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Admirável Mundo Novo! / Luis Alberto de Abreu

Admirável Mundo Novo!

Luis Alberto de Abreu

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do rojeto Conexões Teatro Jovem  fez parte do seu portfólio no ano de 2017. Qualquer montagem fora do Projeto deverá ser ngociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos autorais.

 

LuisAlberto de Abreu luisabreu@uol.com.br

Personagens

Corifeu - o organizador da peça
Marcos Dédalus - professor do nível médio, 43 anos
Alice, 39 anos - sua mulher
Líbero - 41 anos, ex-namorado de Alice
Luciene (Lu) - estudante, 17 anos
Lúcia - mãe de Luciene, 35 anos
Jairo, pai de Luciene - 37 anos (é interpretado por Corifeu)
Vadinho - estudante, namorado de Lu, 17 anos
Marilise (Mari) - 17 anos, transgênero
Dirce - mãe de Mari, 36 anos
Antônio - pai de Mari, 38 anos
Vizinha de Dirce - 40 anos
Alê - estudante 17 anos
Garoto - conhecido de Alê
Seu João - zelador da escola, 50 anos
Diretor - 55 anos
Matilde - 48 anos, secretária da escola
Marinei - 54 anos, copeira da escola
Lídia - funcionária da escola

Local da ação: periferia de uma cidade grande
Época: atual

Informações talvez necessárias:

Informações talvez necessárias:


A execução da peça prescinde de cenários, no máximo, uns poucos objetos de cena. O palco será dividido em área dos bastidores e área de representação; os atores, quer estejam em uma ou outra área, estarão sempre à vista do público. A ideia é que todo o espetáculo seja criado suscitando a imaginação dos atores e do público. Os atores poderão encontrar referências desse tipo de espetáculo em vários autores, entre os quais Luigi Pirandello (Esta noite se improvisa e Assim é se lhe parece), Bertolt Brecht (A mãe, O círculo de giz caucasiano) e Thorton Wilder (Nossa cidade). E mesmo no filme de Lars von Trier (Dogville), influenciado por todos esses autores, especialmente Brecht.
O Corifeu cumpre uma função muito antiga no teatro, tanto ocidental como no teatro oriental japonês, o teatro Nô. Ele cumpre a função de narrar, conduzir a imaginação do público, questionar os personagens na busca de elucidar pontos obscuros. Ele busca revelar o personagem para o público. É uma espécie de ponte entre o público e os personagens e o espetáculo.


A divisão da área cênica entre área de representação e área dos bastidores à vista do público, também é muito antiga e foi muito utilizada no teatro Nô japonês, século
XIV. Os atores na área de representação não estão estáticos: podem acompanhar emocionados o desenrolar das cenas, ajudar personagens em sua entrada ou preparar e conduzir apetrechos de cena para a área de representação.
Personagens que aparecem eventualmente podem ser dobrados pelos atores.

Ato I

Ato I

Palco nu. Corifeu avança até o proscênio e se dirige ao público.

Corifeu – Boa noite. Esta peça chama-se Admirável mundo novo! E chama-se assim por causa de um verso de Shakespeare, na peça A tempestade: “Mas quantas pessoas belas existem aqui! Tantas e tão belas! Que admirável é o mundo novo por ter gente assim! ” Como uma peça de teatro, um mundo é feito, primeiro, na imaginação. É possível que, antes de ser criado, o mundo foi desejo e imaginação de Deus. Imaginemos, então. Nós, atores, seremos seus parceiros na criação deste admirável mundo novo. Por favor, neste palco vazio, imaginemos que os dois atores que nele entram, sejam jovens amantes. Acreditem na pureza de suas intenções e na força do que eles acreditam.

Corifeu sai. No fundo do palco, um jovem casal se aproxima, indeciso, e se beija com paixão.

A jovem – Quando se ama, a espera é sempre dura.
O jovem – E o encontro é sempre breve. Jura o seu amor e escreve na pura saliva do seu lábio o quanto te amo.
A jovem – Juro e escrevo na pedra, no aço, no arco dos seus braços onde me deito, para que nosso amor permaneça para sempre.
O jovem – Não! Melhor escrever no ar, no vento, assim como eu escrevo com a língua na fina pele do seu peito.
A jovem – Mas assim o amor só perdura um momento.
O jovem – Melhor! De um jeito lento terá que ser refeito! Sempre! Como agora, como daqui a pouco, como em todas as horas. E para todo o sempre. (beijam-se novamente)

Atores entram e demarcam no palco com giz ou fita crepe a área da encenação.
Demarcam também um corredor nas laterais que chamaremos área dos bastidores.
Tanto a área de encenação quanto a área dos bastidores devem ficar à vista do público. Na área dos bastidores, os atores se preparam em silêncio (vestem-se de figurinos e acessórios, concentram-se, fazem exercícios de respiração para entrar em cena, enfim tudo o que um ator faz nas coxias). Enquanto os atores fazem a demarcação, o Corifeu continua a falar ao público.

Corifeu – A única regra a respeitar aqui é a imaginação. Por isso, não estranhem nada. Acreditem, aqui, no teatro, tudo é possível e tudo será feito às claras, pois nada podemos esconder de nossa imaginação. E quanto mais e melhor imaginarmos, mais chances teremos de construir melhor este Admirável Mundo Novo! (aos atores) Obrigado. (atores saem da área de representação e sentam-se num banco à direita e à esquerda da área de representação. Ficam apenas os dois jovens que continuam a se beijar). Vocês também podem sair. Aliás, já deviam ter saído! (os jovens não dão sinal de ter ouvido. Corifeu bate palmas). Ei! (ao público) Empolgaram! É a idade! Essa gente vai sempre além da conta. (às coxias) Alguém corte a luz deles, por favor! (luz se apaga sobre os jovens e eles saem. Corifeu continua). Escolhi esta pequena cena de amor como prólogo porque todos nós fomos assim um dia. E porque um Admirável Mundo Novo se constrói a partir disso. Pelo menos este nosso. Coração grande e leve é o passaporte para este mundo. (atores colocam mochilas de escola nas costas e entram no espaço de representação)

Corifeu – Imaginem agora, aqui, neste palco, uma escola como aquela em que estudou a maioria de nós: uma arquitetura pesada, de concreto, paredes precisando de pintura, pátio com buracos no cimento, mas que revivia a cada manhã com o alarido dos alunos. (alunos entram no palco. Cantam em forma de galhofa)

Alunos – Ó minha escola querida
Lume dos meus verdes anos.
És guia de minha vida
Clareza dos desenganos.
Alunos são pra escola
burros de orelhas de abano
Pra nós, a escola só tem
Mestres cabeças de pano!
Eles se fingem de sérios
E nós sacamos o engano
Querem moldar nossa mente
Mas nós temos outros planos!

Um ator que está sendo vestido por ajudantes grita para os alunos ainda da área dos bastidores.

Seu João – Vão circular, cambada! Sem fuzarca que, hoje, acordei torto!
Corifeu – Esse é Seu João, o velho porteiro mal-humorado que todos nós conhecemos.
(seu João entra na área de representação)

Aluno – Vai botar um ovo, seu João! Com todo respeito!
Seu João – Com todo respeito você vai ganhar o seu!

Alê, um outro aluno, segura a cabeça de seu João e lhe lasca um beijo. Os outros riem enquanto seu João faz-se de irritado.

