oposto)

Cena Onze

Cena Onze

(Alex, e Daniela chegam à casa de Felipe para discutir com ele como obter mais informações para expor o Sistema. Enquanto os três conversam, a mãe de Felipe arruma a casa e Angélica escreve baboseiras no computador)

FELIPE – Oi Dani! Tudo bem Alex?

(Dani beija a bochecha de Felipe e vai espiar Angélica)

ALEX – (simplesmente balança a cabeça ao cumprimentar Felipe)

DANI – Tudo bem. Oi para você também Angélica.

(Angélica, muito concentrada no computador murmura algo ininteligível. A mãe de Felipe trata a todos como crianças)

MÃE DE FELIPE – Oi galerinha! Como vocês estão? Será que eu posso fazer um lanchinho ou trazer alguma coisa para vocês?

FELIPE (olhando para a mãe impaciente) – Mãe, nós sabemos onde é a cozinha se precisarmos.

MÃE DE FELIPE – Tudo bem, só não façam muita bagunça, viu?

(Eles se entreolham sem nenhuma expressão. Dani segura um riso e Felipe suspira conforme sua mãe se retira)

FELIPE – Não deem muita bola para ela não. Eu achei que ia mudar para mim quando minha irmã nasceu, mas só piorou. Enfim, vamos fazer uma recapitulação antes de encontrar o Gabriel.

DANI – Okay, sabemos que o Sistema controla praticamente tudo por aqui, e agora estão tentando “converter” a parte da população que não o apoia fazendo algum tipo de lavagem cerebral. O Alex descobriu que isso vem acontecendo há um bom tempo.

FELIPE – Então precisaremos de informações bem sólidas para trazer as pessoas para nosso lado.

ALEX – (cutuca Daniela e começa a gesticular e mover os lábios)

DANI – Ele perguntou se conseguiu invadir os servidores da emissora.

FELIPE – Consegui, mas o problema é que não tinha nada de útil lá. Tudo o que encontrei foram agendas sobre a programação semanal, alguns arquivos de propagandas políticas e listas de programas não permitidos.

ALEX – (cutuca novamente Daniela e sacode a cabeça afirmativamente. Daniela já pressente o que ele quer dizer)

DANI – É, isso pode nos ajudar. Mas eles já devem ter uma desculpa preparada para isso. Precisaríamos de um impacto bem maior para acordar as pessoas.

FELIPE – O interessante foi que não encontrei nenhuma informação sobre a base deles. Alguns arquivos criptografados que encontrei entre os dados da emissora lembram uma ficha de acompanhamento médico, como se estivessem conduzindo algum tipo de experimento com pacientes em certas instituições. A base pode ser uma dessas...

ALEX – (olha para Daniela e move os lábios ansiosamente)

DANI – Também acho, isso não deve significar nada bom. O quê (observando Alex)? Tem algum outro jeito de chegar aos servidores da base.

(Angélica começa a rir incontrolavelmente. Todos param e olham para ela, depois a ignoram e continuam a conversar enquanto ela se recompõe e volta sua atenção para o computador)

FELIPE – Duvido muito, eles devem ter colocado tudo num mainframe dentro da base, só ficando de cara com o computador de lá para acessar as informações.

DANI – Parece que não tem jeito mesmo. Se conseguíssemos pelo menos achar algum maluco do Sistema e seguir o sujeito, ou sei lá...

MÃE DE FELIPE – Vocês disseram alguma coisa sobre o Sistema aí?

FELIPE – Qual o problema mãe?

(Ela olha para o grupo espremendo os olhos)

MÃE DE FELIPE – Espero que não estejam tramando nada, hein. Não quero ninguém reclamando de vocês por estarem arrumando problema.

FELIPE – Mãe, você realmente acredita que o Sistema tem sido bom para nós?

MÃE DE FELIPE – Filho, não é o bastante só acreditar. Eles realmente mostram todos os dias que só querem o melhor para nós. Selecionam os melhores alimentos para distribuir nos supermercados, os melhores programas para a televisão e até garantem nossa segurança.

