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Longe Da Vista Chinesa / Bosco Brasil

LONGE DA VISTA CHINESA

Bosco Brasil

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do Projeto Conexões Teatro Jovem e fez parte do seu portfólio no ano de 2009. Qualquer montagem fora do Projeto deverá ser negociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos autorais. ABRAMUS: www.abramus.org.br

Cenário

Longe da Vista Chinesa - tragédia gótica - de Bosco Brasil

“O wonderful, when devils tell the truth!”

(Richard the Third, ato I, cena 2

- Shakespeare)

Tudo se passa hoje, talvez, em um local imaginário batizado de Serradinho, em sua escola mal cuidada e seus arredores. Os cenários são vários, mas devem obedecer a uma certa “lógica de escombros”: uns poucos elementos servem para indicar quadra, sala de aula de ciências, biblioteca, ribanceira e vale ao pé da ribanceira.

Trata-se, quem sabe, de uma tragédia de retalhos – termo que tomo emprestado de Anatol Rosenfeld, e o interpreto a minha maneira. Retalhos que, costurados, vestem uma fantasia. Não há lugar para o realismo aqui. Mas a fantasia busca falar da realidade.

É um texto escrito para adolescentes, para ser interpretado por adolescentes. E a isso se aplica também o que se disse no parágrafo anterior. Inspirado francamente em Dostoiéviski, pastiche consciente da poesia de Shakespeare, o autor ainda se diverte em plagiar Pirandello e Camus. A esperança é que, acossados ou insatisfeitos com o que vão assistir, esse público jovem para quem esta tragédia foi escrita possa se interessar por aqueles grandes mestres.

  1. com a qualificação “gótica” adicionada ao gênero tragédia, no contexto desta peça, o autor deseja remeter o leitor e quem se dedicar a sua encenação, a uma tradição que se inicia nos escabrosos romances ingleses pré-românticos de Anne Radcliffe, e seus contemporâneos, e chega até nossos tempos – passando pelo Teatro Gran Guignol e filmes da Hammer – com o rock’n’roll, por exemplo, dos já míticos grupos Joy Division, Bauhaus e The Cure (entre outros) e toda a sub-cultura “dark”, ainda hoje vibrante e criativa mesmo que soturna. A influência dessa expressão artística foi consciente e bem vinda na elaboração desta obra.

Personagens

Todos entre 17 e 19 anos...

Sônia, vendedora de folheados.

Heraldo, irmão de Sonia.

Ivan, seguidor de Nacho.

Estefânia, a Stef. Faz parte do grupinho de Nacho. Semrpe de preto.

José de Antimatéria, com se apresenta, é o poeta maldito da escola.

Jojó. Líder na escola.

Bárbara Brás, a Brasinha.

O Coro alunos ou alunas pode ter quantos participantes se quiser ou for possível reunir. Mas seis Coretas, também sem definição de sexo , vão tanto narrar alguns fatos, separadamente, de modo urgente, em tom de depoimento, quanto participar pontualmente da história.

Prólogo

Ribanceira do Serradinho. Com um pacote na mão, Heraldo olha a vista como se procurasse algo. Silenciosamente surge Rico. Um som de uma trovoada longínqua.

RICO— Está com medo?

HERALDO— Que susto!

RICO— Está com medo.

HERALDO— Você me assustou!

RICO— Você também está com medo...

HERALDO— Apareceu de onde?

RICO— Todo mundo está com medo.

HERALDO— Devia avisar que estava chegando...

RICO— Mas, hoje, todo mundo está com mais medo.

HERALDO— Não está certo.

RICO— Nesta altura do dia o medo deve ser maior ainda.

HERALDO— Ouviu o que eu disse?

RICO— Quer dizer, quando a luz do dia está para acabar, quem não sente medo, não é mesmo?

HERALDO— Não está certo!

RICO— Mas, hoje...

Silêncio.

HERALDO— Eu não tenho medo.

RICO— O que você está levando nesse pacote?

HERALDO— Eu nunca tenho medo!

RICO— Vale alguma coisa?

HERALDO— Não acredita?

RICO— Deve valer alguma coisa.

HERALDO— Não acredita?

RICO— Do jeito que você carrega esse pacote, quer dizer.

HERALDO— Pode me assustar de novo para ver.

RICO— Não devia andar assim, desse jeito.

HERALDO— Vem, me assusta.

RICO— Sabe o que as pessoas são capazes de fazer por um pacote desses, hoje em dia, sabe?

HERALDO— Estou esperando.

RICO— Sabe?

HERALDO— Vou até fechar os olhos. Vem.

Silêncio.

RICO— Essa ribanceira é perigosa.

HERALDO— Vem...

RICO— Daí até lá em baixo é uma boa queda. Não está com medo mesmo?

HERALDO— Me dá esse susto logo!

RICO— Você não tem medo.

HERALDO— Entendeu? Entendeu agora? Todo mundo diz que eu sou bobo.

RICO— Todo mundo?

HERALDO— Todo mundo. Mas eu não sou. Não sou.

RICO— Todo mundo se enganou, então?

HERALDO— Todo mundo.

RICO— (Tempo) Eu sei como é.

HERALDO— Se eu fosse bobo, minha irmã não me pedia para levar esta caixa para ela. Acha que pedia?

RICO— Esta caixa vale muito, então.

HERALDO— Posso ou não posso abrir os olhos?

RICO— Faz diferença?

HERALDO— Não vai mais me assustar, vai?

RICO— Abre os olhos.

Heraldo abre os olhos devagar. Silêncio. Parece extático. Rico se aproxima. Vagaroso.

RICO— O que tanto olha?

HERALDO— Não consegue ver?

RICO— O quê?

HERALDO— Não?

RICO— O vale?

HERALDO— O vale eu vejo. Mas eu queria mais...

RICO— Mais?...

HERALDO— A Vista Chinesa.

RICO— Vista Chinesa?..

HERALDO— Um lugar. Não é aqui. Minha irmã me falou da Vista Chinesa. Um lugar de onde a gente vê tudo.

RICO— Tudo, o quê?

HERALDO— Tudo. Não sabe o que é tudo?

Silêncio.

RICO— O mundo inteiro?

HERALDO— Tudo...

RICO— As casas? As casas mais além?

HERALDO— Tudo!

Silêncio.

RICO— Os outros vales? A cidade? As outras cidades?

HERALDO— Tudo!!

RICO— Os outros países? Os dois oceanos? Os países mais além dos dois oceanos?

Silêncio.

RICO— Os outros oceanos? (Pausa.) Os países mais além dos outros oceanos?

HERALDO— Tudo.

Silêncio.

HERALDO— Sabe onde fica?

RICO— Daqui você não vai enxergar.

HERALDO— Não?

RICO— Ninguém pode enxergar.

HERALDO— Não?!

RICO— Daqui a gente não pode ver o lugar de onde se vê tudo. Daqui a gente não pode ver tudo.

HERALDO— E se for aqui? E se for aqui a Vista Chinesa? E se for daqui que a gente pode ver tudo?

Silêncio.

RICO— Nunca ouvi falar de um lugar de onde a gente pode ver tudo. (Tempo) Já ouvi falar que, quando a gente está morrendo, a gente vê toda a vida, de uma vez. Toda a vida. (Tempo) Tudo...

Silêncio longo.

RICO— Você está muita na beira. Não tem medo de cair?

Primeiro Coro:

Luz sobre cada um dos Coreutas alternadamente.

COREUTA 1— Não, senhor. Ninguém sabe de tudo.

COREUTA 2— Não, senhor.

COREUTA 3— Só posso contar o que eu acho que vi.

COREUTA 4— Também posso contar o que me contaram.

COREUTA 5— Me contaram tanta coisa...

COREUTA 6— O senhor tem razão. A gente não pode acreditar em tudo.

COREUTA 1— Eu não acreditei no começo. E dava para acreditar?

COREUTA 2— Está certo. Quantas pessoas, aqui, já ouviram falar do Serradinho?

COREUTA 3— Chamam de zona rural, não é?

COREUTA 4— Como é que uma cidade tem zona rural? Dá para entender?

COREUTA 5— Já vou responder o que o senhor me perguntou.

COREUTA 6— Só estou dizendo que não dava pra acreditar no que acontecia na escola do Serradinho.

COREUTA 1— A escola fica no vale.

COREUTA 2— Quando chove muito o vale inunda.

COREUTA 3— A escola inunda.

COREUTA 4— Quando chove muito.

COREUTA 5— E sempre chove muito. Principalmente na época do começo das aulas.

COREUTA 6— Não, senhor. Pelo que me contaram, nunca pensaram em tirar a escola dali e levar para outro lugar.

COREUTA 1— Não, senhor. Ninguém explicava por quê.