Seu João – Eu não gosto disso, Alê, já disse!
Alê – O senhor não vira mais gay, seu João!
Aluno – A gente te ama, velho, você sabe!
Seu João – Ama como cobra ama sapo! Tô de olho em vocês! (o grupo se dispersa entre risos. João chama Alê para um canto)
Seu João – Alê, vem cá! Abre o olho, rapaz! Os “carinha” que você frequenta ultimamente num são de lei.
Alê – Tranquilo, seu João, eu me levo.
Seu João – Se leva pra onde? (Alê sorri e se afasta. Luciene chega à escola)
Luciene – Oi, seu João, viu o Vadinho?
Seu João – Chegou faz tempo. Deve estar metido com o Munheca.
Luciene – Ave! De novo! Aqueles dois não se largam!
Seu João – Se vacilar você perde o namorado!
Luciene – Bate na boca, seu João! (Luciene se afasta, procurando por Vadinho. Entra o diretor)
Diretor – Bom dia, seu João. Venha até minha sala.
Seu João – Bom dia. E a portaria?
Diretor – Quem quiser entrar, entra, e quem não quiser ficar, sai. Essa molecada você segura só até os dez anos. Tudo certo por aqui?
Seu João – Certo, não digo, mas não tem nada de muito errado. (os dois saem de cena. Corifeu entra com uma caneca de louça na mão)
Corifeu – Agora, apaguem a escola e imaginem, no lugar, uma acanhada casa de periferia. Os móveis precisam de reforma, a geladeira está mastigada de ferrugem e o carro da família faz o décimo quinto aniversário no mês que vem. É pouco depois das sete da manhã e um cheiro bom de café vem da cozinha. (Corifeu entrega a caneca de louça ao professor Dédalus, que entra na área de representação)
Dédalus – Obrigado.
Corifeu – Esta é a sala da casa do professor Dédalus e de sua mulher, Alice. Um sofá, uma TV, estante de livros.... Os quartos e banheiro ficam lá para dentro. A porta de saída é ali. Poderíamos imaginar que eles foram, há vinte anos, aqueles jovens apaixonados da primeira cena. Ah, aviso que o clima entre eles não está muito bom. (sai e Alice entra tomando café numa xícara igual a de Dédalus)
Alice – Ainda aí?
Dédalus – Só entro na segunda aula. (permanecem em silêncio alguns instantes) Você está mesmo decidida?
Alice – Estou confusa. A única coisa que sei é que o tempo passa e o coração me acusa de desperdício!
Dédalus – É difícil ouvir isso.
Alice – Mais difícil é dizer. O tempo avança e de nossa vida só ficou a lembrança como um quadro vazio de paisagem e de gente. E por mais que eu tente, Dédalus, uma tristeza mansa acena, insiste em ficar e diz que não somos mais aqueles dois da primeira cena.
Dédalus – Como foi que nos perdemos? Tantos planos...
Alice – Um pouco por dia, por vinte anos.
Dédalus – Talvez ainda...
Alice – Não, Dédalus! Daqui pra frente não vejo mais caminho. Nossa vida foi um vinho que envelheceu mal. O vaso de cristal que havia dentro do coração se quebrou.
Dédalus (com ciúmes) – É por causa dele, do Líbero, que em péssima hora voltou?
Alice – É por causa de nós. O Líbero só voltou agora. Em nós, mora, há algum tempo, o descuido, o descaso. Um belo vaso coberto do pó dos anos, é o que somos.
Dédalus – Não foi descaso, foi trabalho, rotina, luta...
Alice – Na labuta do dia-a-dia em que fresta perdida ficou o amor? Tanta cor embaçada pelo cinza morno da vida! (o Corifeu interfere entrando na área de representação)
Corifeu – Já é suficiente para entendermos em que ponto está a relação de vocês.
Alice – Obrigada por ter interrompido. Essa é uma discussão muito desagradável.
(Alice vai saindo, mas Dédalus diz, irônico)
Dédalus – Dê lembranças ao Líbero! (Alice para e vai responder, mas prefere sair)
Corifeu (repreendendo) – Não precisava disso.
Dédalus – Eu sei, desculpe. É que a Alice...
Corifeu – Não vamos estender mais esta cena. Segue seu texto.
(os atores que já se paramentaram de alunos tomam novamente a área de representação com seu alarido.Dédalus olha a escola, toma um último gole da caneca de café, a entrega ao Corifeu e se mistura aos alunos)
Dédalus – Quando eu nasci, um anjo bêbado ou de muita má fé, costurou o meu destino a esta escola, a esta periferia, a estes alunos. Na verdade, não sei se isso é vocação ou se é apenas uma desculpa de um cara conformado e sem ambição, como às vezes Alice me acusa.
(atriz termina de se vestir como Marinei, uma servente humilde, e entra na área de representação)
Marinei – Bom dia, seu Dédalo. Falando sozinho?
Dédalus – Bom dia, dona Marinei. Só estou pensando alto...
Marinei – Cuidado! A boca fala assim quando o coração tá cheio!
(Marinei segue.Dédalus a acompanha com um sorriso)
Dédalus – Tem razão, dona Marinei. Tem café na cozinha?
Marinei – Pro senhor sempre tem. Café e um pedaço de bolo de fubá que eu fiz.
(saem os dois. Mari cruza com Luciene no pátio)
Mari – Lu, preciso falar com você.
Alice – Mais difícil é dizer. O tempo avança e de nossa vida só ficou a lembrança como um quadro vazio de paisagem e de gente. E por mais que eu tente, Dédalus, uma tristeza mansa acena, insiste em ficar e diz que não somos mais aqueles dois da primeira cena.
Dédalus – Como foi que nos perdemos? Tantos planos...
Alice – Um pouco por dia, por vinte anos.
Dédalus – Talvez ainda...
Alice – Não, Dédalus! Daqui pra frente não vejo mais caminho. Nossa vida foi um vinho que envelheceu mal. O vaso de cristal que havia dentro do coração se quebrou.
Dédalus (com ciúmes) – É por causa dele, do Líbero, que em péssima hora voltou?
Alice – É por causa de nós. O Líbero só voltou agora. Em nós, mora, há algum tempo, o descuido, o descaso. Um belo vaso coberto do pó dos anos, é o que somos.
Dédalus – Não foi descaso, foi trabalho, rotina, luta...
Alice – Na labuta do dia-a-dia em que fresta perdida ficou o amor? Tanta cor embaçada pelo cinza morno da vida! (o Corifeu interfere entrando na área de representação)
Corifeu – Já é suficiente para entendermos em que ponto está a relação de vocês.
Alice – Obrigada por ter interrompido. Essa é uma discussão muito desagradável.
(Alice vai saindo, mas Dédalus diz, irônico)
Dédalus – Dê lembranças ao Líbero! (Alice para e vai responder, mas prefere sair)
Corifeu (repreendendo) – Não precisava disso.
Dédalus – Eu sei, desculpe. É que a Alice...
Corifeu – Não vamos estender mais esta cena. Segue seu texto.
(os atores que já se paramentaram de alunos tomam novamente a área de representação com seu alarido. Dédalus olha a escola, toma um último gole da caneca de café, a entrega ao Corifeu e se mistura aos alunos)
Dédalus – Quando eu nasci, um anjo bêbado ou de muita má fé, costurou o meu destino a esta escola, a esta periferia, a estes alunos. Na verdade, não sei se isso é vocação ou se é apenas uma desculpa de um cara conformado e sem ambição, como às vezes Alice me acusa. (atriz termina de se vestir como Marinei, uma servente humilde, e entra na área de representação)
Marinei – Bom dia, seu Dédalo. Falando sozinho?
Dédalus – Bom dia, dona Marinei. Só estou pensando alto...
Marinei – Cuidado! A boca fala assim quando o coração tá cheio! (Marinei segue. Dédalus a acompanha com um sorriso)
Dédalus – Tem razão, dona Marinei. Tem café na cozinha?
Marinei – Pro senhor sempre tem. Café e um pedaço de bolo de fubá que eu fiz.
(saem os dois. Mari cruza com Luciene no pátio)
Mari – Lu, preciso falar com você.
Lídia – Não ganho pra isso! Marinei, não esquece meu café. (mostra as unhas) Gostou da cor? Tá na moda! Por favor, faz um café novo que o velho esfriou. O diretor já chegou? Sabe o que me incomoda? O dia roda devagar, a aposentadoria que ainda demora, o sol lindo lá fora e eu aqui dentro, dando duro, aguentando aluno enquanto não chega o futuro. Marinei, minha filha, vida de funcionária não é fácil: pilhas de despacho, o salário baixo, o plano de carreira mixo, ouvir bochicho, lero-lero, que tudo vai mudar. Enquanto não muda, espero, de papo pro ar.
Corifeu – Acho que já deu para situar o tipo de escola de que falamos.
Lídia – Já? Ainda tenho muito a dizer.
Corifeu – Não é necessário.
Lídia – Se precisar de mim...
Corifeu – Não vou mais precisar.
Lídia – Mas... todo o trabalho pra me vestir, pintar as unhas, por uma cena tão pequena?
Corifeu – A senhora é uma personagem perfeitamente dispensável nesta peça e em qualquer escola.
(Lídia olha perplexa para Corifeu e sai, revoltada, pisando duro. Matilde e Marinei a seguem, rindo.)
Corifeu – É bom informar que o assunto desta peça não é a escola, nem nossa Política Educacional, nem os políticos porque nenhum deles se interessa, de fato, pelo assunto. Na verdade, sobre educação, penso que a gente conta é com a gente mesmo. Seja como for, nosso assunto aqui não é a escola, mas alguns poucos personagens que frequentam esta escola. Mas quero apresentar outros personagens desta periferia que farão parte desta história.
(volta-se para o banco onde os atores estão sentados. Um deles se ergue)
Líbero – Sou o Líbero, personagem já citado pelo professor Dédalus. Fui embora, casei, descasei e voltei para o pedaço. Retomei contato com Alice, de quem gostei na juventude, muito! (senta-se. Corifeu faz um gesto para Dirce que se levanta, tímida)
Dirce – Sou mulher do Antônio e mãe da Mari. (senta-se)
Corifeu – A senhora tem um nome? (levanta-se ainda mais embaraçada)
Dirce – Tenho.... Tem importância dizer? É Dirce. (Corifeu olha para Antônio, que se levanta)
Antônio – Sou Antônio, metalúrgico, pai de Mari.
Corifeu – O senhor é calado, rígido...
Antônio – Sou como está vendo. Não gosto de conversa fiada, gosto das coisas certas, dou respeito e quero respeito. (senta-se. Lúcia se levanta e desanda a falar)
Lúcia – Sou a Lúcia, mãe da Luciene, mulher do Jairo que não está aqui porque viaja, é caminhoneiro, vida muito sacrificada, a dele e a nossa, é difícil criar filha praticamente sozinha... (Corifeu interrompe com um gesto e Lúcia sorri e se senta.
Corifeu olha para o “garoto” que não se levanta)
Garoto – Ih, tio, num tô a fim de dar minha ficha. Tenho nada a ver com essa escola, não. Só conheço o Alê com quem ando trocando ideia...
Corifeu – Posso saber que tipo de ideia? (garoto sorri)
Garoto – Do tipo que é bom não querer saber demais, tio.
Corifeu (ao público) – Já podemos prosseguir. (Alê e Vadinho e Mari e Lu entram na área de representação separados aos pares)
