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Meninas, Meninos, Menines / Márcia Zanelatto

Meninas, Meninos, Menines

Márcia Zanelatto

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do
Projeto Conexões Teatro Jovem e fez parte do seu portfólio no ano de 2017.
Qualquer montagem fora do Projeto deverá ser negociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos autorais.

 

Marcia Zanelatto marciazanelatto@gmail.com

Nota da autora

Composição dramatúrgica estruturada em pequenos episódios que se concentram
sobre questões de sexualidade e de gênero.


O objetivo desta peça é desafiar as fronteiras entre o masculino e feminino. E
revelar, por estética, que o gênero é uma construção cultural e não uma designação
natural, como ainda insiste em dizer o senso comum.


Uma vez que não há parâmetros biológicos predominantes
(para definir o masculino e o feminino), a identidade de gênero
parece ser o mais razoável. Em outras palavras, se você quer saber
se alguém é homem ou mulher, é melhor apenas perguntar.”


Eric Vilain, diretor do Center for Gender Based-Biology,
da Universidade da Califórnia

1. Romiet e Julieu

A história se passa em um tempo futuro, onde as pessoas são o que sentem. Sem rótulos.
Em que nunca ninguém pergunta se você é menino ou menina.
No palco, uma praça. Um banco. Estamos numa pequena cidade que não conhecemos,
mas com a qual podemos sonhar.
A luz e a música vão entrando e compondo o clima lírico.
Entra Julieu, uma pessoa jovem que não se pode distinguir, pelas roupas,
sapatos, corpo, rosto ou cabelos, se é um menino ou uma menina.
Julieu abre um livro e lê.
E, casualmente, Romiet surge e senta-se na outra ponta do banco. Romiet também é uma
figura que não se pode distinguir ao certo se é menino ou menina.
Julieu – Hei, você! Há quanto tempo! Que bom te ver!
Romiet – A mim?
Julieu – Estava mesmo pensando em você dia desses!
Romiet (olha em volta) – Em mim?
Julieu – Sim! Claro!
Os dois se olham por um momento, em silêncio.
Julieu – Não se lembra de mim? Julieu.
Romiet – Julieu...
Julieu – Sim, Julieu. Onde foi mesmo? (Julieu mostra o livro em sua mão) O livro...
na Biblioteca, eu havia acabado de pegar o livro que você procurava. Como é
mesmo seu nome?
Romiet – O meu?
Julieu – Sim, claro! O seu nome, de quem mais?
Romiet – É que eu não estou conseguindo me lembrar...
Julieu – Qual é mesmo seu nome? Me soava tão familiar...
Romiet – Romiet.
Julieu – Romiet, claro! Romiet! Eu sou Julieu!
Romiet – Julieu...
Julieu – Romiet, Julieu. Não te soa familiar?
Romiet ri.
Julieu – Eu tenho que te contar uma coisa. Eu nunca esqueci você. Nunca. Foisemana passada! Mas eu nunca esqueci seus olhos. E volto todo quase todo dia
na biblioteca, na esperança de te encontrar.
Romiet – Que lindo. Mas eu tenho que te confessar, Julieu, eu não me lembro.
Julieu – Eu lembro bastante, dá para nós dois!
Romiet dá uma risada.
Julieu – Eu fiz um poema para você.
Romiet – Sério?
Julieu – Sério. Posso falar?
Romiet – Você sabe de cor?
Julieu – Na beira dessa praia de filme romântico, cafona
A vida corre para os braços de seu inevitável amor, a morte
E a iminência desse encontro sempre me impressiona
Com a mesma certeza te espero
Não tenho pressa. Tenho verso.
Gosta?
Romiet – Nossa... você que fez?
Julieu – Sim!
Romieu – Mas não pra mim exatamente?
Julieu – Para você exatamente!
Romiet – Poxa, “gratidão”!
Julieu – “Gratidão” também. Por você me inspirar.
Romiet está de boca aberta.
Julieu – Vamos fugir?
Romiet – Como assim?
Julieu – Vamos ao cinema, vamos tomar uma cerveja-gelada, vamos pra Itália! O que
você quiser. Eu só preciso de um minutinho: passar em casa e regar as plantas...
Romiet – Hei! Você é uma graça! Que tal assim: você me adiciona no Face e a gente
vai se conhecendo...
Julieu – Ah, sim, o Face. Não. Eu não estou mais lá. Foi difícil, mas eu saí.
Romiet – Mas por quê?
Julieu – Por quê? Você também é uma graça! Vou te explicar. É porque... (Julieu
aspira o ar à sua volta) o cheiro das flores... eu não sentia mais. Ele estava aqui, no
mesmo lugar, mas eu não sentia mais. O peito vermelho do rouxinol (Julieu aponta)
Não é lindo o peito vermelho do rouxinol no meio das folhas verdes? Ele estava
ali, mas eu não girava mais o meu pescoço para olhar pras copas das árvores.

Romiet (vendo o rouxinol) – Olha! Ele está cantando!

Julieu – Desde que você chegou.
Romiet – Você existe mesmo? Ou eu estou dentro de um livro?
Julieu – De uma peça. De teatro. Antiga.
Os dois riem. Julieu pega delicadamente a mão de Romiet e beija seus dedos.
Julieu – Eu também adoro chocolate amargo.
Romiet – Eu acabei de comer um pedaço de chocolate amargo!
Julieu – Eu sei, o cheiro permanece em seus dedos. (Julieu puxa o ar) Eu agora sinto
os cheiros todos. Eu estou aqui.
Romiet não resiste, deixa seu rosto para que Julieu o beije. Julieu para os lábios
bem perto dos lábios de Romiet, olha nos seus olhos.
Julieu – Eu sempre te quis.
Julieu beija Romiet, escorrega a mão delicadamente sobre o peito de Romiet que hesita,
mas não consegue resistir. Julieu aperta com carinho as costas de Romiet, que solta seu
corpo. Julieu passa a mão entre suas coxas. Romiet segura sua mão.
Romiet – Aqui não.
Julieu – Vamos para minha casa.
Romiet – Seus pais não estão lá?
Julieu – Hoje não, eles estão no tribunal, estão às voltas com as terras dos Capuleto.
Romiet – Capuleto? É minha família!
Julieu – Não disse que eu te conhecia de algum lugar?
Fim