(O grupo se entreolha novamente, surpresos com as crenças da mãe de Felipe. Ele tenta contornar a situação)

FELIPE – Não estamos “tramando” nada não mãe.

MÃE DE FELIPE (retomando suas atividades na casa) – Ainda bem, não queria meus filhos com pensamentos rebeldes assim na cabeça.

FELIPE (em um tom baixo dirigindo-se ao grupo) – Qualquer que seja a história que estão contando nessa lavagem cerebral aí esta funcionando muito bem.

ALEX – (diz alguma coisa a Daniela)

DANI – Não se preocupe, sua história vai ficar bem melhor. Quando a imprensa e as outras pessoas verem como você está certo não apoiarão mais o Sistema.

ALEX – (ele sorri e fala algo mais para Daniela enquanto aponta para ela e Felipe)

DANI – Tá bom, nossa história.

ANGÉLICA – Que história?

FELIPE – Nenhuma. Vamos sair para encontrar o Gabriel, quer vir com a gente?

ANGÉLICA – Sério? Logo agora?

FELIPE – É, algumas pessoas gostam de encontros físicos de vez em quando sabe.

ANGÉLICA – A gente podia fazer uma vídeo conferência.

FELIPE – Com cinco pessoas que moram na mesma rua? Deixa de ser folgada, vamos.

(Daniela e Alex dão risada e seguem Felipe e Angélica para fora de casa)

Cena Doze

Cena Doze

(Base do Sistema. Os dois Capangas trazem a irmã de Daniela, com um pano sobre a cabeça, que esperneia e tenta ao máximo escapar deles. Ela é colocada e amarrada a uma cadeira. Alguns momentos depois entra A/O Agente do Sistema carregando uma folha de papel e se senta em uma cadeira à frente da irmã de Daniela, que tem então o pano retirado de sua cabeça)

CAPANGA – Essa foi difícil senhor(a). Mal conseguimos entrar no apartamento para pegá-la e fazê-la parar de gritar.

OUTRO CAPANGA – Quase não pudemos seda-la também. Até poucos momentos atrás ela estava tranquila, agora o efeito passou.

AGENTE DO SISTEMA – Veremos o quão rebelde ela é então. Fiquem de olho para ver se ela não tenta se desamarrar.

IRMÃ DE DANIELA – Se eu me desamarrar você já era!

AGENTe DO SISTEMA – A gata tem garras. Por que essa rebeldia toda? Só queremos fazer algumas perguntas.

IRMÃ DE DANIELA – Então o que aconteceu com todos aqueles que não voltaram? Não deram as respostas certas é?

CAPANGA – Claro que deram respostas certas. Na opinião deles eram certas.

IRMÃ DE DANIELA (irônica)– Imaginei.

AGENTE DO SITEMA – Não entendo o por quê de tanta raiva assim. Nós somos tão bons para você, sua família e todo o resto.

IRMÃ DE DANIELA – Bons? Vocês são tão bons quanto um mestre é bom para seu escravo!

OUTRO CAPANGA – Nunca vi ninguém acorrentado ou sendo maltratado aqui.

IRMÃ DE DANIELA – Como se isso fizesse alguma diferença. Suas correntes são outras e não é preciso maltratar somente o corpo para se praticar escravidão.

AGENTE DO SISTEMA – Interessante. Mas ainda não entendo, não saímos por aí controlando a mente de ninguém.

CAPANGA – Simplesmente abrimos os olhos das pessoas para que elas entendam o que realmente está acontecendo.

IRMÃ DE DANIELA – Abrir os olhos das pessoas? Vocês as cegam, isso sim!

OUTRO CAPANGA – Nós as cegamos? Nem fizemos nada com você, como pode nos acusar de algo tão cruel assim?

CAPANGA – Ainda disponibilizamos informação, TV a cabo, conforto, acesso à internet sem cobrar quase nada.

IRMÃ DE DANIELA – Lógico. Disponibilizam os programas que vocês querem que vejamos e observam cada clique.

AGENTE DO SISTEMA – Você andou ouvindo muitos rumores mal intencionados, isso sim. Tudo o que fazemos é para garantir a sua segurança.

