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Extremismo / Anders Lustgarten

Extremismo

Anders Lustgarten

Direitos Autorais

Esta peça teve seus direitos liberados para os grupos participantes do projeto Conexões
no Brasil e compõe o portfólio de 2017. Para qualquer montagem fora deste projeto, favor
consultar os direitos autorais com a agente do autor

Agente do autor Anders Lustgarten : chloe.beeson@curtisbrown.com

Texto da peça na íntegra

Sala de aula. Agora. Uma porta bate com força atrás de alguém.
Por um longo momento, o resto da classe fica olhando
em direção ao garoto que acabou de ser levado embora. Todos se olham.
Pausa.

Kirsty – Pode ser que não seja.
Melina – Não seja o quê?!
Kirsty – O que você acha.
Jordan – Você não sabe o que eu acho.
Darren – Eu sei o que eu acho.
Suhayla – Isso, com certeza.
Darren – Olha só os irmãos siameses. Quase não acreditei que eles não te levaram
junto.
Suhayla finge um bocejo e, da mão que tapa a boca,
ergue o dedo do meio em direção a Darren.
Suhayla – Agora você vem metendo bronca? Agora que não tem professor na sala.
Você é muito foda mesmo.
Darren – Eles vão voltar para te pegar. Pode ir guardando as suas coisas.
Evan – Tem mais alguém com fome?
Kirsty – Talvez não seja nada sério.
Melina – Por que você não cresce, Kirsty?
Evan – Eu estou com uma puta fome.
Rachel – São 10 horas.
Evan – Não tomei café da manhã.
Rachel – Tem certeza, Evan? Tá ligado na música da Shakira – os quadris não
mentem?1
Chris – Cala a boca, Rachel.
Kirsty – Pode ser qualquer coisa.
Melina – ‘Pode ser qualquer coisa?!’ Você acha que eles levaram o mano sem nenhum
motivo? Pelo amor de Deus, Kirsty, só você mesmo.
Samuel – yeSuS vIjatlh qengtaHbogh Duj’e’ net maH. jatlh Miss Tomlinson. joH pong
tlhap ropwI’qoq. (Não podemos dizer Deus. A Miss Tomlinson que disse. É tomar
o nome de Deus em vão.)
Olive – Não podemos dizer Deus. A Miss Tomlinson que disse. É tomar o nome
de Deus em vão.
Evan – Estou de regime.
Rachel – O que podemos dizer, então?
Samuel – Shit.
Olive – Merda.
Melina – Valeu pela tradução.
Olive – De nada.
Darren – Não podemos dizer Deus na sala, mas podemos falar em Klingon e dizer
‘merda’. Eis o resumo da vida moderna.
Evan – Faz uma semana que estou fazendo esse regime.
Rachel – Nem dá para perceber. A gente pode mesmo falar palavrão na aula?
Melina – Eu falei um palavrão na quarta e ela não disse nada.
Suhayla – A palavra Klingon para merda é ‘shit’ mesmo’?
Samuel – tlhIngan ‘oHbe’ Hol chenmoH motlh qech. (KIingon não é uma língua apropriada
para conceitos prosaicos do dia-a-dia)
Olive – Klingon não é uma língua apropriada para conceitos prosaicos do dia-a-dia.
Samuel – Qapbej net poQbej qech rur jolvoy’. (Ela funciona melhor com ideias como
‘unidade ionizadora do teletransporte’)
Olive – Ela funciona melhor com ideias como ‘unidade ionizadora do teletransporte’.
Kirsty – A mãe dele pode estar doente.
Evan – Quero ficar magro para o verão. Corpinho de praia.
Rachel – Você já tem corpo de praia, tipo baleia encalhada.
Olive – Para de ser cruel, Rachel.
Suhayla – Ainda mais você. Seu corpo está mais para contrabaixo do que para violão
Rachel – Sua cabeça de pano de chão.
Suhayla – Cumé que é?
Rachel – Se não aguenta o calor, não fica na cozinha.
Kirsty – Será que o pai dele sofreu um acidente?
Melina – Os Klingons têm uma palavra para ‘unidade ionizadora de teletransporte’?
Samuel/Olive – Jolvoy’.
Melina – Mas não têm para ‘merda’. Que doideira!
Kirsty – Quem sabe o cachorro dele morreu?
Suhayla – Então como chamavam a merda antes de encontrarem a Enterprise?
Chris – Era um cachorro caro, Kirsty?
Suhayla – Porque deve ter sido meio esquisito.
Chris – Um cachorro especial? Tipo a Beyoncé dos cachorros?
Kirsty – Não sei nada do cachorro do cara, Chris.
Suhayla – “Preciso muito dar uma...”
“Uma o quê?”
“Ainda não tenho como dizer! Onde estão os imperialistas do espaço quando
precisamos deles?”
Samuel – Hov trek fun chenmoH DaH net poQbej mev SoH. (Vamos parar de zoar com
Star Trek?)
Olive – Vamos parar de zoar com Star Trek?
Chris – Quando dois policiais e o seu professor-tutor te levam embora, não vai ser
por causa de um cachorro.
Suhayla – O quê? Star Trek é exatamente sobre isso! É literalmente uma metáfora
gigantesca do imperialismo americano. Não acredito que você não sabia disso.
Samuel e Olive se levantam ameaçadoramente de suas cadeiras.
Chris – É o pessoal da Prevenção que está envolvido nisso. A Prevenção Antiterrorismo
acabou de levar o Jamal.
De repente silêncio. Samuel e Olive se sentam. Todos se entreolham. Pausa.
Kirsty – Pobre Miss Tomlinson.
Rachel – É verdade.
Suhayla – Pobre Miss Tomlinson?! Aquela vaca com olhos de cachaça estava farejando
para cima da gente há várias semanas.
Darren – Farejando para cima de você.
Suhayla – Eles levam o Jamal e você fica com peninha dela? Irado!
Kirsty – Mas vocês viram a cara dela? Era puro medo.
Darren – Ela sempre tem aquela cara.
Chris – Só quando ela olha para você.
Rachel – Não é culpa dela. Fala sério. Ela só está fazendo o trabalho dela.
Chris – Não Rachel, o trabalho dela é ensinar. Não dedurar os próprios alunos.
Jordan – Verdade.
Melina – Quem disse que ela dedurou?
Chris – Por que você acha que eles vieram aqui?
Rachel – Você acha que ela teve escolha?
Chris – Como podemos confiar nela agora?
Jordan – Boa pergunta.
Rachel – Ela precisa denunciar tudo que parecer suspeito. É a lei.
Chris – Ela trouxe a polícia para dentro da nossa sala.
Rachel – Ela só está fazendo o que mandam fazer.
Chris – Como eu vou falar qualquer coisa na aula agora?
Rachel – Você não fala nada mesmo, Chris.
Chris – Então. Agora que não vou falar nada mesmo. Vai saber o que algum professor
de merda com algum ódio irracional pode fazer comigo?
Melina – O que você está chamando de ódio irracional, véio? Você detesta a professora.
Chris – Uma sala de aula é para ensinar, não para espionar.
Jordan – Boa!
Chris e Jordan tocam os pulsos. Rachel balança a cabeça. Evan dá um sonoro suspiro.
Evan – Sabe do que eu sinto falta? De bolo formigueiro.
Chris – Eu vou ficar de zip fechado. Não falo mais na aula, e não faço mais lição.
Melhor repetir de ano do que ir para a cadeia!
Rachel – Você que sai perdendo.
Chris – Não perdi nada, Rachel. Alguém tirou de mim.
Rachel – Ela só está fazendo o trabalho dela.
Jordan – Então ela deveria ter a noção de fazer o trabalho direito e não nos meter
nessa merda. E ficar espalhando boatos sobre nós.
Darren – A polícia não vem até aqui só por causa de boatos.
Jordan – Não vem?
Darren – Não. Não vem. Eu sei.
Suhayla – “Eu sei.” Falou o filhinho do papai.
Jordan – E aquele moleque na casa com terrorista?
Suhayla – Ei, não pode dizer essa palavra, Jord. Vai direto para a cadeia sem direito
a fiança.
Kirsty – Que casa com terrorista?
Suhayla – Um moleque muçulmano de dez anos tentou escrever “moro em uma
casa com terraço”. Por engano ele escreveu “moro em uma casa com terrorista.”
A família toda foi detida pela polícia.
Kirsty – Tá zoando?
Rachel – Os erros de ortografia são um perigo para a sociedade.
Suhayla – Parece divertido até acontecer com você.
Rachel – Não vai acontecer comigo, tá ligado? Porque eu não sou…
Chris – Não é o quê, Rach?
Rachel – Não sou terrorista, Chris. O que que tá pegando?
Chris – Pegando onde?
Rachel – Não adianta puxar o saco dela. Ela não vai dar para você.
Chris – Só posso concordar se quiser transar com ela? Que bela sororidade vocês
têm aqui.
Rachel – Para que está concordando então?
Chris – Eles levaram nosso colega embora! Você não pira com isso?
Rachel – Ele não era seu colega, era?
Chris – Não acredito que você seja tão rasa assim.
Rachel – Não acredito que você seja tão ingênuo assim.
Jordan – Quer saber uma coisa sobre espalhar boatos, Rachel? Vamos ver o que
acontece quando a gente espalhar umas coisinhas sobre você.
Pega o celular e começa a digitar.
“Vi Rachel Cooke fazendo um boquete no Andy Thompson no banheiro masculino
ontem. A mais pura verdade!”
Rachel – Não! Não se atreva!
Melina – Não, Jordan.
Kirsty – Não acho que seja uma boa.
Jordan – É só um experimento social, tá ligado?
Aperta o botão do celular de modo autoritário. Passam-se alguns momentos. Vários
telefones começam a bipar. Os alunos olham os seus celulares.
Chris – Ai, que merda!
Evan – Olha só, não sabia como se escreve “vadia”. Tá vendo? Quem disse que a
gente não aprende nada na escola?
Mais telefones tocam.
Kirsty – Caraca! Parece fogo na mata.
Horrorizada, Rachel olha para o seu celular que não para de bipar.
Rachel – Jordan, seu puto. Seu punheteiro de merda.
Ela sai correndo da sala.
Melina – Para que fazer uma coisa dessas?
Samuel – case HaD qaStaHvIS social media yapbe’mo’ ghaH. (Foi um estudo de caso
sobre o poder das redes sociais)
Olive – Foi um estudo de caso sobre o poder das redes sociais.
Jordan – Era o que eu queria provar.
Melina – Mas acabou provando que ela tinha razão.
Ela faz um gesto de masturbação para Jordan.
Suhayla – Por isso que a Prevenção Antiterrorismo é tão perigosa. Conhece a
história do cuker-bum?
Kirsty – Do quê?
Suhayla – Dá um google.
Kirsty e Chris pegam seus celulares e fazem uma busca. Começam a ler um artigo.
Kirsty (lendo) – “Os funcionários de uma creche ameaçaram encaminhar um menino
de quatro anos para um programa de desradicalização depois que ele fez um
desenho que eles acharam ser o pai do menino fazendo uma “bomba de fogão”,
cooker bomb em inglês, explicou a mãe da criança.”
Suhayla – Quatro. O menino tinha quatro anos.
Kirsty – “O desenho na verdade retratava o pai segurando uma faca e cortando um
pepino, cucumber em inglês. A criança havia pronunciado “cuker-bum” em vez
de cucumber, mas os funcionários mal ouviram sua explicação e pensaram que
se tratava de algum dispositivo explosivo improvisado.”
Chris – Pelo amor de Deus! (Samuel começa a falar em Klingon. Chris ergue a mão)
Deixa quieto.
Suhayla – Porque, claro, se você quiser montar um dispositivo explosivo, vai fazê-lo
na frente dos seus filhos. Porque nós somos assim mesmo. Nenhum valor pela
vida humana, nem mesmo a nossa.
Chris (lendo) – “Eu disse pro assistente – ” Quando você olha para mim, eu pareço
um terrorista?” E ela disse – “Bem, e aquele Jimmy sei lá do quê, ele parecia um
pedófilo?” Parecia sim! Claro que parecia. Esta é literalmente a pior lógica que
eu já ouvi!
Evan (com ar sonhador) – Dunkin’ Donuts.
Darren – Por que levaram o cara, então?
Chris – O nome dele é Jamal.
Darren – Dá um tempo, véio. Você é tão informado!
Chris – Por que você não consegue dizer o nome dele, Darren?
Darren – Eles não estão inventando essa história.
Suhayla – Não estão? Pois eu acho que é exatamente isso que eles estão fazendo.
Darren – Essas bombas todas são só um sonho, né? As ameaças terroristas são
invenções do governo malvado para nos assustar? Vocês são uns iludidos. (volta
-se para Jordan) Ele é seu amigo.
