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O Ritual / Samir Yazbek

O RITUAL

Samir Yazbek

Direitos Autorais

Este texto foi escrito especialmente para as escolas participantes do Projeto Conexões Teatro Jovem e do NT Connections (UK) e fez parte do seu portfólio dos dois projetos ano de 2012.
Qualquer montagem fora do Projeto deverá ser negociada com o autor ou seus agentes sobre os direitos autorais.

Samir Yazbek samiryazbek@hotmail.com

PREFACIO

PERSONAGENS

(por ordem de entrada a partir da Cena 1)

Joel, 19 anos, ex-namorado de Márcia.

Mauro, 18 anos, namorado de Bianca.

Celso, 15 anos, irmão de Ana.

Ana, 16 anos, irmã de Celso.

Bianca, 17 anos, namorada de Mauro.

Lia, 18 anos.

Márcia, 18 anos, ex-namorada de Joel.

CENÁRIO

Palco nu (vários locais).

AÇÃO

Ao longo de um mês.

Proposta de encenação: Quando o público estiver no teatro, os intérpretes entrarão em cena. Cada um fará algo para que a peça possa começar. A ação mais evidente é um retângulo no chão, feito pelo ator que interpreta Joel e pela atriz que interpreta Márcia, com fita adesiva branca, demarcando a área de atuação. No fundo do palco, sete cadeiras pretas estão alinhadas. É para lá que todos se dirigem, cada um em seu tempo. Está na mão do ator que interpreta Joel determinar, com um sinal para a cabine, o momento do terceiro sinal, em que as luzes da plateia se apagarão e a apresentação terá início. Toda a encenação dependerá das entradas em cena de cada ator, voltando em seguida a sentar em sua cadeira. Sugere-se que haja suficientes variações nesta proposta, conforme as escolhas do diretor. A trilha sonora desta peça, na montagem dirigida pelo autor, com alunos da Escola Superior de Artes Célia Helena, que estreou no Projeto Conexões em 2012, trazia músicas de Elvis Presley.

CENA 1

Uma praça. Joel entra com um celular na mão, ouvindo uma música, pensativo. Depois de um tempo parado, troca de música e volta a caminhar, mais animado. Antes de Joel sair de cena, entra Mauro.

MAURO – Fala, Joel!

JOEL – (Desligando o celular) Fala, cara.

MAURO – Que está fazendo aqui, sozinho?

JOEL – Ouvindo umas músicas, pensando.

MAURO – Está tudo bem?

JOEL – Tudo. E com você?

MAURO – Tudo bem.

JOEL – Está fortinho, hein?

MAURO – Cala a boca, Joel.

JOEL – E a Bianca?

MAURO – A Bianca está bem.

JOEL – E vocês?

MAURO – Que tem a gente?

JOEL – Estão bem também?

MAURO – Acho que sim.

JOEL – Acha?

MAURO – Por que você está me perguntando isso, Joel?

JOEL – Tem certeza que vocês estão bem?

MAURO – Eu não estou te entendendo.

JOEL – Você não confia demais na Bianca, não?

MAURO – Você está sabendo de alguma coisa?

JOEL – Não, só me passou pela cabeça.

Entram Celso e Ana. Ana está com a cara de quem acabou de chorar.

JOEL – E aí, Celsinho, tudo bem?

CELSO – Tudo.

JOEL – Soube que você entrou para o grupo de teatro da escola.

CELSO – Já te contaram, é?

JOEL – Parabéns!

CELSO – Obrigado.

JOEL – Vai ser bom para você se desinibir um pouco. (Referindo-se à Ana) Aconteceu alguma coisa com a sua irmã?

CELSO – Ela brigou com o namorado.

ANA – Celso!

CELSO – Calma, Ana.

ANA – Eu já disse para você não falar isso para ninguém!

Sai Ana.

CELSO – Esse cara ainda vai acabar com ela.

MAURO – O que ele fez?

CELSO – Traiu ela.

MAURO – Sério?

CELSO – Ela está sofrendo muito.

JOEL – Eu sei o quanto a sua irmã está sofrendo.

Joel vai para um canto, pensativo.

MAURO – Que foi, Joel?

JOEL – Que tal a gente se encontrar em casa amanhã?

MAURO – Para quê?!

JOEL – Eu tive uma ideia.

MAURO – Que ideia?

JOEL – Eu só posso contar amanhã. Você vai, Mauro?

MAURO – Quando é que eu não me interesso pelas suas ideias?

JOEL – E você, Celsinho?

CELSO – Eu preciso ir?

JOEL – Claro que sim.

CELSO – Então eu vou.

JOEL – E vê se leva a sua irmã, eu acho que vai ser bom para ela.

CELSO – Eu vou tentar.

JOEL – (Para Mauro) E você chama a Lia.

MAURO – A Lia?

JOEL – Para essa minha ideia, a Lia é ótima. Agora eu vou embora, tenho de preparar umas coisas para amanhã. Até mais.

MAURO – Até.

Sai Joel. Celso cumprimenta Mauro e sai.

CENA 2

Quarto da casa de Mauro. Ele está deitado no chão. Entra Bianca. Ela aproxima-se, sensual. Mauro resiste.

BIANCA – Que aconteceu, Mauro?

MAURO – Por quê?

BIANCA – Você está estranho.

MAURO – Você é que está me olhando estranho.

BIANCA – Quer falar alguma coisa?

MAURO – Está tudo bem. (Um silêncio) Alguma vez você me traiu?

BIANCA – Que pergunta!

MAURO – Responde.

BIANCA – Claro que não.

MAURO – Tem certeza?

BIANCA – Por que isso agora?

MAURO – Fala a verdade.

BIANCA – Alguém te disse alguma coisa?

MAURO – Não, eu só estou pensando.

BIANCA – (Saindo) Acho melhor eu ir embora.

MAURO – (Segurando-a) Você ficou chateada?

BIANCA – Amanhã à tarde a gente se vê, Mauro.

MAURO – Amanhã à tarde?