IRMÃ DE DANIELA – Aí aproveitam para garantir também que todos sigam suas ordens e que vejam e comprem o que vocês querem.

OUTRO CAPANGA – Não é culpa nossa, nossos produtos são de melhor qualidade.

IRMÃ DE DANIELA – O fato dos outros distribuidores terem desaparecido também não é culpa de vocês também, certo?

AGENTE DO SISTEMA – Mais rumores mal intencionados. O que temos de dizer para convencê-la de que o nosso objetivo é simplesmente direciona-los para um caminho mais benéfico para vocês mesmos e aqueles à sua volta?

IRMÃ DE DANIELA – E pretendem fazer isso tirando nossa liberdade? Eu prefiro morre a viver assim!

AGENTE DO SISTEMA – Cuidado com o que fala garota.

IRMÃ DE DANIELA – Ou o quê? Vão cortar minha língua agora é?

(A/O Agente e os Capangas se entreolham e permanecem em silêncio. A irmã de Daniela continua esbravejando)

IRMÃ DE DANIELA – Vão precisar de muito mais que isso para me deter! Essa pirâmide de baralho que vocês montaram até agora logo vai desmoronar!

CAPANGA – Acho que essa não tem jeito mesmo.

OUTRO CAPANGA – Quer que a sedemos de novo?

AGENTE DO SISTEMA – Não, deem mais um tempinho para ela. O Presidente pode testar seu novo roteiro com ela para tentar convencê-la. De qualquer forma, talvez o frio de nossas celas a façam mudar de ideia. Se não, será até bom que ela se acostume a não ser ouvida mesmo.

CAPANGA – Depois estamos liberados?

AGENTE DO SISTEMA – É claro que estão liberados. Liberados para voltar à operação.

(Os Capangas murmuram, desapontados, então se aproximam da irmã de Daniela, que continua se debatendo e gritando enquanto o saco é colocado novamente em sua cabeça. Ela é então arrastada para fora da sala. A/O Agente dá um suspiro e sai na direção oposta levando a folha de papel)

Cena Treze

Cena Treze

(Novamente o grupo se encontra no parque abandonado para decidir o destino de sua missão. Gabriel parece já estar esperando-os há certo tempo)

GABRIEL – Vocês demoraram, hein?

DANI – Estávamos discutindo sobre as últimas descobertas do Felipe.

GABRIEL – Sem mim, né? Que legal. Querem saber? Não importa, sabem por que? Eu cansei de ficar escutando vocês dizendo que eu não faço nada, e blá blá blá, e decidi fazer alguma coisa.

(O grupo se aproxima e volta sua atenção para Gabriel, e todos demonstram estar

extremamente curiosos para saber o que ele inventou)

TODOS (menos Gabriel) – O QUÊ?

GABRIEL – Eu iniciei um novo evento no blog!

(Todos viram a cara, decepcionados, suspiram e fazem gestos de completo desprezo em relação a Gabriel)

GABRIEL – É brincadeira, eu nem tinha por que fazer mais um evento.

(Todos param de desdenha-lo e agora o encaram)

GABRIEL – Eu fui até a base do Sistema ontem.

(Comoção total do grupo, que agora se aproxima de Gabriel com curiosidade)

ANGÉLICA – E aí?

GABRIEL – Eu não vi nada, nem ouvi nada, parecia mais um cemitério, e eu fiquei lá bastante tempo. Mas parece que aquele portão pelo qual eles entram tem algum tipo de senha. Nem arrisquei tentar nada por que eles podiam perceber.

FELIPE – Que tipo de senha é?

GABRIEL – Só uns números.

DANI – Estranho, não parece ser muito seguro para quem tem tanta coisa para esconder em um lugar como aquele.

GABRIEL – E você, descobriu alguma coisa hackeando a emissora, Bill Gates?

FELIPE – Nada muito útil. Muito menos alguma senha.

GABRIEL – Será que eles não “encriptaram” a senha em algum arquivo, ou qualquer maluquice dessas aí?

