loading

_peças /

Mistério Na Sala De Ensaio / Sérgio Roveri

MISTÉRIO NA SALA DE ENSAIO

Sérgio Roveri

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do Projeto Conexões Teatro Jovem e fez parte do seu portfólio no ano de 2009.
Qualquer montagem fora do Projeto deverá ser negociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos autorais.

Sergio Roveri sroveri@terra.com.br

PERSONAGENS

MARIA LÚCIA – diretora da escola

EDUARDO – Professor de educação artística e ensaiador do espetáculo

TOBIAS – Zelador da escola

ALCIDES, o AU-AU – Aluno gago

IVETE, chamada de IVY – Aluna pobre que sonha ser patricinha

ALICE – Aluna grávida

TADEU – O bom aluno

CÉLIO – O aluno que não conhece o pai

MIRIAM – Manicure, mãe de Célio

AUGUSTA – Cliente de Miriam

ZUCA – Aluno grafiteiro

EMISSÁRIOS DO AUTOR – vários personagens

DOIS ASSALTANTES

CENA UM

Em uma sala da escola. Zuca, Célio e Ivy estão sentados preguiçosamente sobre as carteiras. Alcides surge à porta.

ALCIDES – É a ...qui que..que...

ZUCA – É, Au-Au, é aqui. Senta e espera que não chegou todo mundo ainda.

ALCIDES – Vo..vo...vo...cê nem sa...sa...sabe o q... que...eu.. ia p...per...gu...pergun...tar

ZUCA – Só de olhar para a sua cara a gente já sabe o que você vai perguntar.

CÉLIO – É. Se a gente tivesse de esperar você fazer a pergunta inteira, já seria de noite e a gente ainda estava dando bom dia...

ZUCA – Eu só não sei o que você está fazendo aqui.

IVY – Ele está no direito dele, Zuca. O convite era aberto pra escola inteira. A gente não tem culpa se....

ALCIDES – S...se...se...o q....quê, ...I...ve...t...

IVY – Eu ia te defender, Au-Au, mas se você me chamar de Ivete de novo, eu fico do lado deles. Meu nome é Ivy. Você não percebe que é até mais fácil? Quanto menor a palavra, mais cedo você desembucha.

ALCIDES – Ent.. tão...me...me cha...cha...ma....de... Al-al...

CÉLIO (interrompendo) – Au-Au, a gente te chama de Au-Au

ALCIDES (esforçando-se) – Alci...des. É tão di...fícil fa...lar Al....

IVY – Senta e fica quieto, Au-Au. Este negócio aqui já está atrasado.

ALCIDES (sentando-se e murmurando) – I...I...ve...ve...te...

IVY – Estou começando a achar que você está certo, Zuca. Isso aqui não tem futuro. Pode entrar qualquer um, né? Quantos se inscreveram?

ZUCA – O Célio que contou.

CÉLIO – Cinco e mais o Au-Au.

IVY – Só isso? Seis alunos da escola inteira?

CÉLIO – Eu não falei que foram seis. Eu falei que foram cinco mais o Au-Au.

ALCIDES – Ent..t...tão... dá se...se...is...

CÉLIO – Só duas meninas. Você e a Alice.

IVY – A Alice da Quinta B? Não gosto muito dela.

ZUCA – Eu já gosto.

CÉLIO – Não, a Alice da Sétima A. Aquela que quase foi expulsa no ano passado.

IVY – Esta é um pouco melhor, mas eu acho que não leva muito jeito. É muito simplória. Isso que a gente vai fazer precisa de alguém com um pouco mais de classe.

CÉLIO – Quem nesta escola não é simplório, Ivete?

ALCIDES – Hum...hum

IVY – Você falou hum hum duas vezes por que é gago ou por que está tirando uma da minha cara?

CÉLIO – Esquece, Ivy. Fica melhor assim?

IVY – Eu não sou simplória. Ser simplória é uma coisa que vem de berço, entende? É assim como nascer de cabelo crespo. Você pode passar a vida alisando, que sempre vai ter cabelo crespo por baixo. É uma coisa que não desgruda de você até a morte. Você pode até ficar rica, mas sempre vai ser simplória. Eu fugi desta sina. Já a Alice, coitadinha...

CÉLIO – De qual sina você escapou? A de nascer rica?

ZUCA – Todas as reuniões vão ser assim?

CÉLIO – Que reunião? Não começou porra nenhuma ainda.

IVY – Escuta, vocês sabem se a gente vai ganhar alguma coisa com isso?

ALCIDES – Gan...gan...har? Gra...gra...na?

IVY – É, grana. Vai sobrar algum pra gente?

ZUCA – No cartaz não falava nada de grana.

CÉLIO – Mas se a gente vai ter de ficar aqui todo dia, depois das aulas, não ia ser nada mau se pintasse uma graninha, hein?

IVY – Meu medo é que a gente faça este lance aí em troca de mais um prato de merenda. Já pensaram nisso?

Entra Eduardo

EDUARDO – Boa tarde, pessoal. (Olhando para a classe) – Só vocês? Minha lista aqui diz que seríamos seis...

CÉLIO – Cinco mais o Au-Au...

ALCIDES – Fo...fo...da.....se

EDUARDO – Como?

IVY – São seis, sim. Os outros dois ainda não chegaram.

EDUARDO – OK. Eu queria fazer as apresentações e falar um pouco do projeto. Mas seria bom que todos já estivessem aqui. Será que alguém poderia ir chamá-los?

ZUCA – Se a gente soubesse onde eles estão, já teria ido chamar...

CÉLIO – É, aqui é bom a gente não sair procurando ninguém, não. A gente nunca sabe como é que vai encontrar quem está procurando. Se é que vai...

EDUARDO – Como assim?

CÉLIO – Uma vez o Torresmo ficou dois dias sem aparecer. Fomos procurar. Encontramos ele sabe aonde? Preso.

EDUARDO – Torresmo?

IVY – Por causa da cara dele, cheia de bereba. Mas ele foi mané, coitado. Falaram que era para ele levar uma encomenda daqui até o centro... Pergunta se ele conseguiu chegar no centro. Foi pego no meio do caminho, aquele simplório.

EDUARDO – Quando vocês falam encomenda...é...é o que eu estou pensando?

ZUCA – A gente nem sabe quem é o senhor. Como é que vai saber no que o senhor está pensando?

EDUARDO – A partir de agora, vocês podem me chamar de você. Ou melhor, de Eduardo.

Entram a diretora, Alice e Tadeu.

DIRETORA – Pelo visto, vocês já estão se dando bem? Me desculpem pelo atraso.

Alice e Tadeu ajeitam-se entre os quatro colegas.

ALICE (baixo para Ivy) – Já rolou alguma coisa?

IVY (baixo) – Nada que preste...

DIRETORA – Bom, sempre que vou falar como diretora, eu costumo dizer que tenho duas notícias: uma boa e uma ruim. Qual vocês gostariam de ouvir primeiro?

ALCIDES – Tan..tan..to fa...faz...É sem...sem...pre....

DIRETORA – Não é sempre a mesma coisa, não, Alcides. Desta vez nós temos uma chance de melhorar as coisas por aqui. (Para Eduardo) – O senhor já se apresentou, professor?

EDUARDO – Ainda não.

DIRETORA – Vamos lá, então. Eu faço as apresentações e depois explico para vocês um pouco mais sobre o projeto. Este aqui é o professor Eduardo. Ele é professor de Educação Artística com especialização em teatro, certo, professor?

ALICE – É artista? Desses famosos?

IVY – Quando eu digo que a pessoa morre simplória, ninguém acredita... Já viu a cara dele em algum lugar, Alice da sétima A? Como é que ele pode ser famoso se ninguém aqui nunca viu este sujeito mais gordo?

DIRETORA – Ivete, por favor...

ALCIDES – S...se...fu...d...deu

IVY – Cala a boca, gago.

DIRETORA – Ivete, se você continuar assim, eu vou ser obrigada a excluir você do grupo.

EDUARDO – Por favor, diretora, pode deixar. Eu me entendo com eles. Nós já somos tão poucos aqui. Qualquer um que sair pode comprometer o trabalho.

DIRETORA – O senhor é quem sabe, mas eu gostaria muito de poder garantir ao senhor, sinceramente, que seu trabalho vai ser fácil. Mas eu tenho quase certeza que não vai.

TADEU – A senhora já sabe se vai começar primeiro pela notícia boa ou pela ruim?

CÉLIO – Mas não começou ainda?

DIRETORA – Eu vou começar pela ruim, que na verdade nem é assim tão ruim, é apenas decepcionante. Eu esperava que um número bem maior de alunos fosse se interessar por este projeto, já que muitas coisas estão em jogo. Infelizmente, entre todas as turmas da escola, somente vocês seis resolveram aceitar o desafio.

CÉLIO – Não somos seis, somos cinco mais...

ZUCA – Isso já perdeu a graça, Célio. Cala a boca que agora deve vir a parte boa.

IVY – Na parte boa a senhora vai falar da grana?

DIRETORA – Grana? Como assim, grana?

ZUCA – Sabia, vamos trabalhar em troca de merenda, querem apostar?

DIRETORA – Não há dinheiro envolvido nisso, gente. A parte boa diz respeito à sobrevivência da escola. Este projeto, esta peça que vocês vão montar aqui, é a forma que nós encontramos, eu e o professor Eduardo, de trazer a comunidade para a nossa escola, de fazer com que as pessoas percebam que esta escola ainda pode oferecer coisas muito boas para o bairro, para a cidade até. Provar isso para a população agora é a missão de vocês. A gente quer começar a salvar esta escola por meio da arte. E o primeiro passo é convidar a comunidade para vir até aqui e conhecer o trabalho de vocês.

CÉLIO – Mas que porra de parte boa é essa?

TADEU – É, diretora, eu também não alcancei. Cadê a parte boa?

ALICE – Se o Tadeu, que é o Tadeu, não está entendendo, a gente tá ferrado.

DIRETORA – É bem menos complicado do que parece, Tadeu. Agora, aqui com vocês, a gente cria um grupo de teatro. Quem sabe amanhã a gente não cria um grupo de música, depois um grupo de pintura, assim por diante. Em pouco tempo esta escola, que só aparece nos jornais por causa dos traficantes e das balas perdidas, vai ser conhecida pelos jovens artistas formados aqui.

IVY – Ah, vai esperando sentada, diretora. Quanto mais gente vier aqui, mais alvo pras balas perdidas. Vai ser uma festa pro povo do tráfico e da polícia.

EDUARDO – Eu acho que a diretora está tentando dizer que isso aqui pode ser um começo de uma nova fase da escola...

CÉLIO – Ô, seu Eduardo...

EDUARDO – Só Eduardo...

CÉLIO – Então, seu Eduardo, olha aqui pra nossa cara. Vê bem se alguém vai sair de casa pra ver um gago fazendo teatro, uma mina de 14 anos que já tá grávida pela segunda vez...