2. Em família

À mesa estão os dois irmãos, jovens de 14, 15 anos. Os dois vestem a camisa do uniforme
da escola. Eles cochicham, enquanto o pai coloca a mesa. O pai usa um bigode muito
caprichado e usa um avental com flores coloridas. O pai se senta, finalmente.
Pai (fala alto em direção ao quarto) – Jantar na mesa!
Mãe entra com ar cansado. Tem bobes nos cabelos, veste uma camisa branca
social com botões abertos, a gravata frouxa, salto e meia fina. Pai serve os pratos.
Pai – Estes dois estão tramando, que eu já percebi. Este é irmão deste.
Irmã – Nada demais, pai.
Irmão – Nada mesmo.
Pai – Sei. E você, meu amor, dia cheio hoje?
Mãe – Nem me fale. Meu escritório é a pepinosfera. Quando você acha que resolveu
um pepino, aparece outro pepino. E você, meu bem? Conseguiu fazer as compras?
Pai – Ah, um inferno. Supermercado lotado, dia 05, né? Já viu! Mas achei uma pechincha
extraordinária. Comprei aquele nosso vinho, na promoção leve 6 e pague 5.
Mãe – Jura? (bate no braço da filha) Hoje vai ter, hein, o papai está animado!
A irmã olha para o irmão.
Irmã – Desnecessário.
Mãe se levanta e vai até o pai.
Mãe – Dá cá meu beijinho, dá.
Pai – Para, sua doida! Olha as crianças!
O pai dá risadas, a mãe cafunga seu pescoço.
Filho – Vocês querem que a gente saia?
Mãe – Vocês vivem mal-humorados. Não sei porquê! Só come-bebe-dorme.
Pai – É isso. Vida mansa dá mau humor!
Mãe e pai caem na risada. Os filhos se olham.
Fazem uma discreta expressão de acordo.
Filha – Mãe, a gente quer falar uma coisa com vocês.
Pai – Não falei? Conheço meu gado!
Irmão – Não é nada disso, pai. Mãe, é que a gente tirou as melhores notas na feira
de ciências.
Mãe – Verdade? Sem exagero?
Irmã – Verdade verdadeira!
Pai – Eles sempre tiram nota máxima na feira de ciências. Feira de ciências, olimpíadas,
eles sempre se saem bem. Quero ver nas provas.
Mãe – Não exagera, meu amor. Parabéns, meninos! Muito bem!
A mãe começa a comer. Todos acompanham.
Algumas garfadas, a irmã cutuca o irmão. O irmão cutuca a irmã.
Pai – Comam.
Irmã – Sabe o que é, mãe, tem uma festa hoje.da escola vai.
Pai – Todo mundo é ótimo.
Mãe – Onde?
Irmã – Na casa da Bel.
Pai – Da Bel, sabia!
Irmã – Que que tem a Bel, pai?
Irmão – Que que tem a Bel, pai?
Pai – Eu não falo mais nada.
Mãe – Que horas?
Pai – Você é mole mesmo!
Mãe – Deixa eu saber, ué, que que tem?
Irmã – Que que tem, pai?
Irmão – Que que tem a mãe saber a hora, pai?
Pai – Depois, você passa os dias no escritório e quem segura a onda aqui sou eu!
Irmã – É cedo, 8.
Mãe – Eu quis dizer até que horas.
Irmã olha pro irmão.
Irmão – 2.
Irmã cutuca o irmão.
Irmã – 4.
Mãe – 4 horas da manhã.
Pai – Não disse? (Pai coloca a mão na testa) Ai meu Deus, não estou bom hoje não...
Mãe – Amor, não começa.
Pai vê que não funciona, se recompõe.
Irmã – A gente pode ficar lá até amanhecer...
Irmão – ...para não voltar pra casa de noite.
Pai (cutuca o irmão) – Tá muito saidinho, hein!
Mãe – Acho mais seguro.
Pai – Que é isso?!
Mãe – Acho que ele tem razão, perigoso voltar de madrugada pra casa.
Irmã – Mas ele vai comigo, né?
Mãe – Você, tudo bem. Mas esse daí é com seu pai. Se ele se responsabilizar...
Irmã – Mãe, não se preocupe, é só uma festa do pessoal da escola.
Irmão chora. O pai o afaga.
Mãe (firme) – Um dia você vai nos agradecer!
Pai (doce) – Vai chegar a sua hora, meu anjinho. Eu também tive que esperar muito
para sair com a minha irmã pras festas.
Irmão (sussurra) – Poxa, pai, fala com a mãe. Por favor!
O Pai se comove. Toma coragem.
Pai – Amor: se vai deixar um, deixa o outro, besteira.
Mãe – Ela é menina. Sabe se defender. Ele, eu fico com medo.
Irmã – Medo de que, mãe?
Mãe – Você sabe, meu bem. Ele está dançando com uma, o pretendente dela fica
com ciúmes, faz uma piadinha, teu irmão vai lá e revida. Aí já viu, né? Chega em
casa todo quebrado, teu pai fica nervoso, vai querer tirar satisfação com o pai do
outro... Deus me livre, eu já tenho problemas demais.
Irmão – Mãe, eu juro que não vou reagir, em nenhuma hipótese, a nenhum tipo
de provocação!
Mãe – Mas não é só isso. E as garotas?
Irmã – Ah, mãe, não força a barra.
Mãe – Da outra vez, ficou com quatro. Vai ficar mal falado! Depois quem vai querer
casar contigo?
Irmão – Eu não quero casar!
Mãe – Que não quer casar, como eu vou ter neto?
Irmã – Ele pode ser pai solteiro!
Mãe – Ah é? Pois não sou eu quem vou sustentar!
Pai – Onde comem dois, comem três.
Irmão – Não acredito que vocês já estão tratando do meu filho e eu nem consegui
chegar na festa ainda!
Irmã – Já sei! Se é sua preocupação, mãe, hoje ele só fica com menino!
Irmão – Isso, hoje eu só fico com menino!
Mãe – Ah tá que você vai aguentar abrir mão de 50% das possibilidades! Te conheço!
Pai – Gente, vamos acabar com isso. Eu tô exausto! Se vai um, vão os dois. Ou não
vai nenhum!
Irmã – Ah, não, sacanagem! A mãe falou que eu podia ir.

Mãe – Eu não falei nada!
Irmã – Estava quase falando!
Pai – Você cuida do seu irmão, então.
Irmã – Eu cuido!
Mãe – Vai cuidar nada. Chega lá, vai cada um para um lado, e o menino chega em
casa bêbado que nem um gambá!
Irmão – Eu quase não bebo!
Pai – Quase não bebe em pé. Te conheço! Sua mãe tem razão.
Irmã – Ok, eu regulo meu irmão. Deixa ele ir comigo.
Pai – Esses dois estão mancomunados.
Mãe – Resta saber por quê.
Irmão (chorando) – Eu não posso nada! Eu não posso nada nunca! Eu quero morrer!
Irmã – Mãe! Pai! Poxa!
Pai cutuca a mãe. A mãe bufa.
Pai puxa a mãe num canto e sussurra
Pai – Deixa eles irem.
Mãe faz careta negativa.
Pai – Pra gente tomar aquele vinho.
Mãe abre um sorriso.
Mãe – Sério?
Pai faz uma carinha safada.
Mãe – Olha lá, hein. Não vai amarelar.
Pai faz que não com a cabeça, bem safado. Ela sorri. Ele fala alto, pros irmãos.
Pai – Sua mãe deixou.
Mãe – Mas não me tragam dor de cabeça!
Os irmãos comemoram.
Pai – Juízo!
Os irmãos correm para se arrumar. Quando levantam,
vemos que ele está de saia e ela de bermuda e sapatos.
A mãe corre atrás do pai, rodam em torno da mesa. A mãe pega o pai, eles se beijam.
Fim