Vadinho – A parada é essa aí, mano. Ainda tô chocado!
Alê – Isso é sinistro, cara!
Vadinho – Na hora nem acreditei, mas ela repetiu com todas palavras.
Luciene – É, Vadinho, grávida! Foi naquele dia que te falei que num queria, mas quis! ‘Tá’i! Estou esperando um filho seu! Contei tudo pra ele, Mari.
Vadinho – Fiquei assim, ó, passado, perdi o chão! Na hora gente não pensa...
Mari – E ele?
Luciene – Esbugalhou os olhos, caiu o queixo e fez aquela cara pasmada quando não entende o que digo. Que é que eu faço, Mari?
Mari – Vai ter de contar pra sua mãe.
Luciene – Ai! Ela vai falar três montes!
Alê – Vai fazer o que, meu?
Vadinho – Sei lá, ainda não tô em mim! A vontade é de um monte de coisa! Tô ferrado! Sou menor, emprego é bico aqui e ali.... Que futuro vou ter? (Vadinho vê Luciene que também o vê. Ele tenta se evadir) Tô indo nessa, cara... (afasta-se. Luciene o chama)
Luciene – Vadinho! (Vadinho para. Alê sorri para Mari)
Alê – E aí, Mari? Tudo em cima? (Mari começa a chorar)
Mari – O mundo, Alê, o mundo está desabando todo em cima da minha cabeça!
(Mari sai apressada e Alê vai atrás dela, preocupado.Ficam em cena Vadinho e Luciene. Corifeu entra em cena. Luciene começa a falar para Corifeu e depois volta-se ao público)
Luciene – Conheci o Vadinho faz três meses. Era de outra turma e foi muito esquisito o que aconteceu com a gente. Foi assim, imprevisto. Um dia eu chamei e ele me sorriu, do jeito besta dele. Acredita que ele nem sabia que eu existia? (Vadinho sorri e se aproxima)
Vadinho – Já tinha visto a garota, mas ela não me chamou muito a atenção.
Luciene – É que ele era uma besta, coisa que ainda é um pouco!
Vadinho – Oi.
Luciene – Oi.
Corifeu – Imaginem que eles ficaram parados um tempo, apenas se olhando. Recordam na vida de vocês de um olhar assim? Quantas coisas se passam nesse tipo de olhar? Dizem que, às vezes, se passam todas as coisas, até as coisas futuras.
Luciene – Não sei o que foi, apenas foi! Foi mergulho no lago limpo dos olhos dele e, de lá, voltei sem ar pra, de novo, mergulhar.
Vadinho – Não sei o que é amar, mas afirmo: é isso! É o sumiço do pensar, do dizer, é olhar e querer e um só compromisso: continuar a olhar.
Luciene – Não sabia o que dizer, mas disse, misturando Jesus com Genésio e Silva com Souza. “Vou te falar uma coisa: Me amarro em você!” (Vadinho arregala os olhos estupefato)
Vadinho – Por quê? Respondeu a minha boca burra que anda sempre às turras com meu coração.
Luciene – Como por quê? Se não gostou de mim é só dizer “não” e pronto! Em vez de pasmar essa cara de tonto! Isso não é pegadinha nem aposta, quer saber? Vá pra bosta! Esquece que me viu! (volta-se para Corifeu) Saí a mil, mastigando raiva e vergonha e só parei de chorar na fronha quando, tarde da noite, peguei no sono.
Vadinho – Não dormi. O peito era uma cova repleta de risos e tantas coisas novas que mal o dia surgiu corri pra escola. Oi.
Luciene – Não te conheço.
Vadinho – É claro que conhece! Ontem...
Luciene – Esquece o dia de ontem, apaga! Não era eu, cara.
Vadinho – Ontem foi coisa rara... Coisa que não sei... doideira. Você é a primeira que me lança nesse estado.
Luciene – Fica calado!, falei com um resto de vergonha na cara, mas meus olhos tão desavergonhados não falaram nada.
Vadinho – Ela me pregou o olhar e minha boca burra calou, deixou falar o silêncio. Olhos pra ver, pra mandar sentir tantos rios, águas e remansos...
Luciene – “Desenreda essa história... some, cara...”, ainda tentei escapar...
Vadinho – Eu não busquei, encontrei o que esperava e não sabia.
Luciene – Ali eu tive toda certeza! Existe isso? Olhar e saber? Saber e ter a certeza? Existiu.
Corifeu – Está bom. Já é o suficiente. (os dois continuam como se não tivessem ouvido)
Vadinho – Tremi de medo, mas sorri uma alegria nova quando ela se aproximou.
Luciene – Fui como quem sabe aonde vai.
Corifeu – Pessoal...
Vadinho – E eu ainda quis entender, mas me larguei, me deixei, me esqueci.
Luciene – Eu nem sei. (beijam-se) Só me lembro da voz de dona Marinei! (eles se beijam novamente)
Marinei – Ei! Você dois! Desgruda! Desgarra! Desapega e já pra aula! (os dois a custo se soltam e caminham em direção contrária)
Corifeu – Obrigado, dona Marinei.
Marinei – É assim que se faz! O senhor devia ter um pouco mais de autoridade.
Corifeu – Vou me lembrar disso. (com um sinal, Corifeu chama o professor Dédalus e
Mari. Esta entra, indecisa, na área de representação)
Corifeu – Tudo bem, Mari? (Mari faz um gesto afirmativo de cabeça). Podem começar.
Dédalus – Mari, está acontecendo alguma coisa em casa? Suas notas despencaram, você tem estado triste... Quer conversar? (Mari olha para Dédalus, indecisa. Corifeu a incentiva)
Corifeu – Conte a ele, Mari.
Mari (indecisa) – Não...
Corifeu – É um peso muito grande pra guardar.
Mari – O que é que vocês sabem de mim? Vocês não entendem! Ninguém entende!
(Mari sai da área de representação para espanto de Dédalus e Corifeu)
Corifeu – Mari! (Mari, na área dos bastidores, recusa-se a entrar na área de representação. Corifeu não insiste e fala a Dédalus)
Corifeu – Mais tarde eu falo com ela. Vá para sua conversa com o diretor enquanto vou até a casa da Luciene. (Corifeu sai. entra o diretor)
Diretor – Eu não esperava isso, mas não posso dizer que é surpresa, Dédalus. Cedo ou tarde isso ia acontecer. Eu sinto muito.
Dédalus – Eu mais ainda.
Diretor – Você é inteligente, vai conseguir coisa melhor.
Dédalus – Melhor, não sei, mas cheguei ao meu limite. E, depois, me sinto um pouco inútil.
Diretor – Todos nos sentimos assim. Se eu pudesse voltar atrás ia procurar outra coisa pra fazer, mas estou perto de me aposentar.
Dédalus – Fico só até o final do ano.
Diretor – Os alunos já sabem?
Dédalus – Não sei como, mas já. Parece até que souberam antes de mim.
Diretor – Nós nunca fomos amigos, Dédalus, mas sempre admirei sua dedicação, às vezes até excessiva, aos alunos.
Dédalus – Ou fico do lado dos meus alunos ou ao lado de uma escola em que não acredito. Preferi os alunos.
Diretor – Você nunca entendeu que somos funcionários, não é?
Dédalus – Não. Nunca fiz muita questão.
Diretor – Mas é o que somos. Cumprimos uma função dentro de um sistema de ensino. Numa palavra, funcionamos.
Dédalus – Eu me recuso.
Diretor – Não é só a escola, o mundo é assim. Todos somos contratados para colocar em movimento uma vasta engrenagem.
Dédalus – Se o senhor pensa assim, está no lugar errado.
Diretor – Ao contrário. Nenhuma engrenagem quer contestação, quer apenas funcionar.
Dédalus – Mas não funciona. Os alunos não aprendem. (o diretor sorri)
Diretor – Olhando pra você eu me vejo quando comecei a dar aulas. O fato é que o desejo é uma coisa, a realidade é outra.
Dédalus – A realidade é sempre outra, o desejo é que a faz mudar. Eu não quero apenas funcionar.
Diretor – Dédalus, não me coloque tão distante de você. Também sou um educador e esta não é a escola dos meus sonhos.
Dédalus – Mas o senhor se conforma com ela.
Diretor – Não, não me conformo. A educação é uma grande e inútil máquina de ensinar, com peças velhas, carcomidas pelo uso e funcionários mal pagos, desestimulados, que tentam mantê-la em movimento. Uma máquina cara, enorme...
Dédalus – E o responsável por ela pouco se interessa.
Diretor – Ninguém se interessa por ela. Nem políticos, nem governo, nem alunos, muitas vezes nem mesmo os pais. Só uns poucos educadores e alguns funcionários que como eu tentam manter de pé essa inutilidade! Porque tenho família pra sustentar e corro daqui pra lá pra equilibrar o orçamento. A gente alimenta a máquina que nos devora, Dédalus. O mundo é assim.
Dédalus – Não é preciso de escola pra aceitar o mundo, é só obedecer. Escola é pra mudar o mundo.
Diretor – Não é. É para aceitar o mundo como ele é.
Dédalus – Então tem de mudar a escola ou o mundo.
Diretor – Eu não quero mudar o mundo nem a escola. Quero é sair dessa máquina com a minha aposentadoria. De certa maneira sempre te admirei, Dédalus, embora te achasse um pouco tolo. Boa sorte em sua nova profissão, qualquer que ela seja. (o diretor e Dédalus saem. Entra Luciene e Lúcia por lados diferente da área de representação. Lúcia tem nas mãos um vaso de flores. Estanca)
Lúcia – O quê???? (deixa cair o vaso que é aparado por Corifeu antes que caia ao chão.
Corifeu passa o vaso a um ator nos bastidores) Grávida?! Você não podia ter feito isso comigo!
Luciene – Fiz foi com o Vadinho.
Lúcia – Com aquele moleque? Luciene, vem aqui. Me explica isso direito!
Luciene – Não tem o que explicar, mãe.
Lúcia – Como não tem? Como foi que isso aconteceu?
Luciene – A senhora quer mesmo que eu fale? Que eu entre em detalhes? Aconteceu!
Lúcia – Aconteceu como?
Luciene – Do mesmo jeito que aconteceu com a senhora e com o pai.
Lúcia – Não fale comigo assim! E, agora, como vai ser?
Luciene – Não queria isso, não esperava, mas não me arrependo. Gosto do Vadinho, ele gosta de mim, tá resolvido!
Lúcia – O que tá resolvido, sua inconsciente? Você vai ter mesmo esse filho?
Luciene – Vou.
Lúcia – E vai morar onde?
Luciene – Aqui. A senhora vai querer que seu neto nasça na rua, vai?
Lúcia – Eu não acredito! com essa idade? É um assunto muito sério pra tratar com essa rapidez.
Corifeu – É só um espetáculo, não um estudo aprofundado sobre gravidez precoce.
Lúcia – Vai ficar superficial.
Corifeu (inconformado) – Não é hora dessa discussão. Temos outros assuntos igualmente importantes a tratar e pouco tempo. É preciso uma certa ordem, estabelecer prioridade.
Lúcia – Minha prioridade é minha filha.
Corifeu – Não é a sua prioridade que conta, são as prioridades desse mundo que estamos imaginando. (o ator que interpretou seu João levanta o braço ainda na área dos bastidores)
Corifeu – Que é que foi, seu João?
Seu João – É o Alê.... Tem frequentado um pessoalzinho bem complicado, aí, do bairro. (Alê retruca da área dos bastidores)
Alê – Cuida da sua vida, seu João.
Corifeu – Isso é cena sua, Dédalus. Vá conversar com o Alê.
Dédalus – Eu sei, mas agora não dá, preciso encontrar a Alice.
Lúcia – Tenho que resolver esse assunto da gravidez. (Vadinho interfere da área dos bastidores)