Jordan – Não é não.
Darren – Claro que é.
Jordan – A gente sai junto às vezes. Ele não é um ‘amigo’ amigo.
Darren – Por que está negando? Vocês almoçam juntos quase todo dia.
Melina – É verdade, Jordan. E você se senta quase sempre perto dele.
Jordan – O que vocês estão querendo dizer?
Darren – O que estou querendo dizer é, agora que você nos distraiu fazendo a Rachel
chorar, talvez possa nos contar um pouco sobre sua relação com o suspeito.
Suhayla – Fala sério, você é um verdadeiro policial de merda, hein?
Kirsty – Só queremos entender o que está acontecendo, Jordan.
Jordan – Também não sei o que está acontecendo, Kirsty. Sei tanto quanto você.
Melina (levanta o celular) – Olha só você e ele marcados no Facebook. Ontem. E
na terça também.
Jordan – Está me acusando de alguma coisa, Melina?
Melina – E de novo… Caraca! Que merda é essa?
Kirsty – O que foi?
Melina – Eles acabaram de apagar a conta de Facebook dele.
Evan – “Eles”?
Melina – Alguém. (dá umas batidinhas no celular) Não foi só a conta dele. Todas as
fotos dele. Nas nossas contas. Elas desapareceram.
Os outros também pegam seus celulares.
Suhayla – Oh shit! – a famosa expressão que os Klingons não sabiam usar até recentemente.
Chris – Todas elas. Todas com o Jamal. Sumiram.
Pequena pausa.
Samuel – qatlh ‘e’ ta’ chaH? (Como conseguem fazer isso?)
Olive – Como conseguem fazer isso?
Kirsty – Talvez não sejam eles. Talvez ele mesmo tenha apagado as fotos.
Melina – Do banco de trás de um carro de polícia?
Chris – Você tá ligada que eles não vão te expulsar se você falar o nome dele, né?
Melina – Algemado?
Kirsty – Você não sabe se ele foi algemado.
Chris – O nome dele é Jamal.
Melina – Por que você se importa?
Chris – Por que você não se importa?
Melina – Claro que me importo. Me importo com a gente. Com o nosso grupo.
Você deveria se preocupar mais com o grupo e menos com um…
Chris – Um o quê?
Melina – Um estrangeiro. Para de colocar palavras nas nossas bocas, Chris.
Darren – Se ele não apagou as fotos, eles apagaram. De todo modo, não é bom
para ele.
Evan – Quem são ‘eles’?
Suhayla – Já ouviu falar do GCHQ?
Evan – Não.
Suhayla – Do NSA?
Evan – Errrr…
Suhayla – Do Snowden?
Evan – Sim! Eu sei tudo sobre Snowden. Nós escalamos o monte no ano passado
pelo Prêmio Duque de Edimburgo de Mérito Juvenil.
Suhayla – Não o Monte Snowdon, mané. O Edward Snowden.
Evan – Ah, tá. Não. Nunca ouvi falar.
Suhayla – O cara que vazou aquela merda de como os governos invadem todos os
nossos e-mails, todos os nossos tweets, todos os nossos Snapchats e WhatsApps
e Instagram. Como eles podem ler todos os históricos de navegação e descobrir
os nossos desejos secretos mais íntimos. Como eles podem arquivar todos os
pensamentos que você já teve e usá-los contra você. Para sempre. Você não tem
a menor ideia do que estou falando?
Evan – Não.
Suhayla – Da hora. Bem, gente como você não precisa saber.
Chris – Peraí. O quê? O governo pode ver todo nosso histórico de navegação?
Suhayla – Pode.
Chris – Incluindo, tipo…
Suhayla – Pode, Chris.
Chris (sussurrando) – Os sites de pornografia?
Suhayla – Tudo.
Todos – Oh, shit.
Todos os meninos menos Samuel, e Melina, agarram seus celulares
e começam a apagar freneticamente. Suhayla ri deles.
Jordan – Você não... sabe do que estamos falando? Ou é, tipo, contra o seu sistema
de valores?
Chris – Bater punheta está dentro de qualquer sistema de valores.
Melina – Pode crer. (os meninos fazem um barulho) O quê? Só porque sou uma menina?
Sai dessa.
Suhayla – Eu uso a Dark Web, mano.
Darren – A o quê?
Suhayla – A rede que eles não conseguem monitorar. Mas agora é tarde demais.
Eles já sabem. Tudo que você fez, seja lá o que for.
O frenesi dá lugar à decepção. Todos baixam seus celulares.
Rachel volta correndo, entra na sala e se joga em uma cadeira.
Rachel – Já tem uma pichação sobre mim no banheiro das meninas. Jordan, seu
merda! Pelo menos podia ter escolhido alguém melhor que o idiota do Andy breve.
Darren – “A dark web.”
Evan – Acho que estou começando a alucinar.
Darren – “A rede que eles não conseguem monitorar.” Interessante.
Suhayla – Continua latindo, cachorrinho?
Evan – Hipoglicemia.
Darren (dá tapinhas na têmpora dele) – Guarda para mais tarde.
Suhayla – Au au au au.
Evan – Tô vendo barras de chocolate flutuando no ar. Elas parecem mais reais que
vocês.
Kirsty – Evan. Agora não.
Evan – Mas tô vendo.
Darren – Por que o mano apagaria sua própria conta?
Suhayla – Você que me diga, CSI.
Darren – A menos que estivesse escondendo alguma coisa.
Ele se volta e encara Jordan. Dois ou três outros o imitam e fazem o mesmo.
Jordan – Quantas vezes preciso repetir?! Não conheço o cara direito!
Rachel – Claro que conhece, Jordan. Você se senta do lado dele.
Melina – Você almoça com ele.
Darren – Você já foi na casa dele.
Jordan – Quem te disse que eu fui na casa dele?
Suhayla – O pai dele é da polícia, Jords. Não deu pra perceber?
Darren – Você foi, não foi?
Pausa breve. Jordan acena com a cabeça relutantemente.
Darren – E aí? Ele é, certo?
Suhayla – Agora estamos chegando lá.
Darren – Eu sei que ele esconde, não fica se exibindo por aí, ao contrário de algumas
pessoas. (dois jovens olham para Suhayla) Mas ele é, certo?
Jordan – Tudo bem, Darren, ele é muçulmano.
Darren – Pode crer.
Chris – E isso prova o quê exatamente?
Melina – Já é alguma coisa, não é? Tipo, um motivo. Quer dizer, tem de ter um
motivo. Para eles levarem o fulano.
Jordan – Só sei que ele é um cara legal. Quer dizer, quando é que você conhece
alguém de verdade? Ele chegou no mês passado. Mudou muito de escola por
causa do trabalho do pai. Eu vi o Jamal andando pelo campo de futebol no primeiro
dia, chutando a grama e amassando as folhas, porque não tinha nada pra
fazer. Ninguém para conversar.
Samuel – SoHvaD rap ta’ ‘e’ poHlIj naDev SopwI’.(Eu me lembro de você fazendo a
mesma coisa quando chegou aqui)
Olive – Samuel se lembra de você fazendo a mesma coisa quando chegou aqui.
Jordan – Eu fiz? (os dois jovens acenam afirmativamente) Não me lembro. Só achei
que ele precisava de um amigo. Então fui falar com ele.
Suhayla – Foi nessa hora que ele te aliciou para o seu plano do mal de explodir a
cidade inteira e a aula de física?
A maioria dos jovens ri.
Darren – Vai rindo vai.
Chris – Olha, se essa história mata a aula de física, eu tô dentro.
Suhayla (voz séria de série de TV) – “Paris. Bruxelas. São Paulo (cidade local). Qual
será o próximo alvo dos terroristas malvados?”
Darren – Vai rindo. Pode fazer piada. É exatamente disse que se trata. Faz uma
quota que meu pai fala disso. Os terroristas estão começando a mirar em alvos
menores. Quanto menor a visibilidade do grupo, maior a possibilidade de um
ataque. Sabe qual é o lugar perfeito? Um shopping. Uma piscina. Um cinema.
Talvez até uma escola. Esta escola. E ninguém está preparado. Todo mundo é
um bando de sem noção, tipo vocês.
Pausa enquanto todos digerem essa ideia.
Darren – E aí, como ele é então? Quietão?
Jordan – É. Acho que sim.
Darren – Meio solitário?
Jordan – Ele acabou de se mudar pra cá.
Darren – Tipo uma alma perdida?
Jordan – O quê?
Darren – Nenhum de vocês leu a circular de Prevenção Antiterrorismo que a Miss
Tomlinson deu pra gente?
Melina – É. Eu li.
Kirsty – Eu também.
Rachel – Eu comecei, mas era muito chato.
Samuel – tera’Daq veQ flaws ‘e’ vItu’ Homvetlh. (Encontrei importantes falhas no
material)
Olive – Samuel encontrou importantes falhas no material.
Darren – No que foi mesmo que a rapaziada da Prevenção Antiterrorismo pediu
para a gente ficar de olho? Gente solitária? Outsiders? Gente lutando para ser
aceita? Peraí. Fiz umas anotações aqui. (tira um bloco de notas e lê.)
“Alguém que não sabe quem é. Alguém em busca de um propósito. Alguém que
quer ser percebido. Alguém que quer fazer algo especial para se destacar, e que,
portanto, pode ser vulnerável à radicalização.”
Olha só. É ele. Ele é exatamente assim.
Darren se senta e relaxa, impressionado consigo mesmo.
Os outros se entreolham. Pausa breve.
Melina – Faz sentido.
Kirsty – Você acha?
Melina – Só estou dizendo que ele é assim mesmo.
Suhayla – Você não está caindo nessa, tá?
Melina – Quarta-feira, na hora do almoço. Ele estava no corredor sussurrando no
celular. Tipo assim, de forma suspeita, tá ligado? E quando eu cheguei por trás,
ele desligou bem rápido e me olhou meio bravo.
Chris – Ele podia estar falando com a namorada.
Kirsty – E ele tem namorada?
Melina – Em, tipo árabe, ou sei lá que língua?
Chris – Talvez a namorada dele fale árabe.
Suhayla – Vocês não podem ser tão babacas assim. Fala sério.
Kirsty – Ele não se veste como quem tem uma namorada.
Rachel – Definitivamente ele não tem cheiro de quem tem namorada.
Melina – Falando sério, sem zoação, vocês namorariam o cara?
As meninas torcem o nariz com nojo da ideia de transar com Jamal.
Samuel – latlh nuq neH defined SoH DaSov’a’, Darren? teenager. (Sabe o que mais você
acabou de definir, Darren? Um adolescente.)
Olive – Sabe o que mais você acabou de definir, Darren? Um adolescente.
Suhayla – Valeu, aí, mano! A lamentavelmente incompreensível voz da razão.
Samuel – nuv ghaH flaws tera’Daq veQ. (São essas as falhas importantes.)
Olive – São essas as falhas importantes. Pelo menos é isso que diz o Samuel. Mas
eu não concordo…
dizendo.
Melina – Com base em quê, Jordan?
Jordan – Porque quando a gente vê os vídeos do Estado Islâmico, Melina, com
aqueles jovens no deserto usando gorros ninja2 e berrando ‘Morte aos Infiéis”,
é meio difícil ver uma velhinha sorridente ao fundo acenando com uma torta
de banana3 nas mãos.
Evan – Ah, dá um tempo, véio! Por que foi falar de torta de banana? É a minha
preferida.
Melina – Acho que o que você disse não está certo.
Jordan – Te dou 10 “mango” se você me mostrar um vídeo do Estado Islâmico
com uma torta de banana no fundo.
Evan – De novo?
Melina – Não estou falando da torta de banana.
Evan – E de novo!
Rachel – Mais uma, Evan. Se você fizer mais uma referência a algum bolo ou
torta, juro que…
Evan – Mano, estou tentando. São eles!
Melina – Estou falando da mãe. É disso que estamos falando. Muitos deles vêm de
famílias normais, gente legal. Têm boa educação. Falam bem. É por isso que é
tão difícil achar essa galera.
Jordan – E você tem essa informação exatamente como?
Melina – Porque todo mundo sabe. Porque, diferente de você, Jordan, eu tenho
respeito pelas pessoas e pelas necessidades delas.
Jordan – Será que o George concordaria com isso? Tipo, eu não tenho tanta certeza.
Rachel – Oi? Oi? Estão falando do quê?
Melina – Da hora. Envolve o meu namorado nesta história. Quanta elegância,
Jordan.
Jordan – Foi você que não me ligou, Melina.
Evan – Agora me perdi. Estão falando do quê?
Rachel – Continuam falando de comida. Agora vacas e galinhas.