ALICE – Eu nem sei se estou grávida ainda... Só porque me pegaram vomitando no banheiro já espalharam para a escola inteira que eu estou grávida.

CÉLIO – Continuando... um grafiteiro maluco que vive fugindo da polícia com uma latinha de spray...

ZUCA – É, um neguinho que nem sabe quem é o pai.... E, pra começo de conversa, grafite é arte, não essa porra que nós vamos fazer aqui...

IVY – Uau, tá esquentando, tá esquentando...

CÉLIO – É, e uma pobretona metida a besta que não tem onde cair morta e acha que é grande coisa...

ALCIDES (apontando para Tadeu) – E...e...um ...c...cu....d...de... fe...rro sem gra...gra...ça pra ca...ce....te

ZUCA – Ih, Tadeu, vai deixar barato? Eu saía na porrada.

DIRETORA – Ninguém aqui vai “sair na porrada” coisa nenhuma...

ZUCA – Tem sempre alguém dizendo pro Tadeu o que ele deve fazer. Quando não é mina, é a mãe do cara, quando não é a mãe, é a diretora... Tem sempre alguém decidindo por ele...

DIRETORA – Pois é, assim sobra tempo para ele estudar. Por que você não experimenta fazer a mesma coisa de vez em quando?

ZUCA – Estudar muito faz a gente virar bundão. Tem de pegar leve com os livros.

EDUARDO – Diretora, se a senhora me permite....

DIRETORA – Claro, pode falar.

EDUARDO – Eu vou considerar isto aqui o nosso primeiro encontro. O que eu precisava saber de vocês, até agora, eu já soube. Ainda que por vias tortas. Eu proponho que a gente se encontre amanhã aqui, neste mesmo horário, para começar os ensaios.

ALICE – Por que neste mesmo horário? Não pode ser mais cedo?

DIRETORA – Mais cedo vocês têm aula.

ALICE – Por isso mesmo. A senhora libera a gente das aulas e a gente fica aqui na boa, só nos ensaios.

DIRETORA – Pára de falar besteiras, menina.

TADEU – Que papo é este de ensaio? A gente nem sabe o que vai fazer.

EDUARDO – A secretaria me prometeu que eu receberia o texto da peça hoje, mas por algum motivo deve ter atrasado. Eles já encomendaram o texto a um autor de teatro. Mas isso não é problema, começaremos amanhã, mesmo sem texto.

ALICE – Quando você fala texto, quer dizer que vai ter coisa pra decorar?

EDUARDO – É assim que o teatro funciona.

ZUCA – Fora essa merda toda que a gente já tem de decorar na escola, ainda vem mais coisa?

DIRETORA – Mas no que você estava pensando quando deu o nome para participar deste projeto?

ZUCA – Que ia ter grana.

IVY – Não só ele, todo mundo pensou a mesma coisa.

ALCIDES – Me...me...nos eu...

ALICE – Quer dizer que a gente vai ficar até mais tarde aqui, não vai ter grana e a gente ainda vai precisar decorar texto? Dá tempo de cair fora desta roubada?

EDUARDO – Eu pediria uma semana de prazo pra vocês. Se daqui a uma semana vocês não estiverem felizes com o trabalho, a gente pára tudo.

CÉLIO – Este teatro que o senhor quer fazer aqui, é igual o teatro que eu vi uma vez?

DIRETORA – Como é que ele vai saber como é o teatro que você viu?

CÉLIO – Era um porre. Um lugarzinho fedido e com um monte de gente no palco berrando ao mesmo tempo até dar no saco. Ou a gente não ouvia nada do que eles diziam ou quando ouvia não compreendia porra nenhuma.

IVY – E a gente precisa ensaiar pra fazer isso? Pelo que ele tá

falando, teatro parece um dia de aula aqui nesta escola. De um lado gente berrando e, do outro, gente não entendendo porra nenhuma.

Batem à porta, que está semi-aberta. Entra um emissário

EMISSÁRIO (pode ser homem ou mulher) – Eu trouxe uma encomenda para o professor Eduardo.

EDUARDO – Sou eu mesmo. É o texto?

EMISSÁRIO – Pediram para eu entregar isso para o senhor.

Eduardo abre o envelope, dá uma olhada rápida na encomenda.

EDUARDO – Mas... Só isso?

EMISSÁRIO – Ué, o que me mandaram entregar é isso. Se para o senhor é pouco, paciência....

Entra o zelador correndo

ZELADOR (para a diretora) – Dona Maria Lúcia, esse rapaz aí entrou correndo com um pacote. Eu fui correr atrás dele, mas tropecei e caí. A senhora sabe como é o meu joelho, né? Não era bomba, não, né?

DIRETORA – Não, seu Tobias, não era bomba, não. Pode ficar sossegado.

EDUARDO – É... não era bomba, não. Pelo menos não até agora...

CENA DOIS

Sala de ensaio. Apenas uma mesa e algumas cadeiras no ambiente. Os alunos Alcides, Ivy, Alice, Tadeu, Célio e Zuca, vestidos com calças e camisetas de cor preta. Somente Ivy, em sua tentativa de ser diferente, usa diversos acessórios pelo corpo, como pulseiras, echarpes, brincos e o que mais a direção julgar necessário.

ALICE (para Ivy) – Você não vai tirar este pano do pescoço?

ZUCA – Vai ver que o papel dela é de alguém que se enforca logo no primeiro dia de ensaio.

IVY (para Alice) – Isso aqui se chama pano só na sua casa. O nome desta peça é echarpe. Os artistas usam para proteger a voz.

ALCIDES – Ar...ar...tis...tis...ta? De......des...de quan...quan...do vo...vo...você....

TADEU (interrompendo) – Se isso aqui é um ensaio, a gente já não deveria saber o que vai fazer?

CÉLIO – Pra que tanta pressa, Tadeu? Faz seis anos que eu estudo nesta escola e ainda não sei o que estou fazendo aqui.

ZUCA (com spray na mão) – Esta porra aqui tá muito sem personalidade. (Começa a agitar o spray para pichar a parede) – Quando esse tal de Eduardo chegar, o visual aqui já vai estar irado.

Chega Eduardo e interrompe Zuca, antes que ele dê início à pichação.

EDUARDO – Não é para isso que nós estamos aqui, certo, Zuca?

ALICE – Putz, no flagra. Nem a polícia chega assim em cima da hora.

Eduardo coloca alguns papéis em cima da mesa.

EDUARDO – Vamos trazer as cadeiras aqui para o centro e fazer um círculo.

Alunos obedecem e começam a fazer um círculo com as cadeiras, no início, grande demais.

EDUARDO – Não tão longe, Ivy. Vamos fechar um pouco mais esta roda.

Forma-se um círculo menor. Todos sentam-se.

EDUARDO – Pessoal, é o seguinte. Eu pensei que já fosse ter o texto pronto comigo hoje. Mas o autor ainda não enviou.

CÉLIO – Quem é esse cara? Se for o caso, a gente dá uma prensa.

ALICE – Eu não tenho pressa nenhuma. Se ele não mandar esta porra de texto aí, ninguém vai falar que a culpa é da gente. Já que não tem texto, a gente pode ir embora?

EDUARDO – É um autor contratado pela Secretaria de Educação. Eu também não sei quem é, mas ele se comprometeu a entregar no prazo.

IVY – Prazo? Aqui nesta escola? Sabe quanto tempo eles levaram para reformar o banheiro das meninas?

CÉLIO – É, só que na hora de quebrar de novo, elas foram bem mais rápidas.

TADEU – Se este cara não mandar nada, o que que a gente vai ficar fazendo aqui? Um olhando para a cara do outro?

EDUARDO – Quem disse que ele não mandou nada? Ele já mandou alguma coisa. Não é a peça inteira, mas... Vocês viram aquele rapaz que esteve aqui ontem, não viram? Então, ele trouxe uma encomenda do autor.

TADEU – Se ele mandou metade já está bom...

IVY – Nesta parte aí que ele mandou, já dá para saber o que eu vou fazer? Eu estava pensando: tem aí um papel de uma mulher rica, que seja dona de um monte de fábrica e more numa puta mansão?

ALICE – É, se tiver, bota a Ivete para fazer a empregada dela.

ALCIDES – Ad...ado...rei... Ar...rra...rrasou, Ali..ali...Alice.

IVY – Aproveita e vê se não tem um emprego de telefonista pra gago...

EDUARDO – Pessoal, se vocês tiverem mais gracinhas pra fazer, vamos deixar para fazer no palco, tá ok? Acho que vocês ainda não se deram conta, mas nós já estamos trabalhando.

CÉLIO – Trabalhando como? A gente nem leu nada ainda. Passa aí pra gente este trecho que o cara mandou.

EDUARDO – É isso que eu estou tentando dizer desde a hora que eu cheguei. O que ele mandou não foi exatamente um texto, foi uma proposta.

ZUCA – Proposta? Tipo assim, proposta de emprego? Se liga, ô, mestre. Aqui ninguém consegue emprego, não. Quando a gente diz o nome do bairro em que a gente mora, os caras dizem que a vaga já foi preenchida.

EDUARDO – É um outro tipo de proposta. É uma proposta de exercício, uma espécie de faz-de-conta. Ele está sugerindo que a gente faça uma cena. Uma improvisação.

ZUCA – Este cara tá meio de nóia, não tá? Ele não faz a parte dele e quer que a gente faça a nossa? De que jeito?

Eduardo abre um envelope que tem nas mãos.

EDUARDO – Ele enviou esta sugestão de cena acompanhada de um pedido. Vou ler o pedido para vocês: “Caro diretor, preciso de alguns estímulos para escrever a peça que me foi encomendada. Por isso, envio uma sugestão de exercício. Sua compreensão e a boa-vontade dos alunos são fundamentais para mim. Muito obrigado. O Autor”.

ALICE – Assim é teta. Além de a gente não estar ganhando bosta nenhuma, ainda vai ter de dar idéia para este maluco?

EDUARDO – Ele já mandou a idéia, Alice. A gente tem apenas de executar.

TADEU – Então fala que idéia é essa, meu.

Eduardo levanta-se e olha para o grupo com uma expressão séria.

EDUARDO – Proposta de cena número um: Célio reencontra o pai que o abandonou na infância.

CÉLIO (alterado) – Que porra é essa? Me deixa ver esta merda aí. (Levanta-se e agarra o papel das mãos do professor. Lê rapidamente, amassa o papel e encara os colegas) – Que brincadeira é essa? Quem é o puto que tá de sacanagem pra cima de mim?

EDUARDO – Calma, Célio. Não foi ninguém daqui que enviou isso. Todo mundo aqui viu quando aquele rapaz me entregou o envelope ontem. Estava lacrado e tinha o meu nome. Ninguém de vocês me conhecia. Isso foi enviado pelo autor, eu já confirmei.

