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O Primeiro Vôo De Ícaro / Luís Alberto de Abreu

O PRIMEIRO VÔO DE ÍCARO

Luís Alberto de Abreu

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do Projeto Conexões Teatro Jovem e fez parte do seu portfólio no ano de 2008. Qualquer montagem fora do Projeto deverá ser negociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos autorais. SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais) sbat13@ism.com.br

Personagens

História Zilah:

Zilah

Mãe

Dioni

Traficante

Vizinha

Chefe

Amiga

História Leona

Leona

João Pedro

Mirinho

Zédu

Alice

Joel

História Joel

Joel

Pai

Mãe

Amigo

PRIMEIRO CANTO DE ZILAH

PALCO NU. UM GRUPO DE ESTUDANTES TOMA O PALCO

DANÇANDO. É A FESTA DE FORMATURA DE UMA ESCOLA DE

ÍCARO CAINDO AO MAR EGEU COM O SOL AO FUNDO. PROFESSOR

ENTRA NO PALCO, É ALGUÉM NA FAIXA DOS CINQUENTA ANOS

COM UNS POUCOS CABELOS GRISALHOS. ELE SE DIRIGE À

PLATEÍA COMO NUMA PALESTRA.

PROFESSOR Contam que o engenhoso arquiteto Dédalus construiu para ele e seu filho asas de penas coladas com cera e assim fugiram do labirinto de Creta onde foram deixados para morrer pelo rei Minos. Deslumbrado em poder voar, Ícaro cruzou a liberdade do ar e subiu cada vez mais alto na direção do sol até que a cera de suas asas derreteu e ele caiu para a morte no mar Egeu. Homens e mulheres lamentaram a imprudência do jovem, mas enquanto durou o vôo, com certeza não houve no mundo alguém mais feliz nem ninguém voou tão perto do sol. (PROJETA-SE A IMAGEM DA ARQUITETURA PESADA DE UMA DE ESCOLA DO ESTADO NA PERIFERIA) É feia, suas formas em concreto lembram uma prisão, mas aprendi a amar seus corredores frios e pesados em nome da alma e da alegria que circulavam por eles: tantos ícaros de asas frágeis coladas com cera! (PROJETA A IMAGEM DE UMA CLASSE) Sou um professor, é claro. De segundo grau, do Estado, da periferia. Dizem que um professor de verdade não deveria perder um único aluno. Eu tenho perdido alguns para a violência, para as drogas, para a desesperança. Dói, mas não conto as perdas que, de resto, são inevitáveis, prefiro contar os ganhos. (PROJETA UMA FOTO DE FORMATURA DE SEGUNDO GRAU) Lembro-me desse grupo, dessa noite de formatura, e em especial, da história de alguns deles. (A IMAGEM DE UMA GAROTA NEGRA SE DESTACA NA FOTO PROJETADA) Zilah.

PRIMEIRO CANTO DE ZILAH

GRUPO DE ATORES ENTRA CANTANDO A BALADA DE ZILAH.

ATORESVeio ao mundo numa noite de chuva

Combinou com a pobreza como a mão e a luva

Chorou fraco em protesto no barraco estreito

Em seu pequeno peito o ar da vida penetrou.

Com cheiro de miséria.

Um papelão por leito, um trapo por cobertor,

E ainda por resto,

Um pai com cara séria que profetizou:

Mulher, vou ser honesto

Esse caco de gente não vai vingar

ZILAHMas Zilah vingou!

Aos trancos e barrancos chegou ao primeiro ano

‘Ao segundo não chega’ uma vizinha decretou

Não faça planos! O doutor falou: pneumonia grave, é ave de rapina que fincou as garra no pulmão da menina. A fina linha da vida ameaçou arrebentar.

A menina lutou, mas pra que lutar?

A luta é vã, disse a vizinha,

Essa vida é malsã, escuta o que eu digo,

Se conforme em Deus,

Não dura uma semana,

Não dura um dia, disse o doutor, não dura até amanhã.

ATORESMas Zilah durou! ‘

Não tem bom senso de cumprir as profecias

Com rebeldia afronta o futuro que lhe dão

É de opinião. E grita não ao amanhã sem alegria

Um dia não é nunca igual ao outro.

A vida é um sopro, é nisso que acredita.

Moça bonita, mas tem a boca dura

E não se conforma com o mundo em que está.

ZILAHA vida é um sopro

Meu futuro há de ser leve

ATORESVocê busca o que não pode

Você quer o que não deve

Se conforma, Zilah!

Mas Zilah não se conformou!

ZILAHAos quinze anos amou como se ama aos quinze anos. (UM GAROTO, DIONI, SE APRESENTA DO OUTRO LADO DO PALCO. ZILAH O OLHA E SE ABRE NUM SORRISO. DIONI SORRI IGUALMENTE. OS DOIS SE APROXIMAM ENQUANTO NARRAM)

DIONIAos quinze anos o amor vaza pelos olhos por não caber dentro de nós.

ZILAHAos quinze anos basta um olhar, um sorriso e temos a certeza definitiva que é ele e é pra sempre e é pra tudo. Foi assim. Um olhar que atravessou a rua de terra da periferia, a cerca de varas, o quintal da casa, o coração de Dioni.

DIONIE agitou meu sangue. Aos quinze anos a vida é só sede e todas as águas do mundo não bastam.

ZILAHAos quinze anos o amor é abismo e repouso; é o impossível que existe ao alcance da mão.

DIONIAos quinze anos aprendemos o impossível, para sempre. (ABRAÇAM-SE COM AMOR. SUBITAMENTE, ZILAH AFASTA DIONI DE SI E VIRA-SE DE COSTAS PARA ELE. DIONI PERPLEXO) Que foi?

ZILAH(IRRITADA) Você sabe!

DIONIO que é que eu sei? (ZILAH SE VOLTA PARA ELE E O ENCARA UM TEMPO. DIONI ENTENDE) Já lhe contaram? Esperava que entendesse.

ZILAHNão entendo!

DIONIPorra, Zilah! Tudo o que tenho é um par de calças, um tênis rasgado e três camisas... É só um tempo...

ZILAHNão é só um tempo, você sabe!

DIONIEstou de saco cheio de fazer bico, de nunca ter nada! A gente não tem alternativa.

ZILAHTem!

DIONINão vou viver como meu pai perdendo a vida e a saúde em troca de salário...