BIANCA – É, qual é o problema?

MAURO – É que amanhã eu não posso.

BIANCA – Por quê?

MAURO – Tem uma reunião na casa do Joel.

BIANCA – Algum trabalho da escola?

MAURO – Não, é outra coisa.

BIANCA – Vocês não param de fazer reunião na casa do Joel.

MAURO – É que dessa vez é diferente.

BIANCA – Qual é a diferença?

MAURO – Ele quer falar com a gente.

BIANCA – A gente quem?

MAURO – Nossos amigos.

BIANCA – Sobre o quê?

MAURO – Ele não disse.

BIANCA – Mas tem de ser amanhã?

MAURO – É que ele pediu.

BIANCA – Amanhã é sábado, Mauro!

MAURO – Bianca, por favor.

BIANCA – (Saindo) Você é quem sabe.

MAURO – Volta aqui, Bianca.

Sai Bianca. Mauro sai atrás dela.

CENA 3

Uma rua. Lia está esperando um ônibus. Entra Mauro.

MAURO – Oi, Lia.

LIA – Oi, Mauro.

MAURO – Tudo bem com você?

LIA – Tudo, e com você?

MAURO – Tudo indo.

LIA – Que bom.

MAURO – O Joel pediu para eu te dar um recado.

LIA – Que recado?

MAURO – Ele quer que você vá até a casa dele, amanhã à tarde.

LIA – Eu?

MAURO – Não só você.

LIA – Ah! Tá. Mas para quê?

MAURO – Ele não quis dizer. Mas parece que é uma coisa bacana.

LIA – Ai, esse Joel.

MAURO – Você vai?

LIA – Vou, né? Fazer o quê?

Mauro aproxima-se de Lia, sedutor.

MAURO – Lia... E a gente?

LIA – Que tem a gente, Mauro?

MAURO – Uma vez você disse que gostava de mim.

LIA – Nossa... Isso faz tanto tempo.

MAURO – Não gosta mais?

LIA – Não é isso. É que a minha vida mudou muito nesses últimos anos.

MAURO – Mudou como?

LIA – Eu não quero mais me relacionar com ninguém.

MAURO – Por quê?

LIA – Já sofri demais, chega. E outra, você não está com a Bianca?

MAURO – Estou, mas as coisas não estão dando muito certo.

LIA – Por quê?

MAURO – Sei lá.

LIA – Desde quando isso?

MAURO – Não sei.

LIA – Não sabe de mais nada?

MAURO – É, não sei de mais nada.

LIA – Então tá, quando você souber, a gente conversa. Agora eu preciso ir. Até amanhã, na casa do Joel.

MAURO – Até amanhã, Lia.

Mauro sai.

CENA 4

Garagem da casa de Joel. Ele começa a arrumar umas cadeiras que formam uma arena aberta na direção do público. Entram Mauro, Celso, Ana e Lia. Sentam-se. Joel começa a falar.

JOEL – Bem, vocês devem estar se perguntando por que eu chamei todo o mundo aqui, não é?

MAURO – Com certeza.

JOEL – É que eu percebi que vocês estão sofrendo demais por causa desse negócio chamado “amor”. E eu acho que não deviam. Analisando o ser humano, a melhor coisa é não se entregar a ninguém. Só ficar por um tempo e depois cair fora. Porque, se você não cair, a outra pessoa é que vai. Eu quero fazer uns encontros para fortalecer os nossos espíritos. Como o sofrimento é inevitável, a partir de agora a gente só vai fazer os outros sofrerem. Nunca mais sofrer, entenderam? E então, Mauro? O que você acha disso tudo?

MAURO – Interessante.

JOEL – Posso contar com você?

MAURO – Claro que pode.

JOEL – E você, Celsinho?

CELSO – Você sabe que eu não entendo muito bem desses assuntos.

MAURO – Para com isso, Celsinho.

JOEL – Você precisa virar homem, Celsinho. E aqui vai ser um bom lugar para você começar a fazer isso.

CELSO – Então eu fico.

JOEL – Ótimo. E você, Lia?

LIA – Nem precisava me perguntar, não é?

JOEL – (Para Ana) E você, menina?

Ana começa a chorar.

ANA – (Para Celso) Eu posso ir embora?

JOEL – Já?!

CELSO – Fica mais um pouco, Ana.

ANA – Eu não estou aguentando!

Sai Ana.

JOEL – Mas o que aconteceu?

CELSO – Eu não sei mais o que fazer com ela.

MAURO – Coitada.

JOEL – Coitada nada. Ela também tem culpa pelo que está acontecendo com ela. Vamos esclarecer uma coisa. Quem quiser ficar, que fique. Mas quem ficar, não pode mais sair, combinado?

MAURO – Não pode mais sair?

JOEL – É. Se a gente quiser fortalecer os nossos espíritos, precisamos ser mais radicais.

MAURO – “Radicais” como?

JOEL – Vocês vão ter de confiar em mim. Senão, é melhor sair agora. Você quer sair, Mauro?

MAURO – Eu não!

JOEL – E você, Lia?

LIA – Claro que não.

JOEL – Celsinho?

CELSO – Eu também não.

JOEL – Ótimo. Vamos fazer um pacto contra o sofrimento. Pela força dos nossos espíritos!

LIA – E como a gente vai chamar esses encontros?

JOEL – Precisa de um nome?

LIA – Seria bom. Posso sugerir?

JOEL – Claro.

LIA – “Ritual”. A gente faria uma espécie de ritual para fortalecer os nossos espíritos!

JOEL – Ótimo. Faremos o nosso ritual, então.

Joel adianta-se até o centro da garagem, de frente para o público, e coloca seu braço sobre o peito, sugerindo que todos o imitem.

JOEL – Agora repitam comigo.

Todos repetem cada parte da frase, separadamente.

JOEL – Eu juro / Ser fiel ao ritual / Para o bem do nosso grupo / E o meu próprio bem.

Joel ergue seu braço direito, com força, sugerindo que todos o imitem.

