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Palco como sala de aula

Publicado em: Revista da Folha
Data de publicação: 13/07/2008

Estudantes de escolas públicas e particulares se misturam para encenar textos inéditos e aprender com mestres como o inglês Max Key, que desenvolve o mesmo projeto na Inglaterra.

No baile de formatura, um professor relembra as histórias de três de seus alunos: a menina da periferia que tenta superar dificuldades sociais e físicas; a garota que resolve se apaixonar -e consegue; e o adolescente que detesta as interferências dos pais, até que se descobre que eles já estão mortos.

 

O enredo é o da peça "O Primeiro Vôo de Ícaro", do dramaturgo, professor e roteirista Luís Alberto de Abreu, 56. Inédita, a obra será encenada por cinco dos 17 grupos do projeto Conexões, em que alunos de escolas públicas e privadas e grupos independentes montam textos inéditos para uma mostra de teatro que vai acontecer em outubro e novembro. Nesta segunda edição no Brasil, participam cerca de 250 estudantes; no ano passado, foram 120.

 

"A expectativa é que os jovens gostem. Se os pais não gostarem, tudo bem. Escrever para o adolescente é escrever com o coração", afirma Luís Alberto, que, no primeiro domingo de junho, participou de um workshop no Colégio São Luís, quando teve contato com os alunos que escolheram encenar o seu texto. "O teatro é uma experiência transitória, mas que permanece para o resto da vida."

 

O projeto faz parte do NT Connections, concebido há 14 anos pelo National Theatre de Londres. Já gerou mais de cem peças, envolvendo milhares de jovens no mundo. Atualmente, é desenvolvido em países como Noruega, Portugal, Alemanha e Itália. Na Inglaterra, 6.000 estudantes de 200 escolas estão envolvidos neste ano.

 

No workshop, Max Key, diretor do National Theatre, realizou um aquecimento coletivo com os alunos. Há três anos no Conexões, ele destaca o contato com os escritores. "A principal diferença entre o teatro britânico e o brasileiro é que o roteirista é muito mais respeitado na Inglaterra; no Brasil, é o diretor", compara. "O que estou tentando fazer aqui é mostrar a importância do texto no teatro. Sem o roteiro, não existe a peça. Algumas pessoas se esquecem disso."

 

Em sua visita ao país, Max constatou o esforço dos educadores. "As escolas no Brasil são muito pobres, mas é interessante ver as diferentes formas de ensinar. Para fazer teatro, não é necessário ter equipamentos fantásticos. O professor é a coisa mais importante nesta situação, pois pode levar os alunos a se apaixonarem."

 

Leandro Oliva, 33, coordenador do grupo Vizinho Legal, do Jaguaré, na zona oeste da cidade, sabe o papel que exerce sobre seus alunos. "Fazer teatro vai ajudá-los a se desenvolverem em qualquer área. E, mais importante que isso, eles vêem que tem alguém que acredita no potencial deles."....”