FELIPE – Os arquivos criptografados que achei não pareciam conter nada significativo.

ANGÉLICA – Eles podem ter escondido a senha em algum item dessas listas...

DANI – Eles não seriam tão descuidados assim.

FELIPE – E se fosse assim eu teria notado alguma coisa diferente.

DANI – O único jeito de descobrir alguma coisa será seguindo algum deles até lá.

GABRIEL – Isso vai ser bem difícil, eu fiquei horas parado lá na frente e não passou nem pomba lá perto.

ANGÉLICA – Talvez eles tenham alguma outra entrada e só deixam aquela lá para confundir.

FELIPE – Pode ser, mas só descobriremos encontrando e seguindo algum deles.

ALEX – (faz um sinal para que todos fiquem em silêncio)

GABRIEL – Eu ouvi alguma coisa também, abaixem-se.

(Todos se agacham e procuram algo para se esconder. Ao fundo pode-se escutar passos rápidos que, ao ficarem mais altos, somam-se a respirações ofegantes que se aproximam. Logo vê-se uma VÍTIMA DO SISTEMA correndo, tentando escapar de um Capanga que o acompanha bem próximo)

VÍTIMA DO SISTEMA – Corram! Corram!

(O CAPANGA então o alcança e o agarra de maneira que os dois vão ao chão. A Vítima tenta se desvencilhar sem sucesso, até que chega correndo outro CAPANGA e ajuda a imobiliza-la. Os dois CAPANGAS então seguram a VÍTIMA, que esperneia e grita, e a carregam para fora do palco. O grupo permanece escondido, completamente extasiado pela situação presenciada. ALEX rapidamente se levanta e tenta correr atrás dos CAPANGAS, porém é impedido por GABRIEL, que segura seu braço)

GABRIEL – Você é louco?! O que está tentando fazer?

DANI – Alex, não faça isso!

ALEX – (tentando obrigar Gabriel a soltar seu braço enquanto diz alguma coisa para Daniela)

DANI – Não, você não pode ir atrás deles agora! Eles o pegarão também!

GABRIEL – É, deixe-os Alex, é só um moleque!

(Alex subitamente para de lutar e encara Gabriel, furioso. Bruscamente se solta de Gabriel e tenta dizer algo a ele, encarando-o com um olhar fulminante)

DANI – Não Alex, ele não quis dizer isso...

ALEX – (dando um passo atrás, repete o que tentou dizer a Gabriel)

VOZ DE ALEX (furioso) – “Só” um moleque?!

(Ele empurra GABRIEL com raiva que se afasta com um olhar espantado. Nesse momento, sugiro que os atores de ALEX e da VOZ DE ALEX, e do resto do grupo também, se exaltem o máximo possível. Eles podem falar com a plateia, ALEX pode falar também, o grupo pode falar em coro, etc.)

ALEX – (aponta para Gabriel)

VOZ DE ALEX – Você é só um moleque! Vocês são só moleques! Todos satisfeitos, sentados em seus quartinhos em frente a seus computadores! Reclamando de tudo, como se todos quisessem escutar suas bobagens! Como se não houvesse ninguém além de vocês, ninguém do lado de fora de suas casas! Como se os problemas do mundo tivessem de ser resolvidos para seu benefício! Medrosos demais para se importarem com o sofrimento de quem está a seu lado! Medrosos demais para levantar um dedo quando a realidade se mostra à sua frente! Cegos por sua própria ignorância! Cegos demais para ver o quanto são estúpidos, vivendo entre estúpidos e sendo manipulados por mais estúpidos!

(Breve pausa onde todos encaram Alex, ainda espantados)

VOZ DE ALEX – E ainda que tenham forças para gritar, preferem ficar se lamentando nas páginas sociais de costas para o problema. Eu não posso me dar esse luxo. Se não posso gritar, prefiro fazer alguma coisa.

(Todos continuam encarando-o, em silêncio. Alex se afasta e corre na direção que os Capangas tomaram. Os outros então se entreolham)

GABRIEL – Vocês entenderam alguma coisa disso aí?