IVY (para Célio) – Putz, esse cara te conhece?

CÉLIO – Não conheço porra de autor nenhum.

IVY – Ué, mas ele sabe que você não conheceu o seu pai.

TADEU – Isso também não é segredo para ninguém, não é? A escola inteira sabe disso.

EDUARDO – O problema é o seguinte. Eu conversei hoje de manhã com o pessoal da Secretaria. Eles me disseram que o autor tem liberdade total para escrever o que quiser. Ou seja, isso aqui está no direito dele.

ALICE – Eu não vejo problema nisso aí, não. O Célio vive dizendo que queria conhecer o pai dele.

CÉLIO – Mas não deste jeito aqui, na base da sacanagem. Eu queria conhecer de verdade.

EDUARDO – Célio, se você me permite, você pode conhecer de verdade. Eu quero que todo mundo se afaste com as cadeiras, menos o Célio e o Tadeu. Abram a roda. Célio e Tadeu ficam aqui no centro.

O círculo se abre, deixando os dois alunos no centro. Eduardo fica em pé, fora do círculo.

EDUARDO – Célio, eu quero que você imagine que o Tadeu é o seu pai.

TADEU – Por que logo eu, caramba?

EDUARDO – Tadeu, eu já disse que nós estamos trabalhando e não quero ter de repetir isso a toda hora. Você compreendeu, Célio? Eu quero que você imagine que o Tadeu é o pai que saiu da sua casa há muitos anos. Agora ele voltou e vocês vão poder conversar. Eu quero que você pense no que diria para ele neste primeiro encontro.

CÉLIO – Não vou dizer porra nenhuma. Eu quero parar com esta merda aqui.

EDUARDO – É só um exercício, Célio. Quando terminar, a gente pára. Mas agora eu quero que você pense em algo para dizer ao seu pai. Como ele se chamava?

CÉLIO – Não é da sua conta.

EDUARDO – Por favor, Célio. Como era o nome do seu pai?

CÉLIO (reticente) – Luís.

EDUARDO – Ouviu, Tadeu? A partir de agora, você se chama Luís. Você é o pai do Célio, que voltou depois de muito tempo para conhecê-lo. Prontos? Vamos lá? Quando você quiser, Célio.

TADEU – Posso perguntar uma coisa antes?

EDUARDO – Claro.

TADEU – É Luiz com “s” ou com “z”?

EDUARDO (nervoso) – Mas que diferença faz isso?

TADEU – É que eu tenho um tio que se chama Luís. Ele faz questão de dizer que é Luis com “s”. Ele diz que se fosse Luiz com “z”, seria outra pessoa.

CÉLIO – O do meu pai é com “s”, eu acho.

EDUARDO – Isso não tem a menor importância, Tadeu. Agora vamos começar. Quem quer falar primeiro?

Célio e Tadeu ficam em silêncio, assim como o restante dos alunos.

EDUARDO – Eu começo, então. Célio, eu quero que você se aproxime do Tadeu, que agora é o seu pai Luís, e diga para ele algo que você guardou por muito tempo com você. Pode ir.

Célio levanta-se da cadeira vagarosamente, caminha até Tadeu e o observa com cuidado.

CÉLIO – Oi, você pode se levantar?

Tadeu começa a se levantar, apreensivo. Assim que Tadeu se põe em pé, Célio acerta-lhe um murro no meio do rosto. Tadeu cai. Todos os alunos se levantam, assustados.

CÉLIO – Isso é para você aprender a nunca mais abandonar uma mulher sua com um filho pequeno, seu desgraçado.

Eduardo corre para tentar conter Tadeu, que se levanta e investe contra Célio.

TADEU – Seu filhodaputa, você tá fodido, cara.

EDUARDO – Calma, Tadeu, calma.

Célio está em um canto da sala, ofegante. Alunos ajudam a conter Tadeu.

IVY – Teatro é sempre assim?

ALCIDES – Ca...ca...ca...ralho...

EDUARDO – Calma todo mundo, vamos ficar calmos. Como é que você está Tadeu?

Entra o zelador

ZELADOR – Que que tá acontecendo aqui? Por que esta barulheira?

EDUARDO – Não foi nada, seu Tobias. Foi uma pequena confusão.

ALICE – É, o Célio arrebentou a fuça do pai dele. Achei muito bem-feito.

ZUCA – Não foi bem a do pai dele, pelo que a gente está vendo agora. Vai deixar quieto, Tadeu?

EDUARDO – Pessoal, vamos nos acalmar. Seu Tobias, muito obrigado. Pode deixar que a gente resolve tudo por aqui.

ZELADOR – O aluno está machucado. Eu vou chamar a diretora.

EDUARDO – Não é o caso, seu Tobias. A gente....

Zelador sai da sala.

EDUARDO (puxando uma cadeira) – Senta aqui, Tadeu. Como é que você está?

TADEU (com a mão no nariz) – Eu tô dizendo que isso não vai ficar assim, eu vou pegar este filhadaputa de jeito também.

IVY – Tadeu, eu acho que faz parte. O que que você queria que o Célio fizesse? Que ele te desse um abraço e falasse que estava morrendo de saudades. Eu teria feito a mesma coisa. Abandono é foda, cara.

Entram o zelador e a diretora.

DIRETORA (olhando o ambiente) – Vocês podem nos dar licença um instante? Eu preciso ter uma conversa com o professor Eduardo. (Ao zelador) – Seu Tobias, o senhor leva o Tadeu até a sala dos professores? Veja se ele precisa de uma água, um curativo, alguma coisa.

ZELADOR – Sim, senhora. Vem cá, Tadeu. Vamos dar uma olhada neste nariz aí. Já tá inchando, hein.

Zelador conduz Tadeu para fora da sala, demais alunos vão em seguida.

EDUARDO – Dona Maria Lúcia, eu vou explicar. Foi um imprevisto, a gente estava...

DIRETORA – Professor Eduardo, talvez o senhor não tenha prestado atenção num detalhe. As coisas aqui nesta escola já não são fáceis. A gente enfrenta o problema do tráfico aqui na região, as famílias são carentes, não temos quase verba, não temos computador, a prefeitura já ameaçou fechar a escola. Os alunos faltam mais do que vêm, eu vejo meninas de 14 anos engravidando, garotos de 12 que acham mais interessante vender droga do que estudar... o que a gente menos precisa neste momento é de um professor que venha aqui jogar um aluno contra o outro.

EDUARDO – Eu sei, diretora.

DIRETORA – Desculpa, professor, mas acho que o senhor não sabe, não. Eu acreditei que a chegada do senhor fosse motivar os alunos, fosse mostrar para a comunidade que é possível fazer alguma coisa digna aqui nesta escola. Como é que eu vou lutar para manter o senhor aqui se, no primeiro dia, os alunos já estão se matando?

EDUARDO – A senhora tem razão, mas é que eu não contava com a reação do Célio. Nós fomos fazer uma cena em que ele devia reencontrar o pai e, de repente, ele avançou feito um louco em cima do Tadeu. Eu nunca tinha visto uma coisa assim, não tive nem tempo de impedir.

DIRETORA – Eu entendo que o senhor tem de fazer o seu trabalho. Mas aceite um conselho meu: nem tudo o que o senhor está acostumado a fazer lá fora, o senhor vai poder fazer aqui. Cuidado quando for brincar de novo com estas crianças, é só isso o que eu peço ao senhor.

EDUARDO – Eu não estava brincando, diretora.

DIRETORA – Tudo bem, mas cuidado mesmo assim. Hoje eu vou liberar a turma. Acho que o senhor não tem mais clima para continuar, não é? Amanhã eles estarão aqui no mesmo horário.

Diretora sai da sala. Eduardo senta-se desanimado em uma das cadeiras.

CENA TRÊS

Casa de Célio. Miriam está fazendo as unhas de sua freguesa e amiga Augusta.

AUGUSTA (observando as unhas) – Ô, Miriam, você não tá achando isso aqui muito pálido, não? Parece mão de doente.

MIRIAM – Pálido, Augusta? Ficou louca? Esta cor aí é um laranja, quase vermelho.

AUGUSTA – Não sei, acho que a gente devia ter usado vermelho logo de uma vez. Você sabe que cor clara não combina comigo. Eu acho que tudo que é muito clarinho lembra hospital.

MIRIAM – Graças a Deus faz um tempão que eu não vou em hospital. Mas duvido que doente use esmalte desta cor. Olha pra isso, Augusta. Só se for hospital de queimado. Com esse laranja parece que sua mão tá pegando fogo.

AUGUSTA (maliciosa) – Ih, querida. Aqui tudo tá pegando fogo, graças a Deus. Não é só a mão, não. Com o Lauro é assim: ou a gente pega fogo ou sai logo do caminho. Com ele não tem esse papo de conversa, de diálogo, não. Quando ele aparece, ó, a gente só usa a boca pra beijar. Conversar eu converso aqui com você, não é mesmo?

MIRIAM – Que Lauro é esse, agora?

AUGUSTA – Como assim, que Lauro é esse? De quantos Lauros eu já te falei? É o Lauro que eu conheci no baile do outro sábado, e que me trouxe aqui pra casa, não te contei? Claro que contei. Ele ficou pra dormir e no domingo comeu um frango assado inteirinho.

MIRIAM – Ah, agora lembrei. Eu não lembrava do nome dele, só lembrava da história do frango. Se você for continuar com ele, acho que vai precisar abrir uma granja.

Entra Célio, com a mochila nas costas, emburrado. Passa reto pelas duas e vai para o quarto.

MIRIAM – Ô, menino, não tem ninguém aqui não, é?

AUGUSTA – Eu não tô te falando, Miriam, que ninguém enxerga este esmalte? Se fosse vermelho, o menino tinha notado. Se eu confiar em você, a gente acaba invisível.

MIRIAM – Célio, volta aqui, menino. Onde já se viu? Não tem mais mãe, não?

AUGUSTA – Isso mesmo. Não tem mais madrinha também não?

MIRIAM – Ué, mas você não é madrinha dele, Augusta.

AUGUSTA – Eu sei, mas assim ele fica mais envergonhado ainda.

Célio volta à sala. Deixou a mochila no quarto.

MIRIAM – Que cara é essa? Você não ia chegar mais tarde hoje por causa daquele tal de ensaio?

AUGUSTA – Tá ensaiando o quê, menino? Eu te contei que o Lauro é músico, Miriam? Toca na banda dos ferroviários. Ensaia duas vezes por semana também. Ganha uma miséria, mas parece que pode andar de graça de trem.

MIRIAM – E pra onde que a gente vai de trem hoje em dia?

AUGUSTA – Sei lá, mas se um dia precisar, pode ir de graça. Foi isso que ele me falou.

CÉLIO – A diretora dispensou a gente mais cedo.

AUGUSTA – E você fica com essa cara? Quando eu estava na escola e era dispensada mais cedo, nossa, parecia que eu tinha ganhado na loteria. Hoje tá tudo tão mudado, né, Miriam? A diretora dispensa e eles voltam pra casa assim, quase chorando.