Vadinho – Eu sou parte interessada, já estão falando em casamento e ninguém ainda ouviu minha opinião.
Luciene – E qual é a sua opinião? É a mesma que a minha, não é?
Vadinho – A coisa não pode ser decidida assim!
Luciene – O que você tá querendo dizer, Vadinho? Só estou me segurando porque penso que você está do meu lado!
Vadinho – Eu estou, mas estou confuso...
Lúcia – A gente precisa conversar, Luciene...
Corifeu (um tanto exasperado) – Não pode ser assim! É preciso organizar isso...
Luciene – Eu não acredito, Vadinho... (Luciene sai chorando, Vadinho fica sem saber o que fazer)
Corifeu – Vá atrás dela. (Vadinho sai atrás de Luciene. Fala ao público) Desculpe por esse contratempo. Tem horas que tudo se confunde na imaginação e é preciso fazer escolhas e uma coisa ou outra é prejudicada. (aponta para Alice) Sua vez, Alice. Depois é você, Mari. A cena é a seguinte, Alice: é noite e você vem do encontro com seu namorado de juventude, Líbero, que resolveu aparecer depois de vinte anos. As outras cenas ficam para depois! (os que não vão participar da cena voltam à área dos bastidores. Alice entra na área de representação onde Dédalus a espera)
Alice – Acordado ainda?
Dédalus – Estou sem sono. Na verdade, queria lhe dar uma notícia. Conversei com o diretor e avisei que fico na escola só até o final do ano.
Alice – E por que fez isso?
Dédalus – Por muitas razões. Estou cansado dessa luta e acho que você tem razão quando diz que tenho pouca ambição, que me conformo em ser professor de escola na periferia. Estou fazendo isso também por nós, para manter nossa relação.
Alice – Talvez já seja muito tarde, Dédalus. Já nos perdemos um do outro.
Dédalus – Não, Alice, ainda podemos...
Alice – Não sei, Dédalus, precisamos de um tempo.
Dédalus (enciumado) – Encontrou o Líbero?
Alice – Encontrei, mas nossa relação não tem nada a ver com ele. Vou passar uns dias na casa de uma amiga, pensar melhor... (Dédalus se volta para Corifeu)
Dédalus – Quando ela saiu hoje à tarde para encontrar o tal, passei o tempo todo vivendo um sentimento de perda que não está mais cabendo em mim. Não vi esse encontro dela com o Líbero, mas o imaginei muitas vezes assim. (Líbero entra na área de representação)
Líbero – Você continua linda!
Alice – Líbero! Você continua o mesmo.
Líbero – É mentira, mas obrigado por dizer.
Alice – É muito bom te ver. (os dois se abraçam). Você está muito bem. É exatamente assim que eu te imaginava.
Líbero – Em meu coração o tempo não passou, Alice.
Dédalus – Passei a tarde cultivando meu ciúme e meu desamparo. (Alice e Líbero se beijam e se abraçam com paixão. Separam-se. Alice volta-se para Corifeu)
Alice – Não foi nada disso que aconteceu. A vida não é tão romântica nem tão fantasiosa. Foi um encontro estranho, desajeitado. Líbero estava envelhecido e eu estava emocionalmente abatida. Eu o olhei como um velho amigo. Depois do encontro chorei um pouco e foi tudo. (um dos atores dá a Alice uma bolsa de viagem) Tchau. (Alice sai. Dédalus acompanha sua saída)
Dédalus – Tchau. (para Corifeu) Alice saiu e eu dormi, sozinho, depois de tantos anos, abraçado ao meu ressentimento. (Dédalus sai, cabisbaixo. Corifeu olha para Mari)
Corifeu – Chegou sua vez, Mari. (Mari, na área dos bastidores, termina de maquiar um hematoma no olho esquerdo e entra na área de representação)
Corifeu – Que aconteceu no olho?
Mari – Meu pai!
Corifeu – Por quê?
Mari – Bati boca com ele por uma bobagem. Estamos distantes faz tempo, mas o pior não foi ele, foi minha mãe. Ela não levantou um dedo pra me defender! Deixou que aquele animal me socasse! Se encolheu no canto sem abrir a boca! Tenho ódio deles! Ódio da brutalidade do meu pai e da subserviência de minha mãe! (Dirce baixa a cabeça e se queixa, baixinho, ainda na área dos bastidores)
Dirce – Não fala assim, filha...
Corifeu – Ele estava bêbado?
Mari – Ele não bebe. Nem essa desculpa ele tem. (Antônio, pai de Mari, entra na área de representação)
Antônio – Dá licença? (Mari se encolhe, assustada)
Corifeu – Aqui não é lugar...
Antônio – Vou fazer nada com ela, não. Espero que o que fiz já baste.
Corifeu – Depende pra quê.
Antônio – Pra ela ter mais respeito! Filho, hoje em dia, é assim, já nasce boca dura, quer passar por cima da gente! Por cima de mim, não! Dou duro, trabalho o dia todo, nunca fiquei uma semana desempregado, nunca deixei faltar nada em casa, mas exijo respeito! Foi assim que aprendi: respeito! (a Mari) É só isso, ouviu? Se um não bastou, dou-lhe outro corretivo! (Dirce, mãe de Mari, tenta entrar na área de representação e pede com humildade)
Dirce – Antônio, deixe a menina.
Antônio – Fica quieta, Dirce!
Dirce – Ele sempre diz isso e eu sempre entro pro quarto e choro baixinho, sentada na cama. Nessas horas, nem alento para ler uma página da Bíblia eu tenho. Sou evangélica. Todos eles têm os mesmos olhos: meu avô, meu pai... Olhos cegos de raiva. Eu vi o mesmo olho no meu marido quando ele bateu na Mari. E vi nos olhos dela o mesmo terror do meu olhar quando menina. Esse medo é nossa herança.
Antônio – Deixa de resmungar e entra, mulher! (Dirce, cabisbaixa, vai para a área dos bastidores)
Corifeu – Está bem, seu Antônio, agora pode sair, por favor. (Antônio ainda deita um olhar duro na direção de Mari e sai) Prossiga, Mari.
Mari – Não quero falar. (Alê dá um passo para a área de representação)
Alê – Quer que eu fale, Mari? (a Corifeu) Ela me contou.
Corifeu – Não, Alê. Isso é coisa que ela mesma tem de fazer.
Mari – Não quero me expor!
Corifeu – Eu respeito seus sentimentos, mas se você não se expuser, pelo menos um pouco, como é que vamos conhecê-la?
Mari – Eu só preciso que me aceitem!
Corifeu – Mas precisamos saber o que aceitamos, Mari. Vá! Conte a eles! (indica o público) Eles vieram aqui para isso.
Mari – Pra isso?! Pra vasculhar a minha intimidade? Remexer e comentar os segredos que só a mim dizem respeito?
Corifeu – Não, Mari... eles querem partilhar um pedaço de sua vida, entender...
Mari – Não confio neles! Eles podem até se emocionar com a minha história, serem solidários comigo, aqui e agora, mas lá fora, na vida real...
Corifeu – O que você quer dizer?
Mari – Quero dizer que todo mundo é solidário com um louco, um bêbado, um doente, até mesmo um estranho, desde que eles estejam numa história e não no seu dia-a-dia.
Corifeu – Devagar, vamos devagar se não a coisa começa a ficar confusa até para mim. Você é só uma personagem, uma estudante de escola da periferia, só isso.
Mari – Não é só isso!
Corifeu – Você não tem vida real!
Mari – Tenho... o senhor sabe disso. Meu problema é real. O desconforto que sinto é real, a vontade que às vezes sinto de morrer também é real!
Corifeu – Bem... de uma certa maneira...
Mari – Esta “certa maneira” é a única vida real que eu tenho! Que eu tive até hoje!
O que me deram pra viver foram dezessete anos numa casa sem reboque na periferia, uma mãe boa, mas submissa, e um pai... (Antônio, na área dos bastidores, ameaça entrar na área de representação. Dirce o segura e a custo consegue contê-lo)
Corifeu – Tudo o que você diz tem alguma consistência... Personagens, de alguma forma estranha, são vivos...
Mari – Não vou me expor! Não vou colocar a minha vida pessoal em público, não vou me expor a curiosidade doentia!
Corifeu (repreendendo) – Desculpe, Mari, compreendo o seu medo, o seu desespero, mas isso não lhe dá direito de ofender essas pessoas! O mundo novo que vocês representam pode até nos chocar, mas vocês têm de ter compaixão e paciência de nos ensinar a ver este mundo.
Mari – Para fazerem como meu pai faz?
Corifeu – Não sabemos as razões de seu pai. Não sabemos nem mesmo se ele tem alguma razão... O fato é que eu e eles (abarca com um gesto o público) somos de um velho mundo e precisamos conhecer este mundo que vocês trazem, pois vamos viver nele! Eu e essas pessoas viemos aqui para ver e imaginar as vidas pulsantes de outras pessoas e partilhar e aprender um pouco mais da vida!
Mari – Cada um que cuide de sua vida!
Corifeu – Não, Mari. A vida é algo grande, desconhecido, perigoso. Um pequeno erro e sofremos muito, podemos até morrer. Por isso a necessidade de imaginar a vida, construir histórias e vivê-las juntos, como estamos fazendo aqui.
Mari – Por meio de nós?
Corifeu – Por meio de vocês. Todo ser humano carrega uma boa dose de compaixão e eles vieram aqui para se colocar no lugar de cada um de vocês, partilhar a emoção, o riso, as dificuldades de vocês e com isso tentar aprender mais e melhor, mesmo que seja uma pequena fração de suas próprias vidas!
Mari – Eu tenho medo...
Corifeu – Você escolhe, Mari. Ou ser uma personagem que se cala e passa o resto da vida amargurada ou uma personagem que se abre para a vida, para a luta, e busca no mundo o seu próprio caminho. A frase soou um pouco pomposa, mas não deixa de ser verdadeira. (da área dos bastidores, Dirce grita para Mari)
Dirce – Fala, filha! Não acabe como sua mãe!
Antônio – Falar o quê, Dirce? O que é que vocês estão me escondendo?
Dirce – Vamos pra casa, Antônio...
Antônio – Lá quero saber dessa história direito! (Antônio e Dirce saem da área dos bastidores e somem da vista do público)
Corifeu – A escolha é sua, Mari. (Mari, após uma pausa tensa, começa a depor)
Mari – Gosto de mim, gosto deste corpo, mas não gosto da forma que ele tem!
Não gosto desta forma que arranca assobios e grosserias dos homens quando eu passo. Não quero ser desejada por eles porque não sou o que esta forma diz que eu sou! Não quero viver o destino que esta forma feminina diz que eu devo viver! Desde criança não sou mulher! (Mari começa a chorar)
Corifeu – Está bem, Mari. Se acalme.
Mari – Não quis isso, sou isso! Me deixem ser! Me deixem ser o que minha alma diz que eu sou, não o que este corpo indica! Minha alma diz que sou um rapaz, sou um rapaz. (Mari chora. Corifeu se aproxima dela e pousa a mão em seu ombro por solidariedade)
Corifeu – Descanse, Mari. Ficamos, por ora, por aqui. Estamos do seu lado e se não sentimos a sua dor, podemos imaginá-la e ser solidários a ela. Vamos fazer um intervalo e depois retornamos mais calmos. Obrigado, Mari, pela sua coragem.
(ao público) Retornamos em dez minutos.