COREUTA 2— Que solução deram?

COREUTA 3— Quando parece que vai chover, ninguém vai para a escola. Ficam em casa.

COREUTA 4— Não, senhor. Nem os professores.

COREUTA 5— Quando as nuvens tomam o céu, ninguém vai.

COREUTA 6— Só quem não sabe de nada. E quem sabe de tudo.

ATO 1, Cena 1

Luz na pequena e depredada quadra de esportes. Reina uma grande confusão. Coro vai ocupando a escadaria na frente na Sala da Diretoria. Jojó, aflita, fala com Sonia, que vende um folheado a um Aluno do Coro.

JOJÓ— Por que eles não acreditam em mim? Continuam esperando os funcionários, os outros alunos, os professores, meu Deus!

STEF— Vai embora você. Nem deveria ter vindo. Viu as nuvens como todo mundo.

JOJÓ— Tenho que receber os alunos novos. E vocês? O que vieram fazer aqui? Pelo menos você, Sonia.

SONIA— É a minha chance de vender mais folheados. A cantina está fechada. O meu irmão vem trazendo nova leva. Já, já, chega.

NACHO— Este lado da cidade anda tão perigoso...

SONIA— Não entendi.

NACHO— Muito mais perigoso.

STEF— Ainda não sabem? Ele. Ele voltou.

Entra José de Antimatéria, batucando de modo ritmado em seu próprio corpo enquanto declama, pomposo.

  1. — Hoje é um grande dia! Todos os grandes dias são sórdidos... Todo dia sórdido é belo! O “Demônio do Serradinho” vem chegando. É hoje dia em que tocaremos a sagrada beleza com as próprias mãos. Falou José de Antimatéria, menestrel maldito.

JOJÓ— Quando soltaram o Rico?

SONIA— Aquele garoto que matou um velho cego?

NACHO— O velho não era cego, ratinha. O “Demônio do Serradinho” cegou o velho e quebrou todos os ossos da carcaça, antes de atear fogo.

  1. — Aí vem ele. Nele os elementos se uniram com tal perfeição que Natureza e Razão puderam enfim dizer: “eis um assassino”!

Entra Rico. Silêncio.

ATO 1, Cena 2

Luz ao pé da ribanceira do Serradinho. Entram Brasinha e Fausta. Uma trovoada ao longe.

FAUSTA— Corre, corre, corre!

BRASINHA— Não posso ir mais rápido... A asma.

FAUSTA— Se te falta ar agora, lembra que vai sobrar água daqui a pouco. O primeiro lugar que inunda é aqui, no pé da ribanceira.

BRASINHA— Este é o caminho mais curto.

FAUSTA— E se cai uma pedra ou coisa pior de lá de cima. Fujo da chuva pra comer poeira! Por que fui te ouvir?

BRASINHA— Porque você nunca vai por sua própria cabeça.

FAUSTA— Enganada, senhorita. O meu medo é meu. Ninguém me convence de não ter medo. Tenho opinião formada a respeito.

BRASINHA— Preciso descansar um pouco. Segue sozinha. Com seu medo.

FAUSTA— Antes mal acompanhada que sozinha! Eu fico.

BRASINHA— Melhor que mal acompanhada e sozinha...

FAUSTA— Pensando na Jojó, né? Ela nasceu para santa.

BRASINHA— Ela é minha amiga.

Fausta vai subindo entre as pedras.

FAUSTA— Também é minha amiga. Até o terceiro trovão. Pelo menos eu me conheço. Vamos embora! Eu já/...

E tropeça em algo que ecoa um barulho oco, surdo, curto e tenebroso. Silêncio.

BRASINHA— Ouviu isso?

FAUSTA— (Amedrontada) Não quero nem ver no que eu tropecei.

BRASINHA— Nunca ouvi nada assim antes.

E vai se aproximando.

FAUSTA— O que foi?

Brasinha se assusta, mas se contém. Fausta tropeçou na cabeça do cadáver de Heraldo. Seu braço inerte desliza suavemente por trás das pedras.

FAUSTA— E então, Brasinha? Posso fugir que não vai atrás? Diz logo!

BRASINHA— Não. Não vai atrás.

ATO 1, Cena 3

Luz na Quadra.Sonia tenta vender um folheado a Rico, com Jojó ao lado. Parte do Coro e Coreutas 1, 2, 3 estão num canto, encarando Rico. José de Antimatéria batuca num ritmo compassado em seu próprio corpo. Nacho, Stef e Ivan jogam basquete.

SONIA— Tem certeza? O queijo está curadinho e o salpico por cima eu deixo dourar até ficar crocante.

JOJÓ— Nada é melhor que um salgado da Sonia.

RICO— Não tenho dinheiro.

SONIA— Paga uma parte agora, outra depois.

RICO— Não tenho “depois”.

Nacho lança a bola que atinge Rico. Silêncio. Os dois se encaram.

  1. — Tictaqueteiam dois relógios, um de ar, um de água/Correm sobre os segundos unânimes, sem cuidar tic nem tac/ E o coelhinho diz? Sempre é tarde. E o corvo responde? Nunca mais. Falou José de Antimatéria.

JOJÓ— Pare com as suas bobagens. E vocês também, parem de bobagem; para quê ficar encarando assim?

STEF— Eles sabem quem ele é.

IVAN— Eles sabem...

RICO— (Para Jojó) Você também sabe quem eu sou.

JOJÓ— Um aluno novo em sem seu primeiro dia na escola.

RICO— Os outros não estão encarando o aluno novo. Estão encarando o “Demônio do Serradinho”...

  1. — E por isso seja bem-vindo, Mestre!

SONIA— Tem certeza de que não quer mesmo o folheado?

RICO— Qual o seu nome?

SONIA— Sonia.

RICO— Obrigado.

JOJÓ— (Para o Coro) Estão vendo? Ele é como nós, tem medo de quê?

RICO— Acha que eles estão com medo de mim?

NACHO— Nem passa pelo medo...

RICO— Você sabe? Sente a mesma coisa?

Uma trovoada mais forte.

IVAN— (Amargo) Se eles soubessem...

JOJÓ— Do quê?

RICO— É. É sempre assim. Por onde eu for. Ficam me olhando. Só isso. Não é medo.

JOJÓ— Estão acusando?

RICO— (Nega) Só não conseguem tirar os olhos de mim.

NACHO— (Pausapara Rico) É sempre assim?

  1. — Vocês não entendem. Aquelas mãos mataram alguém. Isso é glória!

RICO— (Para Nacho) Quer a glória?

NACHO— A glória para mim é nada.

RICO— A minha glória. Quer?

JOJÓ— (Para Rico – aflita) Diga que passou, que sua vida começa hoje. Por favor. Diga.

IVAN— Ou diga como é matar uma pessoa...

STEF— Quando quebrou as pernas do velhinho... Como é o barulho de ossos quebrando? E o sangue? O sangue!

O Coro se agita.

JOJÓ— Parem com isso. Os novos alunos estão ficando muito agitados!

  1. — Eis a cumeeira da catedral o coração moderno ergue: o linchamento. Falou José de Antimatéria. Vou me sentar para ver a biruta girando com a ventania que traz o ódio...

RICO— (Pressente) Não. Estão assim por outra coisa...

Entra Brasinha, ofegante.

BRASINHA— Sonia!

A agitação do Coro tornou-se aterrorizante. Todos dão as costas para a cena, olhando em direção à entrada da escola.

SONIA— Brasinha! Eu guardei para você um folheado.

E tira o salgado da cesta oferecendo-o.

BRASINHA— (Sem ar) Precisa me escutar...

SONIA— O que foi?

O coro solta um murmúrio de espanto.

BRASINHA— A vida... a vida é mesmo... uma...

E não consegue falar porque lhe falta o ar. O Coro abre passagem e entram Coreutas 4, 5 e 6, seguidos por Fausta, carregando o corpo de Heraldo. Silêncio. Pausa. Calmamente Sonia guarda o folheado de volta na cesta. Só então caminha na direção do corpo. Ela olha para o irmão, sem mostrar reação. De repente avança sobre ele, estapeando-o.

SONIA— Você não sabe fazer nada direito. Será possível? Nada.

Os outros acodem e a afastam do cadáver.

SONIA— Eu pedi alguma coisa difícil de entender? Nada!

Sonia se desvencilha dos outros e se afasta um pouco. Tempo. E ela solta um grito de dor.

Segundo Coro:

Luz em cada um dos Coreutas alternadamente.

COREUTA 1— Trouxeram o irmão da vendedora de folheados para escola, sim senhor.

COREUTA 2— Encontraram o corpo no vale. E se deixassem o pobre ali, a enchente levava.

COREUTA 3— Foi o que me disseram. Não dava mais tempo para levar para a cidade.