MIRIAM – O que foi que aconteceu, Célio?

Célio fica em silêncio.

MIRIAM – Pode falar, menino. A Augusta é de casa. Eu ia contar pra ela depois mesmo.

AUGUSTA – Ah, isso ia mesmo.

CÉLIO – Eu briguei.

Miriam pára o trabalho nas mãos de Augusta e se aproxima de Célio.

CÉLIO – Brigou com quem? E por quê, desta vez?

AUGUSTA – Ô, Miriam, o Lauro é outro esquentado, viu. Acredita que na saída do baile, ele achou que um tiozinho tava olhando pra mim? Pois não foi lá tirar satisfação?

MIRIAM – Augusta, quer deixar o moleque falar?

CÉLIO – Briguei com o Tadeu.

MIRIAM – O Tadeu? Mas justo com o Tadeu? Você não vivia dizendo que o Tadeu era o melhor aluno da escola?

AUGUSTA – Ah, vai ver que foi por isso mesmo, não é, Célio? Não sei como é agora, mas no meu tempo a melhor aluna era chata que Deus me livre...

CÉLIO – A culpa nem foi dele, eu acho. Rolou uma parada estranha lá no ensaio.

MIRIAM – Parada estranha, que que é isso de parada estranha? Não é coisa de droga, é?

CÉLIO – Não, mãe. No ensaio do teatro, o professor falou que era pra eu imaginar que ele era o meu pai.

MIRIAM – O quê? Que história é essa de seu pai?

CÉLIO – Foi o que eu falei. Mas o professor disse que era pra eu pensar que o Tadeu era meu pai que tinha voltado. E daí eu tinha que dizer uma coisa pra ele.

MIRIAM – Sei. E o que foi que você disse?

CÉLIO – Eu xinguei ele de desgraçado e arrebentei o nariz dele com um soco.

AUGUSTA – Deus me livre! Quer dizer que se o seu pai resolver dar as caras algum dia, é isso que ele vai levar.

MIRIAM – Célio, senta aqui, menino.

Célio senta-se perto da mãe.

MIRIAM – Me responde uma coisa: alguém te humilhou?

CÉLIO – Como assim, humilhou?

MIRIAM – É, eu quero saber se alguém te ofendeu nesta tal aula de teatro, se fez pouco caso de você, essas coisas.

CÉLIO – Não, isso não. Só falaram para eu imaginar que o Tadeu era o meu pai.

MIRIAM – E daí você deu um soco na cara dele? Foi isso?

CÉLIO – Foi.

MIRIAM – Então tá tudo certo. Você já acertou as contas com seu pai e não se fala mais nisso. Tudo bem que você quebrou o nariz da pessoa errada, mas nem sempre a gente acerta na vida, não é, Augusta? Aquele salafrário merecia mesmo uma de jeito. Até eu saí vingada desta história. Mas agora chega, tá bom? Se todo mundo que o pai foi embora saísse por aí dando soco a três por quatro, metade do mundo ia ter o nariz quebrado.

CÉLIO – A senhora acha que está tudo certo mesmo? E o Tadeu?

MIRIAM – Amanha você pede desculpas pra ele e diz assim: ô, Tadeu, tanta gente pra você ser nesta vida, e você resolveu ser logo o meu pai?

Célio e Miriam riem e se abraçam. Célio começa a sair. Miriam interrompe.

MIRIAM – Ô, menino, a gente pode assistir esses ensaios aí? Quer ir comigo, Augusta?

AUGUSTA – Ah, não sei. Não é muito violento? Esse negócio de quebrar nariz não é comigo.

CÉLIO – Vou perguntar para o professor. Se puder, eu aviso.

Célio sai. Augusta fica em silêncio.

MIRIAM – Que foi? Por que ficou com esta cara?

AUGUSTA – Não sei. Tô aqui pensando no que você falou para o menino.

MIRIAM – Acha que eu falei alguma besteira?

AUGUSTA – Sei lá. É que eu pensei que você fosse falar alguma coisa mais séria.

MIRIAM – Isso que eu falei foi uma coisa muito séria, Augusta. A gente não precisa chorar pra ser sério, não é?

AUGUSTA – Acho que não. (Olhando as mãos) – Por falar em ser sério: ô, Miriam, tira esta cor mixuruca da minha mão e bota logo aquele vermelhão, vai. Hoje o Lauro vai ver o que é bom pra tosse.

As duas caem na gargalhada.

CENA QUATRO

Dia seguinte. Sala de ensaio. Eduardo, os seis alunos e mais o zelador. Alunos deitados no chão, em exercício de relaxamento. Eduardo caminha entre eles. Zelador sentado em um canto com ar entediado

EDUARDO – Devagar, devagar... sem pressa, Ivy. Respira, segura o ar o máximo que vocês conseguirem e depois vão soltando aos poucos, devagar... Alice, encosta mais a coluna no chão, é para vocês sentirem o chão com o corpo inteiro...De olhos fechados, Zuca, você não está perdendo nada....

ZUCA – É que desde ontem eu estou com um pouco de medo do Célio... Se ele dá porrada em quem tá de olho aberto, o que ele não vai fazer com a gente aqui, assim desprevenido?

Alunos riem

EDUARDO – Silêncio, chega de graça. O que aconteceu ontem já foi resolvido. Respirem fundo, vamos...

Batem à porta. Zelador levanta-se e abre. Surge um novo emissário do autor, trazendo uma grande caixa nas mãos.

EMISSÁRIO – Boa tarde. Estou procurando o professor Eduardo. Me disseram que ele estava aqui.

Zelador aponta para o professor. Alunos levantam-se.

EMISSÁRIO (indo até o professor) – Pediram para eu entregar esta encomenda para o senhor.

EDUARDO – Quem pediu?

EMISSÁRIO – Meu chefe.

EDUARDO – E quem é seu chefe?

EMISSÁRIO – Ele é dono de um serviço de entregas. Meu trabalho é só entregar.

EDUARDO – E onde fica este serviço de entrega?

EMISSÁRIO – Do outro lado da cidade. Olha aqui, o senhor me desculpe. Eu sou pago para entregar e já entreguei. Fui.

Emissário sai da sala. Zelador fecha a porta.

ZELADOR – Cada tipinho que começou a aparecer nesta escola. Credo. O senhor não vai abrir esta encrenca, vai? Eu ainda acho que uma hora dessas este maluco vai mandar uma bomba pra cá. Eu vou chamar a diretora.

EDUARDO – Não precisa chamar ninguém, seu Tobias. É só uma caixa e eu vou abrir.

ZELADOR – Eu vou chamar a diretora, assim mesmo. Se esta coisa explodir, ninguém vai falar que eu não avisei.

Zelador sai da sala

EDUARDO (abre a caixa e retira um bilhete, que lê diante dos alunos) – Antes de mais nada, peço desculpas pela confusão de ontem. Acontece. Espero que você esteja melhor, Tadeu. E espero que o Célio esteja mais calmo.

TADEU – Quem é esse cara que sabe o nome da gente?

CÉLIO – Até agora eu tava calmo. Mas esse cara aí me irrita.

EDUARDO – Posso continuar? Lá vai. A peça está quase pronta, pelo menos na minha cabeça, mas vocês ainda não estão.

ZUCA – Por que ele não vem dizer isso aqui, na nossa cara?

EDUARDO – Nisso ele está certo, Zuca. Não estão prontos mesmo. A gente começou a trabalhar ontem. Querem que eu faça o quê, milagre? Posso terminar o bilhete?

ALCIDES – E...e...eu não tô gos...gos...tan...do na...nadin....

ALICE – Relaxa, Au-Au. Agora é uma questão de honra pra gente descobrir aonde tudo isso vai parar. Eu confesso que estou até me divertindo com tudo isso.

TADEU – Você diz isso porque seu nariz ainda está inteiro. Não pensa que eu engoli, viu, Célio. Ainda não sei como, mas isso vai ter volta.

EDUARDO – Posso ou não posso terminar de ler o bilhete?

ZUCA – Manda ver.

EDUARDO (lendo) – Dentro desta caixa vocês vão encontrar um vestido mais elegante, algumas jóias, que não são verdadeiras, mas enganam bem, e um uniforme de empregada doméstica. O vestido elegante e as jóias são para a Ivy...

IVY – Adorei! Este cara é o máximo. Eu tinha certeza de que seria reconhecida, mas não achei que fosse tão rápido.

EDUARDO – Continuando... e o uniforme de empregada doméstica é para a Alice.

ALICE – Posso voltar atrás naquilo que eu disse? Que estava gostando da brincadeira? Já estou achando tudo um saco.

EDUARDO – Além das roupas, vocês vão encontrar mais um trecho da peça, em três cópias. Uma cópia vai para a Ivy, a outra para a Alice e a terceira fica com o professor Eduardo, para orientar a cena. Como já ficou claro que os exercícios de improvisação não funcionam com vocês, desta vez eu prefiro que elas façam a cena lendo os textos.

Eduardo revira a caixa e encontra as três cópias do texto. Fica com uma delas e distribui as outras duas entre as meninas.

IVY – Primeiro eu quero ver o meu vestido e as minhas jóias.

ALICE (lendo as cenas) – Ele está pedindo aqui para que o Zuca desenhe uma casa no chão, de cômodos grandes, para ser a casa da Ivy.

IVY – Professor Eduardo, o senhor poderia, por favor, me entregar o meu vestido elegante? Que coisa! Eu acho que o senhor não pode desobedecer o autor deste jeito.

Eduardo entrega as roupas mais elegantes e as jóias para Ivy e o uniforme de doméstica para Alice. Começa a ler o seu texto.

EDUARDO – Ele diz aqui que vocês devem ir até o camarim, vestir estas roupas rapidamente e voltar para fazer a cena.

ALICE – Ninguém perguntou se eu quero usar este uniforme de empregada doméstica.

IVY – Querida, cada uma fica com o personagem que lhe cai melhor. Nas novelas é sempre assim, e pelo visto vai ser assim aqui também. Graças a Deus um pouco de justiça nesta escola.

ALCIDES – Ma...mas...a gen...gen...te não t...tem... ca....ca...cama....rim na e....es....cola.

EDUARDO – Vocês podem se trocar no banheiro mesmo. Alice, se você achar melhor não fazer esta cena, eu compreendo.

IVY – Ela não tem que achar nada, professor. Desde quando empregada doméstica acha alguma coisa? Vamos, Alice. O homem disse que a gente tem de se trocar depressa e voltar para a cena.

As duas saem levando as roupas; Alice a contragosto.

ZUCA (com sua latinha de spray) – Bom, eu vou começar a fazer a minha parte, que é disparada a melhor de todas.

Zuca começa a traçar no chão o que seriam os cômodos da casa de Ivy.