Darren – Você já viu muito vídeo do Estado Islâmico, Jordan?
Jordan – Essa é a voz que você acha que seu pai usa no trabalho, Dá? Olha, eu
aposto que ele não tem essa voz de David Bowie tupiniquim.
Darren – “Com aqueles jovens no deserto usando gorros ninja.”
Jordan – Todo mundo vê os vídeos do Estado Islâmico.
Darren – Eu não vejo.
Melina – Eu também não.
Rachel – Nem eu.
Chris – Eu vejo.
Todos os olhos se voltam para ele.
O que foi? Tá no meu Twitter.
Darren – Você tem vídeos do Estado Islâmico no seu Twitter?
Chris – Tem todo tipo de merda no meu Twitter. Gosto de ficar bem informado.
Rachel – Menos na aula.
Melina – Você vê as pessoas sendo decapitadas? Aquele tal de Jihadi John e tudo
o mais?
Chris – Às vezes.
Melina – Você é doente.
Chris – Não. Só quero estar bem informado. Porque é isso que é assustador, muito
mais do que a chance do Estado Islâmico explodir o bar da esquina.5 O que dá
medo é o quanto as pessoas não sabem. E os soldados que a gente vê na cidade
nas sextas à noite, entrando no pub6 como se fossem o dono do pedaço, fedendo
a desodorante masculino?7 Ninguém olha duas vezes para eles, mas aposto que
a metade deles já fez coisas tão horríveis quanto o Jihadi John.
Rachel – Fala sério
Chris – Você tem alguma ideia do que o exército faz? Aposto que a metade deles
nem sabe o que fez. Apertam um botão e uma manchinha cinza desaparece.
Talvez fosse um terrorista. Podia ser uma criancinha.
Darren – Eles estão protegendo o país, seu esquerdinha. Protegendo você.
Chris – Eles ganham salário, não ganham? Pode apostar que o Jihadi John não
ganha salário.
Suhayla – Ooooh, cheque mate, Chris.
Rachel – Meu irmão é um desses rapazes. E o salário dele não é nada comparado
com tudo o que ele passa.
Chris – Por que ele não procura outro emprego?
Rachel – Vai à merda, Chris.
Olive – O meu também, tá ligado? E pode apostar que ele sabe exatamente o que
fez. Ele sofre de stress pós-traumático e faz dois meses que não sai do quarto.
Chris – Bem, claro, sempre tem alguns–
Olive – Ele não dorme. Chora e grita. Os médicos dizem que ele nunca vai ficar bem
de novo. Nunca vai voltar ao normal. Mas valeu aí por ter ideias pré-concebidas
sobre ele.
Chris – Não fiz… eu não sabia de nada disso.
Samuel (para Olive) – vay’ vay’ Data’nISbogh je jamal doesn’t ghaj. (Isso não tem nada
a ver com o Jamal)
Olive (para Samuel) – Claro que tem. Ele estava tentando impedir as coisas que o
Jamal quer fazer.
Samuel – nuq luta’ jamal ghewmey DaSov. vaj vay’ Qu’ ghaH. (Você não sabe o que o
Jamal fez. Se é que ele fez alguma coisa)
Olive – Bem, eles não iam levar o mano sem motivo, iam?
Samuel – SoHvaD Suq emotional, Olive. Qa’ mr — (Você está ficando muito emotiva,
Olive. Como diria o --)
Olive (emotiva) – Não estou ficando emotiva. E o Spock que vá cagar no mato.
Ela se afasta de Samuel. Ele abre a boca,
mas nada sai sem ter alguém para traduzir para ele.
Pausa.
Kirsty – Só quero me sentir segura de novo.
Rachel – Eu também.
Melina – Eu também.
Jordan – Todo mundo quer se sentir seguro. Isso não te faz especial.
Melina – Quando foi que eu disse que era especial? Não sou eu que fico me fazendo
de gostoso para depois não durar nem trinta segundos.
Kirsty – Por que é errado?
Jordan – Nunca tive nenhuma queixa da Chloé. E olha que comparado com o que
ela fala do George, eu até que tô bem na fita.
Melina – O quê? O quê?!
Kirsty – Por que é errado querer se sentir segura?
Darren – Não é errado. É normal.
Melina – O que você está querendo dizer, Jordan?
Jordan – Você é uma garota inteligente. Consegue descobrir sozinha.
Darren – O que está errado é as pessoas te fazerem se sentir feito uma aberração
só porque você quer se sentir seguro. No seu próprio país.
Chris – Tem alguma opinião que você não copia do seu pai, mano? Ou das revistas de direita?
Darren – Na verdade eu não leio revista.
Chris – Ah, tá legal! Os jornais então. Qual você lê? O Telegraph, o Mail, o Times,
o Express? Ou o Donald Trump aparece pessoalmente para uma visitinha na
sua casa?
Suhayla – O que o Jamal fez? Você nem sabe se ele fez alguma coisa.
Darren – E você não sabe se ele não fez nada. Ou o que ele vai fazer.
Kirsty – Como alguém poderia saber isso?
Darren – A polícia obviamente acha que sabe.
Melina – Aquela vaca!
Suhayla – Estou falando de fatos. Você não tem nenhum fato.
Darren – Fato um: Miss Tomlinson achou que alguma coisa que ele fez parecia
suspeito o suficiente para chamar a polícia. Fato dois: a polícia achou suspeito o
suficiente para levar o Jamal embora.
Melina – Aquela vaca desgraçada.
Melina luta para controlar as lágrimas e ferve de raiva.
Darren – Fato três: ele é muçulmano. Nem todos os muçulmanos são terroristas,
mas todos os terroristas são muçulmanos.
Suhayla – Vai à merda, Darren.
Darren – Sua vez. Quais são os seus fatos?
Suhayla – Fala sério. O cara é um puta de um racista.
Darren – Entendi. Você não tem fatos. Só tem a carta racial. Vocês são todos iguais.
Vocês não sabem argumentar, então fazem o papel de vítima.
Suhayla – Filho da puta racista.
Rachel – Mas sabe que ele tem razão?
Chris – Tem nada.
Rachel – Quem fez os ataques de 2005 em Londres? E em Paris? E Bruxelas? Os
muçulmanos.
Suhayla – Quem é que joga bombas em muçulmanos no mundo inteiro? Os brancos.
Rachel – E agora, quem está sendo racista?
Suhayla – Então é racista dizer que os brancos matam, mas não é racista dizer que
os muçulmanos matam? Agora entendi.
Chris – Só em 2016, tá ligado, mais crianças de colo mataram gente nos Estados
Unidos do que os muçulmanos. Até agora 23 a zero, mano!
Jordan – Tem gente filha da puta em qualquer lugar.
Kirsty – Isso é verdade.
Jordan – Mas tem mais na tua terra.
Chris – Tu tá pegando fogo hoje, mano!
Evan – Dá para mudar de assunto? Tá ficando pesado.
Rachel – Olha só quem está falando.
Evan – Ha ha. Piada de gordo. Que original!
Olive – Cala a boca, Rachel, sua vaca.
Rachel – Alguém falou com você? Volta para o mundo dos Klingons, Olive. Sua
mocréia nerd.
Darren – É isso que eu acho engraçado em vocês. Ficam berrando que nos odeiam
o tempo todo—
Suhayla – Quando é que eu disse isso? Nasci no mesmo hospital que você.
Darren – E daí? Você vai ser sempre diferente. Você escolhe ser diferente.
Suhayla – Minha casa fica a duas portas da sua. Estudamos na mesma sala!
Darren – É por isso que você usa esse trapo na cabeça – “Eu sou diferente. Não
sou você. Sou melhor do que você.”
Suhayla – O que mais eu posso fazer para ser aceita?
Darren – A sua turma anda por aí esfregando a sua diferença na nossa cara todos
os dias. Mas daí nós é que somos o problema. Somos nós que devemos rastejar
e adular e fazer com que vocês se sintam bem vindos? No nosso próprio país?!
Suhayla – Quer saber de uma coisa? É isso aí. Você é o problema. Pessoas como
você, que se recusam a ver o que o Reino Unido faz com o mundo, todos os assassinatos
e a exploração, porque se você ficar ignorante, daí dá para você andar
por aí fazendo papel de vítima, como se o único motivo para tanta gente ter raiva
deste país é porque eles são malucos e malvados e então precisam ser presos ou
bombardeados, quando somos nós que jogamos bombas há uns duzentos anos
e foi isso que começou esta merda toda – é isso aí, Darren, gente como você,
que não dá conta de não ser sempre o bonzinho, vocês são o problema. Quer
saber de uma coisa – se você machuca uma pessoa, ela vai querer te machucar
de volta! E corta esse papo furado que você é o filhinho bonzinho do policial, e
fica colocando as pessoas contra mim? Isso não vai fazer seu papai voltar para
casa, tá ligado? Porque papai deu no pé. Nós vimos. Nós vimos ele indo embora
enquanto a sua mãe se agarrava à porta do carro, soluçando e gritando. Porque
ele não queria mais ficar com vocês. Então não é minha culpa. Não é minha culpa!
Darren avança para cima de Suhayla, com o
ódio marcando suas feições. Melina pula da sua cadeira.
Melina – Pra mim chega. Chega desta merda.
Melina pula em cima de Suhayla e no impulso do momento, arranca o hijab dela.
Suhayla grita e cobre a cabeça. O resto fica de queixo caído. Melina segura
o hijab na mão, incerta de seu próximo movimento.
Suhayla – Devolve!
Jordan – O que você está fazendo?
Chris – Devolve esse negócio, Melina.
Melina (olha o hijab) – O que que isso tem de tão especial?
Suhayla – Devolve. Agora.
Melina – Já deu, né? Acho que já dissemos tudo que tínhamos para dizer.
Kirsty – Você vai meter a gente num puta rolo, Melina.
Melina – Por quê? É só um pedaço de pano.
Kirsty – Vão nos suspender por sua culpa.
Samuel (para Olive) – vay’ vay’ Data’nISbogh bImejnIS. vay’ jatlh. (Você precisa fazer
alguma coisa. Diz alguma coisa)
Olive – Faz você alguma coisa, Samuel. Foi ela mesma que causou tudo.
Rachel – Não devolve.
Evan – Cala a boca, Rachel. Você só tá piorando as coisas.
Rachel – Vai comer uma torta, gordinho. Não devolve, Melina. Ela precisa pedir
desculpas primeiro.
Melina olha em volta, o coração na boca, sem acreditar no que fez.
Jordan – Devolve, Melina. Agora.
Melina não vai aceitar ordens de Jordan. Ela pula para o outro lado.
Melina – Só depois que ela pedir desculpas. É isso aí, Rach. (para Suhayla) Pede
desculpas pelo que você disse e eu devolvo o seu pedacinho de pano.
Suhayla – Vou chamar o diretor.
Kirsty – Vão expulsar todas nós por sua culpa.
Melina – Por quê? Quem vai contar? Você vai contar, Kirsty?
Suhayla – Vou chamar a polícia.
Suhayla pega o celular. Melina o arranca das mãos dela.
Melina – Quem vai contar? Rachel? Evan?
Evan – Devolve para ela. O celular e esse troço aí. Daí tudo volta ao normal.
Melina – Volta? Acho que não. (para Suhayla) Porque ela não vai deixar passar, vai,
doçura?
Suhayla vai em direção à porta. Melina bloqueia o caminho.
As duas meninas se empurram e brigam pelo hijab.
Os outros assistem sem acreditar no que está acontecendo.
Melina – Não deixa ela passar, Darren.
Darren fica congelado. Não consegue se mover.
Vamos lá, bocudo. FAZ ALGUMA COISA!
Pressionado para a ação, Darren dá um passo em frente, arranca Suhayla
de Melina e a prende em um abraço de urso. Suhayla grita.
Suhayla – Me larga, me larga!!
Darren – Calma, galera. Calma.
Suhayla – Sai de cima de mim.
Jordan – Parem com isso
Melina – Não deixa ela gritar.
Suhayla – ME LARGA!
Kirsty – Alguém vai ouvir.
Melina – Faz ela parar!
Suhayla – TIRA AS MÃOS DE CIMA DE MIM!
Darren cobre a boca de Suhayla com a mão. Suhayla morde a mão dele com força.
Darren grita de dor e dá um tapa na cara de Suhayla. Todos arfam assustados sem
acreditar. Suhayla explode em lágrimas e despenca em uma cadeira.
Pausa breve.
Kirsty – Que merda, que merda, que merda.
Chris – Pra que você foi fazer uma merda dessas?
Darren – Ela me mordeu.
Chris – Você bateu nela!
Darren – Ela mordeu minha mão.
Chris – Você bateu na cara dela! Você não pode bater na cara de uma garota, Darren!