JOEL – Pela força dos nossos espíritos!

TODOS – Pela força dos nossos espíritos!

Saem Lia e Celso. Joel começa a guardar as cadeiras.

MAURO – Joel.

JOEL – Que foi?

MAURO – Posso falar com você?

JOEL – Aconteceu alguma coisa?

MAURO – É que eu estou preocupado com a Bianca.

JOEL – Por quê?

MAURO – Será que ela poderia participar dos nossos encontros?

JOEL – Você não entendeu nada do que a gente conversou, não é, Mauro? Aqui nós precisamos de liberdade. Você nem sabe o que vai acontecer, e já quer trazer sua namorada?

MAURO – É que ela está ficando chateada com essa história.

JOEL – Se você tem medo da reação dela, é porque não está preparado para ficar. Você não vê que é jovem demais para se envolver desse jeito? Com tanta garota por aí, você só está perdendo seu tempo.

MAURO – Mas e você?

JOEL – Que tem eu?

MAURO – Não gosta mais da Márcia?

JOEL – (Incomodado) Isso acabou faz tempo. (Um silêncio) Agora eu tenho de fazer umas coisas.

MAURO – Tudo bem.

JOEL – Até mais, Mauro.

MAURO – Até mais, Joel.

Saem Joel e Mauro.

CENA 5

Quarto da casa de Ana. Ela e Celso conversam.

CELSO – Precisava sair daquele jeito da casa do Joel?

ANA – O Joel está ficando louco.

CELSO – Por quê?

ANA – Aquela conversa é de maluco.

CELSO – Eu não acho.

ANA – Eu não vou perder meu tempo com esses encontros.

CELSO – Ana, eu estou preocupado com você.

ANA – Por quê?

CELSO – Você não para de chorar!

ANA – E você acha fácil passar pelo que eu estou passando?

CELSO – Aquele cara não quer mais nada com você!

ANA – É melhor você não se intrometer nessa história!

CELSO – Eu só estou querendo ajudar.

ANA – Só que você está atrapalhando! (Um silêncio) Você não sabe o que meu ex me prometeu.

CELSO – Quer dizer que uma pessoa não pode mais se separar de outra?

ANA – Traindo, não!

CELSO – Mas agora isso não importa mais, Ana.

ANA – É claro que importa! Ele precisa aprender a não fazer isso com as pessoas.

CELSO – E o que você vai fazer para ele aprender?

ANA – Você vai ver o que eu vou fazer.

CELSO – Ana...

ANA – Todo o mundo vai ver!

CELSO – Você está me assustando.

ANA – É para assustar mesmo.

Sai Ana.

CENA 6

Uma festa. Joel e Lia conversam.

JOEL – Que bom que você foi na minha casa, Lia.

LIA – Você sabe que eu não resisto a um convite seu, Joel.

JOEL – Sei...

LIA – As pessoas às vezes me acham fácil.

JOEL – São uns hipócritas. Você tem muito a ensinar para a gente.

LIA – Tenho nada.

JOEL – Você tem os pés no chão.

LIA – É, pode ser.

JOEL – Você só precisa ser você mesma nesses encontros.

LIA – Eu sempre sou eu mesma.

Joel a beija, ela se afasta.

LIA – E você com a Márcia?

JOEL – Que tem?

LIA – Conseguiu esquecer?

JOEL – (Tentando beijá-la novamente) Completamente.

LIA – (Esquivando-se) Tem certeza?

JOEL – (Agressivo) Que é, Lia? Ela não merecia nada do que eu fiz por ela!

LIA – (Assustada) Bom... Agora eu preciso ir embora. Depois a gente conversa. Tchau, Joel.

JOEL – Tchau, Lia.

Sai Lia. Joel tenta segurá-la, mas não consegue. A atriz que interpreta Bianca levanta-se, com um buquê de rosas na mão, e olha para Joel, surpreendendo-o.

BIANCA – Por que você não tenta de outra maneira?

Bianca aproxima-se de Joel, entregando-lhe o buquê de rosas.

BIANCA – Por que você não faz de um jeito diferente?

Joel resiste em receber o buquê, mas o faz. A atriz volta a sentar. Aflito, Joel tira seu celular do bolso, tenta fazer uma ligação, mas não consegue falar com ninguém. Ao desligar o celular, diz “merda”. Volta a sentar, jogando o buquê no chão.

Cena 7 – Uma rua. Mauro e Bianca conversam.

MAURO – Não dá, Bianca.

BIANCA – Por quê?

MAURO – Não é legal misturar as coisas.

BIANCA – Mas eu não sou sua namorada?

MAURO – Não tem nada a ver a gente ir junto.

BIANCA – Mas o que vocês fazem lá?

MAURO – A gente só conversa.

BIANCA – Sobre o quê?

MAURO – Conversa de amigo.

BIANCA – Você não quer me falar, é isso?

MAURO – É que eu não posso.

BIANCA – Não pode por quê?

MAURO – Foi um trato que a gente fez.

BIANCA – Que tipo de trato?

MAURO – Segredo!

BIANCA – E você quer que eu aceite essa situação?

MAURO – Pelo menos tenta, né?

BIANCA – Eu juro que não estou te reconhecendo!

MAURO – Ah, Bia, não complique as coisas, pelo amor de Deus.

BIANCA – Pode deixar, Mauro, eu não vou mais complicar.

Sai Mauro.

CENA 7

– Uma rua. Mauro e Bianca conversam.

MAURO – Não dá, Bianca.

BIANCA – Por quê?

MAURO – Não é legal misturar as coisas.

BIANCA – Mas eu não sou sua namorada?

MAURO – Não tem nada a ver a gente ir junto.

BIANCA – Mas o que vocês fazem lá?

MAURO – A gente só conversa.

BIANCA – Sobre o quê?

MAURO – Conversa de amigo.

BIANCA – Você não quer me falar, é isso?

MAURO – É que eu não posso.

BIANCA – Não pode por quê?

MAURO – Foi um trato que a gente fez.