3. Casal grávido

Sala da casa de um casal. Eles passam de um lado para o outro,
preparando os últimos detalhes.
Ela – Amor, você viu as taças azuis?
Ele – Vi, no armário do meio.
Ela – Você já está pronto?
Ele – Estou! E você?
Ela – Você viu meu batom?
Ele – Na pia do banheiro.
Ela – Eu te amo, você é meu HD externo.
Ele – Eu te amo, você é meu próprio Tinder.
Ela – Vamos ter neném também?
Ele – Esse ano ou ano que vem?
Ela – Pode ser ano que vem, mas a gente já pode ir tentando.
Os dois se encontram no meio do palco, trocam uns amassos rápidos.
Ele – Tá com inveja deles?
Ela – Estou.
Ele – Sabia!
Os dois voltam a cruzar o palco, cada um para um lado,
entrando por uma coxia e saindo pela outra várias vezes, rápidos.
Ela – Eles não parecem as pessoas mais felizes do mundo?
Ele – Parecem não, eles são. Lutaram tanto por essa gravidez.
Ela – Eles são maravilhosos.
Ele – Amei eles terem nos chamado para padrinhos.
Ela – Nunca esperava! Será que eles gostam tanto mesmo da gente ou não tinham
mais ninguém?
Ele – Primeira opção!
Ela – Ai que bom!
Toca a campainha. Os dois correm e param no centro do palco. O casal surge. Contraluz.
Pausa longa na ação: os dois casais se abraçam, dançam, rodopiam.
Param de frente uns para os outros novamente. Abre a luz. A barriga está no homem.
Ela – Vocês estão lindos!
Ele – Vamos comemorar!
Pãe – Eu não estou bebendo.
Mai – Eu estou, bebo pelos dois!
Pãe – Sem exagero, Mai.
Mai – Era uma piada, Pãe.
Ela – Quantos meses?
Pãe – Seis, completamos ontem!
Ele – Então, tem que ser champanhe!
Ela serve os copos. Ele estoura o champanhe. Os quatro brindam.
Ele – Como está a reforma da casa?
Mai – Tranquila, por incrível que pareça.
Pãe – Eles estão entregando no prazo, é a primeira vez que vejo isso na vida.
Ela – É a sorte do bebê!
Ele – Já sabem o sexo?
Pãe – Genital? Nós não quisemos saber!
Ele – Tem razão! Saber pra quê?
Ela – Pra fazer o enxoval.
Mai – Mas a gente vai fazer o enxoval. Qual o problema?
Ele – Eu entendi. Ela quis dizer a cor. A escolha da cor do enxoval.
Pãe – Tipo rosa ou azul?
Ela – Isso!
Mai – Ah, eu acho isso péssimo, não me leva a mal não.
Ela – Isso não quer dizer que se for menino só vai usar rosinha.
Pãe – Ah, não?
Ele – Não necessariamente. Hoje em dia menina usa rosinha à vontade. Não tem
mais essa.
Mai – Se teu filho sair na rua de azul, você pira, fala sério.
Ela – Eu? Por quê? Eu hein! Eu não sou assim, nunca fui!
Ele – Mas você sempre estranha quando eu coloco camisa azul, diz que eu fico
parecendo um machinho careta.
Pãe – Jura?
Mai – Que bafão!
Ela – Poxa, olha o que você fez. Eles acreditaram, agora vão me zoar a noite inteira.
Ele – Gente, é mentira.
Ele cai na risada. Os outros não.
Pãe (para Ela) – Quem diria, hein! (para Ele) E você, garanto que você deu sua camisa azul novinha.
Ela – Camisa caríssima, deu! Porque era a-zul!
Ele – Você está se vingando!
Mai – Um a um, queridos!
Pãe – Verde. O quarto vai ser verde, unissex.
Ela – Ah, então vocês se importam!
Pãe – Claro que não, vai ser verde justamente porque a gente não se importa.
Ele – Se não achassem que a cor está associada ao gênero, não pensariam numa cor
unissex. Poderia ser rosa e ser de menina. Poderia ser de azul e ser de menino.
Ela bate a mão dele comemorando. Tipo casal x casal.
Pãe – Acho que vocês não entenderam.
Mai – Eles não entenderam.
Ela – Então, explica: 1. Vocês não querem saber o sexo do bebê.
Pãe – Não! Não importa se é menino ou menina.
Mai – Importa que nós o amamos.
Ele – Ok: 2. Vocês não se importam se for menina e usar rosa.
Mai – Nem um pouco.
Pãe – Um pouquinho sim. Dependendo da ocasião pode não ser adequado.
Ela – E que tipo de ocasião seria essa?
Mai – Por exemplo, um jantar na casa da minha sogra.
Pãe – Por que na casa da mamãe?
Mai – Na casa da sua mãe, pode causar certa exasperação.
Ele – Em que sentido?
Mai – Sei lá, pode chocar. Chega uma menininha toda vestida de rosa... Vai parecer
que eu estou criando minha filha pra ser uma mulherzinha, submissa, toda de
rosinha...
Ela – Isso é! Pode ser estranho mesmo.
Pãe – Ai! Estou com um enjoo...
Mai – Meu amor, quer alguma coisa, um pedacinho de limão? Vocês têm um pedacinho
de limão?
Ele – Vou buscar.
Mai – Deita, querido, você vai ficar melhor. Me passa aquela almofada ali.
Ela pega a almofada. Coloca atrás de Pãe.
Ele – Amor, onde tá o limão?
Ela – Na geladeira.
Mai – Em que outro lugar estaria?
Ela – Ele só sabe onde estão as coisas que estão fora do lugar.
Pãe – Ai que enjoo horroroso, corre com esse limão!
Ele – Aqui está!
Mai – Devagar, Pãe, pode queimar sua boquinha.
Ele – Deve ter sido o champanhe.
Ela – Foi o papo, vamos mudar de papo.
Ele – É verdade, a gente pegou pesado.
Pãe – Quem pegou pesado aqui?
Mai – Pãe, relaxa, eles têm razão. Esse negócio que eu falei da minha sogra, da bebê
não poder usar rosinha na frente dela, não foi legal.
Pãe – Quem disse que é A bebê?
Clima.
Mai – Eu não disse que é A bebê, eu disse que se fosse A bebê talvez não fosse
muito bom ela ir na/
Pãe – Acho muito estranho você achar que é A bebê e não O bebê. Você olhou o
resultado do ultrassom, não olhou? Mai, fala a verdade, olhou ou não olhou?
Mai – Claro que não, Pãe!
Ele – Vamos colocar uma musiquinha!
Ela – Isso! Musiquinha!
Pãe – Tá falando a verdade?
Mai – Claro, meu amor, não se preocupe.
Pãe – Então, me dá um beijinho!
Beijinho.
Pãe – Número 3. Podem prosseguir!
Ele – Não precisa, que besteira.
Mai – Podem prosseguir. A gente não tem medo desse assunto.
Ela – Ai gente, para com isso, sem clima, vai.
Pãe – Número 3?
Ele – Ah, ok, normal, gente, falar sobre isso, você tem toda razão.
Ela – Se fosse menino poderia ir na casa da sua sogra de azul, que tudo bem, né?
Menino, tudo bem.
Pãe – Por que na casa da minha mãe de novo?
Ele – Ok, na sua sogra dessa vez.
Pãe – Na minha sogra: nem pensar um menino aparecer de azul!
Mai – Ah? Muito pelo contrário, minha mãe é o tipo de pessoa sem preconceitos!
Ela – Exagero.
Mai – Por quê?!
Ela – Porque ninguém é sem preconceitos.
Pãe – Nem a sua perfeita mãe.
Mai – Nunca disse que mamãe era perfeita.
Ele (para Pãe) – Aqui em casa é a mesma coisa. Ela acha a mãe dela perfeita.
Mai – Eu nunca disse que mamãe era perfeita.
Pãe – Longe disso!
Ele – Claro, longe disso, no sentido de que ninguém é perfeito!
Mai – Você tá pondo panos quentes.
Ela – Galera!
Mai – Ok, mamãe talvez tivesse um pouco mais de dificuldade se visse uma menina
de rosa do que um menino de azul. Admito!
Pãe – Agora você arrasou.
Mai – Para de chupar esse limão, Pãe. Já passou o enjoo que eu sei.
Pãe – Nossa! Duas verdades em menos de 40 segundos!
Ele – Como você sabe que o enjoo dele passou?
Mai – Eu sei, simplesmente sei.
Ela – E passou mesmo?
Pãe faz que sim com a cabeça, orgulhoso.
Ela – Você não sabe quando meu enjoo passa.
Ele – Nem você, querida!
Mai – Isso mesmo, direitos iguais.
Pãe – Eu vou dizer a verdade para vocês.
Mai – Ih.
Pãe – A gente se importa sim.
Mai – Ah, Pãe!
Ele – Em que sentido?
Pãe – No sentido de que foi muita luta, sabe? Muita luta pra chegar até aqui. Pras
meninas poderem usar rosa e os meninos usarem azul.
Mai – Vocês têm noção de que nem sempre foi assim? Há muito pouco tempo, nos
tempos dos nossos pais, quando uma menina usava rosa ela era, nossa!, nego
quase matava.
Pãe – Exagero.
Mai – Vocês sabem disso.
Pãe – A gente faz muita questão disso: se nossa filha quiser usar rosa, ela vai usar.
Ela – Mesmo sendo rosa choque?
Pãe e Mai se olham. Se dão as mãos.
Mai – A gente consegue. Vai ser difícil, mas a gente consegue.
Ele – E se for menino, vocês acham que se ele quiser usar azul machinho, vocês
seguram a onda?
Pãe – Ah, menino é mais fácil, né?
Mai – Depois fala que é minha mãe.
Ela – Gente, na boa, o tempo passou. Sai dessa. Verde. Vocês estavam certos desde
o início. Verde. Verde não tem nada com isso. Verde!
Ele – Pode crer. Verde, gente. Tem nada a ver ficar nessa. O tempo passou!
Pãe – Passou!
Mai – Passou!
Ele – O tempo passou!
Os três juntos – Passou!
Eles erguem suas taças de champanhe.
Os quatro juntos – Passou!
Fim