Ainda mais na cara de uma garota muçulmana!
Rachel – Que diferença faz que tipo de garota ela é?
Kirsty – Que merda, que merda, que merda.
Rachel – O problema é exatamente esse. É exatamente por isso que estamos aqui.
Evan – O que vamos fazer?
Kirsty – O que vamos fazer?
Pausa.
Melina – Tranca a porta. A chave está na mesa da professora. (pausa breve) Tranca
a porta.
Rachel vai até a mesa, procura em uma gaveta.
Melina – No outro lado.
Rachel encontra a chave. Tranca a porta. Guarda a chave no bolso. Pausa breve.
Melina – É a palavra dela contra a nossa. A palavra dela contra o grupo. A pergunta
é: quem prefere ficar com ela e não com o grupo?
Pausa breve.
Tudo que ela precisa fazer é pedir desculpas. Tudo que ela precisa fazer é cair de
joelhos, como já faz cinco vezes na porra do dia, e implorar nosso perdão. Por
se achar melhor. Por achar que a turma dela é melhor que a nossa. É só isso que
você precisa fazer, doçura. E daí a gente te solta.
Suhayla – Enfia no rabo.
Melina – Ah, mas eu acho que é você que vai ter coisas enfiadas em partes do corpo,
Suhayla. Se você me entende bem.
Kirsty – Ei ei ei ei ei EI!
Melina – Caso as coisas saiam do controle. O que pode muito bem acontecer.
Kirsty – Isso aqui tá ficando uma doideira.
Melina – Nunca se sabe, não é?
Kirsty – Tá tudo muito louco.
Chris – Você perdeu o controle, Melina. Você precisa parar.
Melina – Eu não comecei nada, Chris. Então como posso parar?
Jordan – Olha, Melina, sinto muito pelo... que eu disse, tá legal?
Melina – Tem que sentir muito mesmo.
Jordan – Eu não devia ter humilhado você em público. Mas você não pode—
Melina – É isso que você acha disso tudo, Jordan? Ah não. Não não não. Não se
trata de mim. Isso tudo é sobre nós. O grupo. A escola.
Darren (para Suhayla) – Eu... sinto muito. Vai ficar tudo bem.
Melina – É sobre nós fazermos uma coisa especial. Protegermos um ao outro.
Segurar a barra um do outro. Contra-atacar, reagir, resistir.
Jordan – A única coisa que você está fazendo pelo grupo, Melina, é meter a gente
num monte de merda.
Darren – Pelo amor de deus... para de chorar. Ok?
Darren pousa uma mão incrivelmente desajeitada no ombro de Suhayla.
Um desastrado gesto de desculpas. Suhayla BERRA
com ele e corre para o outro lado da sala.
Suhayla – TIRA A MÃO DE MIM!! VOU DENUNCIAR VOCÊS. Vou denunciar
todos vocês.
Melina – Prende ela aqui, Daz. Não deixa ela sair.
Jordan – Vou chamar a Miss Tomlinson.
Vai em direção à porta. Melina entra no caminho.
Melina – Não.
Jordan – A gente explica. Ela vai entender.
Melina – Não, Jordan. Tarde demais.
Jordan – Sai do caminho.
Melina – Me tira.
Jordan – Sai do caminho, Melina.
Melina – Não, Jordan.
Jordan – Não me obriga a te tirar.
Melina – Vocês ouviram. Todos ouviram, né? Jordan ameaçou me bater.
Jordan – Não ameacei nada! (para Chris) Chrissy, vai pegar a Miss Tomlinson.
Chris – Com o meu histórico? Pra quê, você quer que ela nos execute?
Samuel – vay’ Daghaj. (Vai você.)
Olive – Não.
Samuel – vay’ Daghaj. vay’ ghajbogh vay’. (Você precisa ir. Alguém precisa ir)
Olive – Vai você, Samuel. Se alguém precisa ir, vai você.
Jordan – Seja homem, Chris, e vai buscar a professora, porra.
Chris – Tá legal, tá legal.
Vai até Rachel e estende a mão.
Chris – Chave.
Rachel – Não.
Chris – Dá a chave, Rachel.
Rachel tira a chave do bolso, pensa no que vai fazer. Daí ela enfia a chave bem fundo nas
próprias calças, ergue as mãos e sorri.
Pausa breve.
Rachel – Ninguém vai a lugar nenhum.
Pausa breve.
Melina – Nada disso é nossa culpa.
Rachel – Verdade.
Melina – Vai dar a maior merda e a gente vai ficar com ficha suja e nem é culpa
nossa. Não causamos nada disso. Não fizemos o que o Jamal fez. Não trouxemos
a polícia aqui. Não fizemos o que ela (apontando para Suhayla) disse. Só o que
fizemos foi vir para a escola. Só fazemos a coisa certa. Então por que devemos
ser punidos? Por que precisamos sofrer?
Jordan – Ninguém precisa sofrer. Ninguém vai ficar com ficha suja.
Rachel – Você ouviu o que ela disse. Ela vai nos denunciar.
Chris – Ela não vai denunciar ninguém, vai, Hayls?
Suhayla – O seu bando de babacas me ataca e me mantém aqui contra a minha vontade. É. Acho que é bem provável.
Evan – Devolve para ela a merda do–
Rachel – NÃO! Não! Tô de saco cheio de tudo isso. Tô muito cheia das pessoas
ficarem me fazendo me sentir culpada por tudo!
Kirsty – Só quero me sentir segura.
Jordan – Isso aqui está muito louco.
Melina – E se ela for parceira do Jamal?
Jordan – Ah, pelo amor de deus!
Melina – Mas e se for? E se eles estiverem juntos nessa?
Jordan – Juntos nessa o quê? Não tem ‘nessa’ nenhuma!
Rachel – Como você sabe que não tem, Jordan? Você não tem como saber.
Jordan – E como você sabe que tem?
Melina – Por causa disto aqui! Porque esta merda toda está acontecendo agora!
Como esta merda toda podia estar acontecendo se não tivesse alguma coisa?
Kirsty – Por que é errado querer se sentir segura?
Rachel – Eles podem estar aprontando alguma coisa! Planejando explodir a escola!
Planejando fazer só deus sabe o que mais! Ninguém sabe!
Jordan – Isso está ficando cada vez mais doido!
Rachel – Tem um jeito fácil de acabar com tudo isso. Ela só precisa pedir desculpas.
Cair de joelhos e admitir o que ela fez.
Rachel e Melina chegam perto de Suhayla.
Melina – Ajoelha.
Suhayla – Vai se foder!
Melina – Não abusa, querida.
Rachel – Ajoelha e pede desculpas pra gente.
Suhayla – Vão se foder. Você. Você. Seu gordo. Sua puta.
Melina – É só pedir desculpas e dizer que nada aconteceu e a gente devolve o seu
trapinho e tudo volta ao normal.
As duas começam se engalfinhar com Suhayla até o chão.
Kirsty – Ei ei ei ei ei EI!
Melina – Ajuda aqui, Darren!
Darren dá um passo para trás, com medo. Jordan começa a brigar com a porta.
Jordan – Chris, me ajuda a derrubar a porta.
Chris vai até a porta. Suhayla se solta de Rachel e
Melina e vai até o outro lado da sala. Ela grita.
Suhayla – SOCORRO!
Melina coloca a mão na boca de Suhayla e as duas brigam.
Melina – Me ajuda aí, ô. Ou todo mundo vai ficar na merda.
Olive e Kirsty vão ajudar Melina a conter Suhayla.
Samuel coloca a mão no ombro de Olive.
Samuel – nuq Data’? mev! (O que você está fazendo? Para!)
Olive tira a mão dele com raiva. As três garotas brigam com Suhayla e a forçam até o
chão. Murmúrios no corredor. Jordan e Chris quase conseguiram arrombar a porta.
Rachel – Sai por essa porta e eu te denuncio para a Prevenção Antiterrorismo.
Pausa breve e atônita. Rachel também está chocada.
Ela não sabia que aquilo ia sair da sua boca.
Jordan – O quê?
Rachel – Não são só os escurinhos, tá ligado? Pode ser qualquer um.
Jordan – O quê?
Rachel – Você vai na casa do Jamal. Sai com ele todo dia. Come a comida dele.
Você defende o cara.
Chris – Você pirou?
Rachel – Ele também pode fazer parte. Vou contar para a Prevenção Antiterrorismo
que ele também faz parte.
Chris – Você tá falando do Jordan.
Rachel – E você conhece bem ele, Chris? Você conhece alguém de verdade, afinal?
Chris – Você não vai delatar ninguém.
Rachel – Sai por essa porta e você vai ver.
Chris – Valeu pela tentativa, Rach.
Rachel – Vou contar sobre você também. Como você defende ela. Como você
concorda com ela. Como você parece ter tesão por ela.
Chris – Não tenho tesão por ela.
Rachel – E como você quer impressioná-la e foi assim que ela entrou na sua cabecinha,
e tomou conta de você. Ela se apoderou de você, do Jordan e do Jamal.
Chris – Para fazer o quê?
Rachel – Não sei, Chris. Me diga você.
Suhayla – ALGUÉM ME AJUDA!
Os murmúrios no corredor se tornam vozes altas de adultos.
Golpes no lado de fora da porta.
“O que está acontecendo aí dentro?” “Abra esta porta.” “Tá me ouvindo? Abra
essa porta, agora!”
Suhayla está presa ao chão pelas quatro meninas. Samuel segura o rosto entre as mãos.
Darren – Precisamos parar.
Rachel – O quê?
Darren – Acho que fomos longe demais.
Rachel – Ah Darren. Dazza. Amarelando quando a coisa aperta. O que o papai
diria de uma coisa dessas?
Darren – Cala a boca Rachel.
Rachel – Você não pode falar comigo assim. Eu não sou como ela, tá ligado? Eu
sou inglesa.
Melina – Você só ladra e não morde, heim, Daz. Dá uma de galo, mas é um arregão.
Evan – O que ela tá dizendo? Acho que isso nem existe.
Rachel – Cala a boca e segura ela, gorducho.
Rachel segura Evan e o puxa para baixo para ele entrar no “scrum9”.
Os barulhos e gritos do corredor estão ficando mais altos.
Alguém balança a porta com força. “Vai pegar uma chave!”
Melina – Foi você que começou tudo isso. Tudo que aconteceu hoje começou
com você.
Darren – Não é verdade.
Rachel – Você bateu na cara dela, Darren.
Pausa breve.
Melina – Hoje em dia ninguém quer pagar o preço, tá ligado? Acho que tudo seria
muito melhor se alguém pagasse o preço. Começando hoje. (para Suhayla) Diz
aí, “Eu peço desculpas.”
Suhayla – Vai à merda.
Melina – Pede desculpas.
Suhayla – Não.
Rachel – Pede desculpas.
Suhayla – NÃO.
Melina – Diz, “Eu peço desculpas por toda a confusão que causei hoje. Eu peço
desculpas por toda a confusão que o meu grupo causou.”
Suhayla – Enfia no meio do seu...
Darren – Pede desculpas, por favor.
Kirsty – Faz tudo isso acabar.
Evan – Fala, Suhayla. É o caminho mais fácil.
Rachel – Fala!
Melina – FALA!
Turma – FALA FALA FALA FALA FALA FALA FALA FALA!
Melina – Então, se você não vai falar, doçura, acho que precisamos aumentar um
pouco a pressão.
Melina começa a tirar a camisa de Suhayla. Ela começa a gritar aterrorizada.
Samuel pula da cadeira e sobe na sua mesa.
Samuel – PAAAAAAAARAAAAAAAA!
O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? QUE MERDA VOCÊ ESTÁ FAZENDO?
A turma se vira como se fosse uma pessoa só, atônita. Pausa.
Samuel – Eu tenho medo.
Tenho medo todo dia.
Tenho medo que eu não consiga fazer nada certo. Que eu não tenha nenhum
valor.
Que ninguém me ame e que ninguém nunca venha a me amar.
Que eu não mereça ser amado porque eu não sou bom. E eu sei que as pessoas
percebem que eu tenho medo.
E eles se aproveitam.
E assim fico ainda com mais medo. Medo de falar.
Medo de pensar.
E eu sei que vocês também estão com medo. Por baixo. E por isso que vocês
ficam me zoando. Mas eu não vou deixar.
Não vou deixar vocês fazerem isso com ela.
Não me importa o que vocês façam comigo. Só sei que não vou deixar.
Samuel desce da mesa, vai até Melina e toma o hijab da mão dela.
Ajuda Suhayla a se levantar e lhe devolve o hijab.
Sinto muito. Sinto muito mesmo.
Ele se volta para Melina.
Pronto. Pode fazer o pior que você conseguir.