EDUARDO – Não seria melhor a gente perguntar para a diretora se pode pichar o chão da escola?

ZUCA – Se a gente for perguntar, ela vai dizer que não. Deixa comigo.

Com muita habilidade, Zuca continua a pichar o chão.

TADEU – Professor, você tem certeza de que está tudo nos conforme mesmo?

Batidas na porta.

CÉLIO – Caramba, nunca vi mulher se trocar assim tão rápido.

EDUARDO – Pode entrar.

Entram Miriam e Augusta.

MIRIAM – Dá licença?

CÉLIO – Mãe, o que que a senhora está fazendo aqui? Ficou doida?

AUGUSTA – Oi, gente. A mãe dele é essa aqui. Eu não sou nada, só vim junto porque ela insistiu.

EDUARDO – Boa noite, eu sou o professor Eduardo. Aconteceu alguma coisa?

MIRIAM – Não aconteceu nada, não, senhor. Eu sou a mãe do Célio, aquele ali. É que ontem ele me disse que vocês estavam ensaiando uma peça aqui, não é Célio? Eu vou confessar uma coisa para o senhor. Eu nunca vi uma peça pronta na vida, muito menos ensaio.

CÉLIO – Eu não disse que ia perguntar se a senhora podia vir assistir? Custava esperar um pouco?

AUGUSTA – Sabe o que é, Célio? Ontem sua mãe falou assim pra mim: ih, se eu conheço aquele menino, ele não vai perguntar coisa nenhuma. Amanhã a gente vai na escola e a gente mesma pergunta. Eu vim porque achei que ela tinha razão.

EDUARDO – Olha, eu não me importo com a presença de vocês aqui. Mas é que, sinceramente, nós não temos nada para mostrar ainda. Para ser sincero, a gente vai fazer a primeira cena.

MIRIAM – Bom, se o senhor não se importa, a gente fica um pouco, não é Augusta? A gente já está aqui mesmo.

AUGUSTA – Professor, isso aqui é igual aqueles programas de auditório? A gente tem de ficar rindo de qualquer coisa que vocês falarem?

EDUARDO – É isso o que eu estou tentando explicar. A gente não tem quase nada pra falar ainda.

AUGUSTA – Melhor assim. Sabe que hoje eu não levantei com vontade de dar risada? Eu até falei pra Miriam, não falei? Eu falei assim: Miriam, hoje eu acordei com os ovos virados. Se a gente tiver de dar risada, eu prefiro ficar em casa.

MIRIAM – Mas eu respondi que não devia ter nada engraçado por aqui, porque ontem teve até aluno que saiu com o nariz quebrado, não foi? Ô, meu Deus, por falar nisso, Tadeu, não leva a mal o que o Célio fez. Eu já conversei com ele.

Entram o zelador e a diretora. Diretora vê o chão pichado e se irrita.

DIRETORA – Professor Eduardo, pelo visto nós teremos aqui uma surpresa por dia, não é mesmo? Ontem foi um cena de violência entre os alunos, agora este ato de vandalismo contra a propriedade pública. Até onde o senhor acha que vai? Ou melhor, até onde o senhor acha que eu vou permitir que o senhor vá?

AUGUSTA (aplaudindo) – Muito bem, muito bem. Olha como ela fala bem, Miriam. Eu não conheço a senhora da televisão, mas a senhora é muito boa. Nossa, parecia de verdade.

DIRETORA – Quem é a senhora?

MIRIAM – Augusta, pelo amor de Deus. Esta é a dona Maria Lúcia, a diretora da escola. Não me faz passar vergonha.

AUGUSTA – Olha, a senhora está de parabéns, viu. O Célio nem falou pra gente que a diretora também trabalhava na peça. Mas eu fiquei impressionada, não é, Miriam? Se hoje é o primeiro dia de ensaio e a senhora já é boa deste jeito, imagina no dia da estreia. Vai dar até medo em quem sentar na frente.

DIRETORA – Minha senhora, eu não trabalho em peça nenhuma. Eu sou a diretora desta escola e estou tentando colocar um pouco de ordem em tudo isso aqui.

EDUARDO – Dona Maria Lúcia, eu posso explicar....

DIRETORA – O senhor já percebeu que desde ontem esta é a frase que o senhor mais fala?

EDUARDO – Estas senhoras são a mãe do Célio e....

DIRETORA – A mãe do Célio eu conheço. Só não me lembro direito do nome, desculpa.

MIRIAM – É Miriam.

AUGUSTA – E eu sou a Augusta, a melhor amiga dela. A gente veio dar uma espiadinha nos ensaios.

ZELADOR – Ué, mas já pode trazer gente pra assistir? Amanhã então eu vou trazer a Alzira, a minha mulher. Lembra dela, né, dona Maria Lúcia? Faz um tempão que ela não vem na escola, desde a quermesse do ano passado. Ela disse que já está com saudade da senhora.

DIRETORA – Seu Tobias, é melhor o senhor não trazer ninguém. Quanto menos gente souber do que está acontecendo aqui, melhor para todo mundo.

Ivy, com vestido fino e joias, e Alice, de empregada doméstica, retornam à sala. Ivy, completamente esnobe, dirige-se ao palco, equilibrando-se em seus sapatos de salto, sem olhar para ninguém. Alice fica parada à porta.

IVY – Zuca, você chama isto aqui de uma casa elegante? Você pode me dizer onde é minha sala?

ZUCA – Aí mesmo, onde você está.

IVY – Alice, não fique aí parada feito uma idiota. Vamos, me sirva alguma coisa.

Alice continua parada, sem saber o que fazer.

IVY – Vamos, menina. E me traga uma cadeira também. Ou você acha que é fácil ficar em pé com estes sapatos?

Alice, atordoada, leva uma cadeira para Ivy.

DIRETORA – E isso agora, professor? O senhor também pode explicar o que são estas alunas vestidas assim?

EDUARDO – É a primeira cena que nós iremos fazer já com o texto e os figurinos. Tudo isso acabou de chegar, o autor mandou um motoboy entregar.

DIRETORA (mais doce) – Sei...sei... mas este vestido que a Ivete está usando, estas joias.... a gente não vai precisar pagar por isso, vai?

AUGUSTA – Ela chama Ivete? Que graça, é o nome da minha mãe, acredita?

IVY – Professor, estas pessoas têm de ficar na minha casa? Se a casa é minha, eu não posso botar todo mundo pra fora?

EDUARDO – Calma, Ivy. Eu não vejo problema algum se eles quiserem ver um pouquinho do nosso trabalho. Pode até ser interessante.

DIRETORA – Professor, o senhor ainda não respondeu. A gente não vai precisar pagar por isso, vai? É bom o senhor saber que a caixa da escola está zerada.

EDUARDO – Acho que não vamos precisar pagar nada, diretora. Eu penso que é tudo oferta do autor. Bom, vamos começar então?

CÉLIO – Por que que na minha vez de ser ator ele não me mandou nada?

TADEU – Como não mandou nada? Ele não mandou você me dar um soco no nariz, seu puto?

CÉLIO – Eu estou falando de roupa, dessas coisas.

TADEU – Larga de ser maricas, Célio.

CÉLIO – Cala essa sua boca senão eu vou aí e te arrebento os dentes desta vez.

DIRETORA – Célio, não tem vergonha? Na frente da sua mãe.

EDUARDO – Calma, pessoal. Vamos fazer a ceninha. Se vocês quiserem se sentar...

Com exceção de Eduardo, Alice e Ivy, todos se acomodam. Eduardo, Ivy e Alice pegam os textos.

EDUARDO (lendo) – Ivy está displicentemente sentada em uma poltrona, entretida com um livro, quando Alice surge à porta.

IVY – Cadê o livro?

EDUARDO – Isso não importa agora, Ivy. Vamos começar sem o livro, tudo bem?

IVY – Ou eu faço do jeito que o autor pede ou eu desisto. Eu quero um livro.

Tadeu abre sua mochila, retira um livro e o leva até Ivy.

TADEU – Toma o livro aqui, mas não tira da página que eu estou lendo.

IVY (com o livro nas mãos) – Pronto, professor. Pode continuar.

EDUARDO - ...quando Alice surge à porta. Pode ir, Alice.

ALICE (lendo o texto) – Senhora...

IVY (também lendo) – Eu já não lhe disse que não gosto de ser interrompida quando eu estou lendo? O que foi agora? Por que você insiste em me importunar?

ALICE – O gerente do banco ligou de novo. Foi a terceira vez hoje.

IVY – E o que você tem com isso?

ALICE – Nada, não senhora. É que a cada vez que ele liga parece que ele está mais nervoso. Ele disse que precisa falar urgente com a senhora.

IVY – Se ele voltar a ligar, diga-lhe que quando eu estiver disposta eu poderei pensar em falar com ele. (Para Eduardo) – Nossa, eu adoro o jeito desta mulher falar, professor....

EDUARDO – Psiu, presta atenção no texto Ivy, no texto...

ALICE – Mas sabe o que é? Ele falou que se a senhora não aparecer no banco até amanhã, ele baixa aqui.

IVY – Como assim, baixa aqui? O que isso quer dizer, baixa aqui? Cada vez eu sinto mais dificuldade em entender a linguagem que vocês usam.

ALICE – Bom, eu acho que quer dizer que ele vem aqui soltar os cachorros....

IVY – Ele que se atreva a aparecer aqui. Agora pode ir.

EDUARDO – Alice permanece parada no mesmo lugar.

IVY – O que foi, menina? Além de lerda agora ficou surda também? Eu já disse que você pode ir.

ALICE – É que o gerente falou mais uma coisa ainda....

EDUARDO – Ao ver que a patroa não se mostra interessada, Alice se aproxima dela.

ALICE (mais perto da patroa) – Ele falou que vai cancelar o cartão de crédito da senhora. A partir de amanhã a senhora não vai ter como gastar mais nada.

IVY (em pé, furiosa) – Como assim?

Eduardo e Alice, confusos, olham para o texto.

EDUARDO – Ivy, esta fala não está no texto.

IVY – Professor, eu estou cagando para o texto. Eu quero saber se eu sou rica de verdade ou se sou uma pé-rapada. Primeiro, este autor diz que eu sou rica e logo na primeira página ele avisa que eu não tenho mais um puto.

EDUARDO – Calma, Ivy, a gente tem de seguir o que ele escreveu. Vamos ver o que ele reserva pra você, calma.

IVY – Calma uma ova. Ele não me deixou ser rica nem por cinco minutos. E se eu já fiquei pobre, a primeira coisa que vou fazer é demitir a sonsa desta empregada doméstica, que além de tudo está grávida. Se eu fiquei pobre, ela já está no olho da rua. Todo mundo despede empregada grávida. (Para Alice) – Pode pegar suas coisas e sumir da minha casa.