Fim do primeiro ato

Ato II

Ato II

Com o público se acomodando novamente em seus lugares, Corifeu inicia sua fala enquanto coloca uma cadeira na área de representação.
Corifeu – Vamos tomando seus assentos que o dia logo amanhece. Antônio, pai de
Mari, não dormiu à noite. (Antônio entra e senta-se na cadeira. Atrás dele, ansiosa, entra Dirce. Ela fala a Corifeu)
Dirce – Ele me apertou e eu tive de contar. Ele não falou nada, ficou assim, mudo, nem trabalhar foi. Está esperando Mari voltar. Ele não é ruim, mas às vezes, parece que o inferno se abre nele. Tenho medo.
Corifeu (informando o público) – Mari passou a noite na casa de Lu. E também não dormiu. (Lu e Mari entram na área de representação. Lu abraça Mari)
Luciene – Pode ficar aqui em casa, se quiser.
Mari – Preciso voltar, Lu... (Luciene volta aos bastidores e Mari fraqueja ao olhar o pai. Busca socorro no olhar de Corifeu) O que vai me acontecer?
Corifeu – Não sei. A uma personagem como você pode acontecer tudo.
Mari (com muito medo) – Eu sei... eu vejo o ódio nos posts da internet, a selvageria nas páginas de crimes dos jornais, a violência dentro das casas... intolerância, intolerância, intolerância! E tudo porque sou diferente! Porque alguma coisa se embaralhou nos meus hormônios, nos meus cromossomos, sei lá!
Corifeu – Mari... seu pai está esperando. Estamos todos esperando esse encontro.
(Mari dá um passo em direção ao pai e Antônio se levanta e a encara. Dirce não se contém e entra na área de representação)
Dirce – Antônio, não maltrata da menina! Ela é sua filha!
Antônio – Cala a boca, Dirce!
Mari – Não, mãe, não sou filha dele. Sou filho! Sou homem, pai!
Antônio – O mundo não tem chão?, pensei. Nada tem ordem, nem Deus, nem governo?! Depois fiquei cego e uma raiva antiga estalou. Não ia suportar o deboche que li nos olhos daquela menina!
Dirce – Não reconheci meu marido e pela primeira vez afrontei aquele homem.
Antônio – A Dirce tentou segurar, mas meu braço já estava em desgoverno e a minha força de homem caiu sobre seu corpo miúdo.
Mari – Minha mãe estatelou no chão como se fosse roupa sem corpo. Maldito!
(Mari se abraça com o pai tentando segurar sua violência contra a mãe. Uma atriz, a vizinha, entra na área de representação)
Vizinha – De minha casa ouvi os gritos e corri a tempo de ver a Dirce caída, chorando, e a Mari abraçada ao pai. Aquele homem rude estava paralisado pelas raivas.
Antônio – Não era raiva, era espanto. Mari me abraçou para proteger a mãe e alguma coisa se quebrou dentro da minha escuridão. E senti pulsar o coração dela junto do meu, os dois descompassados... mas o dela, era o mesmo coração quando ela, menina, se deitava sobre meu peito na cama. Pequenininha, com o coraçãozinho pulsando rapidinho até, aos poucos, ir compassando com meu coração. Olhei pra ela e era a filha que me afrontava, mas o coraçãozinho era o mesmo de tanto tempo atrás, batendo, tum-tum, todo descompassado. Raiva e saudade... fúria e ausência... há quanto tempo eu não sentia aquele coração? Eu desmantelei... a empurrei e me desconheci. Não reconheci aquele homem sentado no chão, curvado sobre a vergonha e golpes de soluço e choro. Saudades de sentir aquele coração. Por que que a gente desaprende essas alegrias? Em nome do que a gente cultiva essas durezas? (Antônio cai ao chão e se contorce como se estivesse em prantos. Dirce se levanta e vai auxiliá-lo. Mari, paralisada, chora)
Corifeu – Obrigado a vocês. (os atores se recompõem) Foi uma solução inesperada, mas possível, neste novo mundo que estamos construindo em nossa imaginação.
(os atores saem. Corifeu faz um gesto para afastar a emoção). Vamos fazer o tempo
correr... uma semana, está bem? É o tempo dos conflitos se acentuarem. Continuemos. Dédalus! Como as coisas andam? (Dédalus entra na área de representação e fala a Corifeu)
Dédalus – Não aguentei! Hoje tive plena convicção de que não tem solução. Estou perdendo meu tempo e minha saúde numa sala de aula!
Corifeu – Não fale só pra mim. Fale pra todos! (Dédalus se volta para o público como se fossem os alunos)
Dédalus – Por favor, pessoal... um pouco de atenção! Fez-se silêncio na sala... e tive uma atenção média por exatos quarenta segundos! Depois disso resolvi assistir à balbúrdia que recomeçou nem sei como nem por quê. Consegui assistir por alguns segundos antes que me viesse uma raiva que eu não sabia que tinha! (fala baixo e aparentemente calmo) Eu quero que vocês se lasquem! Se vocês querem pisotear o conhecimento e achar que vida é um celular e um tênis de marca, continuem! Vocês vão conseguir, mas é o máximo que vão obter da vida! Logo vocês vão ser arrancados desse sonho infantil e jogados no moedor que é a vida adulta, com filhos pra alimentar e o desespero batendo na porta! E, aí, galera, a roda não vai parar de moer. Vocês nem perceberam e os caras já determinaram qual é o lugar de vocês no mundo e com o que vocês vão poder sonhar até o fim da vida! Boa sorte pra vocês que ficam. Como vocês dizem, eu tô saltando, galera! Tô indo embora!
Corifeu – E eles?
Dédalus – Foi aquele silêncio quando virei as costas e saí da sala. Reconheço que fiz um pouco de teatro, mas com muito de verdade.
Corifeu – E depois?
Dédalus – No dia seguinte, voltei como se nada tivesse acontecido. Tenho de cumprir as aulas até o final do ano. O caso é que essa decisão está mexendo comigo...Sensação de fracasso, sabe? Mas minha decisão está tomada.
Corifeu – E Alice?
Dédalus – Não sei. A sensação de fracasso acho que é geral... (sorri). Um trator de esteira passou sobre a minha vida aplanando tudo! Mas não me peça para falar disso agora. (Alice e Líbero entram com duas cadeiras na área de representação. Estão alegres, o que fere ainda mais Dédalus que os acompanha com o olhar. Corifeu faz um gesto e Alice e Líbero se afastam com as cadeiras, mas ainda continuam na área de representação. Um garoto toma o centro da cena. Procura alguém). Quem é aquele?
Corifeu sorri e faz um gesto indicando a Dédalus para procurar saber.
Dédalus se aproxima do desconhecido.
Dédalus – Procurando alguém?
Garoto – Sabe do Alê?
Dédalus – Quer saber por quê?
Garoto – Coisa minha, prof.
Dédalus – Coisa minha também. Ele é meu aluno e aqui é uma escola.
Garoto – Eu sei e daí?
Dédalus – Quem é você, garoto?
Garoto – Sou garoto não, e não embaça, tio. Não vamos cruzar caminho, não, tá legal?
Dédalus – Então você espera o Alê lá fora, tá legal?
Garoto – O prof num tá interado das coisa... Num sabe onde tá pisando. (Alê entra na área de representação) Ei, Alê, esse figura tá de comédia comigo.
Alê – Vamos conversar lá fora.
Dédalus – Vai começar a aula, Alê! (garoto cai na risada e volta-se para Alê)
Garoto – E aí? Arrumô babá?
Alê – Vamos nessa. (o garoto, rindo, sai junto com Alê. Alice e Líbero entram com as cadeiras e sentam-se de frente para o público. Dédalus, que acompanhou a entrada deles, sai, tristonho)
Alice – A volta de Líbero acendeu alguma coisa em mim. Talvez seja só fantasia, mas eu quero voltar a imaginar outra vida para mim.
Líbero – Há mais de vinte anos, o nosso foi um namoro de jovens, daqueles intensos, eternos e rápidos: durou três meses. Foi um fogo bonito. Agora, o reencontro.
É bom voltar aos dezessete.
Alice – Foi bom reencontrar Líbero. Ele é simpático, bonito... a presença dele tem leveza... coisa que não tinha há muito tempo com Dédalus. Se tenho desejo...não sei, ainda não... mas queria ter.
Líbero – Não sei... tudo pode acontecer, até um amor de verdade.
Alice – Não foi culpa de Dédalus, nem minha, e isto é o mais triste. Foram dias e anos... eu dando duro num balcão de loja e ele cumprindo jornada em duas, três escolas, doença de voz, às vezes depressão, dinheirinho contado, agressão, intimidação de alunos e pais, pouco tempo pra nós. Ele tem vocação para o magistério, queria que não tivesse. (Líbero e Alice saem enquanto Vadinho e Luciene entram na área de representação e sentam-se nas cadeiras)
Vadinho – Já falou com seu pai?
Luciene – Ainda não, mas ele vai querer te matar.
Vadinho – Então é melhor deixar quieto. E sua mãe?
Luciene – Contei pra ela.
Vadinho – E?
Luciene – Falou um monte de bosta! Que eu comprometi meu futuro, que não tenho idade pra ser mãe, que não vamos ter como sustentar família.