COREUTA 4— Caiu do barranco.

COREUTA 5— Foi empurrado, claro!

COREUTA 6— Como é que eu sei?

COREUTA 1— Todo mundo disse que foi empurrado do alto do barranco, sim senhor.

COREUTA 2— Não senhor. Não sei quem foi o primeiro a dizer isso.

COREUTA 3— Me disseram que era certeza. Que tinham empurrado. Eu acreditei. Por que não?

COREUTA 4— E não é assim? Se foi empurrado, alguém empurrou.

COREUTA 5— Bom... Quem faz uma maldade destas tem que pagar. Ou não?

COREUTA 6— O senhor me desculpe. A polícia aparece pouco por lá. Nem chega perto quando ameaça a chuva.

COREUTA 1— Foi o que me disseram! Aquele dia, pelo menos, não apareceram.

COREUTA 2— Ficou por nossa conta.

COREUTA 3— Então começaram a dizer aquelas coisas.

COREUTA 4— Coisas!

COREUTA 5— Eu?

COREUTA 6— Não, senhor. Eu, não! Eles!

ATO 2, Cena 1

Luz em um telefone público. Jojó e Brasinha, que tenta ligar.

JOJÓ— Estou preocupada... Onde foi parar o Rico? Eu sei que ele ainda está na escola.

BRASINHA— Deixou de se preocupar com os novos alunos, lá na quadra? (Desliga) Nada.

JOJÓ— Rico precisa de ajuda.

BRASINHA— E eles?

JOJÓ— Eles podem sempre contar comigo...

BRASINHA— Eles não ouviram você. Preferem ficar e resmungar sobre quem matou o Heraldo, enquanto a tempestade se aproxima. Ninguém fala o nome, mas sei que é dele que estão falando. Eles querem que seja ele, não entende? Afinal, é o “Demônio do Serradinho”...

JOJÓ— Por que insistem nessa história?

BRASINHA— (Dá de ombros) Não acredita no Demônio?

JOJÓ— Eu acredito em Deus.

BRASINHA— (Insiste) Não?

JOJÓ— Eu acredito em Deus. Eu preciso ajudar o Rico.

BRASINHA— Acha que vai conseguir segurar todo esse pessoal, se forem para cima dele? Não vou abandonar você; mas também não vou ficar aqui – vou atrás de alguém para ajudar.

JOJÓ— E a sua asma, Brasinha? E a tempestade? Você vai ser levada pela enxurrada.

BRASINHA— Só assim eu sei ajudar. Viva. Preciso ir correndo. (Pausa) Sinto que esta vez será a pior de todas.

Ouve-se um ruído pavoroso de estrutura cedendo.

BRASINHA— (Aterrorizada) Ouviu?

ATO 2, Cena 2

Luz na quadra. Coro, José de Antimatéria, Stef, Ivan e Nacho confabulam.

NACHO— E eu disse alguma coisa? Só queria ter certeza de que vocês falaram o que falaram... Se é que falaram. Falaram ou não falaram? Assim me deixam confuso.

COREUTA 1— Ninguém aqui quer acusar ninguém...

COREUTA 2— Você vem lembrando o tempo todo dele.

NACHO— De quem?

COREUTA 3— Quem!..

COREUTA 4— O Demônio do Serradinho.

NACHO— Ele já matou uma vez, não é?

COREUTA 5— Matou...

COREUTA 6— Acha que ele pode matar outra vez?

NACHO— Vocês estão dizendo isso.

COREUTA 1— Ninguém disse nada!

COREUTA 2— Qualquer coisa pode ter acontecido.

STEF— O garoto foi empurrado. Ele conhecia bem o lugar. Ficava ali, horas, o dia inteiro. Olhando. O olhando... o nada.

  1. — É... Heraldo também não tinha imaginação para se matar. Só gente com imaginação se mata.

STEF— Você também acha que mataram o garoto, então?

  1. — E o que eu sei? Queria estar longe daqui. Mas eu consigo dar um passo? Me cai bem o degrau frio desta quadra. (Quase para si – sincero) Tudo ficou...tão grave...tão.. de verdade.

NACHO— Falou José de Antimatéria?

IVAN— (Ansioso) Ele está certo, Nacho, temos que colocar a cabeça no lugar.

STEF— (Debocha) A cabeça de quem foi cortada, ratinho?

IVAN— Pare com isso! Assassinato não é brincadeira. (Amedrontado) É... é uma acusação... séria...

NACHO— (Em cima) Esta falando do Demônio do Serradinho?

COREUTA 3— Só de ouvir me dá uma coisa estranha aqui...

COREUTA 4— Só de ver...

NACHO— O que quer dizer? Que ele tem mesmo cara de que pode matar alguém?

COREUTA 5— Ele é estranho...

COREUTA 6— Ele assusta...

NACHO— Pode, não pode?

IVAN— (Nervoso) Pare com isso, Nacho, por favor!

NACHO— (Frio) Não pode?

IVAN— A gente precisa conversar...

NACHO— (Insiste) Não?

IVAN— (Explode) Querem me ouvir?!

Silêncio.

NACHO— (Calmo) Tem alguma coisa para contar?

IVAN— (Angustiado) Eu não posso...

NACHO— (Em cima) Eu sei. É muito difícil falar disso...

COREUTA 1— O que é?

NACHO— Vocês não agüentariam ouvir.

STEF— Nacho?...

COREUTA 2— Tem a ver com a morte do garoto?

NACHO— Talvez.

COREUTA 3— Tem ou não tem?

NACHO— Tem a ver com quem pode ter matado o garoto.

COREUTA 4— O “Demônio do Serradinho”?

NACHO— Vocês estão dizendo.

COREUTA 5— Se sabe de alguma coisa...

NACHO— Só o que me contaram.

COREUTA 6— O que o “Demônio” fez?

NACHO— Ou o que ele ainda faz, quem sabe...

COREUTA 1— Com assim?

NACHO— Falei demais. Melhor parar por aqui.

COREUTA 2— Não!

NACHO— Vocês estão insistindo.

COREUTA 3— Se sabe alguma coisa, se ele pode ameaçar a gente...

NACHO— Não sei se seria certo dizer “o quê”, como estão falando; talvez o mais assustador é “como”ele faz...

COREUTA 4— “Como” faz o quê?...

NACHO— Como fura os olhos, como quebra os ossos, ateia fogo...

COREUTA 5— Está falando do assassinato do garoto?...

NACHO— Vocês dizem que ele matou o Heraldo. Quero falar de fatos. Eu ia contar como o “Demonio” matou aquele velhinho...

COREUTA 6— O velhinho?

NACHO— Vocês já sabem de tudo! Lembram de como encontraram o corpo do velhinho? O cadáver desmontava feito polichinelo de bebê. A perna magra fazendo o compasso no ar – no nada... Eu não vi. Me contaram.

Silêncio tenso. O Coro se entreolha, amedrontado. A tempestade se aproxima.

STEF— Já pensaram no estalo de um osso?

COREUTA 1— Que tipo de pessoa mata assim...

STEF— Um osso de velho deve estalar de um jeito diferente.

COREUTA 2— Um velho...

STEF— Como será? Como será?!

COREUTA 3— E ele está por aqui, perto de nós.

NACHO— Acham que ele não devia estar livre por aí?

COREUTA 4— Um assassino!

NACHO— Soltaram o “Demônio”... E o velho... Morto.

COREUTA 5— É. Morto.

NACHO— Acham que não é justo?

COREUTA 6— É um monstro quem faz isso!

NACHO— Vocês estão dizendo que não é justo.

COREUTA 1— O velho não tinha como se defender...

COREUTA 2— O “Demônio” não teve piedade...

NACHO— A Lei diz que ele pode ficar solto.

COREUTA 3— Um perigo!

COREUTA 4— E quem protege a gente?

NACHO— Fica por nossa conta...

COREUTA 5— E salve-se quem puder, não é?

COREUTA 6— Isso não é justo.

NACHO— Acham que fariam melhor justiça se o “Demônio” estivesse nas suas mãos?

COREUTA 1— Tem que ser duro com uma pessoa que faz isso.

COREUTA 2— E ele pode fazer isso outra vez...

NACHO— Ele pode já ter feito isso outra vez. O corpo do Heraldo ainda está quente; como os folheados que a Sonia vende. Vocês disseram que ele matou o garoto no barranco...

COREUTA 3— Todo mundo está em perigo, então!

COREUTA 4— Como vamos nos defender?

NACHO— De um “Demônio” só?

COREUTA 5— Como assim?

COREUTA 6— Ele é um assassino.

NACHO— E vocês são muitos – vocês são legião!

O Coro fala ao mesmo tempo, cada vez mais brutal. Tempo.