ZILAHEle tá vivo até hoje!

DIONINão agoura, não chama!

ZILAHNão tô chamando! (PAUSA. CHORA.) É medo... Cai fora!

DIONINão dá. Na construção, na grande obra do país, é isso o que nos sobra! Gente pobre é nada, é barco que soçobra numa virada de vento. E quem não tem alento, não tem porto. A gente é peso-morto que se dobra à força do momento.

ZILAHNão tem que se dobrar!

DIONIO paraíso existe, Zilah, mas tá fechado pra nós, na porta um anjo-meganha armado, fuzil em riste. É triste, mas assim é o mundo.

ZILAHNão é, não pode ser.

DIONIMe abraça!

ZILAHNão! Cai fora dessa!

DIONINão posso, você sabe. É só um tempo...

ZILAHNão é. (DIONI A ABRAÇA)

DIONIOlha a lua, faz tempo que ela não abre bonita assim. (OLHAM) A gente vive é hoje e hoje você é a água da minha sede. (ABRAÇAM-SE. ZILAH NARRA ABRAÇADA A DIONI)

ZILAHAs casas toscas, as ruas de terra, os becos apertados e sujos ficaram lindos banhados pela lua. O frio da noite convidava ao abraço. Não recusei mesmo com uma neblina de tristeza que me caia sobre os olhos e sobre a alma.

PROFESSORDizem que quinze dias depois numa madrugada de tempestade, encontraram Dioni seminu, estendido no campinho de terra, baleado quinze vezes, com o sangue já lavado pela chuva. Desculpem a dureza da descrição, mas foi de forma dura assim que contaram para Zilah. Foi um curto vôo de peão do tráfico! Por dia, dia e dia Zilah chorou, chorou e chorou. No quarto dia respirou fundo, delicadamente dobrou e redobrou toda a extensão da tristeza, guardou e fechou tudo sem ruído na gaveta do fundo de seu coração. E foi em frente.

SEGUNDO CANTO DE ZILAH

ZILAHCom seu enorme olho de prata

A lua no céu mirou a cidade dividida

Em centro e periferia

E tantas histórias brutas e breves

Outras leves disputas

E no meio da luta

Zilah olha em volta de sua neblina.

É pouco mais que menina

E já lhe pesa a vida adulta.

Olhos cegos tentam devassar o escuro.

Não chore, Zilah, o dia de ontem

O dia de hoje pode iluminar o seu futuro.

Com seu enorme olho de prata

A lua no céu mirou a menina dividida.

PROFESSORNo dia seguinte Zilah voltou ao trabalho, mas não foi por muito tempo.

CHEFEMandei embora, mesmo! Ela é de ouro? É uma fresca sebosa! Subiu pra cima de mim, me apontou o dedo na cara, falou o que quis. Quem ela pensa que é? Balconista com ares de madame, mulher de bandido! Rua!, eu gritei. Vai procurar seus direitos!

ZILAH(APONTA O CHEFE) Ele chegou com conversinha mole e foi pondo a mão nos meus peitos como se fosse dono. Dona de mim sou eu! (CHEFE SAI CONTRARIADO)

MÃEVocê é muito boca dura, eu disse. Agora tá aí, na rua, como é que a gente vai viver? Essas coisas, esses homens... tem de saber levar, filha.

ZILAHNão levo, mãe! Estou cansada, mãe dessa pobreza sem dignidade e sem futuro.

PROFESSOR‘Prestem atenção na aula!’, um dia gritei. Eu mesmo me assustei com minha raiva, mas continuei: ‘Vocês não tem nada! Nem dinheiro, nem futuro e , se deixarem, vão continuar presos à miséria e à ignorância! Ninguém está interessado em vocês a não ser vocês mesmos! A única chance de vocês é o esforço do conhecimento! É impossível mudar o mundo?! Pois vocês vão ter de buscar o impossível, pois todas as coisas possíveis já têm dono e não são de vocês!

ZILAHLembro bem desse esporro que o professor Dédalus deu na classe. Falou, gritou, bateu boca e saiu da sala dizendo que ia abandonar a escola pública. No outro dia voltou.

PROFESSORAlguém acredita em karma? Que os destinos se misturam como o meu está misturado com o destino desses meninos? Pois pode começar a acreditar.

TRAFICANTEVocês não me conhecem, então me apresento: Nessa zona aqui mando eu e desde quando ela era ainda garota do Dioni eu tinha um olho esticado pra ela. A menina formou bem, bonita, corpo gostoso, olho de gata brava, gosto disso. Mandei entregar cordão de prata, mandei anel de ouro, não aceitou, mas ela tá na minha lista. Escreve o que digo, não demora e ela vem de quatro, mansinha, mansinha, comer na minha mão. De um jeito ou de outro ela vem.

VIZINHASou vizinha e o que digo aqui digo também pra ela, cara a cara: Zilah não tem bom senso! Quer ser diferente, parece coisa que tem vergonha de ser como a gente. Pensa que é dona do mundo!

MÃENão é isso, dona Cida!, eu falava.

VIZINHA‘É!’, eu respondia. ‘Sua filha foi criada com muito mimo e agora que a senhora tá doente, fica aí, sem fazer nada’.

MÃE Não arruma emprego.

VIZINHABoca dura do jeito que é! Ela busca o que não pode, quer ser o que não deve! Não sei onde ela vai parar!

MÃEE assim foi. O mês de abril correu sem muita chuva abrindo as flores do pezinho de manacá que eu tinha plantado numa lata no fundo do quintalzinho e esperei para ver minha flor de maio que fazia inveja aos vizinhos, no vaso pendurado à parede sem reboco. O inverno foi frio e começou a cobrar de mim os anos de tristeza e trabalho bruto. As juntas doíam e meu coração começou a soprar sem força. Pressenti que se visse a primavera, com certeza não alcançaria o verão.

ZILAHA perda. As malditas palavras não dão conta daquilo que a gente não entende, por isso não tento explicar. Só digo que meus olhos se arregalaram, depois se afogaram em muito, muito choro enquanto eu aprendia uma nova dor.

MÃEDa cama onde eu estava, chamei ela e contei um desejo guardado durante a vida: ‘Zilah’, eu disse, eu queria um enterro bonito, caixão de boa madeira lavrada e bom verniz, forrado de cetim e flores, muitas flores...