Vadinho – E é verdade.
Luciene – É verdade, mas é um monte de bosta! Mas ela tem coração mole e vai acabar apoiando.
Vadinho – Minha família disse a mesma coisa. Bati boca com meu pai, minha mãe chorou.
Luciene – Você me ama, Vadinho?
Vadinho – Pô, Lu! Isso é hora de perguntar essa trolha? Estou cagado de medo, sem emprego, no desespero, sem saber pra onde vou, com vontade de sumir no ôco do mundo pra nunca mais ser achado, entendeu?! Tudo isso eu pensei, mas não disse. Disse: é claro que te amo, meu amor.
Luciene – E o que vamos fazer?
Vadinho – Um aborto resolvia isso tudo, pensei, só pensei. E em vez disso eu disse: vai dar tudo certo, vamos em frente. Eu só quis parecer forte, decidido... o homem feito que eu ainda não era. E ela acreditou. E, aí, eu não podia desmentir.
(Luciene abraça e beija Vadinho)
Luciene – Vamos, Vadinho! E vamos marcar um dia pra você falar com meu pai.
(Vadinho faz uma expressão de surpresa e medo)
Corifeu – Está bom, por enquanto. (Vadinho e Luciene levam as cadeiras para a área dos bastidores. Corifeu fica por alguns momentos indeciso). Imaginar um mundo, mesmo que seja um mundo de poucas pessoas é um difícil quebra-cabeças, mas é necessário. Os personagens precisam ter coerência. A história de Mari, por exemplo, tem de ter prosseguimento, mas parece que o mais importante na história dela já aconteceu, o que dramaticamente, para a peça, é ruim. Pode ajudar em alguma coisa, dona Dirce? (dona Dirce vai até a área de representação)
Dirce – Não sei... aqui em casa parece que nada aconteceu, ninguém fala no assunto, mas meu coração tem um feio pressentimento...
Corifeu – Seu Antônio... (Antônio fala da área de representação mesmo)
Antônio – Não sei, não sei mesmo! Tem horas que me dá revolta e raiva a minha vontade é tocar ela de casa... (muda de tom) E tem horas que me pergunto o que fiz de errado, porque me afastei tanto de minha filha... Tem horas que me sobe tudo junto até o topo da garganta... Como é que ela pode fazer isso com a gente? Então, eu soco a mão no que tiver pela frente pra não socar alguém. Olha, minha mão tá toda esfolada! (Mari entra na área de representação)
Mari – Talvez eu possa ajudar a arrumar um final coerente para a minha personagem.
A história, não sei como, se espalhou pela escola e pelo bairro.
Corifeu – Os colegas de escola...
Mari – Um ou outro fez piada, a maioria, não. Os amigos continuaram amigos.
O problema foram os desconhecidos, fora da escola. Agora me apontam na rua como animal de zoológico, gritam e riem quando eu passo. Outro dia, um efedepê gritou que meu problema era falta de homem e que ia me fazer mulher!
Dirce – Foi um bandidinho daqui que a gente conhece, o Carão. A Mari pouco sai de casa. Quando não está na escola, está no quarto chorando.
Corifeu – E que rumo você propõe para sua história?
Mari – Não é muito difícil de adivinhar. Minha história se acaba no meu quarto numa noite de depressão ou numa mesma noite num terreno baldio. Meu destino é virar estatística.
Corifeu – Calma, Mari.
Mari – Calma? Quem tá em risco tem medo e tem pressa. No ano passado quase quinhentos LGBT foram mortos!
Corifeu – Mesmo assim vamos procurar uma solução melhor. Vamos suspender esse assunto por enquanto. (Dirce leva Mari, abraçada, para a área dos bastidores. Lúcia entra na área de representação com Luciene. Lúcia mostra um macacão de bebê)
Lúcia – Olha, Lu!
Luciene – Que é isso, mãe?
Lúcia – Como que é isso? Um macacão, uma roupinha pro bebê.
Luciene – Eca!
Lúcia – Como “eca!” Eca o quê!
Luciene – Mãe, ele tá com dois centímetros!
Lúcia – Mas vai crescer. Precisamos pensar no enxoval.
Luciene – Pode deixar que eu faço isso. Não vou colocar essa coisa ridícula no bebê!
Lúcia – Como ridículo? Não gostou da cor? E com que dinheiro você vai fazer o enxoval? Com o dinheiro do Vadinho?
Luciene – A senhora vai me ajudar... mas eu escolho o enxoval!
Lúcia – E eu faço o quê?
Luciene – A senhora olha e me ajuda no que eu não souber.
Lúcia – Posso pelo menos indicar os padrinhos?
Luciene – Padrinhos do quê?
Lúcia – De batismo. Ele vai ser batizado, não vai?
Luciene – Claro que não! Quando a criança crescer, ela decide que religião vai ter. E se vai ter!
Lúcia – Luciene Maria!
Luciene – E as roupas não vão ter essa de azul ou rosa, não. A educação da criança não vai ser normativa.
Lúcia – Como é? A criança não vai ter sexo?
Luciene – Não um sexo imposto pela norma binária!
Lúcia – Que é isso, Lu?
Luciene – Não existe mais sexo masculino e feminino!
Lúcia – Ah, não? Mudou, é?
Luciene – Não mudou nada, dona Lúcia! O mundo é o que sempre foi. A divisão masculino/feminino é uma norma cultural imposta!
Lúcia (entre perdida e irônica) – Sei, é claro... Como eu nunca tinha pensado nisso?
Luciene – E não vai ter bola pra menino e boneca pra menina. A criança que escolhe com o que quer brincar.
Lúcia – Um nome pelo menos você vai dar a essa criança.
Luciene – Estou pensando num nome que serve tanto pro masculino como o feminino.
Ou um nome de pássaro que tanto pode ser macho ou fêmea.
Lúcia – Meu Deus! E qual é o lugar da avó nisso tudo? Posso ter minha opinião, pelo menos?
Luciene – Pode, o que não quer dizer que vou aceitar. A senhora já me criou do jeito que a senhora quis. Por isso eu sou assim!
Lúcia – Eu devia ter te educado como sua avó queria!
Luciene – A criança vai ser uma pessoa que vai fazer suas escolhas com liberdade!
Lúcia – Só tem dois centímetros e com tantas escolhas por fazer! Por falar nisso, tem gente nessa casa que precisa saber dessa criança entupida de liberdade!
Luciene – O pai? Quando a senhora vai falar com ele?
Lúcia – Eu? Eu não! Essa criança é sua, o pai é seu! Quem pariu Mateus que o embale!
Luciene – Mas... mãe!
Luciene – Você fala! E disso não abro mão! (soa a campainha da escola. Os alunoschegam à área de representação, cantando)
Alunos – Ó minha escola querida
Lume dos meus verdes anos.
És guia de minha vida
Clareza dos desenganos.
Alunos são pra escola
burros de orelhas de abano
Pra nós, a escola só tem
Mestres cabeças de pano!
40 Luís Alberto de Abreu
Seu João – Convivi com milhares de alunos. Eles vêm, passam uma temporada e vão embora. Tenho notícia de poucos. Alguns a vida tirou o couro, maltratou de fazer dó, outros vão seguindo, aqui no sol, ali na sombra. A maioria vai moendo, mitigadinho, o tanto de tristeza e alegria que lhes cabe. (Marinei cruza por ele)
Marinei – Bom dia, seu João.
Seu João – Bom dia, dona Marinei. Soube do professor Dédalus?
Marinei – Nem me fale! Sem ele aqui a escola não vai ser mais a mesma. (chega
Matilde)
Matilde – Bom dia. Aquela lesma da Lídia já chegou?
Seu João – Bom dia. Ainda não veio.
Matilde – O saco que não tenho já tá cheio dela. O fígado me amarela só de pensar na tosca, na mosca morta, e eu com tanto pra fazer.
Marinei – Bom dia, dona Matilde. O café já sai.
Matilde – Obrigada, dona Marinei, estou precisando. Seu João, manda aquele menino, o Sidnei, falar comigo. É bom figo de má figueira, o pai não vale a cachaça que bebe, a mãe amassa o pão do diabo pra criar três filhos. É a história de sempre, filho é de quem tem ventre.
Corifeu – Está bom... Luciene! Vadinho! (Luciene e Vadinho entram na área de representação. Matilde e Marinei saem. Seu João se dirige a Corifeu)
Seu João – Desculpe interromper, mas é preciso ver o caso do Alê...
Corifeu – Não sei se vamos ter tempo, seu João.... Numa escola tem milhares de problemas e histórias... não dá para ver todos.
Seu João – Eu sei, mas...
Corifeu – A escola não é a única responsável pela formação dos alunos. Tem família... tem família que joga os filhos na escola e diz: eduquem!
Seu João – Eu sei... Mas o garoto é um bom rapaz e a família dele é complicada que eu sei.
Corifeu – Vou ver... se tivermos tempo.
Seu João – Perder um menino desses é um dó. Ele só precisa de um empurrão, eu sei. (seu João sai. Corifeu faz um gesto de continuidade para Vadinho e Luciene)
Luciene – Já estou vendo o enxoval... precisamos ver uma escolinha para a criança...
Vadinho – Já?
Luciene – A gente vai ter de trabalhar, ter um lugar nosso... preparar o futuro.
Depois quando ela crescer e quiser fazer intercâmbio...