AUGUSTA – Gente do céu, mas parece a vida real. É igualzinho, não é Miriam? Dona Maria Lúcia, eu estou boba, juro pra senhora. O que eu conheço de gente igual a esta Ivete, que não tem onde cair morta e fica fazendo pose... E olha aqui, não pode mandar a empregada embora, não. Ainda mais se ela está grávida. (Para Alice) – Se ela te mandar embora, minha filha, você processa, viu. Você processa que eu vou de testemunha.

MIRIAM – Mas quem que tá grávida, meu Deus? A empregada?

CÉLIO – Não, mãe, a Alice é que tá grávida.

MIRIAM – Mas tá grávida de verdade ou tá grávida só aí de brincadeirinha?

TOBIAS – Ih, esta daí não faz nada de brincadeirinha, eu que o diga...

ALICE – Eu estou grávida de verdade.

IVY – Professor, o senhor pode botar este bando de gente pra fora da minha casa? Eu não quero que ninguém veja a minha ruína.

EDUARDO – Que ruína, Ivy, do que é que você está falando?

IVY – Como assim, que ruína? O senhor não acabou de ouvir? Eu estou devendo no banco e amanhã eu não vou poder mais usar o cartão de crédito.

DIRETORA – E desde quando você tem cartão de crédito, Ivete? Professor Eduardo, o senhor está enlouquecendo estes meninos.

IVY (andando pelo palco, desesperada) – Eu não posso deixar isso acontecer, meu Deus, eu não posso perder a minha riqueza de uma hora para outra. Minha família levou tanto tempo para chegar até aqui. Eu sempre fui uma mulher rica, vocês ouviram? Uma mulher rica!

Dois assaltantes, armados e encapuzados, entram com tudo na sala de ensaio.

ASSALTANTE 1 – No chão, todo mundo no chão. Se alguém abrir a boca, morre. (Para Ivy) – Menos você, que é ricaça. Você fica aqui.

DIRETORA – Agora o senhor foi longe demais, professor. Arma dentro da escola eu não permito. Nem que seja de brinquedo.

Assaltante 2 dá um tiro para o alto. Todos se jogam ao chão.

ASSALTANTE 2 – Já viu brinquedo que faz este barulho, tia?

AUGUSTA (se jogando no chão) – Ô, Miriam, por que você não avisou que a gente ia ter de participar? Eu tinha vindo de calça comprida. Ficava bem mais fácil na hora de se jogar.

ASSALTANTE 1 – Cala a boca, ô, da unha vermelha. Quer que eu te estoure os miolos, quer?

AUGUSTA – Viu só, Miriam? Se eu tivesse com aquele esmalte sem graça que você me botou ontem, ninguém ia prestar atenção em mim... Muito obrigada, moço. Artista repara em tudo, né, Miriam?

ASSALTANTE 2 (para Ivy) – Você aí, vai passando tudo, anda.

IVY – Hã?

ASSALTANTE 2 – As joias, minha nega, as joias. Tira logo essa porra toda.

IVY – Você pode pegar o meu texto ali pra eu ver o que eu tenho de falar agora?

EDUARDO – Ivy, eu acho melhor...

ASSALTANTE 1 – Eu já não mandei todo mundo calar a boca? Você também, seu boiola. (Para Ivy) - Tá esperando o quê, menina, passa as jóias pra ele.

IVY – Mas, professor, eles não sabem que é tudo falso? Olha, se vocês quiserem, eu passo. Mas não reclamem depois, é tudo falso. Eu tô quebrada, nem cartão de crédito eu tenho mais.

ASSALTANTE 1 – Você tem cartão de crédito também? Vai passando.

DIRETORA – Vocês não estão vendo que ela é uma menina? Ela não tem nada.

ASSALTANTE 2 – Menina? Vestida assim? Nem fodendo. A gente viu quando ela saiu do banheiro dando ordem pra empregadinha.

ALICE – Empregadinha é a sua mãe.

ASSALTANTE 1 – Pra qual quadrilha tu trabalha, hein?

IVY – Eu não trabalho pra ninguém.

ASSALTANTE 2 – Tu já é chefe, então? Caralho, já tem mina chefe do morro. Eu não disse que a gente tá marcando?

ALICE – Professor, eu acho que este texto tá dando muito reviravolta. Então ela ficou rica vendendo droga? E eu sou empregada doméstica de uma traficante?

IVY – Como é que eu sou traficante se eu estou quebrada, sua burra? Não viu o gerente do banco falar que amanhã ele vem aqui soltar os cachorros em cima de mim? Eu acho que tô mais fodida que estes dois aí.

EDUARDO – Ivy, Alice... vocês não estão percebendo que isso não faz parte do texto?

DIRETORA – Ainda bem que não faz. Só me faltava essa. Eu convidar os pais dos alunos para virem aqui ver peça com assalto e com menina traficante.

ASSALTANTE 1 – Eu já não mandei a senhora calar a boca, tia?

ZELADOR – Dona Maria Lúcia, eu acho que a gente estaria melhor se tudo isso fosse coisa do teatro, viu. Mas tô achando que a coisa desandou...

Assaltante 2 apanha todas as joias de Ivy.

ASSALTANTE 2 – E os dólares?

IVY – Quê?

ASSALTANTE 2 – Os dólares, anda logo.

TADEU – Moço, por favor, isso aqui é teatro. Nada do que está acontecendo aqui é de verdade. Essa moça aí, a Ivy, este vestido nem é dela. Ela mora aqui na rua detrás, coitada.

Assaltante 2 vai até Tadeu e o segura pela gola da camisa.

ASSALTANTE 2 – Escuta aqui, eu só não arrebento esta sua cara porque alguém já fez o serviço antes. Quando a gente diz que é pra calar a boca, é pra calar a boca, sacaram?

EDUARDO – Olha, nós vamos colaborar. Ninguém precisa sair machucado disso aqui. Isso aqui é uma escola, olhem pra eles. Eles são menores.

ASSALTANTE 1 – Boiola, a gente tá ligado que isso aqui é uma escola e só tem de menor. Mas tá rolando uma parada sinistra aqui. Você mesmo não é do pedaço. E essa ricaça aí também não. A gente bateu o olho nela e viu que pode rolar algum.

DIRETORA – Se vocês “são do pedaço”, como vocês mesmos dizem, deviam saber que esta é uma escola pobre. Vão roubar o quê, daqui? Papel higiênico?

ZELADOR – Ah, por falar nisso, dona Maria Lúcia, eu sabia que tinha uma coisa pra dizer pra senhora.... O papel higiênico tá acabando. Só tem mais um pacote.

ASSALTANTE 1 – A escola é podrona, a gente sabe. Mas essa mina aqui é chefe do tráfico, ela acabou de dizer. A gente pode seqüestrar e pedir recompensa pra gangue dela.

IVY – Não sou do tráfico porra nenhuma, cara. Eu fumei maconha só uma vez na vida.

CÉLIO – Uma vez o caralho!

MIRIAM – Cala a boca, Célio. Alguém te perguntou alguma coisa?

IVY – Eu coloquei esta roupa aqui porque falaram que eu ia ser rica. Mas as jóias já eram falsas e, cinco minutos depois, eu já tava de volta na merda. Quer levar essa porra de vestido? Pode levar. Caguei pra isso também.

ALICE – Alguém pode me dizer o que que tá rolando aqui, de verdade? Isso é um assalto?

ALCIDES – As...as....sal...sal...to de ver...ver...da...verda...

ASSALTANTE 1 – Ih, o carinha tá se cagando. Ficou até gago.

ALCIDES – Eu....e....eu... nã....nã....não....fi...fi...quei....eu....sô...sou...

ASSALTANTE 1 – Cala a boca, cagão. Vamos resolver logo essa parada aqui?

ASSALTANTE 2 – Cada um vai tirando o que tem e passando pra cá. Relógio, dinheiro, cartão, anel, o que tiver, rapidinho. Sem levantar a cabeça, vai passando aqui.

Assaltantes vão recolhendo os objetos de todos os presentes, que continuam no chão. Assaltante 1 chega onde está Alice.

ASSALTANTE 1 – Passa tudo aí, empregadinha.

ALICE – Eu não tenho nada.

ASSALTANTE 1 – O que tiver, anda logo.

ALICE – Eu já disse. Eu troquei de roupa lá no banheiro e ficou tudo lá. Eu voltei pra cá com este uniforme. Pode ir lá ver.

ASSALTANTE 2 (para Assaltante 1) – É sujeira ir até o banheiro agora. Tamo marcando muito. Isso aqui rendeu uma merreca.

ASSALTANTE 1 (para Alice) – Levanta aí, menina.

EDUARDO – Por favor, deixa a menina quieta.

ASSALTANTE 1 – Cala a boca, ninguém tá falando com você. Fica de pé, garota.

Alice obedece e se levanta.

ASSALTANTE 1 – Tem uma coisinha que você pode me dar, sim.

Assaltante 1 levanta o capuz e dá um beijo, à força, na boca de Alice.

ASSALTANTE 1 – Desta vez eu vou me contentar com isso, mas só desta vez, garota. Da próxima, se você não tiver nada, vai ter de me dar uma coisa que fica aí mais embaixo...

ALICE – Seu covarde escroto.

ASSALTANTE 1 (já com o capuz no rosto) – Se alguém seguir a gente, morre. Tão ligados?

Assaltantes deixam a sala. Todos ficam deitados mais alguns segundos.

TADEU – Acho que eles já foram.

DIRETORA – Seu Tobias, corre até a minha sala e telefona pra polícia.

Tobias obedece. Aos poucos, todos vão se levantando.

AUGUSTA (tirando o celular do bolso) – Vamos ver se ficou boa, Miriam....

MIRIAM – Do que você tá falando, Augusta?

AUGUSTA – Eu fotografei escondidinha a cena do beijo. (Olhando o celular) – E não é que ficou bonita? Menina, você beija feito atriz de novela mesmo.

Diretora arranca o celular da mão de Augusta

DIRETORA – Deixa eu ver isso. Deus do céu, ela fotografou mesmo a cara do desgraçado. Esse está ferrado.

CENA CINCO

Sala da diretoria. Dois dias depois. Diretora, zelador e Augusta. Diretora e zelador estão com uma pilha de jornais sobre a mesa. Augusta está no telefone.

AUGUSTA (no telefone) – Sim, claro. Mas preciso olhar a agenda dela. Um momento, por favor.

DIRETORA (para Tobias, que tem um jornal nas mãos) – Este aí nas mãos do senhor diz o quê, seu Tobias?

ZELADOR – Foto de beijo leva ladrões à cadeia.

DIRETORA – É bom, mas eu gosto mais deste meu. Escuta só: Alunos corajosos evitam tragédia em escola.

AUGUSTA (no telefone) – Às onze horas ela já tem uma entrevista agendada. Pode ser ao meio-dia?

DIRETORA – Quem é, Augusta?

AUGUSTA – É de uma rádio. Eles querem que a senhora entre ao vivo para falar do assalto.