BIANCA – Que tipo de trato?

MAURO – Segredo!

BIANCA – E você quer que eu aceite essa situação?

MAURO – Pelo menos tenta, né?

BIANCA – Eu juro que não estou te reconhecendo!

MAURO – Ah, Bia, não complique as coisas, pelo amor de Deus.

BIANCA – Pode deixar, Mauro, eu não vou mais complicar.

Sai Mauro.

CENA 8

Garagem da casa de Joel. Ambiente com as cadeiras. Joel, Mauro, Celso e Lia estão sentados, com os olhos fechados.

JOEL – (Abrindo os olhos) Você começa, Lia.

Todos abrem os olhos.

LIA – Na semana passada eu conheci um cara numa padaria, perto da minha casa. Ele comia um sanduíche do outro lado do balcão, de frente para mim. Na verdade, eu nem tinha gostado dele, mas resolvi me divertir. Anotei meu telefone num papel e pedi para o garçom entregar para o cara. Daí ele passou a me ligar todos os dias. No começo a gente conversava sobre um monte de coisa. Mas depois o clima foi esquentando. Uma vez eu disse que ligaria mais tarde, quando ele estivesse deitado na cama, pronto para dormir.

JOEL – Você não existe, Lia.

LIA – Está gostando?

JOEL – O que você acha?

LIA – Então deixa eu terminar a minha história. Ele me obedeceu direitinho. Na hora combinada, eu telefonei e ele estava de banho tomado, debaixo do lençol, cheirosinho.

JOEL – Como você sabe que ele estava cheirosinho?

LIA – Ah! Não enche, Joel.

MAURO – Mas você foi longe com essa história, hein, Lia?

LIA – Você ainda não viu nada. Quando eu perguntei onde estavam as mãos dele, ele disse que embaixo do lençol. Foi então que eu comecei a falar as coisas mais loucas que me vinham à minha cabeça, que deixariam essas moças de tele-sexo envergonhadas.

JOEL – E aí, aconteceu mais alguma coisa?

LIA – O mais veio no dia seguinte. Nas quarenta e oito chamadas dele, que eu deixei de atender no meu celular. Nos mais de vinte torpedos que ele me mandou, que eu não respondi. E nas quase dez mensagens de voz que ele deixou na minha caixa postal, que quase me mataram de rir!

MAURO – Mas o que ele falava?

LIA – Ah! Isso eu não vou contar.

JOEL – (Aplaudindo) Bravo, Lia! Eu sabia que a gente tinha muito a aprender com você, só não imaginava que seria tanto. (Para Mauro) Agora você, Mauro.

MAURO – Eu não sei se tenho algo para contar do que eu já fiz, mas sim do que eu ainda vou fazer.

JOEL – E o que você vai fazer?

MAURO – Me separar da Bianca.

JOEL – Sério?

MAURO – Eu não sei... Parece que alguma coisa mudou. Antes era tão... Agora eu estou me sentindo tão preso.

JOEL – Estão vendo? É disso que eu estou falando. É assim que você deve começar a pensar para fortalecer o seu espírito. Grande garoto! (Um silêncio) Agora você, Celsinho.

CELSO – Eu não tenho nada a dizer.

JOEL – Pensa direito.

CELSO – Eu nem conheço ninguém.

JOEL – Nem está interessado?

CELSO – Não.

JOEL – Não minta, Celsinho.

CELSO – Não estou mentindo.

JOEL – Não minta, que eu sei.

CELSO – É que eu não gosto de falar sobre essas coisas.

JOEL – Aqui a gente não pode ter segredo.

CELSO – Então não contem para a minha irmã.

JOEL – Não vamos contar.

CELSO – É que a minha história é meio parecida com a dela.

JOEL – Será algum mal de família?

CELSO – Eu estou gostando de uma menina que só me despreza.

JOEL – E você aceita isso?

CELSO – O que eu posso fazer?

JOEL – (Para Mauro e Lia) Estão vendo como age uma pessoa fraca? Parece um verme que qualquer um pode pisar. É tudo que a gente não pode admitir! Escuta uma coisa, Celsinho, é um desafio que eu te faço. Você vai ter de mudar sua relação com essa menina.

CELSO – Mas como?

JOEL – Isso você vai ter de descobrir sozinho. Mas você não pode mais aceitar essa situação. No próximo encontro você vai contar como conseguiu superar isso, entendeu?

CELSO – Entendi.

JOEL – Ótimo. Acho que por hoje já está bom. Alguém quer dizer mais alguma coisa?

LIA – Não.

JOEL – Muito bem. Agora vamos ao final. Vocês lembram como era?

Joel adianta-se até o centro da garagem e ergue seu braço direito, sugerindo que todos o imitem.

JOEL – Pela força dos nossos espíritos!

TODOS – Pela força dos nossos espíritos!

Todos saem, menos Joel. Ele pega seu celular e disca um número. Como ninguém atende, deixa um recado.

JOEL – Alô, Márcia? Você não vai me atender? Eu preciso muito falar com você. Você pode me ligar?

Joel desliga o celular.

CENA 9

Uma porta de Cinema. Bianca aguarda. Entra Mauro.

BIANCA – Que calma é essa, Mauro?

MAURO – Por que calma?

BIANCA – Você está há meia hora atrasado!

MAURO – Desculpa.

BIANCA – Você me fez perder o filme.

MAURO – Não tem outro para ver?

BIANCA – Eu queria esse!

MAURO – Amanhã a gente volta.

BIANCA – Você está brincando.

Um silêncio.

MAURO – Bianca, é melhor a gente dar um tempo.

BIANCA – Quê?!

MAURO – A gente não está mais se entendendo.

BIANCA – Mas do que você está falando?

MAURO – Você sabe do que eu estou falando.

BIANCA – Que história é essa? Até ontem, estava tudo bem, e hoje você me vem com essa bomba?

MAURO – A gente anda brigando demais.

BIANCA – Brigando?

MAURO – Não é brigando.

BIANCA – É o quê, então?