Vadinho – O que você está falando?
Luciene – Podia ser na Alemanha... Ela volta e vai ter a faculdade.
Vadinho – Lu, essa criança já tá mais velha que eu! Vamos voltar ao tempo de agora,
Lu. Já falou pro seu pai?
Luciene – Você fala pra ele. E disso não abro mão! (Dirce invade a área de representação e fala a Corifeu)
Dirce – Senhor... é sobre meu marido...
Corifeu – inda não é sua hora.
Dirce – Eu sei... mas tenho medo pela Mari. Ele chega do serviço calado e senta na frente da TV, mas não assiste, fica ruminando coisas, todas escuras, lá dentro dele. Continua esfolando a mão com os socos que dá nas coisas...
Corifeu – Não há o que eu possa fazer...
Dirce – Fala com ele.
Corifeu – Dirce, eu só ordeno este espetáculo, só organizo a entrada e saída dos personagens. Eu não me envolvo! Agora, saia, por favor! (Dirce baixa a cabeça e sai para a área dos bastidores. Corifeu faz um sinal para Dédalus que se aproxima, ansioso) Vocês podem ir. (Luciene e Vadinho saem levando as cadeiras) É hora da sua conversa com o Alê.
Dédalus – Não podia ser depois? Marquei uma conversa com a Alice...
Corifeu – Todas as coisas são urgentes, Dédalus. O Alê está pra abandonar a escola e se meter com quem não deve, está no limiar. Você escolhe. (Dédalus olha o relógio, apreensivo, suspira) Está bem. (Corifeu com um gesto chama Alê na área dos bastidores. Alê entra de má vontade. Alice também entra em outro ponto da área de representação e fica por ali, impaciente, à espera de Dédalus)
Dédalus – Alê, tenho pouco tempo, então vamos ser rápidos e objetivos.
Alê – Resolvemos isso logo, fessor. Sei o que você vai dizer e respondo “me deixa em paz!” Vai resolver suas coisas que eu resolvo as minhas!
Dédalus – Que é que você está querendo, cara? Você é inteligente, pode ter um futuro melhor do que... (Alê começa a se afastar)
Alê – Tô indo nessa. (Dédalus o segura)
Dédalus – Não te dei licença de se retirar. (Alê se livra com um repelão)
Alê – Tira a mão de mim! Eu que decido se fico ou se vou!
Dédalus – Alê que é que tá acontecendo com você? A gente sempre se deu bem!
Esse pessoal que você está se metendo...
Alê – Você não é meu pai! Mesmo se fosse! Eu sei da minha vida!
Dédalus – Sabe não, ninguém sabe. Eu mesmo não sei da minha. Ninguém é sozinho, Alê.
Alê – Eu sou. Tô indo. (Dédalus corta sua passagem com o corpo)
Dédalus – Não faz a besteira de largar a escola.
Alê – Problema meu, professor.
Dédalus – Meu também. (Alê ri)
Alê – O senhor também está deixando a escola.
Dédalus – É diferente. Já passei por ela, já aprendi com ela.
Alê – Escola não vai me fazer falta.
Dédalus – Vai, Alê!
Alê – Quer enganar quem, professor?
Dédalus – Escola é importante, Alê.
Alê – Pra quem? Pra professor, pra diretor ganhar a vida! Nada contra, é o emprego de vocês. Mas é importante pra aluno, fessor?
Dédalus – Que você quer dizer? (Alê tira o celular do bolso)
Alê – Que o senhor tem pra me ensinar que eu não encontre aqui? Por que eu tenho que ficar preso cinco horas aqui dentro, me entupindo de ideia que é minha e que não me interessa? Não me interessa valor de “x”, nem se o verbo é isso ou aquilo. A vida tá lá fora, fessor.
Dédalus – Tá aqui dentro também. O estudo é a única saída pra vocês que tem pouco na vida!
Alê – Pode ser, mas não o que vocês querem me ensinar!
Dédalus – O que vocês querem aprender?
Alê – Não sei. Mas não é isso que vocês ensinam. Isso é faz de conta. Se não fosse pela sua pessoa e por uns parceiro aqui dentro, eu já tava longe, fessor. Agora, me deixa sair.
Dédalus – Alê, tá saindo da escola pra quê? O que essa galerinha, aí, te prometeu?
Seja mais ambicioso do que roupa cara, tênis e celular, Alê. A vida promete muito mais, se prepara pra ela, cara!
Alê – Tô indo nessa.
Dédalus – Alê! Não faz isso com você! Não desperdice e não dê para os outros o que você tem de melhor!
Alê – Até mais, fessor!
Dédalus – Você é um bosta, Alê! Você vai se formar sozinho? Vai estudar todo o bom conhecimento que a internet oferece? Vai nada! Vai gastar seu tempo vendo pornografia e curtindo videozinho idiota com sua galerinha enquanto ri feito besta fumando um baseado!
Alê – Melhor do que ficar aqui ouvindo babaquice!
Dédalus – Qual a diferença de ouvir babaquice aqui ou lá? Aqui é lugar de preparo e conhecimento, Alê. Se vocês acham que os professores não têm o conhecimento que vocês querem, vão buscar! Formem grupos de estudo, de discussão! Aqui vocês têm tempo. É um tempo de preparo que talvez vocês nunca mais tenham na vida! (Alê se afasta e sai da área de representação. Dédalus suspira, cansado. Olha o relógio. Alice inconformada começa a sair da área de representação. Dédalus olha para ela e a chama) Alice! Desculpa o atraso. Fiquei preso na escola...
Alice – A escola! Ela sempre é mais importante, Dédalus.
Dédalus – Não é verdade, Alice...
Alice – É, Dédalus, sempre foi. Você vive é pra esse sonho: escola e alunos. Parece que nossa vida em comum foi só um detalhe.
Dédalus – Não seja injusta! Estou deixando a escola.
Alice – Não é verdade, você sabe. Ensinar é parte de você, é o que te realiza, o que te deixa feliz. Eu não devia ter esperado tanto tempo pra perceber. Não devia ter acreditado que fosse possível mudar isso.
Dédalus – Alice, não é possível acabar assim!
Alice – É possível. Tanto é possível que está acabando. Vim aqui com alguma esperança, procurando alguma coisa que não sabia o que era. Chego e você não está. Espero mais de uma hora e você não chega. Estava onde? Na escola! Metido em algum problema com algum aluno.
Dédalus – Estou abrindo mão dela! Isso vai mudar.
Alice – Não vai e você não está errado. O caso é que preciso pensar em mim. Já fiz quarenta anos e preciso ter meus próprios sonhos. (Lúcia, Luciene, Vadinho e Corifeu entram na área de representação portando cadeiras. Sentam-se. Vadinho está visivelmente desconcertado)
Corifeu – Alice, Dédalus! É o bastante.
Alice (triste) – Também acho. (Alice e Dédalus saem)
Corifeu (ao público) – Nesta cena vou ser o pai de Luciene, marido de Lúcia. (sentam- -se. Corifeu olha para eles interrogativamente) E, então, por que me chamaram?
Esqueci seu nome. É...
Luciene – É Vadinho, pai!
Corifeu – É... Vadinho. E você é amigo de minha filha, é isso?
Vadinho – É...
Lúcia – Querido.... Nós chamamos você aqui porque a Luciene tem uma coisa a dizer...
Luciene – Eu, não! É o Vadinho!
Lúcia – Mas eu peço que você mantenha a calma.
Corifeu – Eu estou calmo. Vocês é que parecem que não estão.
Lúcia – Estamos, sim.
Luciene – Estamos.
Vadinho (diz para si) – Eu não estou, não!
Corifeu – E, então? Estou esperando.
Lúcia – Luciene...
Luciene – Vadinho...
Vadinho – Seu Jairo... Estudo na mesma escola que sua filha.... Somos muito amigos
e...
Corifeu – Tá querendo namorar com ela, é isso?
Vadinho – De uma certa maneira...
Corifeu – Como é que se namora de uma certa maneira? Lúcia?
Luciene – Fala de uma vez, Vadinho!
Corifeu – Falar o quê? O que de tão importante eu preciso ouvir??
Lúcia – Calma, Jairo.
Corifeu – Estou calmo, só que não gosto de enrolação! Fala, moleque! O que você tá querendo dizer?
Vadinho – É que a gente já namora.
Corifeu – Já? Há quanto tempo? Como é que eu não estou sabendo? Você sabia, Lúcia? E não me falou nada?
Luciene – Ah, pai, que coisa antiga!
Corifeu – Prestar contas a seu pai é coisa antiga?
Luciene – Não vamos discutir isso agora. Tem coisa mais importante que você precisa saber.
Corifeu – O que mais importante?! Fala, moleque! (Vadinho gagueja sem saber o que dizer)
Lúcia – Calma, Jairo.
Corifeu – Se me pedir calma mais uma vez eu vou perder a paciência! (cai em si) Será que já estou imaginando o que vocês não estão querendo dizer? Luciene!
(Luciene dá um gemido e leva a mão ao ventre)
Luciene – Ai! (olha para o ventre e sai correndo. Ao chegar à área dos bastidores, grita) Cala a boca, Vadinho. Não fala nada! (Corifeu se levanta)
Corifeu – É só, por enquanto. (Vadinho e Lúcia saem levando as cadeiras. Podem ser ajudados por outros atores fora de cena. Alice e Líbero entram na área de representação por direções opostas. Olham-se à média distância)
Líbero – E, então?
Alice – Me dá um tempo, Líbero. Pensei que quando terminasse com Dédalus estaria leve... não estou.