DIRETORA – O que eu tenho marcado às onze? É jornal?

AUGUSTA – Não, os jornais eu estou agendando tudo para a tarde. Às onze é uma emissora de televisão que vem falar com a senhora.... É um desses programas femininos....

DIRETORA – Ah, claro. Bom, se este pessoal da rádio puder falar comigo ao meio-dia, tudo bem. Senão, paciência. Eu sou uma só....

ZELADOR – Olha este aqui, dona Maria Lúcia: Ladrões invadem peça de teatro e acabam na cadeia.

DIRETORA – Hum... este é bom, já fala da peça logo de cara.

AUGUSTA (ao telefone) – Querida, ela só pode falar ao meio-dia. Tudo bem para vocês? (Ouve) – Ah, então paciência. Ela é uma só. (Desliga).

DIRETORA – Augusta, você está sendo muito dura com eles. Não é bom tratar a imprensa assim.

AUGUSTA – Mas a senhora já tem sete entrevistas marcadas para amanhã. Eu também não posso fazer milagre. Além do mais....

DIRETORA – Além do mais o quê, Augusta? Eu estou desconfiada de que você anda chateada com alguma coisa....

AUGUSTA – Eu sei que a diretora da escola é a senhora, mas quem fez a foto fui eu. E eu só dei quatro entrevistas até agora. Todo mundo quer falar mais com a senhora, eu não entendo isso...

DIRETORA – Não seja injusta, Augusta. Eu falei de você em todas as reportagens.

AUGUSTA – Eu sei, mas não é a mesma coisa. Quando eles falam com a senhora, ninguém quer fazer foto minha.

ZELADOR (exibindo os jornais sobre a mesa) – Olha isso aqui, só dá sua cara em tudo quanto é jornal...

AUGUSTA – Eu sei, Tobias, eu sei... Mas fama nunca é demais. Se a gente tem a chance de continuar aparecendo nos jornais, não pode desperdiçar... Porque as pessoas esquecem tudo muito rápido. Amanhã já acontece um outro assalto e ninguém fala mais de mim. Tem de continuar saindo nos jornais sempre.

Eduardo entra na sala com um papel nas mãos

EDUARDO – Dona Maria Lúcia, acho que a gente vai precisar mesmo de uma sala maior para os ensaios agora. Olha aqui, mais 15 alunos se inscreveram para a peça.

DIRETORA – Professor, este é um problema que o senhor vai ter de administrar agora. No momento eu tenho de cuidar da imprensa, depois eu penso no resto.

Telefone toca.

DIRETORA – Está vendo? Quer apostar que é mais um pedido de entrevista?

AUGUSTA (atendendo) – Sala da diretoria, pois não. (Ouve) – Não acredito! Eu não acredito!

DIRETORA – O que foi, Augusta?

AUGUSTA – É do programa do Jô Soares. Eles querem a senhora lá amanhã.

DIRETORA – No programa do Jô? No Jô? Aquele Jô mesmo? Aquele gordo?

AUGUSTA – Bom, eu estou sempre dormindo naquela hora, mas eu não conheço outro.

DIRETORA – Pois amanhã ninguém vai dormir, estão me ouvindo? É uma ordem. Amanhã ninguém vai dormir!!! Diga que eu vou, claro.

AUGUSTA (ao telefone) – Ela vai, claro.

EDUARDO – E o que eu faço com todos estes alunos que querem entrar para a peça?

DIRETORA – Ora, professor. Faça um teste. Que vençam os melhores. O mundo é dos melhores. Augusta, me faça um favor, sim?

AUGUSTA – Pois não.

DIRETORA – Ligue para o meu cabeleireiro e me reserve um horário para amanhã.

AUGUSTA – Meu Deus, eu posso ir junto?

DIRETORA – Você não precisa, o seu cabelo está ajeitadinho.

AUGUSTA – Não no cabeleireiro, no programa do Jô. Eu fico quietinha sentada naquele sofá...

DIRETORA – Querida, eu preciso de você aqui, atendendo o telefone.

AUGUSTA – Mas eu arrumo alguém para o meu lugar...

DIRETORA – Aqui, ouviu bem? Preciso de você é aqui. Seu Tobias, o senhor pode continuar recortando as notícias aí? Eu vou sair para fazer algumas compras.

Diretora levanta-se e começa a sair. Vai até a porta e volta.

DIRETORA – Seu Tobias, eu tive uma idéia. Eu queria que o senhor colocasse vários cartazes na escola inteira, dizendo que amanhã ninguém dorme enquanto não acabar o programa do Jô.

EDUARDO – Dona Maria Lúcia, a senhora podia aproveitar que vai estar no programa do Jô mesmo e pedir para este autor desgraçado mandar o resto do texto...

DIRETORA – Nossa, eu tinha até me esquecido disso. Se esta peça já é este sucesso todo do jeito que está, imagine se ela tivesse texto então... Ia ser um novo...um novo o quê, professor...?

EDUARDO – Sei lá, um novo Hamlet...

DIRETORA – É, um novo Hamlet pra mim já estaria bom...

CENA SEIS

O palco deve ser dividido em duas partes, uma maior e outra menor, para abrigar duas ações simultâneas. A sala da diretoria deve ocupar a área menor, e encontram-se nela a diretora e o zelador. A área maior do palco vai mostrar os ensaios finais da peça – e estão ali o professor Eduardo e os alunos que participam da montagem.

EDUARDO (sentado a um canto) – Pessoal, vamos tentar passar esta seqüência sem interrupções desta vez, tá legal? A gente está aqui há quase três horas e eu ainda não estou gostando.

TADEU (usando um traje mais formal e elegante) – Eu acho que a gente podia avançar um pouco, todo mundo está cansado desta cena, professor.

ALICE (com a gravidez já visível, usando o vestido elegante e as jóias que tinham sido vistos no corpo de Ivy) – Avançar para onde, isto que eu gostaria de saber...

IVY (com os trajes de empregada doméstica) – Todo mundo aqui é testemunha que eu colaborei e não criei caso. Até este vestido horroroso eu aceitar usar. Mas acontece...

EDUARDO – Acontece o quê, Ivy?

IVY – Acontece que a gente já está ensaiando há dois meses, a estréia é daqui a dois dias e a gente ainda não recebeu a última cena. Eu nem sei se vou ser mesmo pedida em casamento pelo jardineiro.

EDUARDO – Isso é muito importante para você, Ivy?

IVY – Sei lá, eu queria ter um pouco de tempo para pensar.

EDUARDO – Por quê? Você pensar em se casar com o jardineiro?

IVY – Nem morta, professor. Ficou louco? Pobre por pobre, eu prefiro morrer solteira.

EDUARDO – Então está tudo certo. Vamos começar a cena?

ZUCA (com pincéis na mão, diante de um cavalete, onde dá alguns retoques em um quadro) – É bom mesmo. Eu não agüento mais ficar enrolando na frente deste bagulho aqui. O cheiro desta tinta já tá me dando no saco.

Blecaute na cena do ensaio. Luz na sala da diretoria.

DIRETORA – O senhor acha que a gente está fazendo a coisa certa?

ZELADOR – Que pergunta, dona Maria Lúcia. Agora já não dá mais pra voltar atrás, né? Não tem mais nenhum ingresso sobrando para a estréia dos meninos, nem pra remédio. E para os dois dias seguintes também está tudo lotado.

DIRETORA – O bairro não falou em outra coisa nestes dois meses, hein, seu Tobias? O senhor acredita que o prefeito vem mesmo? Eu acho que ele nem sabe onde fica esta escola...

ZELADOR – Ele podia não saber, mas agora aposto que ele consegue chegar aqui sem precisar olhar no mapa.

DIRETORA – Eu fico com um pouco de medo, seu Tobias. A gente fez tanto barulho com este negócio de teatro... Já imaginou se ninguém gostar?

ZELADOR – Bom, tem uma hora que a gente precisa entregar a Deus mesmo, não tem jeito.

DIRETORA – E, pelo visto, o senhor está querendo me dizer que esta hora chegou?

ZELADOR – É, mais ou menos isso...

DIRETORA – Tem gente de outros bairros que está procurando a escola para matricular o filho aqui...

ZELADOR – Desculpa, dona Maria Lúcia, mas é a terceira vez que a senhora me conta isso...

DIRETORA – Eu sei. Mas é tão difícil de acreditar nisso que eu fico repetindo para parecer mais verdadeiro...

Blecaute na sala da diretoria. Luz na sala de ensaio. Alice está displicentemente sentada em uma poltrona, entretida com um livro. Ao seu lado, Tadeu fuma um charuto e tem um copo de bebida nas mãos. Ivy surge à porta, com o uniforme de empregada.

IVY – Senhora...

ALICE – Eu já não lhe disse que não gosto de ser interrompida quando eu estou lendo? O que foi agora? Por que você insiste em me importunar?

IVY – O gerente do banco ligou de novo. Foi a terceira vez hoje.

TADEU - E o que você tem com isso, menina?

IVY – Nada, não senhor. É que a cada vez que ele liga parece que ele está mais nervoso. Ele disse que precisa falar urgente com um de vocês.

ALICE – Se ele voltar a ligar, diga-lhe que quando meu marido estiver disposto ele poderá pensar em falar com ele.

TADEU – Querida, eu não gostaria que você continuasse a tomar todas as decisões por mim. Isso que você acabou de dizer, por exemplo, é uma obrigação minha dizer, e não sua.

ALICE – Eu sei, mas você sempre esquece esta fala. É a quinta vez que a gente passa esta cena e, se eu não falasse, você ia esquecer de novo, quer apostar? E eu já não aguento mais, meus pés estão inchados, minhas pernas estão latejando...

EDUARDO (impaciente) – Alice, Tadeu, pelo amor de Deus. A gente estreia depois de amanhã e vocês continuam saindo do texto deste jeito? Esta foi a última vez que isso aconteceu, está OK? A última?

ALICE – Então o senhor obriga ele a decorar. Nunca vi. Um cara tão bom pra conta e fórmula, não consegue decorar esta merdinha aqui. A Ivy que é a Ivy já sabe tudo de cor...

IVY – Olha, se eu não fosse a empregada nesta casa, a senhora ia ouvir umas coisas, viu...

ALICE – O que eu iria ouvir? Continue, vamos.

IVY – Eu ia dizer que além de não pagarem as contas, vocês dois nem sabem criar filho direito. Onde já se viu, reprimir o menino deste jeito? (Apontando para Zuca) – Este menino gosta de pichar a rua, não de ficar dentro de casa pintando quadro. Se vocês não comprarem uma latinha de spray pra ele, eu mesma compro com o meu dinheiro.

ZUCA – Muito obrigado, tia Ivy.

IVY – Se você me chamar de tia de novo, eu te quebro a cara.

TADEU – Meu filho vai ser um artista, e não um pichador que vai viver correndo da polícia.