Pausa breve. Batidas fortes na porta trancada.
Vozes gritando “Nós temos a chave. Vamos entrar.”
A sala se entreolha. Pausa breve.
Samuel (para todos) – Pensem com cuidado. Pensem bem no que vocês vão dizer.
A porta se abre.
Blackout.
Fim

Kirsty – Pode ser que não seja.
Melina – Não seja o quê?!
Kirsty – O que você acha.
Jordan – Você não sabe o que eu acho.
Darren – Eu sei o que eu acho.
Suhayla – Isso, com certeza.
Darren – Olha só os irmãos siameses. Quase não acreditei que eles não te levaram
junto.
Suhayla finge um bocejo e, da mão que tapa a boca,
ergue o dedo do meio em direção a Darren.
Suhayla – Agora você vem metendo bronca? Agora que não tem professor na sala.
Você é muito foda mesmo.
Darren – Eles vão voltar para te pegar. Pode ir guardando as suas coisas.
Evan – Tem mais alguém com fome?
Kirsty – Talvez não seja nada sério.
Melina – Por que você não cresce, Kirsty?
Evan – Eu estou com uma puta fome.
Rachel – São 10 horas.
Evan – Não tomei café da manhã.
Rachel – Tem certeza, Evan? Tá ligado na música da Shakira – os quadris não
mentem?1
Chris – Cala a boca, Rachel.
Kirsty – Pode ser qualquer coisa.
Melina – ‘Pode ser qualquer coisa?!’ Você acha que eles levaram o mano sem nenhum
motivo? Pelo amor de Deus, Kirsty, só você mesmo.
Samuel – yeSuS vIjatlh qengtaHbogh Duj’e’ net maH. jatlh Miss Tomlinson. joH pong
tlhap ropwI’qoq. (Não podemos dizer Deus. A Miss Tomlinson que disse. É tomar
o nome de Deus em vão.)
Olive – Não podemos dizer Deus. A Miss Tomlinson que disse. É tomar o nome
de Deus em vão.
Evan – Estou de regime.
Rachel – O que podemos dizer, então?
Samuel – Shit.
Olive – Merda.
Melina – Valeu pela tradução.
Olive – De nada.
Darren – Não podemos dizer Deus na sala, mas podemos falar em Klingon e dizer
‘merda’. Eis o resumo da vida moderna.
Evan – Faz uma semana que estou fazendo esse regime.
Rachel – Nem dá para perceber. A gente pode mesmo falar palavrão na aula?
Melina – Eu falei um palavrão na quarta e ela não disse nada.
Suhayla – A palavra Klingon para merda é ‘shit’ mesmo’?
Samuel – tlhIngan ‘oHbe’ Hol chenmoH motlh qech. (KIingon não é uma língua apropriada
para conceitos prosaicos do dia-a-dia)
Olive – Klingon não é uma língua apropriada para conceitos prosaicos do dia-a-dia.
Samuel – Qapbej net poQbej qech rur jolvoy’. (Ela funciona melhor com ideias como
‘unidade ionizadora do teletransporte’)
Olive – Ela funciona melhor com ideias como ‘unidade ionizadora do teletransporte’.
Kirsty – A mãe dele pode estar doente.
Evan – Quero ficar magro para o verão. Corpinho de praia.
Rachel – Você já tem corpo de praia, tipo baleia encalhada.
Olive – Para de ser cruel, Rachel.
Suhayla – Ainda mais você. Seu corpo está mais para contrabaixo do que para violão
Rachel – Sua cabeça de pano de chão.
Suhayla – Cumé que é?
Rachel – Se não aguenta o calor, não fica na cozinha.
Kirsty – Será que o pai dele sofreu um acidente?
Melina – Os Klingons têm uma palavra para ‘unidade ionizadora de teletransporte’?
Samuel/Olive – Jolvoy’.
Melina – Mas não têm para ‘merda’. Que doideira!
Kirsty – Quem sabe o cachorro dele morreu?
Suhayla – Então como chamavam a merda antes de encontrarem a Enterprise?
Chris – Era um cachorro caro, Kirsty?
Suhayla – Porque deve ter sido meio esquisito.
Chris – Um cachorro especial? Tipo a Beyoncé dos cachorros?
Kirsty – Não sei nada do cachorro do cara, Chris.
Suhayla – “Preciso muito dar uma...”
“Uma o quê?”
“Ainda não tenho como dizer! Onde estão os imperialistas do espaço quando
precisamos deles?”
Samuel – Hov trek fun chenmoH DaH net poQbej mev SoH. (Vamos parar de zoar com
Star Trek?)
Olive – Vamos parar de zoar com Star Trek?
Chris – Quando dois policiais e o seu professor-tutor te levam embora, não vai ser
por causa de um cachorro.
Suhayla – O quê? Star Trek é exatamente sobre isso! É literalmente uma metáfora
gigantesca do imperialismo americano. Não acredito que você não sabia disso.
Samuel e Olive se levantam ameaçadoramente de suas cadeiras.
Chris – É o pessoal da Prevenção que está envolvido nisso. A Prevenção Antiterrorismo
acabou de levar o Jamal.
De repente silêncio. Samuel e Olive se sentam. Todos se entreolham. Pausa.
Kirsty – Pobre Miss Tomlinson.
Rachel – É verdade.
Suhayla – Pobre Miss Tomlinson?! Aquela vaca com olhos de cachaça estava farejando
para cima da gente há várias semanas.
Darren – Farejando para cima de você.
Suhayla – Eles levam o Jamal e você fica com peninha dela? Irado!
Kirsty – Mas vocês viram a cara dela? Era puro medo.
Darren – Ela sempre tem aquela cara.
Chris – Só quando ela olha para você.
Rachel – Não é culpa dela. Fala sério. Ela só está fazendo o trabalho dela.
Chris – Não Rachel, o trabalho dela é ensinar. Não dedurar os próprios alunos.
Jordan – Verdade.
Melina – Quem disse que ela dedurou?
Chris – Por que você acha que eles vieram aqui?
Rachel – Você acha que ela teve escolha?
Chris – Como podemos confiar nela agora?
Jordan – Boa pergunta.
Rachel – Ela precisa denunciar tudo que parecer suspeito. É a lei.
Chris – Ela trouxe a polícia para dentro da nossa sala.
Rachel – Ela só está fazendo o que mandam fazer.
Chris – Como eu vou falar qualquer coisa na aula agora?
Rachel – Você não fala nada mesmo, Chris.
Chris – Então. Agora que não vou falar nada mesmo. Vai saber o que algum professor
de merda com algum ódio irracional pode fazer comigo?
Melina – O que você está chamando de ódio irracional, véio? Você detesta a professora.
Chris – Uma sala de aula é para ensinar, não para espionar.
Jordan – Boa!
Chris e Jordan tocam os pulsos. Rachel balança a cabeça. Evan dá um sonoro suspiro.
Evan – Sabe do que eu sinto falta? De bolo formigueiro.
Chris – Eu vou ficar de zip fechado. Não falo mais na aula, e não faço mais lição.
Melhor repetir de ano do que ir para a cadeia!
Rachel – Você que sai perdendo.
Chris – Não perdi nada, Rachel. Alguém tirou de mim.
Rachel – Ela só está fazendo o trabalho dela.
Jordan – Então ela deveria ter a noção de fazer o trabalho direito e não nos meter
nessa merda. E ficar espalhando boatos sobre nós.
Darren – A polícia não vem até aqui só por causa de boatos.
Jordan – Não vem?
Darren – Não. Não vem. Eu sei.
Suhayla – “Eu sei.” Falou o filhinho do papai.
Jordan – E aquele moleque na casa com terrorista?
Suhayla – Ei, não pode dizer essa palavra, Jord. Vai direto para a cadeia sem direito
a fiança.
Kirsty – Que casa com terrorista?
Suhayla – Um moleque muçulmano de dez anos tentou escrever “moro em uma
casa com terraço”. Por engano ele escreveu “moro em uma casa com terrorista.”
A família toda foi detida pela polícia.
Kirsty – Tá zoando?
Rachel – Os erros de ortografia são um perigo para a sociedade.
Suhayla – Parece divertido até acontecer com você.
Rachel – Não vai acontecer comigo, tá ligado? Porque eu não sou…
Chris – Não é o quê, Rach?
Rachel – Não sou terrorista, Chris. O que que tá pegando?
Chris – Pegando onde?
Rachel – Não adianta puxar o saco dela. Ela não vai dar para você.
Chris – Só posso concordar se quiser transar com ela? Que bela sororidade vocês
têm aqui.
Rachel – Para que está concordando então?
Chris – Eles levaram nosso colega embora! Você não pira com isso?
Rachel – Ele não era seu colega, era?
Chris – Não acredito que você seja tão rasa assim.
Rachel – Não acredito que você seja tão ingênuo assim.
Jordan – Quer saber uma coisa sobre espalhar boatos, Rachel? Vamos ver o que
acontece quando a gente espalhar umas coisinhas sobre você.
Pega o celular e começa a digitar.
“Vi Rachel Cooke fazendo um boquete no Andy Thompson no banheiro masculino
ontem. A mais pura verdade!”
Rachel – Não! Não se atreva!
Melina – Não, Jordan.
Kirsty – Não acho que seja uma boa.
Jordan – É só um experimento social, tá ligado?
Aperta o botão do celular de modo autoritário. Passam-se alguns momentos. Vários
telefones começam a bipar. Os alunos olham os seus celulares.
Chris – Ai, que merda!
Evan – Olha só, não sabia como se escreve “vadia”. Tá vendo? Quem disse que a
gente não aprende nada na escola?
Mais telefones tocam.
Kirsty – Caraca! Parece fogo na mata.
Horrorizada, Rachel olha para o seu celular que não para de bipar.
Rachel – Jordan, seu puto. Seu punheteiro de merda.
Ela sai correndo da sala.
Melina – Para que fazer uma coisa dessas?
Samuel – case HaD qaStaHvIS social media yapbe’mo’ ghaH. (Foi um estudo de caso
sobre o poder das redes sociais)
Olive – Foi um estudo de caso sobre o poder das redes sociais.
Jordan – Era o que eu queria provar.
Melina – Mas acabou provando que ela tinha razão.
Ela faz um gesto de masturbação para Jordan.
Suhayla – Por isso que a Prevenção Antiterrorismo é tão perigosa. Conhece a
história do cuker-bum?
Kirsty – Do quê?
Suhayla – Dá um google.
Kirsty e Chris pegam seus celulares e fazem uma busca. Começam a ler um artigo.
Kirsty (lendo) – “Os funcionários de uma creche ameaçaram encaminhar um menino
de quatro anos para um programa de desradicalização depois que ele fez um
desenho que eles acharam ser o pai do menino fazendo uma “bomba de fogão”,
cooker bomb em inglês, explicou a mãe da criança.”
Suhayla – Quatro. O menino tinha quatro anos.
Kirsty – “O desenho na verdade retratava o pai segurando uma faca e cortando um
pepino, cucumber em inglês. A criança havia pronunciado “cuker-bum” em vez
de cucumber, mas os funcionários mal ouviram sua explicação e pensaram que
se tratava de algum dispositivo explosivo improvisado.”
Chris – Pelo amor de Deus! (Samuel começa a falar em Klingon. Chris ergue a mão)
Deixa quieto.
Suhayla – Porque, claro, se você quiser montar um dispositivo explosivo, vai fazê-lo
na frente dos seus filhos. Porque nós somos assim mesmo. Nenhum valor pela
vida humana, nem mesmo a nossa.
Chris (lendo) – “Eu disse pro assistente – ” Quando você olha para mim, eu pareço
um terrorista?” E ela disse – “Bem, e aquele Jimmy sei lá do quê, ele parecia um
pedófilo?” Parecia sim! Claro que parecia. Esta é literalmente a pior lógica que
eu já ouvi!
Evan (com ar sonhador) – Dunkin’ Donuts.
Darren – Por que levaram o cara, então?
Chris – O nome dele é Jamal.
Darren – Dá um tempo, véio. Você é tão informado!
Chris – Por que você não consegue dizer o nome dele, Darren?
Darren – Eles não estão inventando essa história.
Suhayla – Não estão? Pois eu acho que é exatamente isso que eles estão fazendo.
Darren – Essas bombas todas são só um sonho, né? As ameaças terroristas são
invenções do governo malvado para nos assustar? Vocês são uns iludidos. (volta
-se para Jordan) Ele é seu amigo.
Jordan – Não é não.
Darren – Claro que é.
Jordan – A gente sai junto às vezes. Ele não é um ‘amigo’ amigo.
Darren – Por que está negando? Vocês almoçam juntos quase todo dia.
Melina – É verdade, Jordan. E você se senta quase sempre perto dele.