NACHO— Esperem! Esperem um pouco... Já se perguntaram onde está o “Demônio do Serradinho”? Já se perguntaram o que o “Demônio do Serradinho” está fazendo? Agora?

ATO 2, Cena 3

Luz na cozinha da cantina. Sentada no chão, Sonia tem no colo seu irmão morto. Das trevas surge Rico.

RICO— Veio para cá, então...

SONIA— Eu vendo folheados. Vim para a cantina. Estava atrás de mim?

RICO— Queria saber de você.

SONIA— (Simples) Resolveu comprar um folheado?

RICO— Só queria saber onde estava.

SONIA— Trouxeram o Heraldo para cá. Queriam guardar o corpo na geladeira. Meu irmão detestava os dias de inverno. Os dias de inverno são mais frios, aqui no Serradinho.

SONIA— Já sentiu muito frio?

RICO— Já.

SONIA— É esquisito. Quando a gente está com muito frio, nem consegue atinar que no mundo possa haver calor.

RICO— O frio é padrasto. O inferno deve ser frio. O que acha?

SONIA— Quando a gente se queima, a gente sente um frio imenso, logo no começo. Acontece isso sempre comigo, tirando as formas de folheado do forno. Não dói na hora. Um segundo, um segundo e meio. Um segundo e meio calmo – até faz bem! A gente sente bem, é. Aí vem a dor. E é insuportável...

Silêncio.

SONIA— Gozado. Quando vi meu irmão entrar, carregado, senti a mesma coisa. Depois, até dei um olhada na mão, para ver se não tinha mesmo queimado a ponta dos dedos...

Silêncio.

SONIA— (Simples – sem frieza) Você quer o folheado, então?

RICO— Não posso pagar.

SONIA— Meu irmão estava trazendo mais folheados. Tinha certeza de que hoje venderia muito. A tempestade. O pessoal da cantina não vem. Hoje posso fazer bons negócios.

RICO— Acha que mataram seu irmão para roubar os folheados?

SONIA— Meus folheados são os melhores de Serradinho. Eu sei como para a dor de uma queimadura. Mas, esta dor... Sabe como parar esta dor?

Silêncio.

RICO— Acho que eu sei como acabar com a sua dor.

ATO 2, Cena 4

Luz na sala de aula de Ciências. Nacho e Ivan. Entra Stef.

NACHO— Encontraram?

STEF— Não! O Demônio está solto!

E ri, nervosa.

IVAN— (Angustiado) Isso não é brincadeira.

NACHO— Eu sei. E você, sabe?

IVAN— Estão todos atrás dele. Ninguém sabe o que pode acontecer.

NACHO— Vai acontecer o que tem de acontecer.

STEF— Parecem todos tomados, parecem eles os demônios.

IVAN— Você vai deixar essa loucura continuar, Nacho?

NACHO— Enquanto estiverem atrás dele, qual o problema?

STEF— Vamos embora? Quando a tempestade cair, ninguém mais consegue sair daqui.

NACHO— Isso é bom...

IVAN— O que estão fazendo? Vamos deixar tudo como está?

NACHO— O que está acontecendo com você? Vamos, claro.

IVAN— Vão deixar que esse pessoal ataque esse garoto?

STEF— O Demônio?... Um garoto?

IVAN— Ele tem a nossa idade.

NACHO— O demônio é um garoto. Nunca pensei nisso...

IVAN— Então pense! Estamos sendo covardes!

NACHO— O que me importa mesmo é não ser covarde o suficiente...

STEF— (Para Ivan) Vem, meu ratinho! A gente já se divertiu muito.

IVAN— Linchamento não é diversão.

STEF— (Debocha) Nunca vi um, pensando bem. É um acontecimento – o linchamento do Demônio...

IVAN— Ele não é um demônio; tem nome.

NACHO— Ele é nada. Com ou sem nome. Seria melhor que não tivesse um. Disfarce inútil... Nada é o nome de nada.

IVAN— Ele ainda estava vivo.

NACHO— Então, eu disse: nada.

STEF— Ratinho, ratinho... Vem pros braços da sua ratazana de luto. O cara é um assassino.

IVAN— E nós? Somos o quê?

Ouve-se um pavoroso ruído de estrutura cedendo. Tempo.

NACHO— (Pausa - calmo) Assassinos.

IVAN— A gente ainda tem tempo de esclarecer tudo. Foi um acidente. Foi, não foi? (Tempo) Então?

NACHO— Quer fazer o quê? Ir à polícia?

IVAN— Vão entender. A gente não queria matar o irmão da Sonia. Só queria se divertir. Comer uns folheados de graça... De farra...

STEF— A gente já arrumou alguém para levar a culpa. Vai terminar tudo bem, ratinho... Esquece.

IVAN— A culpa foi nossa. Não posso esquecer.

NACHO— A culpa foi minha. Se o problema é esse... Eu empurrei o enjeitado.

IVAN— Foi sem pensar, no impulso...

NACHO— (Quase para si) Como é possível? Heraldo andava como se os próprios braços não fossem dele – no ar: quanta elegância...

STEF— (Para Ivan) Vamos embora, ratinho.

IVAN— Não. Não vou. Podem ficar tranqüilos. Não entrego ninguém. Mas vou fazer de tudo pra proteger o Rico.

E sai.

NACHO— Os demônios protegem os demônios. Ou... os demônios caçam os demônios... Pode ser divertido ficar por aqui, pesando bem.

STEF— De qualquer maneira, não dá pra confiar nesse ratinho assustado de tanta culpa, dá? Vai abrir a boca...

E cai a chuva, violenta.

NACHO— Agora ninguém sai mais da escola. Que noite gloriosa. Se os demônios são os alunos, quem será o professor?

Terceiro Coro:

Luz em cada Coreuta alternadamente.

COREUTA 1— Foi de repente...

COREUTA 2— Parece um sonho agora...

COREUTA 3— Parecia um sonho, na hora!

COREUTA 4— Um pesadelo.

COREUTA 5— Não lembro direito de nada.

COREUTA 6— Foi tudo tão rápido...

COREUTA 1— O que eu posso dizer?

COREUTA 2— Como eu posso falar do que não vi?

COREUTA 3— Sim, acho que eu estava lá.

COREUTA 4— Mas não vi...

COREUTA 5— Nem posso dizer com certeza de que estava lá!

COREUTA 6— Se forço a memória minha cabeça se enche de manchas.

COREUTA 1— Lembro mais do que ouvi.

COREUTA 2— Trovões, gente ofegando, um zumbido que me dói o ouvido até agora!

COREUTA 3— Um sonho, eu disse.

COREUTA 4— De repente, não sei bem quando... As pessoas começaram a falar de um jeito diferente.

COREUTA 5— Uma vez me disseram que o demônio faz a gente falar línguas que a gente não conhece.

COREUTA 6— Não, senhor. Eu entendia tudo. Era a língua que a gente fala todo dia. Mas... era também outra língua...

COREUTA 1— Pelo que eu ouvi, consigo dizer onde eu estava.

COREUTA 2— Só que... como eu cheguei lá...

COREUTA 3— Todos começaram a procurar o Demônio...

COREUTA 4— O Rico, sim senhor.

COREUTA 5— Mas sem ordem. A gente entrava e saia da mesma sala uma porção de vezes. A gente era um enxame de abelhas.

COREUTA 6— Acho que a gente arrombou as portas, sim senhor...

COREUTA 1— De repente todo mundo sabia que foi o Rico que matou o garoto na ribanceira.

COREUTA 2— Sabia sabendo. Achava que sabia.

COREUTA 3— O Rico tinha sumido.

COREUTA 4— A gente está falando do “Demônio do Serradinho”, ora!

COREUTA 5— Não, senhor. Nem tenho déia do que a gente queria fazer com ele – com o demônio...

COREUTA 6— Foi tudo tão rápido. Já disse isso?

ATO 3, Cena 1

Luz na quadra. A tempestade está cada vez mais violenta. Ouvem-se as vozes embaralhadas do Coro que corre pela escola, atrás de Rico. Nacho e Jojó vêm de lados opostos e se encontram no meio do palco.

JOJÓ— Estão destruindo a escola.

NACHO— Quando a destruição destrói a destruição, quem sabe o que pode acontecer?

JOJÓ— O que espera de tudo isso?

NACHO— Nada.

JOJÓ— Então por que inoculou a doença?

NACHO— Jojó... A doença é o amor. O seu amor. Isto – isto é a febre.

Entra Stef.

STEF— (Encantada) Vão e voltam. Os ratinhos. Os ratinhos vão e voltam! Quando eu vou ver o sangue, Nacho? Quando vou ver sangue que você leu nas nuvens esta tarde?