ZILAHPrometi dar esse gosto. Então, a tristeza, a perda e o abandono bateram à porta naquele instante e entraram como estranhos e calados visitantes que se sentam em nossa casa sem data para partir. A vida é um pequeno fio, mas se rompe com uivos, estrondos e, depois, silêncios. Foi assim para mim. (TRAFICANTE, SORRIDENTE, ENTRA EM CENA COM DUAS CADEIRAS QUE DISPÕE UMA FRENTE A OUTRA. SENTA-SE, CONTENTE.)

TRAFICANTEAs notícias correm e um enterro desses custa caro. Soube que ela subiu e desceu atrás da grana. Vai chegar em mim. (ZILAH ENTRA) Ela não veio com os olhos baixos, humildes, ao contrário do que eu esperava. ‘Meus sentimentos’, eu disse.

ZILAHNão respondi de pronto. Olhei para aquele homem e percebi que estava cansada, muito cansada.

VIZINHAVi quando ela entrou. Com a desculpa da ajuda para o enterro ela se entrega ao bandido.

ZILAHEnterro minha mãe e me cubro com blusas de seda e cuido de mim com perfume e roupa de grife e me deito em lençol de cetim e não me importo com quem se deita sobre mim!, gritei pra mim mesma. Cansei de minha pobreza indigna!

TRAFICANTEOlhei como quem toma posse e sorri como quem vislumbra o prazer e o calor da pele nua.

ZILAHFui à direção dele como quem sabe o que faz. Cansei de minha pobreza indigna!

VIZINHANão preciso nem ver para saber o que está acontecendo lá dentro. Desavergonhada como ela é... No dia da morte da mãe!

TRAFICANTEEla veio mansa, sorri.

ZILAHFui sem receio e sem remorso antecipado. Não me importo com quem se deita sobre mim, gritei de novo para mim.

TRAFICANTE Tenho o que quero.

ZILAHParei e dei ordem pra minha boca sorrir, ela sorriu. “Enterre minha mãe como ela queria, amanhã eu volto e seja o que você quiser!” eu quis dizer, mas a voz se recusou.

TRAFICANTEE o que não tenho mando buscar.

ZILAHCansei de minha pobreza indigna, repeti, mas um eco profundo, uma vibração frágil agitou de leve o ar de que é feito o tecido da alma. E soprou “não” em meus ouvidos.

VIZINHAJá está saindo? Mas nem bem entrou!

TRAFICANTEOnde você vai? Quem você pensa que é? Você ainda vai me procurar, vagabunda! Vai voltar de joelho, pedindo minha ajuda pelo amor de Deus!

VIZINHAMas é louca? Rejeitando um homem como ele! Você não tem senso, Zilah! E o enterro de sua mãe, filha ingrata? (AS PESSOAS FORMAM UM SEMICÍRCULO EM VOLTA DO QUE SERIA O CORPO NUM VELÓRIO. TARTAMUDEIAM UMA ORAÇÃO. ENTRA ZILAH.)

ZILAHNa mochila pus minhas duas mudas de roupa e meus livros de escola o que era muito pouco para começar a vida, pensei. Debrucei sobre o corpo de minha mãe e meus olhos estavam secos e minha boca permaneceu calada. Só minha alma chorou, amou, agradeceu, sorriu e se despediu. Essa foi minha oração. Não suportei mais e sai dali para espanto e recriminação das pessoas que lotavam o pequeno quarto.

VIZINHASaiu como o vento, nem esperou o enterro da mãe. Isso é filha?!

AMIGA Cruzou a rua de terra com os olhos secos e os ouvidos surdos a comentários e olhares duros. Ao passar por mim fez um aceno, leve sorriso e afastou-se com o passo firme de quem sabe onde vai.

ZILAHQue os mortos enterrem seus mortos, pensei com a dureza da alma. Eu sei que minha mãe vive e, às vezes, sua boa voz sopra nos meus ouvidos.

TERCEIRO CANTO DE ZILAH

ATORESLá vai Zilah, ela não tem senso

E seu imenso futuro quem vai guiar?

Olha só o que lhe digo

Caminho que ela passar

Ali mora o perigo

Ela busca o que não pode

Ela quer o que não deve

A vida não vai ser leve

Olha só o que lhe digo.

Tem dezessete anos

É mulher, mal saiu do ovo

Quem ela pensa que é?

O mundo já está feito

Pra que construir de novo?

Ela não aceita as coisas como são

Não sabe onde é seu lugar

Quem lhe chamará à razão

Quando desnortear

Quem vai lhe guiar

Em seu futuro imenso

Zilah tem pouco senso

É a melhor definição

Tudo nela é imprevisto

Pois prefere sempre o risco

De ouvir seu próprio coração!

SURGE NO TELÃO NOVAMENTE A IMAGEM DA

E LOGO UMA GAROTA GORDINHA ENTRA CANTANDO. ELA

CANTA COM PAIXÃO EXAGERADA O QUE LEVA AO RISO SEUS

COMPANHEIROS DE FORMATURA. ELA TERMINA DE

CANTAR E OS ALUNOS APLAUDEM E RIEM. ELA AGARRA UM DOS

ALUNOS E, PRATICAMENTE, O ARRASTA PARA UM CANTO.

LEONAJoão Pedro, essa música eu cantei pra você.

JOÃO PEDROPor que?

LEONAComo, porquê? É claro, não é?

JOÃO PEDROÉ claro o quê, Leona?

LEONAAh, João Pedro! Não se faça de difícil, bem você que tem fama de galinha! (NUM ARROUBO) Fica comigo! Por você posso virar até uma perdida!

JOÃO PEDROO quê?

LEONANão, também não é assim! “Perdida” é só modo de dizer porque também não sou como essas... se bem às vezes eu queria ser... só um pouquinho... Me beija!

JOÃO PEDROComo?

LEONABeijo! Ósculo! Lábio contra lábio, delicada e curta penetração da língua, leve movimento de sucção, simples assim! Kiss! Kiss! Kiss! (JOÃO PEDRO CAI NA GARGALHADA. APÓS UM SEGUNDO DE ESPANTO, LEONA GARGALHA AINDA MAIS E DEPOIS SE AFASTA. FURIOSA E RESSENTIDA) Besta! Idiota! Esses meninos não fazem nada direito! (ENXUGA UMA LÁGRIMA) Droga! (NARRA) Tem alguma coisa errada comigo, tenho dezessete anos e... ainda nada, nem uma paixão! Até a Carlucha que é uma tonta bizarra, bem piorzinha que eu, anda pra cima e pra baixo com o André. Dizem até que já deu! Eu, não! Oportunidade não falta, os carinha, assim ó, dando em cima, mas... Ufa! Que cansaço de mim mesma!