MAURO – Tudo bem, Bianca, o problema não é você. É o que eu estou sentindo, ou melhor, o que eu deixei de sentir. Você acha que dá para continuar assim?

BIANCA – Mas que loucura é essa?! O que aconteceu com você? Parece outra pessoa! É o Joel, não é? Aquele seu amigo de merda!

MAURO – Não fala assim do Joel.

BIANCA – O que vocês conversam na casa dele?

MAURO – Nada demais!

BIANCA – É melhor você me contar.

MAURO – Para que você quer saber?

BIANCA – Quer dizer que o Joel é mais importante que nós dois, é isso?

MAURO – Não é isso, Bianca.

BIANCA – Pode deixar que eu vou descobrir o que está acontecendo, Mauro.

MAURO – Então descobre, Bianca! Descobre e me deixe em paz!

Sai Mauro.

CENA 10

Uma praça. Lia aguarda. Entra Bianca.

BIANCA – Desculpa eu te chamar assim, Lia. É que eu estou muito preocupada. Todo o mundo está comentando sobre esse assunto, e eu nem sei o que pensar.

LIA – Eu só espero que você não conte para ninguém que a gente se encontrou.

BIANCA – Mas o que vocês fazem na casa do Joel? É verdade que é um ritual?

LIA – É quase um ritual. São umas conversas. Na verdade, está começando.

BIANCA – Mas vocês falam sobre o quê?

LIA – O objetivo é “fortalecer os nossos espíritos”.

BIANCA – Mas como isso funciona?

LIA – Tem de estar lá para ver.

BIANCA – Você pode tentar me explicar?

LIA – A ideia é que a gente se deixa levar facilmente pelos outros, ainda mais nos relacionamentos. A gente precisa aprender a não depender de ninguém.

BIANCA – E quem teve essa ideia?

LIA – O Joel.

BIANCA – Só podia ser.

LIA – É uma coisa legal, Bia.

BIANCA – Legal? Legal para você que está sozinha. Legal para o Celso que é uma criança. Legal para o Joel, que deve estar querendo alguma coisa com isso tudo. Mas para mim, que acabo de perder meu namorado, não é nada legal.

Sai Lia.

CENA 11

Um bar. Bianca aguarda. Entra Márcia. Abraçam-se.

BIANCA – Que saudade, amiga! Pensei que a gente nunca mais fosse se ver. Como você veio parar longe!

MÁRCIA – Eu precisava me afastar de tudo, né?

BIANCA – Como está de escola nova?

MÁRCIA – Não é como lá, mas estou me acostumando.

Um silêncio.

BIANCA – Ai, Márcia... Eu estou precisando tanto falar com você.

MÁRCIA – Então fala.

BIANCA – É sobre o Joel.

Márcia estremece.

BIANCA – Desculpe, mas estão acontecendo umas coisas estranhas, e só você pode me ajudar.

MÁRCIA – O que foi?

BIANCA – O Joel está organizando uns encontros que o pessoal chama de “ritual”, mas na verdade não é bem um ritual. São umas conversas que as pessoas têm para “fortalecer o espírito”.

MÁRCIA – Fortalecer o espírito?

BIANCA – É o que estão dizendo.

MÁRCIA – Quem te contou isso?

BIANCA – A Lia. Parece que o grupo ainda é pequeno. Além da Lia e do Joel, estão indo o Mauro e o Celso. A Ana foi, mas desistiu. Tem mais gente querendo entrar. O problema é que o Joel está estimulando as pessoas a não se envolverem com ninguém.

MÁRCIA – Não se envolverem como?

BIANCA – Afetivamente. E sabe no que isso deu? O Mauro se separou de mim.

MÁRCIA – Está brincando!

BIANCA – Assim, do nada! Mas eu sei que foi por causa desses encontros.

MÁRCIA – Mas o Joel enlouqueceu?

BIANCA – É o que está parecendo.

MÁRCIA – Ele não para de me ligar, e agora está fazendo isso?!

BIANCA – Ele não para de te ligar?

MÁRCIA – Logo que a gente terminou o namoro, o Joel começou a ficar estranho. Às vezes ele ligava de um jeito que dava medo. Ele vinha com umas conversas. Ele achava que eu tinha me apaixonado por outro, mas não era verdade, eu só tinha deixado de gostar dele, mais nada. Uma vez ele disse que faria alguma bobagem.

BIANCA – Que bobagem?

MÁRCIA – Ele dizia que tinha sofrido muito na infância, e que não iria sofrer mais.

BIANCA – Mas o que isso quer dizer?

MÁRCIA – Não sei. Eu só sei que uma vez ele ameaçou me matar.

BIANCA – Você está falando sério?

MÁRCIA – Por que você acha que eu vim morar na casa do meu tio? Eu fugi, Bianca! Fugi para não acontecer nada pior! É claro que eu não contei isso para ninguém. Eu tinha medo da reação do Joel. Então a melhor coisa foi me afastar de tudo. Mesmo assim, não passa um dia sem que eu tenha medo de que ele esteja me seguindo. “Fortalecer o espírito”? O Joel só está preocupado com o espírito dele, ele sempre foi assim! Agora eu acho que você deve se preocupar.

BIANCA – E o que você acha que a gente deve fazer?

MÁRCIA – A gente não, Bia. Eu não quero que você conte para ninguém que esteve comigo. Mas você devia alertar o Mauro sobre essa situação.

BIANCA – Ele não vai me escutar!

MÁRCIA – Você precisa tentar.

BIANCA – Isso está parecendo um pesadelo.

MÁRCIA – A minha vida é que se transformou num pesadelo, Bianca.

Abraçam-se.

CENA 12

Uma rua. Conversam Joel, Mauro e Lia.

JOEL – Quer dizer que deu tudo certo?

MAURO – Foi a melhor coisa que eu podia ter feito.

LIA – Então agora você está solteiro?

MAURO – Solteiríssimo!

LIA – Espero que você conte algo bem picante no próximo encontro.