Líbero – Você ainda gosta dele?
Alice – Foram vinte anos. Por mais que a relação ficasse desgastada é difícil... Só me dá um tempo... vou ficar bem. Deixa este gosto amargo passar e então vou poder voar para outro rumo, sem mágoa nem peso.
Líbero – Todo o tempo que você quiser, Alice. Você vale a pena. (Corifeu interrompe)
Corifeu – Desculpe interromper, mas a peça caminha para o final. Vamos aumentar um pouco o ritmo dela. (Líbero e Alice saem e Vadinho e Luciene, a um gesto de Corifeu, entram na área de representação)
Vadinho – Conta o que foi que aconteceu?
Luciene – Que aconteceu o quê?
Vadinho – Você sabe, Lu! Ontem quando fui na sua casa. Você deu aquele surto e me expulsou da casa.
Luciene – Não quero falar sobre isso!
Vadinho – Vai ter que falar, Lu, não me enrola! (Luciene para e olha para Vadinho)
Luciene – Você gosta de mim?
Vadinho – É claro, né?
Luciene – E vai continuar gostando mesmo...
Vadinho – Mesmo o quê, Lu?
Luciene – Veio. Eu não tô grávida!
Vadinho – Veio? Como veio? Você disse que tinha feito o teste...
Luciene – Disse que ia fazer, mas não fiz. Eu tinha certeza que estava grávida! E, depois, minha mãe começou a me tratar tão bem, como se eu fosse outra pessoa, fui gostando da ideia.
Vadinho – Eu não acredito, Lu! Eu ferrado, pai com dezesseis anos...
Luciene – Ferrado? Quem tava grávida era eu!
Vadinho – Você não tava grávida!
Luciene – Mas pensei que tivesse!
Vadinho – Que raiva! E que alívio!
Luciene – É, mas você toma cuidado com meu pai. Ele quer pegar você! (Vadinho estatela) Ele acha que você abusou de mim.
Vadinho – Eeeeuuu? Seu pai não conhece a filha que tem!
Luciene – É, meu pai é homem e vocês são meio tontos...
Vadinho (ressentido) – Obrigado.
Luciene – Não falei por mal. É que vocês são tontos, mesmo. Não pra tudo... (cai em si) Que é que você quis dizer com “ele não conhece a filha que tem”? Então, fui eu que abusei de você? (Corifeu interfere)
Corifeu – Está bem, nos poupe dessa primeira briga de vocês. (para Mari na área dos bastidores) Mari... é você. (Mari entra na área de representação. Dirce e Antônio se colocam em estado de prontidão. Luciene, que saía da área de representação, olha para Mari e a abraça. Vadinho também a enlaça num abraço triplo e tocante. Vadinho e Luciene saem)
Corifeu – Como continuamos, Mari? (Dirce irrompe na área de representação)
Dirce – Filha... Contei ao pastor, ele falou que era abominação. Eu disse: minha filha é abominação? Que culpa tem ela dos pecados dos pais? E que pecado tão grande cometemos? Vou perguntar a Deus, mas não piso mais numa igreja que não conhece a misericórdia...
Corifeu – Dona Dirce, respeito seus sentimentos, mas gostaria de ouvir a Mari.
Dirce (emocionada) – Desculpa, mas preciso falar. Só uma palavrinha, depois me calo. Sondei a Deus em meu coração e quis ouvir que ele não condena a própria criatura que fez. Se condenar é porque ele não tem misericórdia. E se não tem misericórdia não pode ser Deus. Foi o que ele disse ao meu coração, filha. Meu coração é de mãe e pela mãe que sou, se for preciso, eu mudo de fé! Só queria te dizer isso. (Dirce volta e se senta na área dos bastidores. Antônio se levanta, tenso, dá uns passos, mas volta a se sentar)
Corifeu – E, então, Mari? Como vai acabar sua história?
Mari – Hoje, olhei para o meu quarto e tive certeza que minha história não vai acabar ali, numa noite de desespero e solidão, com os pulsos cortados ou tomando uma dúzia de comprimidos.
Corifeu – Tem certeza?
Mari (segura) – Tenho. Não vou aumentar o desespero da minha mãe com uma culpa que ela não tem. E não vou me desfazer da vida por causa de uma mentalidade estúpida e atrasada, que não respeita o que sou.
Corifeu – Está certo. E, então?
Mari – Então, a alternativa mais coerente neste mundo em que vivemos é que, numa dessas noites, a tristeza vai me fazer sair de casa para olhar a lua cheia, que gosto tanto, no céu. O Carão, aquele animal que disse que ia me fazer mulher, vai saltar sobre mim como o animal homem que é, garantido pelo discurso moral de que sou uma aberração! Vou gritar, morder, reagir com a fúria do meu corpo frágil frente a um macho envilecido. Vou gritar o direito ao respeito por ser diferente e o silêncio em torno, no bairro, na cidade, no País, vai ser a resposta! E vou arranhar, sangrar seu rosto, enquanto a cegueira lhe toma e ele não é mais gente, nem bicho, é um demônio que uiva de ódio e me esfaqueia por eu ter recusado seu desejo. Caio no terreno baldio, a vida me escorre, e olho lá no céu a lua cheia, de que tanto gosto, a única testemunha do meu fim. (Dirce chora, os atores ficam em silêncio compungido. Corifeu rompe o silêncio)
Corifeu – É... Neste mundo é um fim comum e coerente com a sua história. (Antônio grita do lugar onde está na área dos bastidores)
Antônio – Não! (emocionado) Senhor... Confesso que sou meio bruto e ignorante inteiro... sem estudo. Num entendo o que se passa no mundo, nem com minha filha... que diz que é um menino. Confesso também que tenho raivas fácil... Mas filho de ninguém, nem de bicho, é pra se acabar por essa forma! Nem pra ser desrespeitado pelo que é, agora compreendo. E se o brinquedo aqui é imaginar um novo mundo... eu digo, então, que vinha do trabalho nessa mesma noite e vi Mari na mão do Carão no terreno baldio. Meu coração bateu aflito, no mesmo tempo da aflição dela. E me ceguei. E só vi minha raiva desconhecendo faca e medo e minha mão, finalmente, esfolando quem merecia! O maldito se foi estropiado e eu me voltei pra minha filha... filho... e quis sentir de novo o seu coraçãozinho bater junto do meu. (Mari e Antônio se abraçam, emocionados. Corifeu fala aos atores)
Corifeu – Pessoal... Sinto muito mas, como todo final feliz, este soa um tanto forçado e pouco coerente com a realidade...
Dirce – Mas é o que a gente deseja, senhor.
Alice – Como o senhor disse no início, a única regra a ser respeitada é a imaginação.
Corifeu – Sim, mas tem de haver um equilíbrio mínimo entre o sonho e a realidade, sob o custo deste novo mundo ser construído no ar, sem sustentação nem solidez.
Dédalus – Os sonhos são leves como ar e não deixam de ser sólidos, senhor. Eu não vou me render à realidade como o diretor da minha escola. Professores como eu são reais e pagamos um alto preço por isso! (Dédalus olha para Alice)
Alê – Se o mundo novo é construído pelo desejo e imaginação, eu também quero uma escola que não me forme só para o mercado. Quero participar da formação que é a minha. É a minha vida que está em jogo. E, cara, é a única coisa verdadeiramente importante que eu tenho. Eu volto, fessor. Nesse mundo novo eu volto.
Alice – E eu talvez me arrependa por isso, Líbero, mas ainda quero continuar imaginando um mundo com Dédalus. Um mundo onde o amor não se perca na trivialidade de um trabalho sem recompensas como o meu e o dele.
Líbero – Alice...
Dédalus – Você não vai se arrepender, Alice.
Corifeu – Assim não é possível! Um mundo novo não pode ser apenas idealizado...
Ele tem de ter condições de ser construído! E, embora Shakespeare diga que “tudo está bem quando termina bem”, a lógica diz que nem todas as histórias podem acabar bem. (Luciene dá a notícia a Vadinho)
Luciene – Vadinho! Estou grávida!
Vadinho – Não! Outra vez?
Luciene – Sim! E agora é de verdade. Meu pai chegou de viagem e quer falar com você! (Corifeu ri)
Corifeu – Está bem. Nada contra a imaginação, nem contra o sonho, nem contra o desejo. Mas quanto maior cada um desses elementos, mais árdua e prolongada é sua construção no mundo, estejam certos disso. Por outro lado, a vida é curta e talvez só essas grandes coisas lhe deem sentido. Dizem que os deuses riem quando, ajoelhados, os homens lhes pedem riquezas. São deuses, podem dar alegrias infinitas, felicidade duradoura, uma vida farta de dias e sorrisos. No entanto, continuamos a lhes pedir riquezas. (aos atores) Se vocês querem construir este mundo novo com o coração grande e leve, preparem suas mãos para que seja verdade o verso de Shakespeare: “Mas quantas pessoas belas existem aqui! Tantas e tão belas! Que admirável é o mundo novo por ter gente assim! ” Boa noite!


Fim

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