4. Drag


Nota –
William Shakespeare, inglês, nascido em 1564, é considerado o maior dramaturgo
de todos os tempos. Ele escreve as peças aqui citadas, Otelo, Romeu e
Julieta e MacBeth. Alguns documentos históricos afirmam que ele teria usado a
sigla DRAG (dressed as a girl, em português, vestido como uma garota) em seus
textos, para instruir o trabalho dos atores durante o período em que na Inglaterra,
em função da Lei do Pudor, as atrizes foram proibidas de trabalhar. O
episódio é uma ficção baseada nisto, ainda que hajam controvérsias sobre a sua
veracidade.


Entra no palco, pisando forte, um ator com um texto na mão e vestido com trajes
femininos da corte inglesa de 1800. Ele limpa o batom, furioso.
Entra logo atrás dele, um outro rapaz que usa cavanhaque.
É o autor, seu nome é William.
Paul – Eu não vou fazer!
William – Como não vai fazer? Você tem que fazer, Paul Graham!
Paul – Não sei fazer mulher, não vou fazer mulher, William!
William – Você fez um velho na peça passada. Um velho bruxo numa ilha do Caribe, você que nunca sequer conheceu outro país, que dirá uma ilha do Caribe!
O que não existe dentro de você, não existe no mundo!
Paul – Eu não sei ser mulher!
William – O que eu escrevi aqui foi Dressed as a girl, vestido como uma garota. Eu
não disse para ser uma garota. Você se veste como uma garota e pronto. Enquanto
a Lei estiver em vigor, está é a nossa saída.
Paul – Você me prometeu que eu ia ser um príncipe! Um príncipe que vinga o
assassinato do pai, eu quero fazer esse papel!
William – O ator não faz o papel, o ator faz a peça!
Paul – Eu faço a peça, mas não faço esse papel.
William – Uma resposta esperta nem sempre é uma resposta inteligente, Paul
Graham, não se confunda. O você quer, afinal? Uma peça só de homens? Ou
você quer que eu seja preso? Eu e todo mundo aqui?
Paul – Se não podemos ter atrizes, não escreva papéis femininos
William – Peças sobre soldados? Não me mate de tédio. Precisamos de personagens
femininas se quisermos fazer grandes peças! Eu nasci para ficar na história, meu
caro Paul Graham.
Paul – Esse cara tem uma ambição!
William – Todo artista tem que ter ambições. Não confunda ambição com pretensão.
Pretensão jamais! Ambição, sempre! Preciso de você, Paul Graham. Faça seu
trabalho para eu poder fazer o meu. Preciso de personagens femininas! Eu não
posso me submeter a uma lei idiota. Nada justifica escrever peças medíocres. Ou
você se veste de mulher ou meu nome passará como a poeira dos dias! (pausa)
Bonito isso, hein, “meu nome passará junto com a poeira dos dias”, vou usar.
Paul – Você disse “Meu nome passará como a poeira dos dias” e não “junto com
a poeira dos dias”.
William – Pra você que ver como eu já trabalhei, já melhorei o verso. Falei, melhorei,
falei de novo melhorado. Agora, vá você trabalhar.
Paul – Eu vou resolver isso.
Paul sai, aborrecido.
William – Vamos começar o ensaio!
Entram no palco, vários atores vestindo trajes do teatro elisabetano.
Alguns com trajes femininos, vestidos, corpetes, perucas. Paul entra trazendo um outro
ator mais baixo, também vestido em trajes femininos, ele é impetuoso
e excede um pouco nos modos masculinos.
Roger – William! William, olhe para isso, vestido branco de novo? É a terceira vez
que me botam num vestido branco!
William – Quando é preto o problema é que é preto, quando é branco o problema é que é branco. (para a plateia) Ator é inimigo! Ah! Você é uma máquina de fazer
problemas, Roger Brings.
John – Gente! Olha só, a peruca que me colocaram? Loira, eu? Ninguém vai acreditar
nisso. Dá pra me arrumar uma peruca morena?
William – John Pack, a plateia não acredita, a plateia imagina ou não imagina! Passe
sua peruca pra Roger Brings! Roger Brings passe seu vestido pra John Pack. E
me deixem trabalhar!
Roger – Vou ter que fazer pence, né?
John – Tá me chamando de gorda?
Roger – Fato!
William – Don´t fuck it up!1
William pega um pedaço de papel.
William – Paul Graham, venha cá!
Paul se aproxima. O autor lhe dá o pedaço de papel.
William – Interprete, por favor.
Paul Graham (interpretando Desdêmona) – “Não quero me separar de Otelo, nem
por um momento. Para isso me rendi a ele, como vassalo ao rei”
William – Para! Quanto você calça?
Paul – 42.
William (para na frente de um ator mais baixo ) – Quanto você calça?
Ator mais baixo – 38.
William – Me dá.
O ator tira os sapatos e dá para ele.
William (para Paul) – Tire seus sapatos e vista estes.
Paul – Esses? Você está brincando?
William – Rápido, rápido!
Paul – Não cabem!
William – Calce!
Paul calça, metade de seu pé fica pra fora.
William – Agora anda.
Paul anda com dificuldade.
William – Agora, por favor, tente novamente!
Paul (interpreta gemendo, tentando conter a dor nos pés) – “Não quero me separar de
Otelo, nem por um momento. Para isso me rendi a ele, como vassalo ao rei”.
William – Excelente! Excelente! Agora você começou a entender o que é a dor de
uma mulher!
O ator um pouco mais baixo dá uma risada irônica.
A risada chama a atenção de William.
William – Devo lhe conhecer.
Ator mais baixo gagueja, disfarçando a voz mais aguda que a dos outros.
William – Do que você riu?
Ator mais baixo – Nada não, senhor.
William – Ninguém ri de nada. Nada não é engraçado.
O Ator mais baixo olha para Paul que, nervoso, faz sinal para que ele responda.
Ator mais baixo – É somente porque a dor de uma mulher não é uma dor física,
como a dos pés. É uma dor na alma.
William olha com sobrancelhas arregaladas para Paul.
Paul coça a cabeça se compõe para responder.
Paul – Este é o meu amigo Trent Douglas, de quem lhe falei. Ele pertence à companhia
Rilley´s Men e está de passagem por Londres. Creio que poderá ajudar
com os papéis femininos, é a sua especialidade.
William – Você parece um homem bastante jovem. Até quando você pretende ficar
entre nós, Trent Douglas?
Trent – O tempo que for possível, senhor William.
William – E qual o papel que você sugere para o bom Trent, meu velho Paul?
Paul – Desdêmona, por que não? Ou mesmo a Lady MacBeth! Trata-se de um
grande ator.
William – O senhor Trent considera que tem “conhecimento” da alma feminina
para fazer bem estes papéis?
Trent – Tenho sim, senhor.
William oferece o mesmo pedaço de papel que ofereceu para Paul.
William – Interprete.
Trent (interpreta) – “Não quero me separar de Otelo, nem por um momento. Para
isso me rendi a ele, como vassalo ao rei”.
Trent força a barra para parecer um homem interpretando mulher e
William percebe se trata de uma artimanha. Paul tenta disfarçar.
Trent – Estou empregado, senhor?
William – Paul, passe com Trent as falas do jovem amante de Verona.
Paul – Mas, William, Trent é especialista em papéis femininos, vai fazer Romeu?
William – A única maneira de termos uma atriz na companhia e não sermos todos
presos em função desta maldita Lei do Pudor, é ela fazer papel de homem.
Paul – Droga!
William – O que você ainda não aprendeu, meu velho Paul Graham, é que você
pode até dividir os papéis entre femininos e masculinos. Mas não os atores. Os
atores não têm gênero, não têm sexo, não têm raça, não têm religião, não têm
países! Os atores são substância! Um dia, num futuro distante, a humanidade vai
aprender conosco que podemos, cada um de nós, ser tantos quanto quisermos.
Paul – Ah, tá, vai sim, lá pelos anos 2000!
William – Quando eu lhe digo: DRAG! Vista-se como uma garota! É esta a forma
que você deve tomar. E se eu lhe disser cadeira, esta é a forma que você vai tomar.
Paul – Agora você está tentando ser Beckett, William! Menos!
William – Todos os dramaturgos são um só! E quanto à esta lei ridícula de que
não podemos ter atrizes em cena, Paul Graham, paciência, ela vai cair assim que
acabar o Século XVII. Mas devo lhe agradecer. Achando que me enganaria, você
me deu uma grande ideia. Esta jovem atriz vai nos dar o Romeu mais incrível
que jamais tivemos, ela tem o ímpeto, a coragem, o desejo. Ela tem Romeu nos
olhos. Não importa se é menina, se é menino! O fato é que ninguém ao olhar
para ela, deixará de ver o jovem apaixonado de Verona!
O elenco bate palmas.
Paul – William, como é Verona?
William – Verona?
Paul – Sim, os amantes não são de Verona? Como é Verona?
William – Meu querido, eu não tenho a menor ideia! Eu sou apenas o autor!
Fim