MAURO – Precisa ser picante?

LIA – Você não se animou com a minha história? Eu também quero me animar com a sua!

MAURO – Vamos ver o que eu consigo fazer.

Entra Celso, abatido.

CELSO – Vocês já estão sabendo?

JOEL – Que foi, Celsinho?

CELSO – A Ana... se matou.

LIA – Quê?!

MAURO – Está falando sério?

LIA – Como isso aconteceu?

CELSO – Ela se enforcou no banheiro de casa.

LIA – Meu Deus! Por que isso?

JOEL – Você não sabe?

LIA – Como eu vou saber?

JOEL – É só pensar um pouco.

CELSO – Foi por causa daquele cara.

JOEL – Está vendo só?

MAURO – O quê?

JOEL – A Ana se matou porque era a mais fraca de todos. Sem os nossos encontros, daqui a pouco todo o mundo vai acabar como a Ana.

LIA – Cruz credo, Joel.

JOEL – Você não, Lia. Você é a mais forte de todos. (Para Celso) Sinto muito, Celsinho. Não podemos deixar que aconteça com a gente o que aconteceu com a sua irmã.

Sai Joel.

CELSO – Será que eu devo continuar indo no ritual?

LIA – Por que não, Celsinho?

CELSO – Eu acho que não dou para esse tipo de coisa.

LIA – Você, agora mais do que nunca, precisa fortalecer o seu espírito.

MAURO – É isso mesmo, Celsinho, não é hora de largar o ritual.

CELSO – Bom... Eu preciso ir embora. Minha mãe não pode ficar sozinha.

LIA – Vai com Deus, Celsinho.

Sai Celso.

LIA – Coitada.

MAURO – Chega de falar “coitada”.

LIA – Isso é que dá se envolver com as pessoas.

MAURO – (Aproximando-se de Lia, sedutor) Lia... Agora que eu me separei... O que você acha da gente...

LIA – Isso é hora, Mauro?

MAURO – Por que não?

LIA – A Ana acabou de morrer!

MAURO – (Tentando beijá-la) Por isso mesmo, a gente não tem tempo a perder.

LIA – (Afastando-se) Para com isso!

MAURO – Que foi?

LIA – E se você voltar com a Bianca?

MAURO – Eu não vou voltar com ninguém!

LIA – Vocês sempre dizem isso!

MAURO – Vocês quem?

LIA – Os homens!

MAURO – (Tentando se aproximar) Vamos, Lia, você prometeu...

LIA – (Evitando-o) Eu disse que ia pensar. Mas agora a gente precisa se concentrar no ritual, senão vai acabar se enrolando.

MAURO – Mas é isso mesmo que eu quero.

LIA – Vamos antes que a gente faça alguma besteira!

Sai Lia.

CENA 13

Quarto da casa de Joel. Ele pega seu celular e disca um número. Como ninguém atende, deixa um recado.

JOEL – Alô, Márcia? Sou eu de novo. Tem certeza que você não vai me atender? Você vai se arrepender! É melhor você falar comigo!

Joel desliga o celular. Depois de um tempo, volta a discar um número.

JOEL – Alô? (Um silêncio) Fala, cara. (Um silêncio) Sabe aquele negócio que eu te pedi? (Um silêncio) Eu vou precisar para agora. (Um silêncio) É que eu não posso esperar mais. (Um silêncio) Tem certeza que você vai conseguir para mim? (Um silêncio) Senão, eu vou procurar outra pessoa. (Um silêncio) Não, tudo bem. (Um silêncio) Eu espero.

Joel desliga o celular.

CENA 14

Um bar. Mauro aguarda. Entra Bianca.

BIANCA – Oi.

MAURO – Oi. (Um silêncio) O que você quer?

BIANCA – Eu quero te pedir para você não ir mais na casa do Joel.

MAURO – Você me chamou aqui para falar isso?

BIANCA – Eu estive com a Márcia.

MAURO – Que Márcia?

BIANCA – A ex-namorada do Joel.

MAURO – Você encontrou com ela?

BIANCA – Ela é minha amiga!

MAURO – (Saindo) É melhor eu ir embora.

BIANCA – Não, Mauro, fique.

MAURO – (Voltando) O que você quer de mim, Bianca?

BIANCA – Você sabia que o Joel já tentou matar a Márcia?

MAURO – A Márcia te disse isso?

BIANCA – Parece que o Joel é um cara perigoso.

MAURO – Ele é meu amigo há anos!

BIANCA – Ela disse que o Joel pode fazer alguma coisa.

MAURO – Que coisa?

BIANCA – Eu não sei!

MAURO – A Márcia está delirando!

BIANCA – (Tocando-o) Mauro, acredita em mim!

MAURO – (Esquivando-se) Eu acho melhor você não me tocar.

BIANCA – Por que você está falando assim comigo?

MAURO – Eu não quero mais nada com você.

BIANCA – Foi isso que o Joel conseguiu fazer?

MAURO – O Joel não conseguiu fazer nada.

Sai Mauro.

CENA 15

Garagem da casa do Joel. Ambiente com as cadeiras. Joel, Mauro, Celso e Lia estão sentados.

JOEL – Você começa, Mauro.

MAURO – Bom... Depois de me separar da Bianca, eu finalmente fiz o que queria.

JOEL – E o que você fez?

MAURO – Levei às últimas consequências a minha capacidade de seduzir uma garota. Uma, não. Três.

JOEL – Estão vendo? É disso que estou falando. E aí?

MAURO – Consegui tirar da minha cabeça aquela ideia de “não faça com os outros o que você não quer que façam com você”. Joguei com as três ao mesmo tempo, dizendo exatamente o que elas queriam ouvir.

JOEL – E o que você conseguiu com isso?

MAURO – Transei com as três.

LIA – Nossa, essa história é mais picante que a minha!

MAURO – Mas eu fui um pouco mais longe.

JOEL – Mais longe que isso?

MAURO – Eu disse para cada uma, que elas foram as minhas cobaias.