O coro se reúne no palco, vindo de todas as partes. Agitados e ofegante, falam quase ao mesmo tempo.

COREUTA 1— O demônio sumiu.

COREUTA 2— Ele não pode sumir.

COREUTA 3— Ele está por aí.

NACHO— O Demônio está por toda parte... É o que dizem.

JOJÓ— Deus está em toda parte!

NACHO— Acha que Deus está nesta escola, esta noite?

STEF— Ah, Ele é o maestro dos ratinhos?

COREUTA 4— Esse assassino não pode escapar!

COREUTA 5— Estamos perdendo tempo aqui!

COREUTA 6— Vamos atrás do “Demônio”!

JOJÓ— E o que vocês vão fazer com o demônio? (Corrige-se, imediatamente, irritada consigo mesma) Com Rico! O que vão fazer com ele?

Ouve-se um ruído pavoroso de estrutura cedendo. Tempo.

JOJÓ— (Quase para si) Brasinha tem razão. Aqui, falando dos que vão morrer, esquecemos que os vivos vão morrer. E ainda estamos vivos...

Entra Fausta, esbaforida.

FAUSTA— (Num fôlego só) Ouviram?! Esse teto! Esse teto não é o céu; e vocês estão vendo: o céu está caindo – a tempestade! – imagina se esse teto também não cai! Não gosto de ficar aqui. Aliás! (E vai saindo) Aliás, aliás, aliás... O que é que eu estou fazendo aqui se... (Olha para cima) O que é aquilo, entranhado nas vigas?...

Todos se voltam para o teto.

CORO — O Demônio!

Trevas

ATO 3, Cena 2

Luz na biblioteca. José de Antimatéria batuca no próprio corpo, melancólico. Entra Ivan.

IVAN— (Ansioso) Estava atrás de você.

  1. — Eu também... Mas você me achou.

IVAN— Viu o inferno lá fora?

  1. — Lá fora? Isso quer dizer que estamos no paraíso?

IVAN— Eu sei como parar com isso.

  1. — Esses livros todos ainda não descobriram e derrubam árvores há milênio para o papel que vai celebrar seu fracasso.

IVAN— Eu sei. Eu sei!

  1. — E o inferno incomoda você?

IVAN— É uma injustiça!

  1. — Estranho. O inferno deveria ser justo.

IVAN— É um engano!

  1. — Estranho. Tem certeza de que lá fora está um inferno? Tampouco se diz do inferno que se engane. O paraíso, sim, comete enganos. Todo o tempo.

IVAN— Antimatéria, você tem que me ajudar.

  1. — De antemão digo que não vou ajudar você; mas, por favor, diga o que quer para que eu possa lhe dizer por que eu disse de antemão que não vou ajudar.

IVAN— Pare de me confundir!

  1. — Acho que isso está além do meu alcance. Jamais conseguiria confundi-lo como você o faz a si próprio. Quem entrou aqui dizendo que podia parar o inferno – o inferno lá fora? Se sabe, o que está esperando? O que quer de mim, além do que não posso dar?

IVAN— Não sei...não sei se tenho coragem... Não sei se devo.

  1. — E veio me perguntar se deve?

IVAN— (Assente) Procurei você por toda parte...

  1. — (Pausa - melancólico) E me encontrou aqui.

IVAN— Nunca imaginei. Sempre diz que deveríamos queimar todos os livros.

  1. — Eu sou um mentiroso, Ivan. Eu poderia dizer que vim para cá porque os livros assustam os gênios e as bestas e ninguém entraria aqui e eu estaria seguro. Mas eu vim para cá porque a porta aqui é a mais resistente do colégio: bronze.

E começa a batucar na porta.

  1. — Os bibliotecários tem medo que levem à noite aquilo que ninguém quer levar de dia... Sabe como eu sei que esta porta é de bronze?

IVAN— Você... você vem... batucar? É isso?

  1. — Eu venho ler.

IVAN— Mas você diz...

  1. — Eu sei, queimem as bibliotecas! Eu digo porque o som é bom! Tudo o que eu digo é porque o som é bom. Como acha que eu tiro as notas que eu tiro? Eu estudo escondido, Ivan... De onde acha que eu roubo a minha poesia tosca? Dos livros que eu nunca queimei. Eu sou uma mentira. Se veio me perguntar o que fazer – a mim!... Já sabe a resposta.

ATO 3, Cena 3

Luz na sala de aula de ciências. Nacho e Stef.

NACHO— Quando a tempestade se for para a cidade, alguém vai chamar a policia.

STEF— Também a polícia tem suas referências. Rico nasceu suspeito.

NACHO— Sem uma testemunha, sim.

Silêncio. Só a tempestade.

STEF— Quer dizer, o ratinho?

NACHO— Um ratinho assustado...

STEF— Acha que ele pode falar do que aconteceu na ribanceira?

NACHO— Um ratinho assustado, eu disse.

STEF— Ele não ia fazer isso. Para o Ivan você é Deus!

NACHO— Não o diabo. Ele vem comigo em meu desprezo por tudo, até aí! Nós matamos. Isso ele não pode agüentar. Isso ele não pode entender.

STEF— Mas foi sem querer que você empurrou o Heraldo...

NACHO— Sem querer? Estas duas mãos ainda pertencem ao meu corpo, através dos dois braços, recebendo ordens de uma cabeça...

STEF— Quis dizer que foi sem pensar. Sem planejar...

NACHO— Foi. Mas estas duas mãos tiraram uma vida. E às vezes eu sinto queimar as palmas, como se vulcões abrissem caminho. Só que, no lugar das crateras, bocas brotariam... E sabe o que diriam? “Outra vez, outra vez...”

STEF— Matar?

NACHO— “Outra vez, outra vez...”

STEF— Você sabe. Agora, ratinho, é sua escolha.

NACHO— “Outra vez, outra vez...” Ainda nem brotaram as línguas de lava e já posso ouvir: “outra vez, outra vez...”

STEF— Me prometeram sangue. O sangue ficou prometido.

NACHO— “Outra vez, outra vez...”

STEF— Chegou a hora?

NACHO— Outra vez...

Um ruído de estrutura cedendo.

NACHO— Rico tem que viver. Os assassinos têm que viver. A morte tem mais carga a retirar para esta noite. Mas Rico só vai assinar o recibo.

Silêncio. Só a tempestade.

NACHO— Ivan vai falar. Ele é um fraco. Só os fracos acreditam que os atos devem ter propriedade. O verdadeiro assassinato não tem rosto. O verdadeiro assassinato deve incriminar um inocente. Para que todos entendam que ninguém é inocente.

STEF— (Tempo) Fico pensando... Esta roupa... O que pode ser mais escura que a mancha de sangue? (Pausa) Você me prometeu.

NACHO— Ratazana... Tantos anos de luto. Agora, finalmente: viúva.

ATO 3, Cena 4

Luz na quadra. Rico sentado sobre o quadro da cesta de basquete, no alto da torre. Jojó e Fausta. Coro tenta balançar a torre para derrubar Rico. Todos falam ao mesmo tempo cobrindo o ruído que segue num crescendo.

JOJÓ— Parem com isso!

FAUSTA— (Sobre o ruído) Está ouvindo, Jojó?

JOJÓ— Ele cai assim!

FAUSTA— (Espantada) Não está ouvindo?!

COREUTA 1— Onde está a vendedora de folheados?

COREUTA 2— Acha que vai escapar?!

FAUSTA— Ninguém está ouvindo?

COREUTA 3— Covarde! Covarde!

COREUTA 4— Ele tem que pagar!

JOJÓ— Pensem com frieza!

COREUTA 5— Vamos derrubar esse assassino de lá.

COREUTA 6— Não parem de balançar...

FAUSTA— (Quase para si) Ninguém está ouvindo?!

E se encolhe num canto. Ruído cessa de repente. Só a tempestade. Coro continua em sua sanha como se nada tivesse acontecido.

COREUTA 1— Vamos lá.

COREUTA 2— Ajudem aqui!

FAUSTA— Ninguém quer saber que barulho é este?

COREUTA 3— Desce!

COREUTA 4— Ou quer cair?

FAUSTA— Ninguém?!

COREUTA 5— Vai pagar de um jeito ou de outro!

COREUTA 6— Só não vai escolher!

FAUSTA— Ninguém... Eu, hein? Vou que vou.

JOJÓ— Fausta, fique aqui, preciso de ajuda!

FAUSTA— Ah, precisa mesmo! Boa sorte com essas orelhas que nem para abanar servem!

JOJÓ— Ninguém vai atacar um inocente!

Rico solta uma gargalhada. Coro murmura entre si,

COREUTA 1— Ouviu essa gargalhada?

COREUTA 2— Estou gelado até a alma.