Jordan – O que vocês estão querendo dizer?
Darren – O que estou querendo dizer é, agora que você nos distraiu fazendo a Rachel
chorar, talvez possa nos contar um pouco sobre sua relação com o suspeito.
Suhayla – Fala sério, você é um verdadeiro policial de merda, hein?
Kirsty – Só queremos entender o que está acontecendo, Jordan.
Jordan – Também não sei o que está acontecendo, Kirsty. Sei tanto quanto você.
Melina (levanta o celular) – Olha só você e ele marcados no Facebook. Ontem. E
na terça também.
Jordan – Está me acusando de alguma coisa, Melina?
Melina – E de novo… Caraca! Que merda é essa?
Kirsty – O que foi?
Melina – Eles acabaram de apagar a conta de Facebook dele.
Evan – “Eles”?
Melina – Alguém. (dá umas batidinhas no celular) Não foi só a conta dele. Todas as
fotos dele. Nas nossas contas. Elas desapareceram.
Os outros também pegam seus celulares.
Suhayla – Oh shit! – a famosa expressão que os Klingons não sabiam usar até recentemente.
Chris – Todas elas. Todas com o Jamal. Sumiram.
Pequena pausa.
Samuel – qatlh ‘e’ ta’ chaH? (Como conseguem fazer isso?)
Olive – Como conseguem fazer isso?
Kirsty – Talvez não sejam eles. Talvez ele mesmo tenha apagado as fotos.
Melina – Do banco de trás de um carro de polícia?
Chris – Você tá ligada que eles não vão te expulsar se você falar o nome dele, né?
Melina – Algemado?
Kirsty – Você não sabe se ele foi algemado.
Chris – O nome dele é Jamal.
Melina – Por que você se importa?
Chris – Por que você não se importa?
Melina – Claro que me importo. Me importo com a gente. Com o nosso grupo.
Você deveria se preocupar mais com o grupo e menos com um…
Chris – Um o quê?
Melina – Um estrangeiro. Para de colocar palavras nas nossas bocas, Chris.
Darren – Se ele não apagou as fotos, eles apagaram. De todo modo, não é bom
para ele.
Evan – Quem são ‘eles’?
Suhayla – Já ouviu falar do GCHQ?
Evan – Não.
Suhayla – Do NSA?
Evan – Errrr…
Suhayla – Do Snowden?
Evan – Sim! Eu sei tudo sobre Snowden. Nós escalamos o monte no ano passado
pelo Prêmio Duque de Edimburgo de Mérito Juvenil.
Suhayla – Não o Monte Snowdon, mané. O Edward Snowden.
Evan – Ah, tá. Não. Nunca ouvi falar.
Suhayla – O cara que vazou aquela merda de como os governos invadem todos os
nossos e-mails, todos os nossos tweets, todos os nossos Snapchats e WhatsApps
e Instagram. Como eles podem ler todos os históricos de navegação e descobrir
os nossos desejos secretos mais íntimos. Como eles podem arquivar todos os
pensamentos que você já teve e usá-los contra você. Para sempre. Você não tem
a menor ideia do que estou falando?
Evan – Não.
Suhayla – Da hora. Bem, gente como você não precisa saber.
Chris – Peraí. O quê? O governo pode ver todo nosso histórico de navegação?
Suhayla – Pode.
Chris – Incluindo, tipo…
Suhayla – Pode, Chris.
Chris (sussurrando) – Os sites de pornografia?
Suhayla – Tudo.
Todos – Oh, shit.
Todos os meninos menos Samuel, e Melina, agarram seus celulares
e começam a apagar freneticamente. Suhayla ri deles.
Jordan – Você não... sabe do que estamos falando? Ou é, tipo, contra o seu sistema
de valores?
Chris – Bater punheta está dentro de qualquer sistema de valores.
Melina – Pode crer. (os meninos fazem um barulho) O quê? Só porque sou uma menina?
Sai dessa.
Suhayla – Eu uso a Dark Web, mano.
Darren – A o quê?
Suhayla – A rede que eles não conseguem monitorar. Mas agora é tarde demais.
Eles já sabem. Tudo que você fez, seja lá o que for.
O frenesi dá lugar à decepção. Todos baixam seus celulares.
Rachel volta correndo, entra na sala e se joga em uma cadeira.
Rachel – Já tem uma pichação sobre mim no banheiro das meninas. Jordan, seu
merda! Pelo menos podia ter escolhido alguém melhor que o idiota do Andy breve.
Darren – “A dark web.”
Evan – Acho que estou começando a alucinar.
Darren – “A rede que eles não conseguem monitorar.” Interessante.
Suhayla – Continua latindo, cachorrinho?
Evan – Hipoglicemia.
Darren (dá tapinhas na têmpora dele) – Guarda para mais tarde.
Suhayla – Au au au au.
Evan – Tô vendo barras de chocolate flutuando no ar. Elas parecem mais reais que
vocês.
Kirsty – Evan. Agora não.
Evan – Mas tô vendo.
Darren – Por que o mano apagaria sua própria conta?
Suhayla – Você que me diga, CSI.
Darren – A menos que estivesse escondendo alguma coisa.
Ele se volta e encara Jordan. Dois ou três outros o imitam e fazem o mesmo.
Jordan – Quantas vezes preciso repetir?! Não conheço o cara direito!
Rachel – Claro que conhece, Jordan. Você se senta do lado dele.
Melina – Você almoça com ele.
Darren – Você já foi na casa dele.
Jordan – Quem te disse que eu fui na casa dele?
Suhayla – O pai dele é da polícia, Jords. Não deu pra perceber?
Darren – Você foi, não foi?
Pausa breve. Jordan acena com a cabeça relutantemente.
Darren – E aí? Ele é, certo?
Suhayla – Agora estamos chegando lá.
Darren – Eu sei que ele esconde, não fica se exibindo por aí, ao contrário de algumas
pessoas. (dois jovens olham para Suhayla) Mas ele é, certo?
Jordan – Tudo bem, Darren, ele é muçulmano.
Darren – Pode crer.
Chris – E isso prova o quê exatamente?
Melina – Já é alguma coisa, não é? Tipo, um motivo. Quer dizer, tem de ter um
motivo. Para eles levarem o fulano.
Jordan – Só sei que ele é um cara legal. Quer dizer, quando é que você conhece
alguém de verdade? Ele chegou no mês passado. Mudou muito de escola por
causa do trabalho do pai. Eu vi o Jamal andando pelo campo de futebol no primeiro
dia, chutando a grama e amassando as folhas, porque não tinha nada pra
fazer. Ninguém para conversar.
Samuel – SoHvaD rap ta’ ‘e’ poHlIj naDev SopwI’.(Eu me lembro de você fazendo a
mesma coisa quando chegou aqui)
Olive – Samuel se lembra de você fazendo a mesma coisa quando chegou aqui.
Jordan – Eu fiz? (os dois jovens acenam afirmativamente) Não me lembro. Só achei
que ele precisava de um amigo. Então fui falar com ele.
Suhayla – Foi nessa hora que ele te aliciou para o seu plano do mal de explodir a
cidade inteira e a aula de física?
A maioria dos jovens ri.
Darren – Vai rindo vai.
Chris – Olha, se essa história mata a aula de física, eu tô dentro.
Suhayla (voz séria de série de TV) – “Paris. Bruxelas. São Paulo (cidade local). Qual
será o próximo alvo dos terroristas malvados?”
Darren – Vai rindo. Pode fazer piada. É exatamente disse que se trata. Faz uma
quota que meu pai fala disso. Os terroristas estão começando a mirar em alvos
menores. Quanto menor a visibilidade do grupo, maior a possibilidade de um
ataque. Sabe qual é o lugar perfeito? Um shopping. Uma piscina. Um cinema.
Talvez até uma escola. Esta escola. E ninguém está preparado. Todo mundo é
um bando de sem noção, tipo vocês.
Pausa enquanto todos digerem essa ideia.
Darren – E aí, como ele é então? Quietão?
Jordan – É. Acho que sim.
Darren – Meio solitário?
Jordan – Ele acabou de se mudar pra cá.
Darren – Tipo uma alma perdida?
Jordan – O quê?
Darren – Nenhum de vocês leu a circular de Prevenção Antiterrorismo que a Miss
Tomlinson deu pra gente?
Melina – É. Eu li.
Kirsty – Eu também.
Rachel – Eu comecei, mas era muito chato.
Samuel – tera’Daq veQ flaws ‘e’ vItu’ Homvetlh. (Encontrei importantes falhas no
material)
Olive – Samuel encontrou importantes falhas no material.
Darren – No que foi mesmo que a rapaziada da Prevenção Antiterrorismo pediu
para a gente ficar de olho? Gente solitária? Outsiders? Gente lutando para ser
aceita? Peraí. Fiz umas anotações aqui. (tira um bloco de notas e lê.)
“Alguém que não sabe quem é. Alguém em busca de um propósito. Alguém que
quer ser percebido. Alguém que quer fazer algo especial para se destacar, e que,
portanto, pode ser vulnerável à radicalização.”
Olha só. É ele. Ele é exatamente assim.
Darren se senta e relaxa, impressionado consigo mesmo.
Os outros se entreolham. Pausa breve.
Melina – Faz sentido.
Kirsty – Você acha?
Melina – Só estou dizendo que ele é assim mesmo.
Suhayla – Você não está caindo nessa, tá?
Melina – Quarta-feira, na hora do almoço. Ele estava no corredor sussurrando no
celular. Tipo assim, de forma suspeita, tá ligado? E quando eu cheguei por trás,
ele desligou bem rápido e me olhou meio bravo.
Chris – Ele podia estar falando com a namorada.
Kirsty – E ele tem namorada?
Melina – Em, tipo árabe, ou sei lá que língua?
Chris – Talvez a namorada dele fale árabe.
Suhayla – Vocês não podem ser tão babacas assim. Fala sério.
Kirsty – Ele não se veste como quem tem uma namorada.
Rachel – Definitivamente ele não tem cheiro de quem tem namorada.
Melina – Falando sério, sem zoação, vocês namorariam o cara?
As meninas torcem o nariz com nojo da ideia de transar com Jamal.
Samuel – latlh nuq neH defined SoH DaSov’a’, Darren? teenager. (Sabe o que mais você
acabou de definir, Darren? Um adolescente.)
Olive – Sabe o que mais você acabou de definir, Darren? Um adolescente.
Suhayla – Valeu, aí, mano! A lamentavelmente incompreensível voz da razão.
Samuel – nuv ghaH flaws tera’Daq veQ. (São essas as falhas importantes.)
Olive – São essas as falhas importantes. Pelo menos é isso que diz o Samuel. Mas
eu não concordo…
dizendo.
Melina – Com base em quê, Jordan?
Jordan – Porque quando a gente vê os vídeos do Estado Islâmico, Melina, com
aqueles jovens no deserto usando gorros ninja2 e berrando ‘Morte aos Infiéis”,
é meio difícil ver uma velhinha sorridente ao fundo acenando com uma torta
de banana3 nas mãos.
Evan – Ah, dá um tempo, véio! Por que foi falar de torta de banana? É a minha
preferida.
Melina – Acho que o que você disse não está certo.
Jordan – Te dou 10 “mango” se você me mostrar um vídeo do Estado Islâmico
com uma torta de banana no fundo.
Evan – De novo?
Melina – Não estou falando da torta de banana.
Evan – E de novo!
Rachel – Mais uma, Evan. Se você fizer mais uma referência a algum bolo ou
torta, juro que…
Evan – Mano, estou tentando. São eles!
Melina – Estou falando da mãe. É disso que estamos falando. Muitos deles vêm de
famílias normais, gente legal. Têm boa educação. Falam bem. É por isso que é
tão difícil achar essa galera.
Jordan – E você tem essa informação exatamente como?
Melina – Porque todo mundo sabe. Porque, diferente de você, Jordan, eu tenho
respeito pelas pessoas e pelas necessidades delas.
Jordan – Será que o George concordaria com isso? Tipo, eu não tenho tanta certeza.
Rachel – Oi? Oi? Estão falando do quê?
Melina – Da hora. Envolve o meu namorado nesta história. Quanta elegância,
Jordan.
Jordan – Foi você que não me ligou, Melina.
Evan – Agora me perdi. Estão falando do quê?
Rachel – Continuam falando de comida. Agora vacas e galinhas.
Darren – Você já viu muito vídeo do Estado Islâmico, Jordan?
Jordan – Essa é a voz que você acha que seu pai usa no trabalho, Dá? Olha, eu
aposto que ele não tem essa voz de David Bowie tupiniquim.
Darren – “Com aqueles jovens no deserto usando gorros ninja.”