JOEL – Quê? Não acredito. Mas isso já é muita crueldade.

MAURO – Elas se revoltaram tanto quando souberam, que eu não quero nem lembrar.

JOEL – Não precisava chegar a esse ponto.

MAURO – Você acha que eu exagerei?

JOEL – E você ainda pergunta? A gente não pode humilhar as pessoas desse jeito.

MAURO – Mas não foi o que a Lia fez com aquele cara da padaria?

LIA – Eu?!

JOEL – A Lia provocou, mas não entregou o jogo. Do jeito que você fez, chega a ser burrice. (Para Celso) Agora você, Celsinho. Como anda a sua história com aquela menina?

CELSO – Eu acho que melhorei um pouco.

JOEL – Acha?

CELSO – Pelo menos eu parei de sofrer.

JOEL – E ela parou de te desprezar?

CELSO – Eu não deixei mais isso acontecer.

JOEL – O próximo passo será você fazer ela se apaixonar por você. Mostrar quem é que manda, quem é você, entendeu, Celsinho?

CELSO – Isso eu não vou conseguir.

JOEL – Quer largar a mão de ser besta, Celsinho? Você não vai nem tentar seduzir essa garota?

CELSO – É que eu comecei a sentir raiva dela.

JOEL – Isso é uma fase.

CELSO – É, pode ser.

JOEL – Chama ela para um cinema.

CELSO – Eu não sei como fazer isso.

MAURO – A gente te ajuda.

JOEL – Ninguém vai ajudar ninguém.

MAURO – Calma, Joel.

JOEL – Calma porra nenhuma! Não me peça para ficar calmo numa hora dessas! É a maturidade desse moleque que está em jogo. Você quer ou não quer virar homem, Celsinho?

CELSO – Claro que eu quero.

JOEL – Então trate de fazer o que eu te disse, senão você vai acabar como a sua irmã!

Celso está apavorado.

JOEL – E você também, Mauro, cuidado com as merdas que você anda fazendo por aí.

MAURO – Mas do que você está falando?

JOEL – Você acha que eu sou idiota? Que eu não sei? Me diz, de que adianta você se separar da Bianca, transar com três garotas, se no minuto seguinte você está dando em cima da Lia? E logo da Lia? Não ficou claro que nenhuma pessoa do grupo pode se envolver com ninguém, muito menos com alguém do próprio grupo?

MAURO – Desculpa.

JOEL – Ainda bem que você admite. (Um silêncio) Agora fecha com chave de ouro, Lia.

LIA – Foi uma espécie de teste que eu passei.

JOEL – Teste?

LIA – Acho que eu me saí muito bem.

JOEL – Como assim?

LIA – Imagine o amor da sua vida. Aquele cara por quem você faria tudo. Agora imagine esse cara te ignorando. E você quase enlouquecendo por causa disso.

JOEL – Quanta imaginação!

LIA – Pois esse mesmo cara me procurou outro dia, dizendo que eu era a mulher da vida dele.

JOEL – E o que você fez?

LIA – Eu disse a ele que eu não ia mais voltar com ele, por nada desse mundo. Ele não acreditou, mas eu me orgulhei mesmo assim.

JOEL – Todos nós nos orgulhamos de você, Lia. O que seria da gente sem as suas histórias? Eu queria ter a sua determinação, mas não consigo.

Joel adianta-se até o centro da garagem e ergue seu braço direito, sugerindo que todos o imitem.

JOEL – Pela força dos nossos espíritos!

Todos o imitam, porém, com resistência. Subitamente surge a imagem de Ana, que só Joel enxerga. Saem Mauro, Lia e Celso.

ANA – Joel...

JOEL – Mas o que você está fazendo aqui?

ANA – Qual é o problema?

JOEL – Você está morta.

ANA – Estou mais viva que você.

JOEL – Odeio sua covardia.

ANA – É preciso ter muita coragem para fazer o que eu fiz.

JOEL – Se matar para chamar a atenção de alguém?

ANA – Eu não me arrependo de ter amado.

JOEL – Mas o que você sabe sobre o amor?

ANA – E você, sabe alguma coisa sobre o amor?

JOEL – Se você tivesse ficado no ritual, não teria se matado.

ANA – O ritual não tem ajudado a ninguém. Nem a você, nem aos outros. Por que você não enfrenta os seus problemas de frente?

JOEL – Eu não tenho problemas!

ANA – O seu problema é achar que não tem problemas. Deixe as pessoas em paz. Deixe cada uma viver a sua vida. Deixe as pessoas errarem sozinhas. Quem é você para dizer o que é certo ou errado? Deixe meu irmão em paz. Ele vai fazer uma loucura.

Ana desaparece.

CENA 16

Quarto da casa de Bianca. Ela está aflita. Toca o celular, ela atende. Em sua casa, Márcia fala.

BIANCA – Alô?

MÁRCIA – Bia!

BIANCA – Oi, Márcia!

MÁRCIA – Falou com o Mauro?

BIANCA – Não adiantou nada.

MÁRCIA – Pois fala de novo.

BIANCA – Por quê?

MÁRCIA – Vai acontecer uma tragédia!

BIANCA – Que tragédia?

MÁRCIA – Eu fiquei sabendo que o Joel comprou uma arma e muita munição!

BIANCA – Quem te disse isso?

MÁRCIA – Um primo dele me ligou.

BIANCA – Meu Deus...

MÁRCIA – Esse primo vai avisar a polícia.

BIANCA – A polícia?!

MÁRCIA – Eu vou ter de sair da casa do meu tio.

BIANCA – Não estou acreditando.

MÁRCIA – O Joel vai cometer um crime e pode sobrar para a gente.

BIANCA – Eu vou ligar já para o Mauro.

MAURO – Faz isso, Bia. E seja o que Deus quiser.

Bianca e Márcia desligam. Márcia sai de cena. Bianca liga para Mauro, que atende em seu celular.

MAURO – Alô?

BIANCA – Mauro?!

MAURO – Oi.