PROFESSORLeona é uma lembrança risonha, pois era uma alma risonha. “O coração, de tão cheio, vasa pelos olhos”, escreveu uma vez numa redação. Ela era assim, gostava de escrever e queria a todo custo se apaixonar por uma idéia, por um trabalho, por alguém. (PROFESSOR LÊ UM PAPEL) Professor Marcos Dédalus. É para mim, ( DESDOBRA O O BILHETE)

LEONAProfessor, não sei como dizer, por isso jogo toda a delicadeza do que sinto de forma bruta para que penetre como faca e se prenda como dedos de nuvem à sua alma: eu te amo.

PROFESSORQuerida Leona, mais do que eu, você ama as palavras e a capacidade que elas têm de traduzir os redemoinhos, corredeiras e remansos da sua alma. Marcos Dédalus. Amou-me para sempre... por uma semana. (OLHA NOVAMENTE PARA A FOTO DE FORMATURA) Lembro-me de cada um deles. Cris, Téo, William, Paula, Dafé... Tantos que abriam as asas e se lançavam com coragem ao ar só pelo prazer de desafiar a gravidade. Penso que ser adolescente é isso: risco e coragem. A noite de formatura começava ansiosa, tensa, como um dia importante. (OLHA PARA OS BASTIDORES E APONTA A TÍMIDA ENTRADA DE MIRINHO) Ali vem o Mirinho. (ENTRA UM GAROTO MUITO TÍMIDO, COM PASSOS HESITANTES ) Ele vai ter uma função importante nesta história.

LEONAMirinho! Que bom que você veio! Você fica comigo? (MIRINHO SE APROXIMA) Falei ‘fica comigo’, mas não é ficar de dar malho, não, é só ficar do lado, aí, sem fazer nada, companhia... Você gosta de alguém, Mirinho?

MIRINHO(DÁ DE OMBROS) Gosto...

LEONAMas gosta de paixão, de comer, beber, dormir e cuspir pensando na pessoa?

MIRINHOÉ...

LEONAAté você, Mirinho!? Será que só eu não tenho onde amarrar meu jegue?

MIRINHOMas a pessoa nem percebe.

LEONAAcho que sou esquisita igual você.

MIRINHONão sou esquisito!

LEONAEu sei, só falei porque você é meu amigo, não queria ser a única esquisita. Zedú!

MIRINHOQue é?

LEONAZedú.

MIRINHOQue é que tem o Zé Du?

LEONAÉ gente fina.

MIRINHOVocê tá gostando dele?

LEONAAinda vou gostar! Ele é tudo de bom! Alto, bonito, gostoso...

MIRINHO(DESPEITADO) É tudo isso?

LEONAPra mim, é. Um menino desses é metade de mau caminho andado! A outra metade eu faço sozinha!

MIRINHO(IRRITADO)Vou dar um rolê!

LEONANão, fica aí!

MIRINHOEntão, muda o papo! Você só fala de carinha que você quer ficar, namorar! João Pedro, o Dédalus, o Zedú...

LEONAPera’í! Assim fica parecendo que eu sou a maior galinha. Com o João Pedro era só ficar. Com o professor Dédalus era... sei lá o que era aquilo! Com o Zédu é... também não sei o que é... Ele tem tudo pra alguém se apaixonar por ele só que, não sei... tem alguma coisa errada comigo, não consigo... mas vô conseguir porque é um desses que eu quero pra mim! Sabe como comecei a querer gostar dele? Foi por causa de uma carta.

MIRINHOUma carta?

LEONAUma carta linda que ele escreveu. Um carinha que escreve como aquela, com tanta ternura...

MIRINHOE o Zedu sabe lá escrever?

LEONAClaro que sabe! (APAIXONADA) E como! Tenho uma carta dele comigo. Uma não, duas! (MIRINHO A OLHA INCRÉDULO)

MIRINHOQue cartas são essas?

LEONACarta de amor!

MIRINHOComo você conseguiu? (COMEÇA A TOCAR MÚSICA ROMÂNTICA DO BAILE) Não interessa, vamos dançar!

MIRINHONão sei dançar! (LEONA JÁ ARRASTA MIRINHO QUE A CONTRAGOSTO COMEÇA A DANÇAR COM OUTROS FORMANDOS)

PROFESSORFoi uma festa simples de formatura, sem pompa, sem luxo, de escola pobre, mas ali estava o principal de toda formatura: a alma aberta, ansiosa e temerosa dos novos caminhos. (AOS POUCOS A MÚSICA, UMA MÚSICA ROMÂNTICA QUALQUER TRANSFORMA-SE NO CANTO DA SEPARAÇÃO. TODOS CANTAM E A COREOGRAFIA TRANSFORMA-SE EM ABRAÇOS , AJUNTAMENTOS E SEPARAÇÃO.)

CANTO DA SEPARAÇAO

Quantos de nós

Quantos de nós

Ficarão juntos

Eu me pergunto

Desejo pede

Juntos pra sempre

Mas o tempo

Vai nos separar eu sei.

O amanhã traz

Uma outra cidade

Outro namorado

Uma outra escola distante

Vamos ficar juntos

Eu desejo

Mas me pergunto

o trabalho

um novo rumo

Telefone, escreva,

Nos falamos

Não vamos nos perder

De nós.

Não vamos nos esquecer

Tá jurado,

Vamos ficar juntos

Vou chorar

Essa foi a melhor turma

Que essa noite não acabe

Que não venha

O amanhã com outra cidade

Um trabalho distante

Um tempo sem tempo

Vamos ficar juntos

Para sempre.