5. Mondo Cane - parte 1

Uma pessoa parada na calçada mexendo no celular enquanto seu cachorro cheira tudo em
volta. Aparece uma outra pessoa trazendo outro cachorro. Os dois latem um pro outro.
Obs: Atores fazem também os papéis dos cachorros. Não precisam para isso, no entanto,
interpretar de quatro. Basta ter o comportamento do cachorro, estarem em coleiras,
próximos aos seus donos etc.


1 – Opa! Boa noite!
2 – Boa noite!
1 – É bravo?
2 – Nunca mordeu.
1 – É tipo o meu, estressadinho.
2 – Meu cachorro também é o maior estressado. Tremendo come-dorme. Queria
ver se ele tivesse a minha vida.
1 – Lá no meu escritório também tá um inferno.
2 – Um inferno, como sempre.
1 – É a crise.
2 – É a crise.
1 – E depois que inventaram isso aqui (mostra o celular), já viu, né? O expediente
não acaba.
2 – O meu não para, meia-noite meu chefe tá pedindo informação sobre o relatório.
1 – Meia-noite meu chefe tá mandando vídeo. E se eu não respondo kkkkkkk fica
chato, né?
2 – Tem que responder pelo menos um kkkkkkkkkkk.
1 – Vem cá, bonitinha, vem? Que cachorrinha mais linda.
2 – É macho.
1 – Ah, desculpe, eu não vi o saco, achei que era fêmea.
2 – É macho.
1 – Eu não castrei o meu por causa disso.
2 – É macho.
1 – É, agora fica essa confusão. O meu todo mundo sabe que é macho. Também
com essa cara de machão, né? Vem cá, machão! Cadê o garotão do papai?
2 – Tem tanta cara de macho quanto o meu.
1 – Ahahahaahahaha. O seu tem focinho de fêmea.
1 – Não era com o Duque, era com o Toddy, eu confundi.
2 – O Toddy? Ahahahahahahahahahaha
1 – O Toddy, não, o Bolt.
2 – O Bolt?
1 – Não! O Bolt não. Ah, eu confundo eles todos, são todos iguais! Cachorro é
tudo igual.
2 – Se eu fosse você, ficava esperto. Depois que as pessoas começam a comentar aí
já era. Você sabe do caso do Cristal, né?
1 – O que que aconteceu com o Cristal?
2 – O dono teve que se livrar. Tava todo mundo falando.
1 – Também com esse nome, né?
2 – Eu avisei que esse nome, não sei não. O dono quis, deu no que deu.
1 – Deu no que deu.
2 – Olha, tá me puxando, ele quer ir embora.
1 – É, o meu também.
2 – Boa noite aí.
1 – Boa noite aí também.
fim

6. Mondo Cane – parte 2


Agora, vamos ouvir a versão dos cães.


Uma pessoa parada na calçada mexendo no celular enquanto seu cachorro cheira tudo em
volta. Aparece uma outra pessoa trazendo outro cachorro. As duas pessoas latem uma pra
outra. Depois, enquanto ouvimos o diálogo dos cachorros elas apenas repetem o gestual
da cena anterior. Os dois cachorros se aproximam e se cheiram.