FELIPE – Eu não.

DANI – Nem eu. Mas ele parecia estar com muita raiva.

ANGÉLICA – Pareceu até que ele quis nos acordar para alguma coisa.

(O grupo fica em silêncio por um momento, se recuperando da explosão de Alex, da qual não entenderam nada)

GABRIEL – Não é uma boa ideia ficarmos aqui parados agora.

FELIPE – É, de onde aqueles dois vieram devem estar vindo mais.

DANI – Mas vocês vão simplesmente deixar que o Alex vá sozinho?

GABRIEL – Ele que deu piti e ficou bravinho com a gente, duvido que ele queira que fossemos junto, né? E também ele os Capangas com certeza não escutarão.

ANGÉLICA – Ele vai voltar Dani. Ele tem uma história para terminar.

DANI – Mas...

GABRIEL – Vamos!

(Gabriel puxa Daniela pelo braço e todos saem correndo do palco. Blackout)

Cena Quatorze

Cena Quatorze

(Daniela está com Gabriel em seu apartamento. Ambos estão inquietos, porém Daniela parece estar ainda mais por não ter encontrado sua irmã ainda)

DANI – Meu Deus, o que será que pode ter acontecido com ela? Será que a pegaram? Por que ela não simplesmente coopera para poder voltar para casa?

GABRIEL – Calma, vamos só parar para pensar um pouco.

DANI – Parar para pensar? Minha irmã sumiu, e agora o Alex foi atrás daqueles malucos também! O que poderia ser pior?

GABRIEL – Nós estamos aqui. Temos que pensar em como podemos ajudar.

(Felipe chega com Angélica, os dois também extremamente inquietos)

FELIPE – Alguma notícia do Alex?

DANI – Não, já deve fazer umas oito horas que ele não aparece, e a minha irmã ainda mais tempo!

ANGÉLICA – Ela não estava aqui quando vocês chegaram?

GABRIEL – Não, e a TV ficou ligada. Estranho.

DANI – Estranho nada, é óbvio que a levaram!

FELIPE – É, e se conheço sua irmã, ela deve ter dado bastante trabalho.

ANGÉLICA – O que faremos agora?

GABRIEL – Não tem mais nenhum jeito de entrar na base Felipe?

FELIPE – Não tem como, foi difícil até de achar qualquer tipo de informação sobre essa base em qualquer lugar!

DANI – Vamos procurar alguém do Sistema lá na emissora e fazer o infeliz cuspir a senha!

ANGÉLICA (começando a ficar animada) – Vamos entrar com porretes para cima deles?

GABRIEL – Não, vocês são loucos! Deve ter uns quinhentos caras contra nós lá!

FELIPE – Não temos muita escolha mesmo.

(Nesse momento entra Alex correndo e muito ofegante. Ele não parece mais estar com raiva, mas está extremamente agitado também. Todos se surpreendem com sua volta e tentam ajudá-lo a se acalmar. Daniela o abraça)

DANI – Alex! Achei que eles o tinham pego!

ALEX – (sorri para ela, mas logo volta a ficar com um semblante sério, olha ao redor do apartamento e gesticula algo)

DANI – Não, não encontramos minha irmã. Estou com muito medo. Acho que eles a pegaram, e se fizeram isso vai ser difícil para ela voltar.

(Alex a segura e os outros tentam consola-la também)

GABRIEL – Calma, vai dar tudo certo Dani.

FELIPE – Então Alex, seguiu os caras até a base? Conseguiu entrar?

ALEX – (olha fixamente para Daniela e começa a mover os lábios)

DANI – Tá você consegui segui-los. Mas não conseguiu entrar na base.

GABRIEL – Como assim?!

(Todos olham para Gabriel e dizem: “SHH!”)

GABRIEL – Tá bom, continua.

ALEX – (novamente volta-se para Daniela e continua movendo os lábios)

DANI – Você acha que conseguiu a senha?

FELIPE – Vamos atrás deles agora!