(QUANDO O CANTO ESTÁ CHEGANDO AO FIM MIRINHO SE DESTACA DO GRUPO JUNTO COM UM OUTRO RAPAZ, ZÉDU. MIRINHO ESTENDE A CARTA A ZÉDU. AO MESMO TEMPO LEONA SE DESTACA DO GRUPO QUE LENTAMENTE SE MOVIMENTA TODOS ABRAÇADOS. LEONA ENXUGA AS LÁGRIMAS. DESDOBRA UMA CARTA E NARRA AO PÚBLICO)

LEONAPreciso falar com o Zédu. Ouvi dizer que ele e a família vão de muda para o interior. É agora ou nunca! Mesmo que ele não queira nada comigo pelo menos ele fica sabendo que vai deixar aqui alguém que está apaixonado por ele. (LÊ) “Perdoe a ousadia de lhe escrever, mas quem me traz até você é o meu coração. Ele não sabe da minha timidez, nem gagueja como minha boca quando lhe falo, nem treme como minhas pernas quando me aproximo de você. Ele não conhece limites e me arrasta nos caminhos que trilha. Ele me diz:vem! E eu confio e deixo me guiar por ele. Ele me trouxe até você. Por ele e por mim eu lhe peço: acolha com carinho o meu coração. Zédu” Ele escreveu, não é lindo? Não é de se apaixonar? É tão linda que não tem nem importância que não foi escrita pra mim!

ZÉDUVocê trouxe?

MIRINHOTrouxe, mas não sei se vou lhe dar.

ZÉDUPor que, cara?

MIRINHOPorque acho que vou precisar dela.

ZÉDUNão faz isso comigo, tem de ser hoje! Olha lá! A Alice vai acabar parando na do Joel! Faz um tempão que estão bebendo,

MIRINHOO Joel não tem nada com a Alice.

ZÉDUMas pode começar a ter! Passa pra cá!

MIRINHONão sei, não sei mesmo, Zédu! (O GRUPO CONTINUA A DANÇAR ABRINDO A RODA E TOMANDO O ESPAÇO DO PALCO)

ALICENo que você está pensando?

JOELNada.

ALICEEntão vê se fica alegre senão eu troco de par!

JOELNão, pode deixar! Estava pensando o quanto família é difícil... mas deixa pra lá. Que você vai fazer depois?

ALICEQueria fazer faculdade, mas não ganho pra isso.

JOELVou tentar a USP.

ALICESem cursinho?

JOELQue jeito! Rachei o coco de estudar! (TEMPO) Dá um peso no coração... Essa turma...

ALICE(SOLUÇANDO) Não começa, não! De novo, não! Não quero pensar! (GRITA) Vamos por uma música mais animada porque eu não quero chorar! (MÚSICA TORNA-SE FRENÉTICA E OS ADOLESCENTES DANÇAM SEPARADOS AO SOM DO RITMO. TODOS MENOS JOEL QUE PERMANECE PARADO, PASMO, ACOMPANHANDO COM O OLHAR UM CASAL QUE ENTRA. BAIXA O VOLUME DA MÚSICA MAS OS FORMANDOS CONTINUAM DANÇANDO COMO SE NÃO TIVESSE HAVIDO ALTERAÇÃO)

JOELPai! Mãe! O que vocês estão fazendo aqui?

PAIOi, filho!

MÃESó passamos pra ver se você estava se divertindo!

JOELEu estava até vocês chegarem!

MÃENão fale assim com a gente.

JOELVocês não tinham nada que estar aqui! Deixem que eu viva a minha vida!

MÃEEstá bem, Joel, estamos indo... Desculpa atrapalhar. Vamos esperar você em casa, não volte tarde...

JOELNão! Eu não vou voltar para casa!

PAIE vai para onde?

JOELNão interessa! Me deixem em paz, merda! (SAI FURIOSO. O PAI, IRRITADO, FAZ MENÇÃO DE IR ATRÁS DO GAROTO MAS É CONTIDO PELA MÃE. OS DOIS, APÓS UM SEGUNDO DE PASMO, SAEM LENTAMENTE)

PROFESSORJoel é um adolescente-problema segundo seus pais. (A MÃE QUE IA SE AFASTANDO RETORNA)

MÃEOh, meu Deus, era um menino tão bom, tão meigo... É a idade.

PAIÉ falta de disciplina, eu sempre disse!

PROFESSORAgora, não, por favor. Vamos deixar a história de Joel pra depois. (INDICA A SAIDA) Por favor... (A UM GESTO DO PROFESSOR RETORNA LEONA) A carta.

LEONAAh, a carta! Ele escreveu para a Alice e eu achei perdida no pátio. Não devolvi primeiro porque a Alice é uma chata. E depois porque quem devia receber uma carta dessa era eu! Então fiquei com ela, me dei de presente! Tô errada?

ZÉDUMe dá, Mirinho!

MIRINHOSabe o que é, Zédu? É que o que tá escrito aqui é o que eu sinto também.

ZÉDUPela Alice? Sai dessa, cara! Eu te cubro de porrada! Tô parado na da Alice faz tempo e você sabe disso!

MIRINHOQue mané Alice! É outra pessoa!

ZÉDUQuem?

MIRINHONão interessa!

ZÉDUArruma outra carta, essa é minha!

MIRINHOQue sua! Fui eu que escrevi! Pô, quem mandou você perder as outras duas?

LEONANão sei, mas acho que vou chegar e me declarar ao Zédu, assim, na lata! Se ele não quiser eu do risada ou choro, sei lá, mas pelo menos acaba essa ânsia! Cadê o Mirinho?

MIRINHOÉ... É só chegar lá e dizer, mas quem é que faz isso? É esquisito gostar... Que raiva eu estou dela!

ZÉDUO que você esta falando, cara? Dela quem?

MIRINHODe ninguém!

ZÉDUDá carta, vai. Hoje é minha última chance.

MIRINHONão, Zédu, vou fazer melhor. Vou fazer essa carta chegar nas mãos de quem deve.

PROFESSORO que é um baile de formatura como este? Na aparência é música alta, alegria, animação. Mas pouco se percebe da apreensão, da expectativa e dos desejos que pulsam com cada coração. Principalmente da metade para o fim do baile. É o momento arriscado de fechar ou abrir um novo ciclo de vida.

LEONAMirinho! Onde você se enfiou? Você vai me fazer um enorme favor: entrega um bilhete meu para o Zédu?

MIRINHONem morto!

LEONAPorque, não?

MIRINHOPorque não quero, não tô afim, tá legal? Tô com o saco cheio de ouvir você falar no Zédu!

LEONATambém não precisa responder assim! Seu grosso! (MIRINHO SE AFASTA) Onde é que você vai?

MIRINHOVocê viu a Alice?

LEONANão, porque?

MIRINHOTenho uma carta pra ela.

LEONADe quem? Do Zédu?