Max – E aí, cara, como tá o fígado?
Thor – Ah, tá difícil, irmão.
Max – É, tô sentindo o cheiro. Tá precisando beber mais água, hein.
Thor – Você tem razão! Será que é grave?
Max – Melhor cuidar!
Thor – Vou cuidar! Pode deixar! Mas, amigo, esse teu intestino aí... também não
tá com cheiro bom não, viu?
Max – É, meus donos trocaram minha ração. Tô vomitando há um mês e eles não
se tocam.
Thor – Você tem que se fingir de morto!
Max – Tenho medo deles me levaram pro hospital.
Thor – Isso é, tem esse risco. O Bolt foi se fingir de morto e chamaram a funerária.
Quase que recolheram ele no saco preto.
Max – Mas o Bolt é um lesado mesmo.
Thor – É meio lento, sim. Coitado.
Max – Dá uma latida.
Thor late.
Max – Late mais forte que eu quero ver uma coisa.
Thor late mais forte. Max cheira o traseiro dele.
Max – Amigo, você tem que comer mais mato. Tua barriga tá cheia de gases.
Thor – É verdade! Eu estou um saco de gases! E você deve estar também, vê se
livra dessa ração xumbrega aí.
Max – Já fiquei dois dias sem comer, eles não se tocam.
Thor – Dois dias?
Max – Mas aí não aguentei a fome, acabei desistindo.
Thor – Essa ração deve ser daquelas cheias de transgênico.
Max – Cheia? Ela é transgênico puro! Eles não leem a embalagem. Só querem
saber do preço.
Thor – Os meus são assim também. Não leem. Só querem saber do preço.
Max – Saudades do meu pai. Ele sempre me dizia das caçadas no mato, do cheiro
do sangue fresco das galinhas!
Thor – Angu com bofe! Tempo bom!
Max – Tempo bom que não volta mais!
Thor – Você notou a água? Como tá a água no teu prédio, hein? Lá em casa tá de
cloro que não dá nem pra beber direito. Um cheiro, fico até zonzo!
Max – Meu dono tá quase careca de tanto cloro na água. Mas ele acha que é estresse.
Thor – Tudo eles acham que é estresse.
Max – Tudo. Meu dono esses dias comeu peixe estragado, nem viu. O cheiro
quando ele pôs no prato, me revirou o estômago. Daí ele passou mal e achou
que era estresse.
Thor – Teu dono come olhando no celular?
Max – Direto! Nem olha a comida.
Thor – O meu de vez em quando fotografa com o celular.
Max – Eles são assim mesmo.
Thor –Você sentiu o cheiro da Lady, aquela que mora ali no final da rua.
Max – Ah, que maravilha, que cheiro delicioso que ela tem!
Thor –O que será que ela está comendo pra ter um cheirinho tão bom?
Max – Não sei, mas eu fico doido também. Cheiro ela todinha! É uma delícia!
Thor – E sabe quem tá com esse cheiro também? O Duque!
Max – O Duque tá muito cheiroso mesmo! Encontrei ele no parque cheirei ele
todinho!
Thor – Ah, como eu queria dar uma cheiradinha no pescocinho dele agora!
Max – Ah, se a Lady ou o Duque estivessem passando aqui agora!
Thor cheira o pescoço do Max. Max cheira o rabinho do Thor.
Thor – Até que você não tá dos piores, não, companheiro! Teu cheirinho tá um
pouquinho azedo, mas tá bom!
Max – O teu também, companheirão! Muito melhor cheirar o teu do que o meu!
Os dois continuam se cheirando, interessadamente.
Thor – Coisa esquisita!
Max – Que foi?
Thor – Eles estão olhando pra gente com uma cara esquisita.
Max – Estão mesmo.
Thor – Eu, hein. Tá sentindo a energia?
Max – Eles estão com raiva, não tão, não?
Thor – Tão com raiva ou tão com medo?
Max – Eu acho que eles estão com raiva de ter medo.
Thor – Ah, isso acontece muito. Eles não gostam de sentir medo.
Max – E como eles acham que vão viver sem sentir medo?
Thor – Eles são assim mesmo.
Max – Melhor a gente ir embora, viu. Esse papo deles tá muito pesado. Não sei
do que que eles estão falando, mas tá ficando pesado. Vai acabar sobrando pra
gente. Puxa teu dono que eu puxo o meu.
Thor – Pode crer. Vamos nessa. Valeu, cara. Tudo de bom pra você!
Max – Pra você também, companheiro. Força aí com esses donos esquisitos.
Thor – Estou ligado! Cuidado com essa ração vagaba no teu fígado. Até mais!
Max – Até!
Fim

6. No armário


Luca é um garoto de uns 11 anos, usa bermuda, camiseta e boné.
Está com uma lanterna na mão, nenhuma outra luz no palco.


Ele ilumina seu rosto, fazendo diferentes caretas, a cada personagem.