ALEX – (sinaliza para que todos se acalmem e continua “falando” com Daniela)

DANI – Precisamos nos preparar. Entraremos todos juntos, temos de ser rápidos, mas silenciosos. Vamos levar tudo o que acharmos útil e ameaçador por aí.

GABRIEL – Nisso eu posso ajudar. Eu tenho uma porrada de tacos de basebol lá em casa, se alguém chegar perto é só balançar.

DANI – Essa é uma boa ideia. Felipe, você tem alguma coisa interessante, não?

FELIPE – Se você acha armas de choque interessantes, sim! Vou levar todas que tenho, não pouparei esforços para descobrir que tipo de experiências eles podem ter feito com minha mãe para deixa-la daquele jeito.

ANGÉLICA – Muito menos eu. E também tenho uns sprays legais que devem irrita-los bastante!

DANI – Peguem tudo o que tiverem em casa então e preparem-se. Daqui a exatamente uma hora nos encontramos no portão da base e entramos, é bom que estejam animados.

GABRIEL – E como! Imagine como vai ser colocar no meu blog que invadimos a base do sistema!

DANI (em um tom irônico) – É, vai ser super legal, seus fãs vão adorar.

GABRIEL – Você pode até achar meio inútil, mas eu tenho um compromisso de não desapontar meus seguidores.

ALEX – (se aproxima de Daniela e move os lábios)

DANI – É, você vai escrever para pessoas bem mais importantes e tira-las desse sonho. E eu preciso resgatar minha irmã, não quero nem pensar no que podem estar fazendo com ela. Vamos, temos de ser rápidos!

(O grupo começa a se dispersar, mas é interrompido por Gabriel)

GABRIEL – Não estão se esquecendo de nada não? É nossa missão mais importante, temos que fazer direito!

(O grupo se aproxima novamente, impaciente. Juntam suas mãos e gritam)

TODOS – LINGÜIÇA!

(E se dispersam, correndo, cada um para um canto)

Cena Quinze

Cena Quinze

(O grupo acaba de entrar na base do Sistema. O clima é tenso e todos estão segurando alguma coisa, seja uma lanterna, um pedaço de madeira ou segurando-se uns aos outros. O ambiente é sombrio, a luz fraca e ocasionalmente pisca e apaga por alguns segundos, deixando todos em puro breu. Apavorados eles começam a lentamente se afastar da porta, que imediatamente se fecha atrás deles, provocando um grito de susto de Angélica e Daniela)

ANGÉLICA/DANI – AHH!

GABRIEL – Shh! Silêncio!

ANGÉLICA (gritando com Gabriel) – Silêncio é a sua... !

FELIPE (interrompendo Angélica) – Shh!

ANGÉLICA (cochichando para Gabriel) – Silêncio é a sua mãe! Você não viu aquela porta?

(Alex, com um ar muito calmo, toma a frente do grupo e começa a andar meio agachado, vagarosamente, fazendo sinal para que o sigam)

FELIPE – Que lugar horrível. Como é que eles trabalham aqui?

ANGÉLICA – Até o cheiro daqui é horrível.

GABRIEL – Isso aqui parece mais um frigorífico. Não vou ficar surpreso se daqui a pouco virmos uns bois pendurados por aí.

ANGELICA – Vai ver cada base tem uma função. Essa daqui distribui carne.

FELIPE – Para quê eles trariam pessoas para cá então?

(Um grito vindo dos confins do corredor corta o silêncio que permeava no ambiente)

GABRIEL – Isso está ficando cada vez mais estranho...

DANI (apontando para uma mancha no chão) – Meu Deus, o que é aquilo? Não é sangue, é?

ANGELICA – Espero que não, eu quero sair daqui inteira e o mais rápido possível.

(A luz apaga por um momento. Todos se juntam e ficam inertes)

FELIPE – Fiquem em silêncio e não se mexam.

DANI – Quem encostou em mim?

(Silêncio total)

DANI (entre dentes) – Gabriel...

GABRIEL – Eu não fiz nada, é sério! Estou quieto!

ANGÉLICA – É verdade Dani, ele está do meu lado.

DANI – Então quem...

(A luz se acende novamente. Todos se entreolham e suspiram)

FELIPE – Isso foi estranho.