MIRINHO(FINGINDO-SE INOCENTE) É.

LEONADeixa ver. Deixa ler só um pedaço. ( MIRINHO AFASTA-SE. LEONA FICA AFLITA) Mirinho, não vai! (MIRINHO PÁRA FAZENDO-SE SURPRESO) Vem aqui, por favor! Não entregue a carta! Se você é meu amigo, não entrega.

MIRINHOSou amigo do Zédu também, tenho de entregar!

LEONAPor favor! (SENTA-SE E COMEÇA A CHORAR. MIRINHO FICA SEM JEITO E DEPOIS SE SENTA TAMBÉM. LEONA TIRA AS CARTAS DA BOLSA E ENTREGA A MIRINHO) São as cartas do Zédu pra Alice. Uma eu achei, a outra eu peguei de dentro do caderno dele.

MIRINHOVocê roubou!?

LEONA(MEIO OFENDIDA) Roubei, não, interceptei! Sei que não está certo, mas quando se está apaixonada...

MIRINHOVocê está mesmo apaixonada por ele?

LEONASei lá, Mirinho... Não sei... mas quero ficar, posso ficar, vou ficar! Por isso que você não pode entregar essa carta para a Alice.

MIRINHO E o Zédu sabe?

LEONANão... por isso eu queria que você levasse um bilhete meu.

MIRINHONão vou nem quero me meter nessa sua confusão, Leona. O Zédu é vidrado na Alice e você não tinha o direito de fazer o que fez.

LEONAVocê não sabe o que é acordar uma manhã e, sem aviso, sentir o coração se apertar até doer e você dizer a si mesma: amo, quero amar! Mas a quem? Quem no meio de tantas pessoas é aquela que vai se abrir pra receber com dedos de seda a coisa preciosa que naquela manhã, ao acordar, você achou no fundo da alma. Como saber quem melhor acolhe, quem merece esse meu primeiro amor? Sabe o que é isso?

MIRINHOSei. (ABRE O ENVELOPE E TIRA A CARTA. LÊ NUM CRESCENDO DE INTENSIDADE) Recebe com carinho essas palavras. Procurei cada uma delas como quem procurasse uma pedra-diamante, vasculhei cada rio que deságua no meu coração e escolhi as mais brilhantes, as mais exatas. Elas tem a coragem que não tenho, elas pedem licença por mim, elas chegam onde eu não sei se posso chegar, elas levam minha voz que sopra eu te amo em seus ouvidos.

LEONA(ALUCINADA SAPATEIA COM OS PÉS AO CHÃO) Ah!, mas não é lindo?!! Ai, Zédu! Quem é que pode não amar alguém que escreve isso!!! (MIRINHO LEVANTA-SE IRRITADO)

MIRINHOVocê não percebe nada!

LEONAQue é que foi?

MIRINHOVocê não enxerga nada mesmo! Fui eu que escrevi essas cartas! Eu!

LEONAVocê?

MIRINHOÉ! O Zédu sabe lá escrever? Com um copo ele é capaz de escrever um “o” errado!

LEONAVocê está é com inveja do Zédu!

MIRINHOVai ver as notas de português dele! Ele me pediu para escrever!

LEONAMas... por que é que você está tão irritado? (OLHAM-SE UM TEMPO. LEONA IMAGINA COMPREENDER. LOGO COMEÇA A RIR) Não, Mirinho, você não! Desculpe, mas é que... Você não é alguém...

MIRINHO(CORTANDO, RESSENTIDO)...pela qual você se apaixonaria!

LEONAA gente é amigo...

MIRINHOEstá bem. Dá as outras cartas pra eu entregar para a Alice.

LEONAVocê não vai fazer isso... (MIRINHO COLOCA A TERCEIRA CARTA NA MÃO DELA)

MIRINHOEntão você entrega. Aproveita e entrega esta também. Vou avisar a Alice que você tem três cartas para ela. (SAI. LEONA O CHAMA E FAZ MENÇÃO DE IR ATRÁS DELE)

LEONAMirinho! (A MÚSICA SE TORNA MAIS ALTA. CASAIS DE FORMANDOS DANÇANDO A ENVOLVEM. QUANDO OS CASAIS, SEMPRE DANÇANDO, SE AFASTAM LEONA, SÓ NO PALCO, CANTA)

LEONAQuem governa o coração?

Quem diz não quando ele

Insiste no sim?

Quem me fez assim?

Que caminho, que chamado

Devo atender

Não tenho olhos pra ver

O amor que sopra

dentro da escuridão

De quem será a mão

Que irá tocar

A leve luz que inunda

Meu coração.

(INTERROMPE O CANTO. A MÚSICA CONTINUA. LEONA SEGURA AS CARTAS E CAMINHA EM DIREÇÃO A ALICE QUE DANÇA COM JOEL)

LEONAAlice! (ALICE SE SEPARA DE JOEL E VAI EM DIREÇÃO À ALICE)

ALICEQue foi Leona?

LEONA(SEM CORAGEM DE ENTREGAR AS CARTAS) Nada... é que eu queria que você me desculpasse qualquer coisa... a gente nunca teve muita amizade, mas queria te dizer que te admiro.

ALICEObrigada. Eu também te admiro.

LEONA Tudo de bom pra você.

ALICETudo de bom.

LEONA(VAI SAIR MAS PERCEBE O OLHAR DE MIRINHO EM CIMA DELA. VOLTA-SE PARA ALICE, EM LÁGRIMAS) Essas cartas são suas. São de alguém que gosta muito de você. Desculpa. (ENTREGA AS CARTAS. RETOMA O CANTO)

LEONAQuem governa o coração

É o amor, a tristeza ou a solidão!

(LEONA E ALICE SAEM. OS CASAIS CONTINUAM DANÇANDO E JOEL, COM UM GESTO DE IRRITAÇÃO VÊ SUA MÃE ENTRAR NOVAMENTE NO PALCO)

MÃEFilho! (JOEL SAI) Joel! (AO PÚBLICO) Os filhos crescem e tantos caminhos desconhecidos que têm o mundo se abrem e atraem... tantos perigos Ser mãe é aprender uma nova forma de medo.

PROFESSORAviso que essa é uma história estranha, que muita gente duvida que tenha de fato acontecido. Eu não. Eu creio em cada acontecimento, em cada palavra dela porque é lei que algumas histórias têm de ser inventadas para serem verdadeiras. De algum tempo para cá os conflitos cresceram muito na família de Joel.