FAUSTA— Aliás, aliás, aliás...

COREUTA 3— Nunca ouvi nada assim.

COREUTA 4— Não é deboche...

FAUSTA— Logo agora que nem consigo me mexer...

COREUTA 5— É riso de quem despreza a vida.

COREUTA 6— Riso de assassino.

RICO— Cuide das suas outras noventa e nove ovelhas, Jojó. É melhor. Meu pasto cresce mais além da Vista Chinesa.

COREUTA 1— (Para Jojó) Por que protege um assassino?

COREUTA 2— Ele é o Demômio do Serradinho.

COREUTA 3— E o irmão da vendedora de folheados?

COREUTA 4— Foi ele!

COREUTA 5— Quem mais pode ter sido?

COREUTA 6— Por que não?.. Por que não pode ter sido ele?

Silêncio. Só a tempestade.

RICO— E então? Por que não?

JOJÓ— (Tempo) Pode ter sido qualquer um...

RICO— É feio mentir... Sabe bem que só alguns aqui podem ter assassinado o garoto. Muitos, talvez. Mas não todos, não qualquer um. Nem você acredita no que fala.

FAUSTA— Aliás, aliás, alias...

JOJÓ— Só a polícia... só a polícia pode resolver... isso.

COREUTA 1— E quando ela vai chegar?

COREUTA 2— Nenhum telefone funciona.

COREUTA 3— Ninguém pode sair daqui.

COREUTA 4— Ninguém pode chegar.

COREUTA 5— Enquanto isso ele fica solto e continua matando,

COREUTA 6— Onde foi parar a vendedora de folheados?

CORO — Foi o demônio. O Demônio matou a vendedora de folheados! Vamos acabar com ele!

Rico solta outra gargalhada sinistra. Todos calam. Coro se afasta, amedrontado.

RICO— Vocês querem matar o “Demônio”?

JOJÓ— (Relutante) Rico... Por favor... Precisamos conversar... (Pausa – envergonhada) Onde está Sônia?

Rico apenas sorri.

FAUSTA— (Tempo) Estão sentindo? Que cheiro bom...

Entra Sonia com um tabuleiro, fatiando um pão com a faca.

SONIA— Fiz o que pude. Só encontrei um pouco de farinha e batatas na cozinha da cantina.

E vai distribuindo as fatias de pão.

SONIA— Não ficou como meus folheados. Mas acho que mata a fome. Podem pegar. Não vou cobrar desta vez. Nunca cobro quando estou experimentando uma receita nova. Podem pegar. Vocês devem estar com fome. Tanto tempo atrás de uma pessoa...

As pessoas vão pegando as fatias, aturdidos, enquanto Sonia se aproxima da torre.

SONIA— (Para Rico) Obrigado. Tinha razão. Cozinhar me fez esquecer da dor. Não vem pegar a sua fatia?

Rico salta. E pega a fatia.

RICO— (Simpático) Está quente...

SONIA— (Sorri - simpática) Minha mãe dizia: foi feito no fogo...

Pausa.

CORO — Agora!

E avançam para cima de Rico.

ATO 3, Cena 5

Luz na sala de aula de ciências. Nacho, com sua bola de basquete, Stef e Ivan.

IVAN— Estão fora de controle. Preciso de ajuda.

NACHO— Sabe por que eu gosto desta bola? Pode ouvir, Ivan? Quando ela bate no chão?

IVAN— Precisamos fazer alguma coisa.

NACHO— A câmara de ar... Esse...eco... Quem está fora de controle, Ivan?

IVAN— Todos! Eles...

NACHO— Não era o que você queria?

IVAN— Eu?

STEF— A gente sonhou com isso tanto tempo, ratinho...

IVAN— Com o quê?

STEF— A escola em escombros...

IVAN— Como fazer de escombros, escombros? Tudo está acontecendo porque vivemos no meio dos escombros!

NACHO— Ah, vejo você de volta, Ivan. Continue o discurso...

Silêncio.

IVAN— Não... Estou cansado de usar minha língua. “Tudo”, “todos”, “alguém”, “a gente”, “uma pessoa”, “ninguém”, “nada”. Cansado. Eu não criei essas palavras, mas elas me criaram. Estou cansado. Você matou o irmão da vendedora de folheados. Stef se cala. Rico é inocente. Eu sou covarde.

NACHO— Não o covarde de que eu preciso...

IVAN— (Pausa) Não...

E vai saindo.

NACHO— Vai nos denunciar, Ivan?

IVAN— Nacho eu iria com você até onde minha sede me secasse os olhos. E ainda assim seguiria andando. Eu abandonei minha antiga língua e ainda não aprendi novas palavras. Como eu vou dizer o que era ouvir sua voz? Eu queria o que você queria, meu amigo. Mas eu não sabia o que você queria...

E volta a sair. Nacho atira a bola que atinge violentamente Ivan. Nacho recupera a bola.

NACHO— Nem uma partidinha de despedida?

STEF— Vamos lá, ratinho. Eu e você...

IVAN— (Tempo) Aqui é não lugar para jogar...

Ivan vai se distanciando da porta para se proteger.

NACHO— Não se preocupe. Não vou quebrar nada.

Nacho atinge violentamente Ivan outra vez e recupera a bola de novo.

NACHO— Tenho um grande respeito pela sala de aula de ciências...

Nacho joga a bola em cima de Ivan ainda outra vez e a recupera, com rapidez.

NACHO— Amo esses aparelhos velhos. Os que funcionam e os que não funcionam – quase todos. Espiriteiras, tubos de ensaio...

E, junto com Stef, vai cercando Ivan, sem parar as boladas.

STEF— E essa coisinha que dá choquinhos!

NACHO— Meu preferido é a câmara de vácuo. A pedra e a pena caindo ao meso tempo, lembra? Já pensou nisso, Ivan, você e uma pedra e uma pena – caindo ao mesmo tempo?

IVAN— (Surpreso) Nacho...

Stef abraça Ivan.

STEF— Não, ratinho. Você pode descer e contar tudo. Hoje é nossa noite de glória. Hoje é nossa lua de mel.

Stef imobiliza Ivan e o leva ao chão. Nacho apóia os pés sobre os ombros de Ivan e segura sua cabeça.

NACHO— (Para Stef) Segure firme.

Nacho se debate.

STEF— Calma, ratinho. Sou eu, sua ratazana de luto.

NACHO— Segure firme!

IVAN— (Pausa – distante, deixa escapar) A goteira no teto... Desenhou um arquipélago.

Nacho puxa a cabeça de Ivan, com toda força. Ouve-se um estalo. Ivan se desmancha sobre Stef. Nacho se deixa cair, ofegante. Tempo.

STEF— (Pausa – perplexa) O que foi? O que foi esse estalo? O quê?

NACHO— Acabou...

QUARTO CORO:

Luz sobre cada um dos Coreutas alternadamente.

COREUTA 1— Me contaram...

COREUTA 2— Só estou repetindo.

COREUTA 3— Não, senhor. Foi depois...

COREUTA 4— Onde eu estava?

COREUTA 5— Nem eu sei direito.

COREUTA 6— Com os outros...

COREUTA 1— Não, senhor.

COREUTA 2— Não, senhor.

COREUTA 3— Não, senhor.

COREUTA 4— Não, senhor.

COREUTA 5— Não, senhor.

COREUTA 6— Não, senhor.

COREUTA 1— Quem foi?

COREUTA 2— Como eu posso dizer?

COREUTA 3— Foi uma confusão...

COREUTA 4— Nem lembro mais onde eu estava.

COREUTA 5— Tinha a impressão de que eu estava na escola inteira.

COREUTA 6— Tinha a impressão de que a escola inteira pensava o mesmo pensamento...

COREUTA 1— Digo... Um pensamento.

COREUTA 2— Não sei dizer como eu sei do que se passava em outras partes da escola.

COREUTA 3— Me lembro como se tivesse vivido...

COREUTA 4— A lembrança é confusa, mas é como se eu tivesse mesmo vivido aquilo, o senhor entende?

COREUTA 5— Tão confusa quanto o que eu sei que vivi. Ou acho que vivi...

COREUTA 6— Foi muito rápido. Cada vez mais rápido. Quando percebi... era tarde... (Tempo) Para quê?

ATO 4, Cena 1

Luz na quadra. Coreutas imobilizaram Rico sob os pés de alguns deles. Fausta num cantinho. Jojó e Sonia.

SONIA— Assim ele não consegue respirar...

COREUTA 1— E se ele nem merecer respirar?

COREUTA 2— Uma corda! Alguma cosia que sirva de corda!

COREUTA 3— Vamos amarrar o assassino...

Coreutas se agitam pelo espaço.

RICO— (Para Sonia) Você cozinha tão bem... Minha boca está mais doce.