Luca (fala imitando a voz de sua Mãe) – Não quero você dentro do meu armário,
Luca! Não! Não! Não! Não é não! Nada de fazer bagunça nas coisas da mamãe.
Vai brincar no play! Vai jogar bola com seus amigos!
Luca (fala imitando outra voz) – Vem, Luca, vem! Vem vestir as roupas da mamãe,
que que tem? Vai ser divertido!
Luca mira a lanterna sobre um sapato de salto.
Depois sobre uma saia. Depois sobre uma peruca.
Luca – Desculpem, mas eu não posso vestir vocês. Minha mãe fica bolada.
Luca faz uma voz fina e aponta a lanterna para o Sapato de Salto – Poxa, que pena,
Luca!
Luca (faz outra voz e aponta a lanterna para a saia) – Sua mãe tem razão! As pessoas
vão falar mal de você! Ninguém vai te querer no time!
Luca (faz outra voz e aponta lanterna para a peruca) – Obedeça sua mãe, garotinho!
Se ela te pegar aqui, você tá frito!
Luca – Ah. Está bem. Vou jogar bola no play, então!
Luca abaixa a lanterna, desanimado e vai saindo. Não vemos mais nada no palco.
Sapato de Salto (com voz bem grave) – Volta aqui, garoto!
Luca lança a luz da lanterna de volta para o sapato de salto e agora tem um homem nele.
Sapato de Salto (irritado) – Para com essa bobeira de não poder me vestir!
Luca – Essa voz não sou eu quem está fazendo!
Sapato de Salto – Você estava fazendo uma voz péssima para mim. Não gostei.
Luca – Um sapato de salto falando!
Sapato de Salto – Eu não sou um sapato de salto, eu sou O Sapato de Salto.
Luca – Que piração!
Sapato de Salto – Eu não costumo falar porque eu sou O sapato de salto e um bom
sapato de salto, dispensa explicações. Ele é uma presença em si. Compreendeu?
Peruca – Ele sempre foi assim, arrogante.
Luca ilumina a peruca e agora tem um homem nela.
Saia – Começaram!
Luca ilumina a saia e agora tem um homem nela.
Saia – A graça para eles é a disputa. Relax, galera, valeu?
Luca (grita) – Caraca, o que que tinha no meu Nescau hoje?!
Sapato de Salto– Psiu! Fica na tua, moleque. O papo aqui vai ser reto.
Luca – Meu pai não vai acreditar que o sapato de salto da mamãe é homem!
Peruca – Gente, eles só pensam nisso, quem é homem, quem é mulher. Que obsessão!
Sapato de Salto – Um dia eles vão entender, Luca. O importante agora é você saber
a verdade sobre nós.
Saia – Nós, quem, cara pálida?
Peruca – Eu posso falar por mim, não preciso de porta-voz não.
Sapato de Salto – Eles implicam comigo.
Saia – É claro, você tem um rei na barriga!
Sapato de Salto – Ah quem me dera ter um rei na minha barriga! Aquilo sim é
que era vida! Você não sabe, Luca, mas eu já passei por muita coisa. Eu comecei
minha carreira no Egito Antigo, ralando. Eu era usado para que os açougueiros
não escorregassem enquanto eles caminhavam sobre litros e litros de sangue.
Peruca – Foi aí que ele tomou gosto por tirar um bifinho dos pés dos outros.
Sapato de Salto – Depois, fui pra Idade Média. Fiquei tão famoso que os nobres,
passaram a me usar para atravessar as cidades sujas e cheias de lama, mantendo
os pés limpos.
Peruca – Grandes coisas! Agora conta o que você fazia no Oriente, conta.
Sapato de Salto – Estas são lembranças tristes.
Luca – O que você fazia?
Sapato de Salto – Prefiro não dizer.
Peruca – Ele impedia que as mulheres fugissem dos haréns.
Luca – Que barra!
Peruca – Sim, ele foi instrumento de tortura!
Saia – Toda peruca é fofoqueira.
Peruca – É pra quem pode, não é pra quem quer.
Sapato de Salto – Até que finalmente o Rei Luís XIV entendeu a minha verdadeira
vocação, a beleza!
Peruca – Ele acha que é o sol.
Sapato de Salto – Eu trabalhei duro para chegar onde cheguei, tive que aguentar
muita coisa.
Peruca – Trabalhou duro nada, você deu foi sorte que aquele rei não gostava de
ser baixinho e usou você para parecer alto!
Luca – Meu pai sabe disso?
Sapato de Salto – Eu bombei! Virei um sucesso! Todo mundo me queria, todo
mundo, homens e mulheres!
Luca – Que babado!
Saia – Chega de blá-blá-blá. Luca, o negócio é o seguinte. Nós estamos de saco
cheio, sabe. Nós queremos a sua ajuda. Você precisa nos libertar deste armário.
Luca – Vocês querem que eu coloque vocês no armário do papai? A mamãe vai
ficar uma fera!
Peruca – Isso não resolveria nada! Mas a gente tem uma amiga nossa que está presa
lá dentro do armário do seu pai, a gravata. Coitada.
Saia – Luca, preste atenção: Nós queremos viver na varanda.
Luca – Na varanda?
Saia – Exatamente. Precisamos relaxar. A vida tá chata, sabe, Luca? Tudo muito
tenso!
Peruca – A gente tem outras vocações, esse negócio de ficar confinado dentro de
um armário, não dá mais! Papai-mamãe, armário da mamãe, armário do papai,
pô! A gente é de outro tempo!
Luca – Eu sempre quis usar saia!
Saia – Olha, eu sou super cuca fresca.
Luca – Sério?
Saia – Pra mim, está em aberto.
Luca – Tipo, bastante arejado?
Saia – Por aí.
Luca – E eu também sempre quis usar peruca! Mas não é coisa de mulher?
Peruca (colocando a peruca em Luca) – “De homem”, “de mulher”. Isso é coisa que
colocaram na sua cabeça! (mostra Luca de peruca para Saia) Não ficou in-crí-vel?
Luca (está boquiaberto) – Não estou parecendo mulher?
Peruca – Meu amor, não me interessa se parece mulher, se parece homem. Tem
que ser é in-crí-vel.
Saia – Então, pra gente, tudo bem. Sacou, Luca? Pra gente, tudo bem!
Sapato de Salto – Reis, rainhas, príncipes, princesas... todo mundo me queria!
Peruca (em separado para Luca) – Delírio de ruína, coitado.
Saia – Luca, leva a gente pra varanda.
Peruca – Leva?
Luca os olha com os olhos bem abertos, maravilhados.


Fim

7. Explique-se

Duas pessoas de jaleco branco. As duas usam maquiagem e cabelos extremamente
bonitos, tipo top model. Eles são lindos, são perfeitos.
São androides. O público perceberá isso aos poucos. Entra um rapaz bastante comum.