PAINa rua até essa hora! Vou ter uma conversa séria com ele, de uma vez por todas!

MÃEVai com calma, por favor!

PAICalma tenho tido esse tempo todo! Faz o que quer, não diz onde vai nem que horas chega, entra e sai como se fosse um estranho nessa casa! Pior, como se nós fôssemos estranhos!

MÃECalma! Ele vem chegando. (ENTRA JOEL.)

PAIMuito bem, rapaz! Chegou a hora de termos uma conversinha! (JOEL PERCEBE A PRESENÇA DOS PAIS E REAGE COM DESESPERO)

JOELAh, meu Deus! Eu vou enlouquecer!

PAIPode enlouquecer, mas antes vai falar comigo!

JOELEu não tenho nada a falar com vocês!

MÃE(TENTANDO CONTEMPORIZAR) Está bem, filho... Outra hora...

PAIVocê não tem, mas eu tenho a falar. E muito!

JOELEu não vou ouvir! (SAI PISANDO DURO)

PAIVolta aqui, rapazinho! (VAI ATRÁS DE JOEL, É CONTIDO PELA MULHER)

MÃEDeixa...outra hora!

PAI (GRITA PARA FORA, PARA SER OUVIDO POR JOEL) Esse menino, está na hora de se tornar homem! (JOEL VOLTA FURIOSO)

JOELEntão me deixa seguir meu caminho!

PAISer homem, pra você, é fazer o que quer? É ficar pra cima e pra baixo, vagabundeando, com quem a gente não conhece? Na sua idade...

JOELO senhor não tem minha idade nem eu a sua!

MÃE É pelo seu bem...

JOELQue meu bem, mãe!

PAIAcabou! De hoje em diante, dentro dessa casa, você vai fazer o que eu quero! Dentro dessa casa mando eu!

JOELEntão, eu saio! Eu não agüento mais!

MÃEPor favor...

PAIQuem não agüenta mais sou eu! (JOEL SAI. O PAI, PARA SI) Trabalho feito um cão, dez, doze horas por dia, não mereço isso, não mereço isso!

MÃEÉ a fase... as companhias...

PAISei lá... a gente está tocando a vida, o tempo passa e um dia, sem que a gente perceba os filhos cresceram, ficaram distantes... Você lembra como eu era com ele? Unha e carne. Hoje eu não sei o que falar com ele, como falar e ele não quer ouvir. Eu não entendo como é que essas acabam acontecendo...

MÃEVou falar com ele. Lugar dele é aqui em casa. (MÃE SAI)

PROFESSORNo dia da formatura eu e Joel trocamos algumas palavras, ele parecia um pouco tenso, fechado dentro de si. Tudo bem, Joel? Ele respondeu: ‘tudo!’

AMIGOChega aí, cara! Beleza?, cumprimentei logo que o vi. Percebi logo que nada estava bem quando Joel passou lá em casa depois do baile de formatura. ‘Vamos trocar umas idéias’, intimou. Eu que sou amigo leal, fui. Avisei a velha e saímos pra noite. A lua estava alta, bonita mesmo, e batemos perna até de madrugada. Ele só falava em saltar fora, cair no mundo, deixar casa, idéia fixa. Ofereci asilo: fica lá em casa uns dias, eu ajeito. Agradeceu, se afastou e foi virando sombra na noite... Estava meio desnorteado.

JOELSubi e desci minha rua umas três vezes sem me decidir a entrar. Eu sabia o que ia dizer, sabia o que devia fazer, mas nessas horas sempre falta coragem. Parei, respirei fundo, abri a porta e entrei: eles estavam lá.

MÃEEle entrou. Não sei por que, mas tive medo quando vi meu filho entrar. Meu coração me avisou que seria a última vez que eu iria vê-lo. Recusei acreditar.

JOELEndurece, Joel! Faz o que tem de ser feito!, encorajei a mim mesmo, mas levantei o olhar para o rosto duro do meu pai... e desviei os olhos para a expressão frágil de minha mãe e perdi toda coragem juntada. Senti raiva de meus olhos que se encheram d’água.

MÃEEu e seu pai estamos preocupados...

JOELNão fala nada, mãe!

PAI(TENTANDO SE CONTER) Não fala assim com sua mãe!

MÃENão vamos brigar de novo. Só queremos conversar, filho...

PAIA vida não é fácil, filho! Você precisa se preparar para o mundo, ter uma profissão, uma carreira...

MÃEEscuta seu pai! Você não se cuida... Essas amizades... Você não pára em casa!

PAIQueremos o melhor e... não faz essa cara, garoto! Temos o direito...

JOELVocês não tem direito nenhum! E não me chame de garoto!

PAIChamo, moleque! E não levante a voz comigo! Temos todo o direito! Conquistamos esse direito durante anos com trabalho, com zelo, com preocupação e noites mal-dormidas... Temos todo o direito!

JOELEu não agüento mais!

PAIQuem não agüenta mais somos nós! É sua mãe que se preocupa e chora sem saber onde você anda!

JOELÉ a minha vida, pai!

MÃE(AOS PRANTOS) É a nossa vida! Ainda somos uma família!

PAI(INVESTE CONTRA JOEL) De hoje em diante, garoto, ... (JOEL INTERROMPE AOS GRITOS)

JOELPai! Mãe! Vocês estão mortos! (SILÊNCIO. PAI E MÃE SE ENTREOLHAM, SENTEM-SE PERDIDOS) Lembram? Eu só soube no dia seguinte. “A noite estava escura/ muita neblina/ bateram/ quinze carros num engavetamento/ seus pais/ eles morreram, Joel!” Foi assim, nessa forma truncada pelo desespero, que a tia Alzira me contou.

MÃEQue você está dizendo, filho?

PAI(APÓS UM MOMENTO, CAI EM SI) Deixa, mulher...

MÃEComo deixa? Eles diz uma coisa dessas e...? (PAUSA. MÃE OLHA JOEL E VOLTA A OLHAR O MARIDO. ELE CONFIRMA COM UM ACENO DE CABEÇA. A MÃE RECUSA A VERDADE NUM SOPRO DE VOZ) Não... (PAI A ABRAÇA)

JOELVocês precisam me deixar em paz!

MÃEMas, filho...

JOELÉ a minha vida, mãe! Como posso viver com sua cobrança diária, com seu olhar que me segue para onde vou...