COREUTA 4— Aquele arame!

SONIA— Me desculpe. Não devia ter lhe oferecido o pão...

RICO— Eu desci porque quis. Olhe para eles. Só adiantei o que vai acontecer de qualquer jeito.

JOJÓ— Eles não sabem o que fazem, Rico... Tente entender...

RICO— Você já está tentando entender por mim, Jojó...

COREUTA 5— O arame!

Amarram os pulsos de Rico, imobilizando-o.

COREUTA 6— Então? Se é mesmo o Demônio porque não se solta?

JOJÓ— Desamarrem já o Rico!

SONIA— Jojó... Preste atenção, Jojó... Eles não vão fazer mais que isso com ele. Vão? Vão fazer? Só querem que ele não suma enquanto a polícia vem, não é?

Pausa.

COREUTA 1— E quem pode confiar na polícia?...

COREUTA 2— E se deixarem ele solto...

JOJÓ— E se ele for inocente?

COREUTA 3— E se não for?

COREUTA 4— É. Se não for. O que você faria?

JOJÓ— A justiça está nas mãos de Deus.

COREUTA 5— Você ouve Deus falar?

COREUTA 6— Ele diz que não é este demônio o culpado?

JOJÓ— (Evita responder) Ninguém... ninguém tem certeza...

Surge Nacho.

NACHO— Eu tenho.

Todos se voltam.

NACHO— Posso dizer: ele é um assassino. Ele continua um assassino. O gelo recente de um novo cadáver ainda arde nas mãos dele.

ATO 4, Cena 2

Luz na biblioteca. Jose de Antimateria prepara uma barricada com livros. Entra Stef, confusa.

  1. — Eles estão chegando?

STEF— (Tempo) Os alunos? Os outros alunos?...

  1. — Eles. Esse pessoal vai destruir tudo. Preciso me proteger. Você também... Uma hora eles encontram a gente.

STEF— (Tempo) Está com medo?

  1. — Eu sei, eu sei... Eu dizia que era preciso destruir a escola, que o que está podre tem que cair...

STEF— (Distante - completa) ...e se está podre é preciso balançar o galho.

  1. — É uma loucura ter medo quando chega o dia que eu dizia sempre sonhar.

STEF— (Distante) Também sonhou?..

  1. — (Tempo) Você está bem?

Silêncio.

STEF— Como pode ser tão seco?

  1. — (Estranha) O quê?

STEF— Não sei muito bem... o quê... Já ouvi isso antes. Lacre de água mineral. Isso. Sabe aquele estalo de lacre quebrando? Lacre de plástico... da garrafa... da tampa da garrafa... Água não está viva, está? Acaba, mas não tem vida, tem?

  1. — Do que está falando?

STEF— Sangue tem vida. Tem, não tem? Enquanto não coagula. Acho... Não é assim?

  1. — O que aconteceu, Stef?

STEF— Quer dizer, o lacre da tampa estala e a gente toma água. Tem água dentro da garrafa, não tem? Estala. E água. Simples. Por que não foi assim?... Ali?...

  1. — (Com medo de ouvir) Que estalo é esse de que está falando?

STEF— Me prometeram...

  1. — O quê?!

SONIA— O Sangue, poeta! O sangue... Não é lindo o sangue jorrando?

José de Antimateria tem um calafrio.

STEF— Eu não sei. É disso que estou falando. Eu não sei! E eu sonhei tanto com isso! Aquele vermelho guloso empapando a roupa preta. Isso, sim. Isso é glorioso. Quem morre assim, morre no berço da glória!

Ouve o terrível ruído de estrutura cedendo.

STEF— Sangrar até a morte... Já ouviu isso antes, não ouviu? Morrer devia ser uma glória. Morrer tinha que ser glorioso.

  1. — (Assustado) Stef...

STEF— Você disse isso. Mas não é. É lacre rompido. Estalo. Seco. Um estalo não é glorioso, é? É muito veloz viver, assim. Matar um ratinho é mais glorioso. Mas matar aquele ratinho foi muito rápido.

  1. — Está falando de quem?

STEF— Ainda estou ouvindo. O estalo... É surdo e seco. É rápido e carrancudo. Mas abafa todo o resto! Nunca mais vou ouvir só a chuva!

Silêncio.

STEF— Eu ajudei a matar Ivan... Ivan está morto. A vida dele acabou. Num estalo.

ATO 4, Cena 3

Luz na quadra. Todos prestam atenção em Nacho, que bate bola enquanto fala – possuído.

NACHO— Foi, foi ele. Eu preferia ter arrancado meus dois olhos, mas com meus dois olhos eu vi uma vez o que para um olho só já seria demais. Este... ser... esta... substância... matou meu amigo – a substância do meu ser...

COREUTA 1— Ele está chorando...

COREUTA 2— (Confuso) O que ele disse?...

COREUTA 3— Ele está sofrendo, não pode ver?

COREUTA 4— Ele está chorando.

COREUTA 5— Fiquem quietos.

COREUTA 6— Conta, meu amigo. Fale da sua dor...

NACHO— Minha garganta me impede o ar, meu pudor me nega a palavra.

CORO— Ele está sofrendo!

Rico solta uma gargalhada.

CORO— O Demônio ri!

RICO— Então, agora, sou mesmo o Demônio?

SONIA— Então... eu também sou... Me deu vontade de rir, como ele. (E aponta para Rico.) E tive que me segurar, como ele. (E aponta para Nacho.)

JOJÓ— Parem! O Demônio não existe!

RICO— Mas você acredita em Deus...

JOJÓ— (Desconversa, hesitante.) Vou rezar por sua alma.

RICO— E abandonar meu corpo às mãos deles.

NACHO— (Em cima) Eu não vim pedir a vingança! Quero apenas que me ouçam. Porque minha dor, de tão grande, eu mesmo só posso ouvir através dos seus ouvidos – e ver no espanto do rosto de cada um! Ou a dor me romperia os tímpanos...

JOJÓ— (Cede) Ele está sofrendo...

E vai para um canto, onde começa a rezar aos sussurros.

NACHO— Sofre toda a Natureza! Não ouvem a tempestade? Ainda busca o que derrubar com ventos e lágrimas pesadas! Ninguém pode impedir seu pranto, mas em breve passará com a nuvem que a trouxe. Mas... e o meu pranto? Ivan era meu amigo, meu pulso, o ar que abunda depois que lhe roubaram a respiração, e que agora desperdiça aquele que escarnece!

Rico solta outra gargalhada.

COREUTA 1— O Demônio riu de novo...

COREUTA 2— (Confuso) Deve ser disso que Nacho está falando.

COREUTA 3— Ele sabe do que fala.

COREUTA 4— (Para Nacho) O que quer?

COREUTA 5— O que devemos fazer?

COREUTA 6— Diga e nós faremos.

NACHO— Não quero que manchem suas mãos mais do que já estão. Digo isso porque suas mãos – como as mãos liquidas da tempestade pelas quais a Naturaza clama por Justiça – as suas mãos, meus amigos, foram ultrajadas! Foram ultrajadas pela proibição de devolver à Natureza o equilíbrio roubado pelo assassino de Ivan. (Aponta para Rico) O que a Natureza pede, o Homem nega – por pura inveja.

Sem respirar os Coreutas falam todos quase ao mesmo tempo.

COREUTA 1— (Confuso) Não compreendo...

COREUTA 2— (Confuso) Devemos agir, eu sei...

COREUTA 3— (Confuso) A vingança é nossa.

COREUTA 4— (Confuso) É isso que ele quer dizer.

COREUTA 5— (Confuso) O que vamos fazer?

COREUTA 6— (Confuso) Vamos acabar com o demônio.

NACHO— (Em cima) Vocês escolheram. Mas quanto essa aberração deve se afastar do solo para não emporcalhar o caminho dos justos.

E atira a bola no aro.

NACHO— Se nosso corpo fosse uma casa – e se uma casa fosse feita não estuque e sim de borracha – eu diria: tanto quanto o quarto onde dorme a consciência puder esticar a distância que a afasta da garagem que guarda o movimento de um homem... Mas não posso dizer isso: o corpo é de carne; pode ceder. E o corpo de um homem obedece à lei da gravidade.

Silêncio breve.

COREUTA 1— Ali, ali no alto!

SONIA— Estão loucos?

COREUTA 2— Uma corda! Alguma coisa que sirva de corda!

SONIA— Loucos!

COREUTA 3— Vamos enforcar o assassino!

SONIA— Estão me ouvindo?

COREUTA 4— Aquele arame!

SONIA— Não estão me ouvindo?!

COREUTA 5— O arame!

SONIA— Vai ficar aí parada, Jojó?

Jojó continua rezando.