Pedro – Oi, Norma, como tem passado?
Norma – Já foi melhor. Mas eu não desisto. Obrigada. Gostaria de lhe apresentar
meu novo funcionário, Guerra Júnior.
Guerra – Boa tarde. Pode me chamar de Guerra.
Pedro – Oi, Guerra, eu sou Pedro. Já tinha ouvido falar de você.
Guerra – Sente-se. Nós trouxemos você aqui porque soubemos que você estaria
tendo dificuldades de atender algumas orientações da nossa chefe. (aponta Norma)
Pedro – Eu?
Norma (com empáfia) – Nós vamos lhe fazer algumas perguntas objetivas. Responda
objetivamente também.
Pedro – Norma, você sabe, nós não somos lá muito objetivos/
Norma – O senhor poderia jurar dizer a verdade sobre o meu livro?
Guerra lhe entrega um grande e pesado livro, na capa está escrito: Livro da Norma.
Pedro – Ok.
Norma – O senhor jura dizer o que convém, somente o que convém, nada mais
do que o que convém?
Pedro (desconfortável) – A-hã.
Norma – Obrigada.
Guerra – Nós tivemos a informação de que o senhor teria estado na praça pública
por toda a manhã de ontem. Isso é verdade?
Pedro – Sim!
Guerra – E que no momento anterior, o senhor teria ido à feira e comprado não
apenas uma ou duas, mas meia dúzia de laranjas.
Rapaz hesita, a pergunta lhe parece desnecessária.
Norma – É verdade que o senhor teria comprado não apenas uma ou duas, mas
meia dúzia de laranjas?
Pedro – Eu procurava limões, mas como não tinha, eu tive que...
Guerra – O senhor afirma ter comprado não apenas uma ou duas, mas meia dúzia
de laranjas.
Pedro – Eu não/Eu sim
Norma – E teria levado não apenas uma ou duas, mas meia dúzia de laranjas para
a praça pública.
Pedro (para Guerra) – A Norma não gosta muito de laranjas, né?
Norma – Guerra! Ele confessa que comprou não apenas uma ou duas, mas meia
dúzia de laranjas.
Pedro – Tudo bem, Norma, reconheço a importância de suas orientações, mas/
Norma (para Guerra) – Guerra, prossiga.
Pedro (para a plateia) – A Norma não me ouve, impressionante.
Guerra – Após levar as laranjas para a praça pública, o que o senhor fez com as
laranjas?
Pedro fica mudo.
Norma – Após levar as laranjas para a praça pública, o que o senhor fez com as
laranjas?
Pedro – Eu...
Guerra – Após ter levado as laranjas para a praça pública, o senhor teria comido
estas mesmas laranjas?
Pedro – Norma, eu entendo que você não goste de laranjas. Mas eu/
Norma – Ele confessa que após ter levado as laranjas para a praça pública, teria
comido esSas mesmas laranjas.
Guerra – O senhor pode nos descrever de que modo procedeu nesSe momento?
Pedro – Do único modo possível, com a boca!
Norma – Procedeu com a boca.
Guerra – Para isso, o senhor usou... uma faca?
Pedro – Faca? Não, faca não! Eu usei um descascador!
Guerra – Um descascador?!
Norma – Um descascador! Guerra! Ele confessa que descascou a laranja!
Pedro – Malditos!
Guerra – Diante desta evidência, só podemos considerar que o senhor chupou a
laranja.
Norma – Sim, porque se tivesse espremido a laranja não precisaria ter descascado.
Guerra – Sim, porque se tivesse comido em gomos, teria usado uma faca.
Pedro – Sim, mas é que...
Norma – O senhor confessou que não usou uma faca, mas um descascador!
O rapaz segura a testa, desanimado.
Guerra – O senhor chupou ou não chupou a laranja?
Pedro fica mudo.
Norma – O senhor chupou ou não chupou a laranja?
Pedro – Por que não chupar a laranja?!
com isso?
Norma – Ele confessa que teria chupado não uma ou duas, mas meia dúzia de
laranjas.
Pedro – Você nunca vão conseguir entender isso, não é?
Guerra – O senhor sabe que, de acordo com a Norma, não é permitido chupar
laranjas. Portanto, explique-se!
Pedro – Explique-se a Norma!
Guerra – A Norma não precisa se explicar. Eu estou aqui para defender a Norma.
Norma (faz um coração com as mãos) – Guerra, só você me salva!
Pedro – Logo você, Guerra? Logo você? Tá careca de saber que os grandes soldados
chupavam laranja! Alexandre O Grande, o maior guerreiro de todos os tempos,
chupava muita laranja!
Guerra – Isso é verdade, Norma.
Norma arregala os olhos, momento arriscado para ela.
Pedro (sincero) – Norma, você precisa mesmo se meter nisso?
Guerra – A Norma está sendo muito generosa.
Norma – Obrigada!
Guerra – Ela está lhe fazendo um favor.
Pedro – Que favor?
Norma – Eu impeço que suas pernas andem uma para cada lado, meu querido! Eu
impeço que você fique confuso com opções demais!
Pedro – Norma, acho que você deveria ter outras prioridades, como, por exemplo,
impedir que nossos impostos virem mansões, iates/
Norma – Guerra! Ele está fugindo do assunto. Proceda!
Guerra – O senhor devia nos agradecer. Diante de uma laranja, você não precisa
ter dúvidas. Se quiser beber, esprema. Se quiser comer, corte em cubos. Chupar
é uma distorção, uma falha.
Norma – Veja bem, estamos lhe dando a melhor das condições. A você é permitido
espremer quantas laranjas quiser... Comer cubos de laranjas se quiser! Esprema!
Coma! Mas não chupe, chupar não é permitido!
Guerra – Aproveite esta liberdade que nós estamos lhe dando! O senhor não percebe
como é confortável? Já está tudo organizado! O senhor está escolhendo a
bagunça. Depois, vai se arrepender.
Pedro – Eu não escolhi!
Norma – Como não escolheu? Já está tudo organizado e mesmo assim você fez
diferente.
Pedro – Chupar a laranja faz parte de mim. Como eu posso escolher ou não escolher
algo que faz parte de mim? Desde que o mundo é mundo, se chupa laranja!
Não é uma escolha!
Guerra – A partir do momento em que a Norma organizou isso...
Pedro – Norma, você tá pirando num grau!
Norma – Ele está me irritando.
Guerra – O senhor não está agradando a Norma.
Pedro – Mude a Norma e eu não estarei mais desagradando ela!
Guerra – Mudar a Norma?
Norma dá uma longa risada má.
Pedro – Por que não?
O riso da Norma começa a virar choro. Antes que Pedro perceba isso,
Guerra pega Pedro pelo braço e o conduz para fora da sala.
Guerra – Aguarde lá fora, por favor!
Norma está aos prantos, mas ela chora como um robô choraria.
Guerra a pega pelos braços.
Guerra – Norma! Comporte-se!
Norma – Eu quero mudar, eu quero mudar!
Guerra – Não quer, Norma! Você não quer mudar, não dê ouvidos a esse... a esse...
humano!
Norma (sofrendo) – Humano! Eu não sou humana!
Guerra – Não, Norma, você não é humana! Eu também não! Repita comigo, Norma.
Norma não é humana!
Norma – Norma não é humana!
Guerra – Guerra não é humano!
Norma e Guerra (juntos) – Norma e Guerra não são humanos!
Norma se acalma.
Guerra – Muito bem, Norma! Se controla. (gritando loucamente) Se a própria Norma
não se controlar/
Norma fica boquiaberta. Guerra para e se controla. Fica todo duro, revelando
totalmente o androide que é. Vai até o lado de fora, traz Pedro pelo braço.
Guerra – Então, o senhor intenciona mudar a Norma apenas para o senhor chupar
laranjas?
Pedro – Por que não? As laranjas existem! Eu existo!
Guerra – O senhor acha justo? Enquanto todo mundo espreme a laranja, ou come
a laranja, conforme orienta a Norma, o senhor chupa?
Pedro – Muitos fazem isso. Só que fazem escondidos e vocês fingem que não sabem!
Norma – Escondido é diferente.
Guerra – Escondido ninguém tem nada com isso!
Pedro – Não precisa esconder! Chupar laranjas é humano!
Norma – Humano!
Guerra – Não diga essa palavra!
Norma – Nunca mais diga essa palavra!
Guerra (para Norma) – Ele tem que ser condenado.
Norma – Podemos lhe dar uma última chance.
Pedro – Não quero chance, quero chupar minhas laranjas em paz!
Norma – Vou acionar a guarda!
Guerra faz um sinal para que ele espere.
Os dois ouvem Pedro com a máxima curiosidade.
Pedro – Vocês não sabem, vocês nunca vão saber o que é pegar uma laranja, ter o
cuidado de descascá-la, abri-la ao meio e chupá-la!
Guerra – Pare!
Pedro – Vocês nunca vão saber o que é sentir o suco da laranja não num copo,
não numa garrafa pet, mas escorrendo da própria fruta para sua garganta, num
momento de profunda entrega, de profunda comunhão!
Norma (tentando se controlar) – Entrega! Comunhão!
Pedro – Vocês nunca saberão o que é, de verdade, uma laranja! Nunca vão saber!
Pra vocês a laranja será sempre uma vaga lembrança numa frustrante embalagem
tetra pack!
Guerra – Ele está me provocando!
Norma – O senhor está provocando o Guerra!
Pedro – Dane-se! Eu chupo laranjas sim, e daí?
Guerra – Guardas!
Os guardas entram e levam o rapaz que sai rindo, extasiado.
Norma e Guerra ficam muito duros e tremem por alguns segundos.
Até que se recuperam.
Norma – Impressionante!
Guerra – Impressionante!
Norma – É um perigo.
Guerra – Se todos começam a chupar laranja, o que será de nós! Estamos acabados,
Norma!
Norma – Sim, estaremos acabados, Guerra!
Guerra – Ninguém mais vai querer espremer!
Norma – Ninguém mais vai querer comer cortada em cubos!
Guerra – Você já imaginou? Sete bilhões de pessoas chupando laranjas?
Norma – Até você?
Guerra – Até você?
Fim

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