MÃEÉ amor...

JOELSufoca, mãe, sufoca! E sua expressão feroz, pai, quando não cumpro suas expectativas... Por isso vou embora dessa casa. Pra viver preciso esquecer seu olhar duro, pai, e me afastar de sua expressão amorosa e desolada, mãe.

MÃE(AO PÚBLICO) Mais do que a morte o que dói é a separação, meu coração sussurrou. Mas o amor é também feito de durezas, respondi. E com esforço calei meu coração e com esforço consegui sorrir. (À JOEL) Fica, filho. Eu e seu pai vamos embora. (JUNTAM-SE ABRAÇADOS E PERMANECEM PARADOS UM TEMPO OLHANDO JOEL. COMEÇAM A ANDAR LENTAMENTE PARA TRÁS) O desejo é ter você abraçado a meu peito num tempo que não se conta...

PAISe cuida, filho. Não se esqueça de nós. (PÁRAM. A MÃE ESTENDE OS BRAÇOS EM DIREÇÃO A JOEL. O MARIDO A ENVOLVE ABRAÇANDO-A E OS DOIS SE DIRIGEM À SAIDA. NO LIMIAR DO PALCO A MÃE AINDA SE VOLTA, SORRI E SAI. LUZ CAI)

Epílogo

(LEONA E MIRINHO ENTRAM COM CADEIRAS E SE SENTAM DE COSTAS NAS EXTREMIDADES OPOSTAS DO PALCO. AO MESMO TEMPO OS CASAIS DE FORMANDOS DANÇANDO TOMAM O PALCO. CANTAM)

ATORESEstá tudo por fazer

Caminho e caminhada

Partir, sempre partir

Exista ou não estrada.

Aonde for a luz da lua

Também nós podemos ir!

(ENQUANTO OS ATORES CANTAM LEONA E MIRINHO MOVIMENTAM COM RUIDO E IRRITAÇÃO SUAS CADEIRAS, PRIMEIRO VIRANDO-AS DE FRENTE PARA O PÚBLICO, DEPOIS DE FRENTE UM PARA O OUTRO. LEVANTAM-SE DAS CADEIRAS E APÓS UM MOMENTO DE INDECISÃO IRRITADA, LEONA VAI ATÉ MIRINHO)

LEONAEu nem devia ter vindo!

MIRINHOEntão, porque veio?

LEONAPorque está tocando a última música e não queria ficar sentada feito tonta, sem par.

MIRINHONão sei dançar e não estou com vontade de aprender.

LEONAPor favor, seu grosso, levanta! (MIRINHO LEVANTA EMBURRADO. COMEÇAM A DANÇAR, AMBOS DE MAU HUMOR) Também não precisa fazer essa cara! Eu também não estou satisfeita. (MIRINHO PARA DE DANÇAR)

MIRINHOÉ fácil resolver isso!

LEONANão se atreva a me abandonar no meio da dança! (RECOMEÇAM A DANÇAR) Desculpa. Acontece que está tudo errado. Você não devia ter falado aquilo.

MIRINHOEu também acho.

LEONAÉ que somos amigos e entre amigos não dá certo. E, depois, não é nada pessoal, mas eu nunca pensei em namorar você... Não dá liga, não dá química...

MIRINHONão vamos falar mais disso, não... Vamos só dançar, tá? (DANÇAM EM SILÊNCIO. ATORES CANTAM.)

ATORESSoltar as velas

Pra aprender a navegar

Deixar o porto

Pra saber aonde chegar

Aonde for a luz da lua

Também lá podemos estar.

(OS ATORES CONTINUAM A DANÇAR. ALICE E ZÉDU, DANÇANDO COM OUTROS PARCEIROS CRUZAM-SE E PARAM DE DANÇAR. OLHAM-SE)

ALICEFoi você que escreveu as cartas?

ZÉDUNão, mas senti aquilo tudo. E ainda sinto. (OS DOIS COMEÇAM A DANÇAR. OS PARCEIROS QUE SOBRARAM FORMAM UM NOVO PAR)

LEONAVou sentir saudades. Foram os melhores anos da minha vida! (MIRINHO APENAS A OLHA) Não vai dizer nada? Está me olhando assim porque? Eu não queria terminar brigado com você... A gente sempre foi amigo...

(NARRA AO PÚBLICO) E foi aí: uma pedra, uma faísca de luz brilhou no fundo abismo escuro dos olhos dele e me chamou com a voz morna de quem segura e abraça. Eu disse ‘Não, não quero!’, mas meus dedos já se fechavam em pressão suave sobre os ombros dele.

MIRINHOEu disse quero, aceito, abrigo!, enquanto um tremor benvindo varria minha pele, tirava meu ar e começava a abrir meu riso e meu medo.

LEONAEu ainda tentei manter o governo de mim. E parei a dança e me afastei dois passos. E fui rude e brusca e repeti ‘não! Não é você que eu quero!’, mas o coração corria descontrolado como criança num parque.

MIRINHOEla voltou e me olhou como quem me vê pela primeira vez.

LEONAEu só tinha olhos para a pedra, a faísca de luz que brilhava no abismo escuro dos olhos dele. E ri por dentro e ri por fora. Eu era inteira riso (BEIJAM-SE CONTINUANDO A DANÇAR).

ATORES Soltar, fazer-se ao mar

Naufragar se for destino

Mas amar, fazer-se amar

Tempestades, sol a pino

Onde brilhar a luz da lua

Meu barco há de chegar.

(PROFESSOR OLHA PARA OS FORMANDOS QUE DANÇAM E PARA A PROJEÇÃO)

PROFESSORMeu nome é Dédalus como o arquiteto da lenda. Arquiteto também sou, só que a minha arquitetura é o desconhecido é o obscuro amanhã que trabalho por construir, na sala de aula, com esses meninos. O saber é matéria frágil num mundo que privilegia a força. Mas insisto por teimosia e vocação. Como o arquiteto da lenda eu também faço e ensino a fazer frágeis asas coladas com cera, pois acredito que é melhor o risco do vooc do que a prisão. Essas três lembranças minhas voam em direção ao sol com suas frágeis asas e o tempo do voo será eterno. Nunca chegarão ao sol e ele nunca derreterá a cera que cola suas frágeis asas. Nenhum dos três cairão como Ícaro. Não creio em Deus, mas essa é minha oração.

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