Jordan – Todo mundo vê os vídeos do Estado Islâmico.
Darren – Eu não vejo.
Melina – Eu também não.
Rachel – Nem eu.
Chris – Eu vejo.
Todos os olhos se voltam para ele.
O que foi? Tá no meu Twitter.
Darren – Você tem vídeos do Estado Islâmico no seu Twitter?
Chris – Tem todo tipo de merda no meu Twitter. Gosto de ficar bem informado.
Rachel – Menos na aula.
Melina – Você vê as pessoas sendo decapitadas? Aquele tal de Jihadi John e tudo
o mais?
Chris – Às vezes.
Melina – Você é doente.
Chris – Não. Só quero estar bem informado. Porque é isso que é assustador, muito
mais do que a chance do Estado Islâmico explodir o bar da esquina.5 O que dá
medo é o quanto as pessoas não sabem. E os soldados que a gente vê na cidade
nas sextas à noite, entrando no pub6 como se fossem o dono do pedaço, fedendo
a desodorante masculino?7 Ninguém olha duas vezes para eles, mas aposto que
a metade deles já fez coisas tão horríveis quanto o Jihadi John.
Rachel – Fala sério
Chris – Você tem alguma ideia do que o exército faz? Aposto que a metade deles
nem sabe o que fez. Apertam um botão e uma manchinha cinza desaparece.
Talvez fosse um terrorista. Podia ser uma criancinha.
Darren – Eles estão protegendo o país, seu esquerdinha. Protegendo você.
Chris – Eles ganham salário, não ganham? Pode apostar que o Jihadi John não
ganha salário.
Suhayla – Ooooh, cheque mate, Chris.
Rachel – Meu irmão é um desses rapazes. E o salário dele não é nada comparado
com tudo o que ele passa.
Chris – Por que ele não procura outro emprego?
Rachel – Vai à merda, Chris.
Olive – O meu também, tá ligado? E pode apostar que ele sabe exatamente o que
fez. Ele sofre de stress pós-traumático e faz dois meses que não sai do quarto.
Chris – Bem, claro, sempre tem alguns–
Olive – Ele não dorme. Chora e grita. Os médicos dizem que ele nunca vai ficar bem
de novo. Nunca vai voltar ao normal. Mas valeu aí por ter ideias pré-concebidas
sobre ele.
Chris – Não fiz… eu não sabia de nada disso.
Samuel (para Olive) – vay’ vay’ Data’nISbogh je jamal doesn’t ghaj. (Isso não tem nada
a ver com o Jamal)
Olive (para Samuel) – Claro que tem. Ele estava tentando impedir as coisas que o
Jamal quer fazer.
Samuel – nuq luta’ jamal ghewmey DaSov. vaj vay’ Qu’ ghaH. (Você não sabe o que o
Jamal fez. Se é que ele fez alguma coisa)
Olive – Bem, eles não iam levar o mano sem motivo, iam?
Samuel – SoHvaD Suq emotional, Olive. Qa’ mr — (Você está ficando muito emotiva,
Olive. Como diria o --)
Olive (emotiva) – Não estou ficando emotiva. E o Spock que vá cagar no mato.
Ela se afasta de Samuel. Ele abre a boca,
mas nada sai sem ter alguém para traduzir para ele.
Pausa.
Kirsty – Só quero me sentir segura de novo.
Rachel – Eu também.
Melina – Eu também.
Jordan – Todo mundo quer se sentir seguro. Isso não te faz especial.
Melina – Quando foi que eu disse que era especial? Não sou eu que fico me fazendo
de gostoso para depois não durar nem trinta segundos.
Kirsty – Por que é errado?
Jordan – Nunca tive nenhuma queixa da Chloé. E olha que comparado com o que
ela fala do George, eu até que tô bem na fita.
Melina – O quê? O quê?!
Kirsty – Por que é errado querer se sentir segura?
Darren – Não é errado. É normal.
Melina – O que você está querendo dizer, Jordan?
Jordan – Você é uma garota inteligente. Consegue descobrir sozinha.
Darren – O que está errado é as pessoas te fazerem se sentir feito uma aberração
só porque você quer se sentir seguro. No seu próprio país.
Chris – Tem alguma opinião que você não copia do seu pai, mano? Ou das revistas de direita?
Darren – Na verdade eu não leio revista.
Chris – Ah, tá legal! Os jornais então. Qual você lê? O Telegraph, o Mail, o Times,
o Express? Ou o Donald Trump aparece pessoalmente para uma visitinha na
sua casa?
Suhayla – O que o Jamal fez? Você nem sabe se ele fez alguma coisa.
Darren – E você não sabe se ele não fez nada. Ou o que ele vai fazer.
Kirsty – Como alguém poderia saber isso?
Darren – A polícia obviamente acha que sabe.
Melina – Aquela vaca!
Suhayla – Estou falando de fatos. Você não tem nenhum fato.
Darren – Fato um: Miss Tomlinson achou que alguma coisa que ele fez parecia
suspeito o suficiente para chamar a polícia. Fato dois: a polícia achou suspeito o
suficiente para levar o Jamal embora.
Melina – Aquela vaca desgraçada.
Melina luta para controlar as lágrimas e ferve de raiva.
Darren – Fato três: ele é muçulmano. Nem todos os muçulmanos são terroristas,
mas todos os terroristas são muçulmanos.
Suhayla – Vai à merda, Darren.
Darren – Sua vez. Quais são os seus fatos?
Suhayla – Fala sério. O cara é um puta de um racista.
Darren – Entendi. Você não tem fatos. Só tem a carta racial. Vocês são todos iguais.
Vocês não sabem argumentar, então fazem o papel de vítima.
Suhayla – Filho da puta racista.
Rachel – Mas sabe que ele tem razão?
Chris – Tem nada.
Rachel – Quem fez os ataques de 2005 em Londres? E em Paris? E Bruxelas? Os
muçulmanos.
Suhayla – Quem é que joga bombas em muçulmanos no mundo inteiro? Os brancos.
Rachel – E agora, quem está sendo racista?
Suhayla – Então é racista dizer que os brancos matam, mas não é racista dizer que
os muçulmanos matam? Agora entendi.
Chris – Só em 2016, tá ligado, mais crianças de colo mataram gente nos Estados
Unidos do que os muçulmanos. Até agora 23 a zero, mano!
Jordan – Tem gente filha da puta em qualquer lugar.
Kirsty – Isso é verdade.
Jordan – Mas tem mais na tua terra.
Chris – Tu tá pegando fogo hoje, mano!
Evan – Dá para mudar de assunto? Tá ficando pesado.
Rachel – Olha só quem está falando.
Evan – Ha ha. Piada de gordo. Que original!
Olive – Cala a boca, Rachel, sua vaca.
Rachel – Alguém falou com você? Volta para o mundo dos Klingons, Olive. Sua
mocréia nerd.
Darren – É isso que eu acho engraçado em vocês. Ficam berrando que nos odeiam
o tempo todo—
Suhayla – Quando é que eu disse isso? Nasci no mesmo hospital que você.
Darren – E daí? Você vai ser sempre diferente. Você escolhe ser diferente.
Suhayla – Minha casa fica a duas portas da sua. Estudamos na mesma sala!
Darren – É por isso que você usa esse trapo na cabeça – “Eu sou diferente. Não
sou você. Sou melhor do que você.”
Suhayla – O que mais eu posso fazer para ser aceita?
Darren – A sua turma anda por aí esfregando a sua diferença na nossa cara todos
os dias. Mas daí nós é que somos o problema. Somos nós que devemos rastejar
e adular e fazer com que vocês se sintam bem vindos? No nosso próprio país?!
Suhayla – Quer saber de uma coisa? É isso aí. Você é o problema. Pessoas como
você, que se recusam a ver o que o Reino Unido faz com o mundo, todos os assassinatos
e a exploração, porque se você ficar ignorante, daí dá para você andar
por aí fazendo papel de vítima, como se o único motivo para tanta gente ter raiva
deste país é porque eles são malucos e malvados e então precisam ser presos ou
bombardeados, quando somos nós que jogamos bombas há uns duzentos anos
e foi isso que começou esta merda toda – é isso aí, Darren, gente como você,
que não dá conta de não ser sempre o bonzinho, vocês são o problema. Quer
saber de uma coisa – se você machuca uma pessoa, ela vai querer te machucar
de volta! E corta esse papo furado que você é o filhinho bonzinho do policial, e
fica colocando as pessoas contra mim? Isso não vai fazer seu papai voltar para
casa, tá ligado? Porque papai deu no pé. Nós vimos. Nós vimos ele indo embora
enquanto a sua mãe se agarrava à porta do carro, soluçando e gritando. Porque
ele não queria mais ficar com vocês. Então não é minha culpa. Não é minha culpa!
Darren avança para cima de Suhayla, com o
ódio marcando suas feições. Melina pula da sua cadeira.
Melina – Pra mim chega. Chega desta merda.
Melina pula em cima de Suhayla e no impulso do momento, arranca o hijab dela.
Suhayla grita e cobre a cabeça. O resto fica de queixo caído. Melina segura
o hijab na mão, incerta de seu próximo movimento.
Suhayla – Devolve!
Jordan – O que você está fazendo?
Chris – Devolve esse negócio, Melina.
Melina (olha o hijab) – O que que isso tem de tão especial?
Suhayla – Devolve. Agora.
Melina – Já deu, né? Acho que já dissemos tudo que tínhamos para dizer.
Kirsty – Você vai meter a gente num puta rolo, Melina.
Melina – Por quê? É só um pedaço de pano.
Kirsty – Vão nos suspender por sua culpa.
Samuel (para Olive) – vay’ vay’ Data’nISbogh bImejnIS. vay’ jatlh. (Você precisa fazer
alguma coisa. Diz alguma coisa)
Olive – Faz você alguma coisa, Samuel. Foi ela mesma que causou tudo.
Rachel – Não devolve.
Evan – Cala a boca, Rachel. Você só tá piorando as coisas.
Rachel – Vai comer uma torta, gordinho. Não devolve, Melina. Ela precisa pedir
desculpas primeiro.
Melina olha em volta, o coração na boca, sem acreditar no que fez.
Jordan – Devolve, Melina. Agora.
Melina não vai aceitar ordens de Jordan. Ela pula para o outro lado.
Melina – Só depois que ela pedir desculpas. É isso aí, Rach. (para Suhayla) Pede
desculpas pelo que você disse e eu devolvo o seu pedacinho de pano.
Suhayla – Vou chamar o diretor.
Kirsty – Vão expulsar todas nós por sua culpa.
Melina – Por quê? Quem vai contar? Você vai contar, Kirsty?
Suhayla – Vou chamar a polícia.
Suhayla pega o celular. Melina o arranca das mãos dela.
Melina – Quem vai contar? Rachel? Evan?
Evan – Devolve para ela. O celular e esse troço aí. Daí tudo volta ao normal.
Melina – Volta? Acho que não. (para Suhayla) Porque ela não vai deixar passar, vai,
doçura?
Suhayla vai em direção à porta. Melina bloqueia o caminho.
As duas meninas se empurram e brigam pelo hijab.
Os outros assistem sem acreditar no que está acontecendo.
Melina – Não deixa ela passar, Darren.
Darren fica congelado. Não consegue se mover.
Vamos lá, bocudo. FAZ ALGUMA COISA!
Pressionado para a ação, Darren dá um passo em frente, arranca Suhayla
de Melina e a prende em um abraço de urso. Suhayla grita.
Suhayla – Me larga, me larga!!
Darren – Calma, galera. Calma.
Suhayla – Sai de cima de mim.
Jordan – Parem com isso
Melina – Não deixa ela gritar.
Suhayla – ME LARGA!
Kirsty – Alguém vai ouvir.
Melina – Faz ela parar!
Suhayla – TIRA AS MÃOS DE CIMA DE MIM!
Darren cobre a boca de Suhayla com a mão. Suhayla morde a mão dele com força.
Darren grita de dor e dá um tapa na cara de Suhayla. Todos arfam assustados sem
acreditar. Suhayla explode em lágrimas e despenca em uma cadeira.
Pausa breve.
Kirsty – Que merda, que merda, que merda.
Chris – Pra que você foi fazer uma merda dessas?
Darren – Ela me mordeu.
Chris – Você bateu nela!
Darren – Ela mordeu minha mão.
Chris – Você bateu na cara dela! Você não pode bater na cara de uma garota, Darren!
Ainda mais na cara de uma garota muçulmana!
Rachel – Que diferença faz que tipo de garota ela é?
Kirsty – Que merda, que merda, que merda.
Rachel – O problema é exatamente esse. É exatamente por isso que estamos aqui.
Evan – O que vamos fazer?
Kirsty – O que vamos fazer?