EDUARDO (confuso, com o texto nas mãos) – Mas...mas... de onde vocês estão tirando tudo isso agora?

IVY – Sei lá, é que me incomoda ver o Zuca de boca fechada pintando estas porcarias aí.

EDUARDO – Vocês estão aqui para seguir o texto, e não para se incomodar com nada. Na peça, o Zuca é um estudante de belas artes.

ZUCA – Deus me livre. Ainda bem que isto tem hora marcada pra terminar.

EDUARDO – Agora chega. Quero todo mundo no texto. Vamos lá, Ivy, volta para a fala do gerente do banco.

IVY – O homem do banco disse que se ninguém ligar para ele hoje, amanhã ele vem aqui soltar os cachorros...

TADEU – Engraçado, por falar nos cachorros... Por que será que nossos cachorros estão quietos há tanto tempo?

Entram Célio e Alcides, encapuzados e armados.

CÉLIO – Porque eles comeram um bolinho de carne com calmante e agora vão dormir por muitas horas, seus idiotas. Pro chão, todo mundo pro chão.

ALICE – Mas o que significa isso?

ALCIDES – Ca...ca...ca....la a bo...bo... cala a bo..ca ou...ou e...e...eu...te es...es..est....estou...ro...os....

Ivy cai na gargalhada.

EDUARDO – Posso saber do que a senhora está rindo? A casa está sendo assaltada, os ladrões estão armados, eles podem matar todos vocês... Qual é a graça nisso?

IVY – Desculpa, professor, mas ninguém vai levar a sério este assalto. A gente nunca viu ladrão gago. O Célio até que está enganando bem, mas o Au-Au, tadinho...

EDUARDO – Tem de ter papel pra todo mundo e o Alcides se saiu um ótimo ladrão, melhor que todo mundo aqui...

ALICE – É que até ele terminar de falar que vai estourar os meus miolos dá tempo de a polícia baixar aqui três vezes.

EDUARDO – Eu quero dizer que ele sabe dar vida a um ladrão, ele é convincente, o público vai ter medo da postura dele, da atitude dele, não vai, Alcides?

ALCIDES – Ac...ac...acho que s...s...sim...

EDUARDO – Pois é isso mesmo. Eu quero que você faça aquele olhar, Alcides, aquele olhar de raiva que só você sabe fazer, aquele olhar que põe medo em todo mundo.

IVY – Mas quem vai prestar atenção nos olhos dele, ainda mais de capuz?

EDUARDO – Todos vão prestar atenção nos olhos do Alcides, estão me ouvindo? Não só vocês aqui no palco. Depois de amanhã, quando este teatrinho estiver lotado, todos vão sentir medo do Alcides. Eu garanto isso.

Entra um novo emissário, correndo e suando. Tem um envelope nas mãos.

EMISSÁRIO – Professor Eduardo...quem é o professor Eduardo?

EDUARDO – Sou eu.

EMISSÁRIO – Falaram que era pra eu entregar isso para o senhor ainda hoje ou eles iam me tirar o couro.

EDUARDO (Apanhando o envelope) – Eu sei que você não vai me responder. Faz dois meses que eu estou nesta escola e nunca ninguém responde o que eu pergunto. Mas, pela última vez, quem é que vai te tirar o couro?

EMISSÁRIO – E eu lá sei? Eu só corro pra baixo e pra cima nesta cidade. Eu nem sei o que eu entrego. Agora o senhor me dá licença que tem mais gente me esperando.

EDUARDO – Espera aí...

Emissário sai correndo.

EDUARDO – Filho-de-uma-puta.

ALICE – Que é isso, professor? Nunca falou um palavrão na vida.

EDUARDO (lendo as páginas que estavam no envelope) – Tem hora para tudo nesta vida, Alice. Para tudo. (Gargalha) – Deus do céu... Não acredito...

TADEU – O que foi, professor? É o fim da nossa história?

EDUARDO – Pode ser, o difícil vai ser alguém acreditar nisso...

CENA SETE

Sala da diretoria. Diretora, bem-vestida, retoca a maquiagem em um espelhinho de mão. Entra o zelador, também muito elegante.

ZELADOR – O prefeito veio mesmo. Acabou de chegar. Veio rodeado de umas dez pessoas.

DIRETORA – Meu Deus! O senhor conseguiu um lugar bom para ele?

ZELADOR – Pra ele a gente conseguiu um lugar na primeira fila. O resto da trempa vai ter de se virar sozinha. Não tem mais nenhuma cadeirinha nem pra remédio.

Entra Eduardo, muito nervoso.

EDUARDO – Dona Maria Lúcia, tá tudo pronto. Só estão esperando a senhora para começar.

DIRETORA – Vamos, seu Tobias. Vamos ver o que o professor Eduardo aprontou com as nossas crianças...

Diretora e zelador começam a sair. Eduardo fica na sala.

DIRETORA – Vamos, professor! A peça já devia ter começado há dez minutos.

EDUARDO (nervoso) – Eu acho melhor ficar por aqui.

ZELADOR – O quê? O senhor trabalhou um tempão com esta garotada e agora não vai ver? O que que deu no senhor, ficou louco?

EDUARDO – É que...

DIRETORA – É que o quê, professor?

EDUARDO – É que eu fico nervoso demais em estréia, eu não consigo me controlar. Vai me faltando o ar e eu....eu tenho de sair correndo.

DIRETORA – Como assim? O senhor não aprendeu a controlar isso ainda? Onde já se viu? Um diretor de teatro que não consegue ver estréia.

ZELADOR – Cada uma. Sempre que o senhor estréia peça o senhor fica desse jeito aí?

Eduardo fica em silêncio. Diretora e zelador se olham.

DIRETORA – Este seu silêncio, professor... Ele quer dizer o que eu estou pensando?

ZELADOR – Pai do céu. Esta é a primeira peça que o senhor faz na vida?

EDUARDO – Ninguém queria vir trabalhar nesta escola. Só de falar o nome dela todo mundo saía correndo lá na secretaria. Era medo de ladrão, de traficante, de bala perdida. Todo mundo falava assim: nem morto que eu vou parar naquele cu de mundo. Vocês deviam me agradecer por eu ter vindo... Eu fui o único que teve coragem de vir.

DIRETORA – Mas o senhor devia ter me avisado que não tinha experiência nenhuma, meu Deus. Nas últimas semanas eu nem fui ver os ensaios, confiei no senhor. E se der alguma merda?

ZELADOR – Calma, dona Maria Lúcia. Vai dar tudo certo...

DIRETORA – E justo hoje com o prefeito aí. Se esta sala tivesse uma saída de emergência, eu juro que fugia.

Entra Augusta

AUGUSTA – Gente, o que que tá acontecendo aqui? O prefeito não pára de olhar no relógio. O pessoal já tá começando a assobiar e bater palma.

DIRETORA – Bom, fazer o quê agora, não é mesmo? Em último caso, sabe o que eu faço? Eu entro num desses botecos, iguais os bêbados aqui do bairro, e encho a cara até esquecer tudo e cair morta.

Diretora, zelador e Augusta saem. Eduardo fica na sala, caminhando nervoso de um lado para o outro. Aos poucos, começa a ouvir as gargalhadas vindas do teatro. As gargalhadas se dão em ritmo cada vez mais crescente. Abre discretamente a porta e o barulho das gargalhadas, poderoso, invade toda a sala da diretoria. Recursos de luz e trilha sonora indicam que o tempo vai passando. E então explode o aplauso final, com gritos e assobios. Eduardo está sentado sobre a mesa da diretora, ouvindo hipnotizado a consagração de sua peça. Diretora e zelador voltam extasiados.

DIRETORA – Se eu fosse o senhor, eu não perderia isso por nada. Vai lá, professor. Eu nunca vi aqueles meninos tão felizes na minha vida. Eles querem o senhor no palco...

ZELADOR – Larga mão de ser bobo, professor. Quantas chances na vida a gente tem de ser aplaudido? Corre, professor.

EDUARDO (indeciso) – Eles gostaram? De verdade?

DIRETORA – Isso que o senhor tá ouvindo, o senhor acha que é o quê? Vaia é que não é, né?

Eduardo beija a diretora, dá um grande abraço no zelador e corre para o teatro. Ao fechar a porta da diretoria, o som das palmas diminui. Diretora e zelador sentam-se e respiram aliviados...

DIRETORA – A Ivy...quem ia imaginar, hein, seu Tobias? Descobre que é filha de milionário americano com uma funcionária da lanchonete do aeroporto de Cumbica...

TOBIAS – É, dona Maria Lúcia, a paixão é assim mesmo. Não respeita dinheiro, não respeita fronteira...quando vem, vem que é uma coisa.

DIRETORA – O Alcides, então...vira cantor de hip hop na cadeia e depois fica milionário...

ZELADOR – Ué, natural. Essa coisa aí do hip hop, a senhora nunca ouviu? Todo mundo só gira o disco para trás e repete a mesma coisa. A pessoa parece que treina para ficar gaga... O Alcides já nasceu com o dom, só precisava que alguém apontasse um caminho pra ele, né...

DIRETORA – Tudo bem que a gente é uma escola da periferia, que ninguém aqui entende nada de teatro, que tem gente que nunca foi a um teatro de verdade... Mas o senhor acha mesmo que eles engoliram tudo isso?

ZELADOR – Me desculpa, dona Maria Lúcia, mas a senhora não estava lá para ver os aplausos? Eles adoraram tudo aquilo, tava na cara...

DIRETORA – Pode ser, seu Tobias, pode ser...

Entra Augusta

AUGUSTA – Dona Maria Lúcia, eu não agüento mais vir aqui chamar a senhora. Colabora, pelo amor de Deus. O prefeito quer tirar uma foto com a senhora. Vamos logo, ele falou que ainda tem uma inauguração de supermercado hoje.

DIRETORA – Diz pra ele que eu já vou, Augusta. Já estou indo...

AUGUSTA – Mas vê se não demora... Comigo ele já tirou foto.

Augusta sai.

DIRETORA (já à porta) – Eu gostaria de pedir um último favorzinho pro senhor, seu Tobias. Na verdade, dois.

ZELADOR – Pois não, diretora.

DIRETORA – Não é que eu não gostei da peça, não é isso. Mas da próxima vez o senhor escreve uma história de amor?

ZELADOR – De amor? Mas é tudo menino, ainda...

DIRETORA – E o senhor promete terminar o texto mais cedo? Tinha dia que eu pensava que o professor Eduardo fosse morrer do coração com toda esta molecada que o senhor arrumou pra vir aqui, entregar tudo picadinho...

ZELADOR – Prometer é difícil, porque eu não sou do ramo. Mas eu faço uma forcinha....Acho que agora eu até já peguei um pouco mais de prática, viu...

DIRETORA – Vamos lá então, seu Tobias, fotografar com o prefeito. O senhor vai ficar bem na foto também.

Diretora e zelador saem de cena.

Dezembro de 2008

Table of Contents