COREUTA 6— (Para Rico) Se é o demônio, por que vai morrer?

RICO— Eu sou o “Demônio do Serradinho”. Eu sou o que dizem de mim.

Coreutas, enlouquecidos, carregam Rico para torre do quadro de basquete. Sonia tenta agarra-se a ele.

SONIA— Não vou deixar! Não vou deixar!!

Rico dá um jeito e se livra de Sonia, sem violência.

RICO— Já estou indo, minha amiga. Nunca mais vou sentir o perfume dos seus folheados.

Entram José de Antimatéria e Stef.

  1. — (Angustiado) O que estão fazendo?

NACHO— (Para si) Isso não é hora de poesia!

COREUTA 1— (Para José de Antimatéria) Não se meta!

COREUTA 2— Estamos fazendo justiça.

  1. — Ele não matou Ivan!

Coreutas ficam confusos por um momento. Muito sutilmente, sem que nem eles e, talvez, nem o público percebam, Rico se perde nas trevas.

NACHO— (Subitamente nervoso – deixa escapar) Por que pararam?

COREUTA 3— (Para Nacho) Quieto!

COREUTA 4— (Para José de Antimatéria) Fale!

  1. — Nem o irmão da vendedora de folheados.

NACHO— Vão deixar a Justiça pela metade?

COREUTA 5— E quem matou?

COREUTA 6— Alguém matou.

  1. — (Assente) E está aqui, entre nós.

NACHO— Estão perdendo tempo!

SONIA— Por que está tão aflito, Nacho? Por que não quer que ele fale?

COREUTA 1— É. Queremos ouvir.

COREUTA 2— (Para Nacho) Está com pressa?

NACHO— Não!

COREUTA 3— Parece nervoso...

COREUTA 4— Falta alguma coisa para contar?

  1. — (Se adianta) Só o que ele não pode contar.

NACHO— (Sem convicção) Verdade: falta contar o quanto ainda dói a perda do meu amigo – o que seria impossível na língua dos homens. (Inseguro) Mas vou deixar todos ouvindo outras vozes. Percebo que a minha já se tornou antiga. Vou deixar vocês. E sofrer longe daqui para não atrapalhar a hora do intervalo. Depois, quando a vida continuar... Eu...

STEF— Vai... Você não vai sozinho. Nunca mais na sua vida você estará sozinho. Eu sei.

Nacho se apressa e sai.

COREUTA 5— Muito estranho.

COREUTA 6— Quem matou, afinal, o irmão da vendedora de folheados e o amigo dele? Você?

  1. — Nem ergui o dedo na direção dos dois desgraçados. E ainda assim sou tão assassino quanto os verdadeiros assassinos. (Triste) Falou José de Antimatéria. O menestrel... maldito.

José de Antimatéria tenta batucar no próprio corpo, mas não consegue, emocionado. De repente, ouve-se o ruído de estrutura cedendo. Todos olham para cima, apavorados.

FAUSTA— (De seu canto) A gente perdeu tanto tempo atrás de um culpado...

ATO 4, Cena 4

Ruído de estrutura cedendo continua. Luz na sala de ciências. O corpo de Ivan jaz sobre uma cadeira, frente a um microscópio. Tempo. Entra Nacho, correndo, ofegante. Toma fôlego. Tempo. Ruído de estrutura cedendo pára. E, do fundo da sala, surge Rico, com as mãos atrás das costas.

RICO— Sabia que você vinha para cá.

Nacho tem um sobressalto, mas não consegue responder.

RICO— Sabia que tudo tinha acontecido nesta sala.

NACHO— Como veio parar aqui?

RICO— Sou o Demônio, lembra?

NACHO— Estava de mãos amarradas, eu vi.

RICO— Agora estão livres. E uma delas traz uma faca.

E mostra a faca.

RICO— Agora estão livres para fazer o que for preciso fazer. Para fazer o que Demônio precisa fazer.

NACHO— Até você acredita nisso... Eu inventei você.

RICO— E eu estou aqui.

NACHO— Eu! Eu fiz tudo acontecer. Tinha aqueles garotos na minha mão. Podia sentir a respiração deles chiando baixo, culpada por incomodar a som da minha voz.

RICO— Você acreditou no que disse.

NACHO— Não! Eu estava mentindo! Eu ria por dentro.

RICO— Só eu ri. Você acreditou no que disse. Ainda assim, estava mentindo, tem razão. Por isso eu ri. O que pensa? Que tem o poder de dar à luz a novos assassinos?

NACHO— Foi por pouco... Foi por pouco!

RICO— Suas palavras não matam nem um velhinho.

NACHO— Está falando de quê? Do velhinho que matou, “Demônio do Serradinho”? Eu admirava você...

RICO— Fique com o título se quiser. Mas precisa saber de uma coisa. O velhinho já estava morto quando furaram os olhos dele, quebraram os ocos ossos e atearam fogo no cadáver.

NACHO— Não foi você?...

RICO— Encontraram o corpo... Alguém encontrou. Antes da polícia. E resolveu se divertir com aquilo. O Demônio tem pouco a fazer hoje em dia. Com tanta gente se oferecendo para agir em nome dele...

E dá uma chave de braço imobilizando-o à sua frente. Depois, vagarosamente, encosta a faca na jugular de Nacho.

NACHO— O que está fazendo? Para que isto agora? Quando eles souberem da verdade virão atrás de mim.

RICO— Esta viagem você fará sem companhia.

NACHO— Por que acha que fiz o que fiz? Por quê? Pode me matar! Eu não acredito em nada.

RICO— Nada?

NACHO— Não tenho medo da morte. A morte para mim é nada!

RICO— (Pausa) Mas você ainda está vivo.

Nacho entende o horror que o espera e revela uma expressão de pavor absoluto em sua face. Abre a boca para gritar, mas o ruído de estrutura cedendo volta repentinamente, e se sobrepõe sobre seu ganido. Só vemos sua boca se abrir.

E a fura do som da estrutura desmoronando toma o ambiente. Silêncio.

Último Coro:

Luz sobre cada um dos Coreutas alternadamente, cansados de responder às perguntas – as mesmas perguntas.

COREUTA 1— Me contaram, sim senhor.

COREUTA 2— Não, não sei se estava lá.

COREUTA 3— Não sei nem seu eu estava lá, já disse.

COREUTA 4— Falavam coisas, como se não fossem eles, o senhor entende?

COREUTA 5— Coisas...

COREUTA 6— Coisas que eu não consigo repetir.

COREUTA 1— É só o que eu sei.

COREUTA 2— É só o que eu sei.

COREUTA 3— É só o que eu sei.

COREUTA 4— É só o que eu sei.

COREUTA 5— É só o que eu sei.

COREUTA 6— É só o que eu sei.

Trevas

Epílogo

Luz sobe vagarosamente sobre Fausta, Jojó e Sonia, esperando sob os escombros da escola. Num canto, agrupados, agachados, cada um abraçando as próprias pernas, o Coro treme de medo. Silencioso.

JOJÓ— Estão no seu normal, agora. Os novos alunos.

FAUSTA— É. Estão no seu normal de novo: com medo. Aliás, aliás, aliás... Quando é que vem alguém tirar a gente daqui de baixo de toda essa cacalhada?! Dava tudo pra ter sua tranquilidade, Sonia. Juro. Dá pra saber no que tanto pensa?

SONIA— No meu irmão. Queria falar uma coisa para ele... Bem que eu queria!

FAUSTA— O quê?

SONIA— Que daqui de baixo a gente também vê a Vista Chinesa. Bem que eu queria...

De repente, um barulho de escombros sendo removidos. Um facho de lanterna corta a cena.

BOMBEIRO— (De fora) Todos bem aí?

BRASINHA— (De fora) Deixa eu passar!

E entra Brasinha, seguida do Bombeiro.

BOMBEIRO— Você não pode entrar!

FAUSTA— Brasinha!

As quatro se abraçam.

BOMBEIRO— (Para fora) Tem gente viva aqui!

E já começa a trabalhar para remover o entulho.

JOJÓ— (Confusa e obsessiva) Você agora representa a gente, ouviu? Recebe os novos alunos, diz o que a gente tem de fazer... Me diz que faz isso! Me diz!

FAUSTA— (Sem ar) Está bem...Calma... Deixa só eu respirar...

SONIA— (Pausa) É...

E se solta docemente do abraço.

FAUSTA— Aonde vai?

SONIA— Tenho o que fazer. Assassinos e heróis têm estômago, não têm? (Para o Bombeiro) Está com fome?

BOMBEIRO— (Sincero) São doze horas sem parar...

SONIA— Eu sabia... Vou dar um jeito nisso.

E vai.

Pano.

Fim de

Longe da Vista Chinesa

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