Pausa.
Melina – Tranca a porta. A chave está na mesa da professora. (pausa breve) Tranca
a porta.
Rachel vai até a mesa, procura em uma gaveta.
Melina – No outro lado.
Rachel encontra a chave. Tranca a porta. Guarda a chave no bolso. Pausa breve.
Melina – É a palavra dela contra a nossa. A palavra dela contra o grupo. A pergunta
é: quem prefere ficar com ela e não com o grupo?
Pausa breve.
Tudo que ela precisa fazer é pedir desculpas. Tudo que ela precisa fazer é cair de
joelhos, como já faz cinco vezes na porra do dia, e implorar nosso perdão. Por
se achar melhor. Por achar que a turma dela é melhor que a nossa. É só isso que
você precisa fazer, doçura. E daí a gente te solta.
Suhayla – Enfia no rabo.
Melina – Ah, mas eu acho que é você que vai ter coisas enfiadas em partes do corpo,
Suhayla. Se você me entende bem.
Kirsty – Ei ei ei ei ei EI!
Melina – Caso as coisas saiam do controle. O que pode muito bem acontecer.
Kirsty – Isso aqui tá ficando uma doideira.
Melina – Nunca se sabe, não é?
Kirsty – Tá tudo muito louco.
Chris – Você perdeu o controle, Melina. Você precisa parar.
Melina – Eu não comecei nada, Chris. Então como posso parar?
Jordan – Olha, Melina, sinto muito pelo... que eu disse, tá legal?
Melina – Tem que sentir muito mesmo.
Jordan – Eu não devia ter humilhado você em público. Mas você não pode—
Melina – É isso que você acha disso tudo, Jordan? Ah não. Não não não. Não se
trata de mim. Isso tudo é sobre nós. O grupo. A escola.
Darren (para Suhayla) – Eu... sinto muito. Vai ficar tudo bem.
Melina – É sobre nós fazermos uma coisa especial. Protegermos um ao outro.
Segurar a barra um do outro. Contra-atacar, reagir, resistir.
Jordan – A única coisa que você está fazendo pelo grupo, Melina, é meter a gente
num monte de merda.
Darren – Pelo amor de deus... para de chorar. Ok?
Darren pousa uma mão incrivelmente desajeitada no ombro de Suhayla.
Um desastrado gesto de desculpas. Suhayla BERRA
com ele e corre para o outro lado da sala.
Suhayla – TIRA A MÃO DE MIM!! VOU DENUNCIAR VOCÊS. Vou denunciar
todos vocês.
Melina – Prende ela aqui, Daz. Não deixa ela sair.
Jordan – Vou chamar a Miss Tomlinson.
Vai em direção à porta. Melina entra no caminho.
Melina – Não.
Jordan – A gente explica. Ela vai entender.
Melina – Não, Jordan. Tarde demais.
Jordan – Sai do caminho.
Melina – Me tira.
Jordan – Sai do caminho, Melina.
Melina – Não, Jordan.
Jordan – Não me obriga a te tirar.
Melina – Vocês ouviram. Todos ouviram, né? Jordan ameaçou me bater.
Jordan – Não ameacei nada! (para Chris) Chrissy, vai pegar a Miss Tomlinson.
Chris – Com o meu histórico? Pra quê, você quer que ela nos execute?
Samuel – vay’ Daghaj. (Vai você.)
Olive – Não.
Samuel – vay’ Daghaj. vay’ ghajbogh vay’. (Você precisa ir. Alguém precisa ir)
Olive – Vai você, Samuel. Se alguém precisa ir, vai você.
Jordan – Seja homem, Chris, e vai buscar a professora, porra.
Chris – Tá legal, tá legal.
Vai até Rachel e estende a mão.
Chris – Chave.
Rachel – Não.
Chris – Dá a chave, Rachel.
Rachel tira a chave do bolso, pensa no que vai fazer. Daí ela enfia a chave bem fundo nas
próprias calças, ergue as mãos e sorri.
Pausa breve.
Rachel – Ninguém vai a lugar nenhum.
Pausa breve.
Melina – Nada disso é nossa culpa.
Rachel – Verdade.
Melina – Vai dar a maior merda e a gente vai ficar com ficha suja e nem é culpa
nossa. Não causamos nada disso. Não fizemos o que o Jamal fez. Não trouxemos
a polícia aqui. Não fizemos o que ela (apontando para Suhayla) disse. Só o que
fizemos foi vir para a escola. Só fazemos a coisa certa. Então por que devemos
ser punidos? Por que precisamos sofrer?
Jordan – Ninguém precisa sofrer. Ninguém vai ficar com ficha suja.
Rachel – Você ouviu o que ela disse. Ela vai nos denunciar.
Chris – Ela não vai denunciar ninguém, vai, Hayls?
Suhayla – O seu bando de babacas me ataca e me mantém aqui contra a minha vontade. É. Acho que é bem provável.
Evan – Devolve para ela a merda do–
Rachel – NÃO! Não! Tô de saco cheio de tudo isso. Tô muito cheia das pessoas
ficarem me fazendo me sentir culpada por tudo!
Kirsty – Só quero me sentir segura.
Jordan – Isso aqui está muito louco.
Melina – E se ela for parceira do Jamal?
Jordan – Ah, pelo amor de deus!
Melina – Mas e se for? E se eles estiverem juntos nessa?
Jordan – Juntos nessa o quê? Não tem ‘nessa’ nenhuma!
Rachel – Como você sabe que não tem, Jordan? Você não tem como saber.
Jordan – E como você sabe que tem?
Melina – Por causa disto aqui! Porque esta merda toda está acontecendo agora!
Como esta merda toda podia estar acontecendo se não tivesse alguma coisa?
Kirsty – Por que é errado querer se sentir segura?
Rachel – Eles podem estar aprontando alguma coisa! Planejando explodir a escola!
Planejando fazer só deus sabe o que mais! Ninguém sabe!
Jordan – Isso está ficando cada vez mais doido!
Rachel – Tem um jeito fácil de acabar com tudo isso. Ela só precisa pedir desculpas.
Cair de joelhos e admitir o que ela fez.
Rachel e Melina chegam perto de Suhayla.
Melina – Ajoelha.
Suhayla – Vai se foder!
Melina – Não abusa, querida.
Rachel – Ajoelha e pede desculpas pra gente.
Suhayla – Vão se foder. Você. Você. Seu gordo. Sua puta.
Melina – É só pedir desculpas e dizer que nada aconteceu e a gente devolve o seu
trapinho e tudo volta ao normal.
As duas começam se engalfinhar com Suhayla até o chão.
Kirsty – Ei ei ei ei ei EI!
Melina – Ajuda aqui, Darren!
Darren dá um passo para trás, com medo. Jordan começa a brigar com a porta.
Jordan – Chris, me ajuda a derrubar a porta.
Chris vai até a porta. Suhayla se solta de Rachel e
Melina e vai até o outro lado da sala. Ela grita.
Suhayla – SOCORRO!
Melina coloca a mão na boca de Suhayla e as duas brigam.
Melina – Me ajuda aí, ô. Ou todo mundo vai ficar na merda.
Olive e Kirsty vão ajudar Melina a conter Suhayla.
Samuel coloca a mão no ombro de Olive.
Samuel – nuq Data’? mev! (O que você está fazendo? Para!)
Olive tira a mão dele com raiva. As três garotas brigam com Suhayla e a forçam até o
chão. Murmúrios no corredor. Jordan e Chris quase conseguiram arrombar a porta.
Rachel – Sai por essa porta e eu te denuncio para a Prevenção Antiterrorismo.
Pausa breve e atônita. Rachel também está chocada.
Ela não sabia que aquilo ia sair da sua boca.
Jordan – O quê?
Rachel – Não são só os escurinhos, tá ligado? Pode ser qualquer um.
Jordan – O quê?
Rachel – Você vai na casa do Jamal. Sai com ele todo dia. Come a comida dele.
Você defende o cara.
Chris – Você pirou?
Rachel – Ele também pode fazer parte. Vou contar para a Prevenção Antiterrorismo
que ele também faz parte.
Chris – Você tá falando do Jordan.
Rachel – E você conhece bem ele, Chris? Você conhece alguém de verdade, afinal?
Chris – Você não vai delatar ninguém.
Rachel – Sai por essa porta e você vai ver.
Chris – Valeu pela tentativa, Rach.
Rachel – Vou contar sobre você também. Como você defende ela. Como você
concorda com ela. Como você parece ter tesão por ela.
Chris – Não tenho tesão por ela.
Rachel – E como você quer impressioná-la e foi assim que ela entrou na sua cabecinha,
e tomou conta de você. Ela se apoderou de você, do Jordan e do Jamal.
Chris – Para fazer o quê?
Rachel – Não sei, Chris. Me diga você.
Suhayla – ALGUÉM ME AJUDA!
Os murmúrios no corredor se tornam vozes altas de adultos.
Golpes no lado de fora da porta.
“O que está acontecendo aí dentro?” “Abra esta porta.” “Tá me ouvindo? Abra
essa porta, agora!”
Suhayla está presa ao chão pelas quatro meninas. Samuel segura o rosto entre as mãos.
Darren – Precisamos parar.
Rachel – O quê?
Darren – Acho que fomos longe demais.
Rachel – Ah Darren. Dazza. Amarelando quando a coisa aperta. O que o papai
diria de uma coisa dessas?
Darren – Cala a boca Rachel.
Rachel – Você não pode falar comigo assim. Eu não sou como ela, tá ligado? Eu
sou inglesa.
Melina – Você só ladra e não morde, heim, Daz. Dá uma de galo, mas é um arregão.
Evan – O que ela tá dizendo? Acho que isso nem existe.
Rachel – Cala a boca e segura ela, gorducho.
Rachel segura Evan e o puxa para baixo para ele entrar no “scrum9”.
Os barulhos e gritos do corredor estão ficando mais altos.
Alguém balança a porta com força. “Vai pegar uma chave!”
Melina – Foi você que começou tudo isso. Tudo que aconteceu hoje começou
com você.
Darren – Não é verdade.
Rachel – Você bateu na cara dela, Darren.
Pausa breve.
Melina – Hoje em dia ninguém quer pagar o preço, tá ligado? Acho que tudo seria
muito melhor se alguém pagasse o preço. Começando hoje. (para Suhayla) Diz
aí, “Eu peço desculpas.”
Suhayla – Vai à merda.
Melina – Pede desculpas.
Suhayla – Não.
Rachel – Pede desculpas.
Suhayla – NÃO.
Melina – Diz, “Eu peço desculpas por toda a confusão que causei hoje. Eu peço
desculpas por toda a confusão que o meu grupo causou.”
Suhayla – Enfia no meio do seu...
Darren – Pede desculpas, por favor.
Kirsty – Faz tudo isso acabar.
Evan – Fala, Suhayla. É o caminho mais fácil.
Rachel – Fala!
Melina – FALA!
Turma – FALA FALA FALA FALA FALA FALA FALA FALA!
Melina – Então, se você não vai falar, doçura, acho que precisamos aumentar um
pouco a pressão.
Melina começa a tirar a camisa de Suhayla. Ela começa a gritar aterrorizada.
Samuel pula da cadeira e sobe na sua mesa.
Samuel – PAAAAAAAARAAAAAAAA!
O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? QUE MERDA VOCÊ ESTÁ FAZENDO?
A turma se vira como se fosse uma pessoa só, atônita. Pausa.
Samuel – Eu tenho medo.
Tenho medo todo dia.
Tenho medo que eu não consiga fazer nada certo. Que eu não tenha nenhum
valor.
Que ninguém me ame e que ninguém nunca venha a me amar.
Que eu não mereça ser amado porque eu não sou bom. E eu sei que as pessoas
percebem que eu tenho medo.
E eles se aproveitam.
E assim fico ainda com mais medo. Medo de falar.
Medo de pensar.
E eu sei que vocês também estão com medo. Por baixo. E por isso que vocês
ficam me zoando. Mas eu não vou deixar.
Não vou deixar vocês fazerem isso com ela.
Não me importa o que vocês façam comigo. Só sei que não vou deixar.
Samuel desce da mesa, vai até Melina e toma o hijab da mão dela.
Ajuda Suhayla a se levantar e lhe devolve o hijab.
Sinto muito. Sinto muito mesmo.
Ele se volta para Melina.
Pronto. Pode fazer o pior que você conseguir.
Pausa breve. Batidas fortes na porta trancada.
Vozes gritando “Nós temos a chave. Vamos entrar.”
A sala se entreolha. Pausa breve.
Samuel (para todos) – Pensem com cuidado. Pensem bem no que vocês vão dizer.
A porta se abre.
Blackout.
Fim

tradução de Fernanda Sampaio

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