(Escutam-se mais gritos de bem longe)

ANGÉLICA – Eu quero sair daqui! Agora é sério!

GABRIEL – Calma Angélica, não podemos estar muito longe.

DANI – Vamos acabar com isso logo, vamos.

(O grupo começa a se movimentar novamente, em um passo ainda mais lento que antes até que atingem uma bifurcação)

FELIPE – Alguém aqui sabe para onde estamos indo?

ALEX – (cutuca Daniela e começa a dizer-lhe alguma coisa)

DANI – Você sabe? Confiar no seu instinto? Tá, continua... Vamos ter de nos separar? Não gosto dessa ideia.

GABRIEL – Você é louco? Eu odeio essa ideia!

(A luz se apaga novamente. Escutam-se passos rápidos bem próximos à frente do grupo, se afastando)

ANGÉLICA – O que foi isso?

FELIPE – Calma, vamos só esperar bem quietinhos.

(A luz volta a acender. Alex não se encontra mais com o grupo. Com isso o grupo começa a ficar agitado)

DANI – Onde é que está Alex?!

ANGÉLICA – Como assim?! Para onde ele foi?!

GABRIEL – Silêncio! Vão acabar percebendo que estamos aqui!

FELIPE – Ninguém aqui se mexeu quando apagaram a luz, não é?

ANGÉLICA – Droga, temos que sair logo daqui! Vamos voltar, por favor!

DANI – Não podemos simplesmente sair daqui depois de tudo isso, né? Muito menos depois de o Alex ter sumido desse jeito!

GABRIEL – Mas nem sabemos para onde estamos indo! E depois disso não vamos nos separar!

FELIPE – Claro que não! Vamos só continuar andando em frente, juntos então.

(Mais uma vez a luz se apaga. Dessa vez se escuta Gabriel gritando, caindo no chão e se afastando do resto do grupo, que não faz ideia do que está acontecendo. Quando a luz volta Gabriel não está em nenhum lugar para ser visto. Os três restantes começam a entrar em pânico)

ANGÉLICA – Ah não, Gabriel também!

DANI – Tá bom, isso passou dos limites, temos que sair daqui!

FELIPE – Alguma de vocês lembra para onde é a saída? Eu acho que é para lá...

DANI – Deve ser, vamos ficar de costas uns para os outros assim vemos tudo ao nosso redor.

(Nesse momento a luz se apaga novamente e dessa vez o grito agudo de Angélica preenche a sala. Ela cai e rapidamente também é arrastada para longe dos outros apesar das tentativas para segura-la. A luz volta)

FELIPE – Caramba, o que vocês querem de nós?!

DANI – Vamos sair daqui, vamos!

FELIPE – Você está bem? Segure-se em mim, não solte!

(De novo a luz se apaga. Felipe começa a ser puxado e Dani tenta segurá-lo, mas não consegue e os gritos do dois são em vão. A luz volta e somente Daniela se encontra no meio da sala, sentada no chão, mal conseguindo segurar suas lágrimas. Blackout. Só se escutam os gritos de Daniela, ecoando de cada vez mais longe)

Cena Dezesseis

Cena Dezesseis

(Alex está sentado na carteira em seu quarto, escrevendo numa folha de papel, terminando sua história)

VOZ DE ALEX – Finalmente. Essa será uma linda conclusão para o meu trabalho. Espero que isso os convença. Preciso que todos vejam. Preciso que todos escutem. Que todos saibam a verdade, que acreditem nela. E mais do que isso. Que tenham a força para mudá-la.

(Alex se levanta, se prepara para sair de seu quarto. No momento em que ele se levanta carregando a folha de papel , escuta-se a voz da “Mãe/Pai”de Alex/Agente do Sistema)

“MÃE/PAI” DE ALEX/AGENTE DO SISTEMA – Está pronto?

(Alex olha para fora e sacode a cabeça positivamente. Então ele sai, andando calmamente, com a folha de papel em sua mão, esboçando um leve sorriso em seu rosto)

Fim.

Table of Contents