BIANCA – Mauro, você precisa me escutar. A Márcia me ligou e disse que o Joel comprou uma arma. Ele está se preparando para cometer um crime. Por favor, avisa todo o mundo, eu vou avisar a direção da escola.

MAURO – Não faz isso!

BIANCA – O primo do Joel vai avisar a polícia!

MAURO – Mas o que a polícia tem a ver com isso?

BIANCA – Como “o que tem a ver”, Mauro?!

MAURO – A Márcia está com ódio do Joel.

BIANCA – Foi o primo do Joel quem ligou para ela!

MAURO – Eu sei quem é esse primo!

BIANCA – Que adianta saber quem ele é?

MAURO – Ele é um bandido!

BIANCA – Pior ainda! Mauro, você ainda gosta de mim?

MAURO – Que pergunta é essa, agora?

BIANCA – Se gosta, faz alguma coisa, senão esse ritual vai acabar com todo o mundo!

MAURO – Tudo bem, Bianca, eu preciso pensar.

BIANCA – Não tem o que pensar!

MAURO – Ah! Você vai me enlouquecer!

Mauro desliga o telefone.

CENA 17

Quarto da casa de Joel. Ele pega seu celular e disca um número. Como ninguém atende, deixa um recado.

JOEL – Alô, Márcia? Você não vai me atender? Então escuta uma coisa. Não precisa mais me retornar. Não vai adiantar. Eu já tinha sido humilhado por muita gente. Mas ninguém tinha ido tão longe quanto você. Então, isso que eu vou fazer, é para você aprender a não humilhar mais ninguém.

Joel desliga o celular.

CENA 18

Garagem da casa de Joel. Ele está compenetrado a ponto de assustar Mauro, Celso e Lia.

JOEL – (Para Celso) Hoje você começa.

CELSO – Eu?

JOEL – Todo o mundo está curioso para saber a sua história.

CELSO – Primeiro, eu quero pedir desculpas pelos outros dias.

JOEL – Não tem do que se desculpar.

CELSO – Minha atitude foi vergonhosa.

JOEL – Fala logo, Celsinho.

Um silêncio.

CELSO – Eu espanquei uma pessoa.

LIA – Quê?!

JOEL – Você está falando sério?

MAURO – Você espancou uma pessoa?

CELSO – Espanquei.

JOEL – Que pessoa?

CELSO – A garota que vivia me desprezando.

LIA – Meu Deus...

JOEL – Mas você não disse que ela parou de te desprezar?

CELSO – Ela voltou a fazer isso mais do que nunca!

JOEL – Mas não era a garota por quem você estava apaixonado?

CELSO – Ela mesma.

JOEL – Eu pedi para você seduzir ela e você espancou?!

CELSO – Eu... fiz mal?

JOEL – Porra, Celsinho! Você ainda me pergunta se fez mal?! Você fez muito mal! Você espancou mesmo ou só está querendo impressionar?

CELSO – Eu espanquei mesmo.

LIA – Mas como você fez isso?

CELSO – Eu...

JOEL – (Cortando-o, segurando Celso pela camisa, agressivo) Mas quem você pensa que é para tirar a vida de alguém? O que você já sofreu para ter o direito de fazer uma coisa dessas?

MAURO – Como é, Joel? Alguém tem o direito de matar alguém?

LIA – É, Joel... A gente não está te entendendo...

JOEL – Cala a boca, Lia.

MAURO – Cala a boca você, Joel.

JOEL – O que você disse?

MAURO – Eu mandei você calar a boca!

JOEL – Você ficou louco?

MAURO – Você está passando dos limites.

JOEL – O que eu fiz de errado?

MAURO – Está nos agredindo. Não foi para isso que a gente veio aqui. A gente queria fortalecer os nossos espíritos! Não foi o que você disse? Mas você está transformando a gente em louco, doente, fraco! Olha só o que está acontecendo! Afinal, o que você está querendo com tudo isso?

Joel tira uma arma detrás de um móvel e aponta para todos.

JOEL – Todo mundo parado!

Todos estatelam.

MAURO – Então é verdade?

JOEL – Do que você está falando?

MAURO – Para com isso, a essa altura a polícia já deve estar chegando.

JOEL – Ninguém está sabendo de porra nenhuma. São uns idiotas. Como vocês. Vocês chamam esses encontros de “ritual”. Ritual do quê? Ritual para quê? Só ser for o meu ritual. Ritual da minha vida, vida de merda que eu estou levando. Só mesmo no fim para alguma coisa nascer. Eu vou mostrar para vocês o que é ter um espírito forte de verdade!

Joel leva a arma à cabeça. Novamente surge a imagem de Ana, que só Joel enxerga.

ANA – Joel...

JOEL – Vai embora!

ANA – Por favor, me escuta.

JOEL – Me deixe em paz!

ANA – Pensa no que você vai fazer.

JOEL – Some daqui!

ANA – Joel... Você sabe o que aconteceu comigo. Não vale a pena. Não adiantou nada. Eu continuo aqui, pensando nas mesmas coisas. Sofrendo do mesmo jeito. Tem de existir outra forma da gente resolver os nossos problemas. Não pode ser assim. Quem sabe se você...

Joel atira na própria cabeça.

FIM

Uma rua. Mauro e Bianca conversam.

MAURO – Você está com raiva de mim?

BIANCA – O que você acha?

MAURO – Será que você pode tentar me perdoar?

BIANCA – Eu posso te perdoar por sua teimosia, por você ter colocado a vida de tanta gente em risco, inclusive a sua. Mas eu não posso mudar o que eu estou sentindo.

MAURO – E o que você está sentindo?

BIANCA – Você jogou tudo fora, Mauro.

MAURO – Mas você não pode me dar uma chance?

Bianca começa a sair.

MAURO – Aonde você vai?

BIANCA – Para casa.

MAURO – Eu posso te ligar num dia desses?

BIANCA – Me deixa um pouco sozinha, Mauro. Eu preciso pensar em tudo que aconteceu.

Sai Bianca. Fim.

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